Não tive cabeça para conversar sobre nada. Apenas tirei aquela maldita foto da minha mesa de cabeceira e deitei em minha cama, chorando. Michelle e Samantha ficaram sem saber o que fazer.
E, antes de pensar melhor, puxei as cortinas da cama, sem dar oportunidade a elas de dizer nada. Na minha cabeça, passava um filme de todos os bons momentos que eu tinha tido com o Michael. Estava com ódio de mim mesma por estar ali chorando, mas... por mais que eu tentasse, não conseguia parar.
Adormeci nem sei como, e acordei no dia seguinte com uma cara horrível e olheiras enormes. Fiz de tudo para tira-las, mas no fim ficou assim.
- Lih, você tá bem? – perguntou Michelle enquanto descíamos para o salão principal. Ela olhava para mim com cara de preocupada – você tá com uma cara péssima!!
- Impressão sua – respondi, contrariada. Por mais que eu estivesse podre por dentro, não queria admitir. Na verdade, a minha vontade era de sair correndo dali e sumir... ou então me tornar invisível. Ai, como eu gostaria de ter um a Capa da Invisibilidade... mas como elas são raras, não vejo onde encontraria uma e depois não tenho muita certeza se elas são permitidas aqui.
- Bom, se você diz – foi o que ela disse, mas continuou me olhando de esguelha.
Ao chegar no salão principal, involuntariamente, meu olhar se dirigiu à mesa da Corvinal. E vi uma cena que me deixou totalmente sem fôlego: o Michael estava conversando animadamente com a Hannah McDougal.
Tudo bem, e daí que ela é mais alta que eu... e é loira, e também que todos os garotos babam por ela, mesmo ela sendo dois anos mais nova que a gente... e daí o que o corpo dela é perfeito e tudo mais, e ela joga como apanhadora no time da Corvinal... quem se importa com isso?!
E daí que ela é tudo que eu sempre quis ser, e agora ainda tem as atenções do meu MEU namorado??! Ops... EX-namorado...
Fechei os olhos para me manter calma e me sentei de costas para a mesa da Corvinal. Eu realmente tentei me manter calma... mas acho que coloquei força demais na faca!
- Lily! – exclamou Michelle – Assim você corta a mesa! Mais calma aí?
- Eu to calma – respondi. Não sei quem eu queria enganar.
Nesse momento, ela olhou para o outro lado do salão. Provavelmente viu a cena maldita, porque murmurou um "ahh", daqueles que a pessoa diz quando entende algo.
Eu estava querendo enganar a mim mesma!
Olhei para o resto da mesa da Grifinória. Estranho, parecia estar faltando alguma coisa, estava silencioso...
- Cadê a Sam? – perguntei eu, tentando afastar pensamentos inoportunos.
- Levantou antes que a gente, disse que precisava resolver uns probleminhas com o Brandon – ela suspirou – É por essas e por outras que eu não namoro...
- Você diz como se tivesse experiência sobre o assunto... – eu não queria dizer isso, mas escapou.
- Uma só e para a vida toda – Michelle respondeu, sem se importar muito com o meu comentário. Era a primeira vez que eu ouvia ela falando do seu caso com o Black no quarto ano. Pensei até em perguntar, mas não queria falar desse assunto agora.
Mas o que importa é que essa pergunta me acompanhou até a volta na sala comunal: O que tinha acontecido para eles terminarem?
Voltamos para a sala comunal, como eu disse. Tínhamos a manhã livre... livre para fazer a enorme quantidade de deveres que a McGonagall tinha passado na última aula dela.
Logo ao passar no buraco do retrato, escutei uma algazarra. E não deu outra. Os marotos estavam soltando Fogos Filisbuteiro no meio da sala. Eu até que dei uma chance ao Potter, mas ele não cresce...
Minha mente vagou para o que tinha acontecido ontem. Ele parecia tão maduro... tão sincero. Ainda bem que não caí no truque dele, pois estávamos prestes a se beijar. Já pensou que lindo? Mal termino com um, o outro já chega e beija, e...
O Potter acaba de me dar um beijo no rosto! O que fiz para merecer isso?! Acho que está havendo alguma coisa estranha na minha mente, eu não era assim! Culpa do Michael... próxima vez que eu vê-lo no corredor, azaro ele... Droga! Essa seria a atitude do Potter... pirei...
- Tudo bem, Lily? – perguntou ele, estava sorrindo radiante. Fazia meses que eu não via esse sorriso.
Sirius, Remo, Pedro e Michelle miravam a cena estupefatos.
- Estaria melhor, se você não tivesse soltado esses fogos aqui dentro... – respondi, controlando o meu nervoso.
- Aaah... isso foi porque o castelo estava muito silencioso...
– Preciso fazer meu trabalho de Transfiguração – ignorei a afirmação dele.
- Precisa de ajuda?
- Apenas de silêncio...
- Ok... se precisar – e ele saiu andando em direção ao buraco do retrato – Vamos garotos – no que os outros rapazes o acompanharam, ainda de boca aberta.
É impressão minha ou todo mundo pirou?
- Lily, o que foi isso? – Michelle perguntou.
Contei a ela o que tinha acontecido ontem, exceto a parte do quase beijo, claro. Não queria mostrar que o Potter tinha chances comigo... peraê, ele tem chances?!
- Entendo – seu rosto estava inexpressivo – então agora se tornará amiga dele?
- Por assim dizer – respondi – Digamos que eu não poderia fazer uma desfeita, depois de tudo que ele fez por mim, né?
- Mas isso não explica o fato de ele ter te deixado quieta tão facilmente...
Ela estava certa. E eu também, quando disse que todos haviam pirado.
Depois disso ficamos quietas. Havia alguma coisa na expressão dela que eu não havia gostado... em tempos atrás, ela começaria a dar pulinhos de alegria se eu tivesse dito que tinha feito as pazes com o Potter... ops! Tiago.
Terminei o trabalho. E depois fui para aula de Aritmancia. Eu era a única louca do sexto ano que fazia essa matéria. A Sam também tinha começado, mas desistiu quando terminou o quinto ano. Na verdade eu só continuei por causa da profissão que quero seguir, entrar no Gringotes.
A aula foi particularmente difícil. Não quero comentar sobre isso.
Só o que eu vi depois... que fez o meu coração gelar. Na mesa do almoço estavam Tiago e Michelle conversando animadamente. Só os dois. Sem mais nenhum outro maroto!
Então era isso... só podia ser... ela gostava do Tiago.
Só não entendi porque isso me afetou tanto. Minha boca secou. Pela primeira vez eu estava com uma vontade incontrolável de esganar a minha amiga, desejando estar no lugar dela nesse momento... Não! Isso é loucura.
Perdi a fome. Saí daquele maldito salão (incrível como tudo para mim é maldito agora, né?) e quando estava saindo para fora, esbarrei com a Sam. E ela estava chorando!
- Sam! O que foi? – abracei-a e ela começou a molhar o meu ombro com lágrimas.
- Por que nada dá certo pra mim? Por quê?! – eu nunca a tinha visto assim. A Sam geralmente era a felicidade em pessoa, e mesmo quando as coisas não davam certo, ela ainda arranjava motivo para sorrir.
Levei-a até uma sala vazia no primeiro andar, nós sentamos e então eu perguntei:
- O que aconteceu, Sam?
- Eu e o Brandon terminamos!
- De novo? – deixei escapar. A verdade é que eles estavam nesse vai e volta desde o quarto ano.
- Mas dessa vez é pra valer! – ela exclamou, chorando ainda mais – ele disse que se terminássemos hoje, não teria mais volta... que ele estava cansado disso.
- Mas não foi melhor assim? – ela olhou como se eu fosse louca – Quero dizer... se vocês não conseguiam passar seis meses sem "terminar" não quer dizer que o relacionamento de vocês era perfeito, né? Por mais que você sempre conseguisse segurar as pontas, isso acabou cansando ele.
- Eu sei, Lily... eu sei... – ela suspirou – mas está difícil aceitar isso!
- E eu sei o que você está passando – eu completei – terminei com o Michael, se lembra? – então fiz uma careta – melhor dizendo, ele terminou comigo!
Ela sorriu. Um sorriso estranho, em meio a soluços e lágrimas, mas felizmente foi um sorriso.
- Parece que a gente não tem sorte nisso, né? – agora ela já estava limpando as lágrimas.
- Com o dizia a minha mãe: "Antes só do que mal acompanhada" – eu disse. Que saudade da minha mãe! Naquele momento ela teria a palavra certa para animar. Eu, infelizmente, era uma péssima consoladora. Nunca sei o que dizer, na maioria das vezes, me limito a apenas ouvir o que a pessoa tem a dizer.
Quando voltei a mira-la, ela estava olhando para fora com um olhar vago, como se as respostas para seus problemas estivessem lá fora.
Queria dizer qualquer coisa. Algo que fizesse seu olhar diminuir a intensidade dessa vaga procura, mas nada saiu. Fui até onde ela estava e abracei-a. Creio que esse abraço não serviu apenas para ela, como para mim também. Foi como se todo o meu estresse, meus problemas e minha raiva tivessem me abandonado.
Finalmente nos separamos. As duas sorrindo.
- 'Brigada, Lily! – ela murmurou.
- Amigas são para essas coisas!
Então ela disse que iria na cozinha, pegar algo para comer antes da próxima aula e eu menti, dizendo que já tinha almoçado.
Queria ficar ali por mais um tempo, olhando para as árvores da Floresta Proibida, que mexiam com o vento, para, talvez, encontrar as minhas respostas.
A sineta tocou, me trazendo de volta a realidade. Eu ia sair correndo, mas encontrei atrás da porta algo que fez o meu coração parar...
- Uma Capa da Invisibilidade!
