Finalmente estava pronto. São Paulo havia passado a noite em claro para colocar todas as ideias de seu magnífico plano de uma forma que todos entendessem. Ele confeccionou uma a uma as pastas que seriam entregues a cada um dos estados para que pudessem acompanhar sua nova palestra no dia seguinte. Conferiu as páginas de cada pasta e em seguida chamou um mensageiro para entregá-las.
Sentou-se na sua confortável cadeira de couro e cruzou as mãos, apoiando o queixo sobre elas. Estava acontecendo! Ele venceria, estava acostumado a vencer sempre.
- Tudo foi devidamente entregue. - era o mensageiro, que retornava.
- Excelente, muito obrigado.
No dia seguinte, São Paulo recebeu novamente todos os estados. Agoram se encontravam numa sala de reuniões, e todos já estavam sentados. São Paulo iniciou sua apresentação com gráficos que mostravam como o Brasil poderia se tornar uma super potência se todos trabalhassem juntos. Foi se virar para a tela onde as imagens eram projetadas e sentiu algo acertar sua nuca. Era uma bolinha de papel mastigado, cheia de cuspe.
Virou-se rapidamente a tempo de ver Mato Grosso do Sul tentar esconder uma zarabatana improvisada sob a mesa. Ele havia pegado uma caneta, retirado a carga e a usado para disparar o projétil que atingiu São Paulo. Sem se abalar, o estado cinzento perguntou.
- Por que fez isso, Mato Grosso?
Mato Grosso do Sul se irritou.
- Tá vendo? Você nunca soube a diferença entre nós dois! - respondeu MS ofendido.
Do outro lado da mesa, um estado de aparência igual a MS ergueu a mão pra falar.
- Eu sou Mato Grosso. Ele é o Mato Grosso do Sul.
Todos os estados encaravam os irmãos.
- Mas vocês são idênticos... - retorquiu Espírito Santo.
- Você cala a sua boca! - Mato Grosso do Sul se ergueu da mesa irritado. - Você só serve pra gente fazer aquela piada idiota!
- Qual piada idiota? - Espírito Santo estava começando a se irritar também.
- Aquela do Espírito Santo...
- AMÉM! - responderam todos os estados em uníssono. E dessa vez nem São Paulo resistiu.
- Isso não é justo! Não é justo dizer que ES só serve pra gente fazer piada. - interveio Minas Gerais.
- Obrigado, Minas! Sabia que ia me defender...
- Que isso, ES. Você é meu quintal, é muito útil pra mim!
Espírito Santo agarrou a primeira coisa que viu pra acertar o mineiro. Era a pasta que Sâo Paulo tinha preparado tão cuidadosamente para aquela reunião.
- Acalmem-se todos vocês! Como esperam conquistar o mundo dessa forma? - a voz da razão tinha conseguido que todos se aquietassem. Por algum motivo, São Paulo estava se sentindo muito cansado de repente. - Por favor, vamos continuar. Peguem suas pastas.
São Paulo olhou para os estados e viu que a maioria estava sem as pastas que ele tão cuidadosamente tinha preparado. Não era possível. Sabia que seu mensageiro era de confiança.
- Bahia... Estou vendo que está sem a pasta que te enviei.
Bahia parecia envergonhada.
- Ah... - começou ela daquele jeitinho meio lento de falar que Bahia tinha - Eu tava fritando acarajé e acabou o papel toalha.
São Paulo fez o possível pra controlar mais um de seus notórios acessos de raiva. Começou a contar até mil mentalmente.
- E você, Rio Grande do Sul? Também vejo que está sem sua pasta.
- Bah! Precisava de algo para acender a churrasqueira! Vocês paulistas são estranhos, vendem carvão com um acendedor que não funciona.
SP teve de concordar com o gaúcho, mas isso não diminuía sua raiva. Decidiu continuar a reunião com ou sem pastas para todos. Virou-se para a tela e tentou recomeçar de onde havia parado. As coisas finalmente iam fluir de acordo com o planejado!
- RONC!
- Não... É... POSSÍVEL! - gritou São Paulo. - Alguém acenda as luzes, por favor?
Ninguém se levantou pra atender o pedido de São Paulo. Ele e viu obrigado a se dirigir ao interruptor ele mesmo.
- Eu sabia que era você, Distrito Federal.
Ele encarava o mais novo integrante do grupo de mãos fincadas na cintura. Distrito Federal continuava dormindo, como se não fosse com ele. Dormia com os pés em cima da mesa, apoiados em sua valise preta. Em se tratando de DF, todos sabiam que aquela valise misteriosa só poderia conter algo imoral. No geral, Distrito Federal se assemelhava bastante a São Paulo: usava cabelos pretos bem penteados e ternos bem cortados. Parecia aparentar eficiência. Só parecia. Como estava de óculos escuros o tempo todo, ninguém se sentia muito confortável conversando com DF. Até hoje, ninguém nem sabia a cor dos olhos dele.
- DISTRITO FEDERAL! - gritou São Paulo.
DF virou a cabeça na direção de São Paulo, de forma lânguida. Ainda não dava para dizer que estivesse mesmo acordado. E não estava, visto que voltou a roncar a despeito dos gritos de São Paulo. SP contornou a mesa até a cadeira onde DF estava tão confortavelmente instalado e chutou uma das pernas da cadeira, fazendo com que DF caísse.
- Ah, São Paulo. Como vai? - sim, ele finalmente estava desperto.
SP deu um tapa na própria testa. Isso não estava acontecendo. Não com ele. O responsável pela adminstração do país - ou seria melhor dizer irresponsável? - era uma criatura com pouca moral e muito sono. Enquanto isso, nenhum estado se levava a sério. Pior, ainda se perdiam em picuinhas tolas. Não é a toa que mesmo tendo potencial, o Brasil não ia pra frente.
Ainda fez uma última tentativa de continuar a reunião. Mas recebeu outra bolada na nuca.
- AGORA CHEGA! QUEM FEZ ISSO? FOI VOCÊ, MATO GROSSO DO SUL?
- Não, fui eu. - respondeu Mato Grosso, sorridente. - Tá aprendendo a diferenciar a gente, hein?
Era o fim de uma bela ideia. Não dava para trabalhar com aquele bando de incompententes.
- ABENÇOADO POR DEUS E BONITO POR NATUREZA É O CARALHO! VÃO SE FODER TODOS VOCÊS!
São Paulo saiu da sala de reuniões pisando duro, com a cara mais feia que São Paulo poderia ter.
- Acho que a gên-TE exagerou... - Paraná nem bem terminou de falar e foi atingido por um objeto pesado e preto. Era a valise de DF. Curiosamente, Paraná já estava quase acostumado as pancadas. Era o preço que pagava por falar tão corretamên-TE.
Seria o fim do plano tão perfeitamente arquitetado por São Paulo?
