Capítulo IV

- Whoa, desculpa, eu nã- – começou Draco, mas assim que viu com quem tinha esbarrado, calou-se. Blaise encarou Draco, irritado, e passou por ele, sem uma palavra.

O loiro já estava farto de toda aquela mudez. Ele e Blaise conheciam-se desde crianças e não iam prejudicar a amizade deles por uma coisa sem importância. Porque é que ele não conseguia perceber que o loiro estava irritado e descontou nele? Foi errado, mas não foi com intenção de magoá-lo. Foi sem pensar. Porque é que ele tinha de ser tão criança e levar tudo a peito?

- Blaise – chamou. Iria acabar com aquela estupidez agora. – Blaise, espera! Vamos falar.

- Estou ocupado.

- Com o quê? Só vamos ter aula daqui a meia hora.

- Não consegues reconhecer uma desculpa quando a ouves?

Apetecia bater-lhe. Quem é que aquele idiota pensava que era?

- Blaise, deixa-te de merdas e vamos falar! Porra, somos amigos desde que me lembro e tu vais deixar de me falar só porque eu gritei contigo?

- Não, Draco. Tu é que tens de te deixar de merdas – retorquiu Blaise apontando-lhe o dedo indicador no peito. – Já ninguém te atura! Tens andado a descontar em toda a gente!

- Eu sei, mas esta cena da psicóloga está a dar comigo em doido! – tentou desculpar-se.

- É incrível como é sempre culpa da psicóloga! – exclamou Blaise. – Olha, Draco, tu és o meu melhor amigo e, sinceramente, não ma apetecia nada estar zangado contigo, mas eu não vou aturar mais as tuas tretas!

- Ok, eu vou fazer um esforço – suspirou Draco. Não queria perder a única pessoa a quem podia chamar de 'amigo'.

- Mesmo?

- Mesmo, Blaise! Foi mal, desculpa, eu estava noutro mundo. Nem sei o que deu em mim para te dizer aquelas coisas.

O amigo sorriu.

- Tudo bem. Desde que não repitas.

Draco sentiu um grande peso sair de cima de si. Era menos uma coisa que tinha de se preocupar.

- Mas o que se passou? A Madame Pomfrey não te pode estar a deixar nesse estado.

O loiro sentiu uma sensação de déjà vu. Tinha tido aquela mesma conversa anteriormente.

De repente, foi bombardeado por todas as memórias da noite passada. O modo como tudo aconteceu. Bastou um simples olhar pela janela, uma força desconhecida que o arrastou para seguir aquela silhueta que tanto o confundia. Ainda se lembrava de todas as coisas que ela lhe havia gritado, de todas as coisas que ele lhe havia gritado. Lembrava-se também de como tudo acalmou, de como duas pessoas tão diferentes se encararam como iguais. Draco não a odiava, nunca a odiou (nem sequer a conhecia) – ódio era uma palavra muito forte –, mas achava-a patética, CDF, idiota, anti-social… Mas quando estavam os dois sentados naquele passeio, na noite escura, com apenas a luz do candeeiro da rua como iluminação, ela não lhe pareceu patética ou idiota ou anti-social. Pareceu-lhe uma pessoa normal, como todas as outras. Bem, talvez não como todas as outras. Havia algo nela, qualquer coisa… Ele não sabia bem definir o quê, mas alguma coisa nela o intrigava, o confundia. Porque ela era como era? O que a fazia agir daquela maneira? Havia tanto para descobrir, tanto para entender. Só agora Draco se apercebeu que eles eram praticamente vizinhos e o loiro não sabia nada dela. E, por uma razão estranha, isso o incomodava.

- Draco? Draco!

Blaise tirou-o do seu devaneio.

- Aaa… o quê? Que foi?

- Estou aqui a falar contigo e tu estás noutro mundo! Estás muito esquisito…

- É que… é complicado… tenho andado com uns problemas com os meus pais.

- E depois? Qual é a novidade? Sempre tiveste problemas com os teus pais – comentou Blaise casualmente.

Então Draco recordou tudo o que ela lhe disse e tudo o que ele lhe disse. Recordou a forma como se sentiu ao seu lado. Aquela sensação de paz, de tranquilidade. Mesmo não gostando um do outro, ela foi capaz de o compreender e ele foi capaz de a ouvir sem julgamentos. Eram desconhecidos. E tudo pareceu tão fácil. Blaise era seu amigo há anos e, com ele, pareceu tudo tão difícil novamente.

- Pois… sempre foi assim… Porque seria diferente agora? – comentou baixinho, mais para si do que para o amigo.

Draco e Blaise entraram na sala e o último ocupou o seu lugar na carteira. O loiro, porém, estava paralisado; o seu olhar fixo na rapariga à sua frente.

- Então, Draco, não te sentas? – perguntou Blaise, estranhando o comportamento do amigo. Quando viu que este não desviava os olhos de um ponto à sua frente, seguiu o seu olhar.

- Olha, olha, se não é a Granger – disse, com um sorriso maligno no rosto. – Já estava na altura de apareceres por aqui, não achas? Sempre a faltar, isso não vai ser bom para o teu futuro…

Cho e Jenna, que estavam ali perto, riram.

- Estou a ver que conseguiste limpar a lama dos teus livros – disse a chinesa. – Tinha de ser. Afinal, o que seria de Hermione Granger sem os seus livros?

- Provavelmente, morreria – disse Jenna e uma nova rodada de gargalhadas se seguiram.

Draco permanecia calado, ainda com os olhos fixos nela. O que fazia agora? Não pensou que a iria encontrar na escola, o que é estúpido, visto que eles andam na mesma escola.

- Podem rir à vontade – Hermione prenunciou-se pela primeira vez. – O que vocês pensam de mim não me importa absolutamente nada.

Draco viu a confiança da morena, mas ela sabia melhor. Sabia do seu acto. Porque era o que aquilo era. Um acto. Ela importava-se, sim, e magoava-a.

- Oh, isso magoou-me! – exclamou Cho com uma mão no peito; o eu rosto coberto por uma tristeza fingida.

- Ela tem a mania que é superior – disse Blaise com desprezo. – Mas aqui com o Draco ela já não parece tão forte, né?

Draco sentia todos os olharem em si. Eles esperam uma resposta, pensou. Tenho de dar uma resposta, falar, qualquer coisa. Mas o que podia dizer?

Olhou os seus amigos, todos com um sorriso no rosto. Eles esperavam que ele a magoasse como sempre fazia. Esperavam mais um episódio como o do dia anterior. Esperavam por mais uma oportunidade para rir, zombar, apontar o dedo e fazer pouco da garota com as roupas esquisitas. Esperavam humilhação.

Draco encarou Hermione. Ela olhava-o com uma certa esperança. O seu rosto era um pedido silencioso de ajuda. Ele podia ouvir na sua mente as palavras 'por favor'. Ela pedia-lhe, implorava-lhe que não o fizesse, que não a magoasse, que não a humilhasse.

Tinha duas opções. Podia ignorar o pedido de ajuda da morena e alinhar com os amigos. Sempre fizera isso, porque iria mudar agora? Ou então podia mandar os amigos à merda, e fazer o que era justo.

Os seus olhos continuavam presos em Hermione. O que ele mais queria fazer, naquele momento, era ajudá-la assim como ela o ajudara na noite anterior. Ela tinha-o compreendido quando o seu próprio melhor amigo não foi capaz, havia posto as diferenças de lado e falado com ele. A morena nunca lhe fizera mal nenhum. Quando se encontraram na psicóloga, ela havia sido muito simpática e, apesar de tudo o que ele lhe havia feito, ela ainda estava ali, com toda a sua vulnerabilidade, pedindo-lhe que a ajudasse.

Hermione usava roupas feias, os seus hábitos não eram os mesmos que a maior parte das adolescentes da idade dela. E depois? Deveria ser zombada, humilhada, apontada só porque não tinha medo de ser diferente?

- Draco? – Draco olhou para Jenna que, juntamente com os outros, ainda preservava o seu sorriso ansioso.

As suas feições começaram a mudar. Os seus olhos azuis adquiriram um tom mais escuro e começou a sentir a raiva a subir e a subir e a subir… Ouviu as palavras seguintes saírem da sua boca, sabia que eram suas, mas não pareciam suas.

- Ainda não consegui perceber como é que uma pessoa como ela pode se achar superior. Ela não é mais que inferior, um ser inferior, e talvez ela já se tenha apercebido disso. Não parece, mas ela sabe que não tem lugar neste mundo.

Observou as consequências. Os amigos riram e o rosto de Hermione perdeu toda a esperança, o pedido silencioso completamente esquecido. Agora ele podia ver a mágoa que a morena não tentava esconder.

Se ao menos ela soubesse que toda aquela raiva não era por ela, mas sim pelo próprio Draco. Se ao menos ela soubesse que ele queria, mas não conseguia.

x.x.x

Hermione faltou o resto do dia às aulas. Draco ainda pensou que ela tivesse a tarde livre mas, segundo a professora McGonnagal, ela não tinha ido a Psicologia, o que era estranho visto que ela nunca faltava às aulas nem que estivesse doente. Procurou-a pela escola inteira e não viu sinal dela. Não sabia exactamente onde ela poderia estar, mas a biblioteca parecia ser o lugar mais indicado. Porém, ela não se encontrava lá e Madame Pince não a tinha visto o dia inteiro.

Pensou em desistir quando os seus olhos captarem um garoto que Draco, pela primeira vez na vida, ficou muito contente por ver. O garoto estava sentado na paragem do autocarro e, o melhor de tudo, sozinho. Óptimo.

Assim que o loiro se aproximou, o rapazinho arregalou os olhos e encolheu-se ligeiramente.

- Sabes onde está Hermione Granger?

- N-n-não sei – gaguejou o garoto. – Porque q-queres saber?

- Isso não é da tua conta. Onde ela está?

- Eu não sei. Não a v-vejo desde a hora de almoço.

- Deixa-te de tretas, Creevy! Eu sei que vocês dois são amigos.

- Eu juro que não sei! Provavelmente está em casa… não sei! – defendeu-se Colin, assustado com o que lhe poderia acontecer se Draco não ficasse satisfeito com a resposta.

O cérebro de Draco acordou. Em casa.

- Onde é que ela mora?

Colin pareceu surpreendido pela pergunta e, pelo seu rosto, não parecia disposto a responder-lhe, mas acabou por fazê-lo.

- A d-dois quarteirões de distância. Não tenho a certeza, mas acho que o n-número da casa é o quatro. – Ganhou coragem e perguntou: - O que queres com a Hermione?

- Já disse que não é da tua conta.

Enquanto andava pelas ruas, observando todas as casas, procurando pelo número quatro, Draco pensava no que ia dizer. Preciso de falar contigo sobre o que aconteceu hoje na aula parecia ser um bom começo, mas provavelmente não iria captar a atenção dela. Hermione não iria querer ver o loiro nem pintando de ouro. O que lhe poderia dizer? O que poderia justificar a sua rudeza depois de toda a compreensão oferecida pela morena? Nunca havia pensado como seria o reencontro depois daquela noite. Lembrou-se do rosto magoado da rapariga quando Draco proferiu aquelas palavras. Estaria ela à espera que ele reagisse de forma diferente, que a defendesse, que a ajudasse? Sim, ela estava. Mas cada um tinha a sua vida; Draco tinha os seus amigos, os seus hobbies, as suas preferências, as suas prioridades, as suas convicções. Não poderia mudar tudo assim de forma radical. O que as pessoas diriam se ele, de repente, fosse visto a trocar palavras amigáveis com Hermione Granger? A carregar os seus livros? A acompanhá-la à biblioteca? Seria suicídio social.

Número quatro. Havia chegado. Draco constatou com grande amargura que a sua própria casa, de facto, era mesmo ao fundo da rua. Com uma postura determinada, o loiro avançou a tocou à campainha. Esperou que a viessem atender, mas isso não aconteceu. Tocou novamente e, depois de esperar uns segundos, afastou-se e olhou para as janelas. Qual delas seria o quarto da morena? No entanto, não viu nenhum tipo de movimento, talvez não estivesse ninguém em casa. Já ia para desistir, quando uma mulher de cabelos loiros abriu a porta. Draco aproximou-se, suspirando interiormente de alívio.

- Boa tarde.

- Boa tarde. É esta a residência dos Granger?

- Sim… é… – A mulher parecia confusa. – Se quer falar com o John, ele-

- Na verdade, eu queria falar com a Hermione. – Draco nem sabia quem era o John, mas calculou que fosse o pai dela.

A mulher expressou uma cara de espanto.

- Com a Hermione?

- Sim, ela está?

- Está sim… - Houve uma pequeno momento de hesitação. – Mas ela não se encontra bem… Está com um pouco de febre…

- Ah – murmurou Draco. – É que ela não foi às aulas da tarde…

- Pois, ela está doente, mas com certeza que não terá problemas em acompanhar a turma. Ela é uma excelente aluna.

- Sim, pois é – murmurou ausente, um pouco desapontado por não poder falar com Hermione. A mulher não parecia que iria convidá-lo a entrar.

- És amigo dela?

Draco foi apanhando desprevenido com a pergunta. A mulher olhava-o com uma certa curiosidade enquanto esperava por uma resposta. Draco abriu a boca para falar, mas não sabia o que dizer. Amigo. Eles eram amigos? Tiveram uma única conversa séria em três anos de 'convívio'. Isso era amizade? Amigo é aquele que te ouve, que ri contigo, que te conforta quando precisas, que chora contigo, que te anima quando precisas, que te diz que direcção tomar quando te encontras perdido. Draco pensou em tudo o que disse a Hermione, de todas as vezes que a magoou, humilhou. Não, eles não eram o que se podiam chamar de 'amigos'.

- Tenho algumas aulas com ela.

A mulher, estranhamente, sorriu.

- Talvez… se quiseres voltar mais tarde… Pode ser que a Hermione já se sinta melhor.

- Draco – disse ao perceber que a pessoa à sua frente queria saber o seu nome.

- … Draco. Ela não tem muitos amigos e… seria bom para ela falar com alguém…

Seguiu-se uma pausa de silêncio desconfortável. Draco queria dizer que precisava de lhe mandar um recado, queria que a mulher à sua frente lhe dissesse algo da sua parte. Mas o quê? Que viera ele aqui fazer? Vinha pedir desculpas? Ou vinha rebaixá-la mais uma vez?

- Diga-lhe que eu lamento. Lamento que as coisas tenham de ser assim e que… que espero que ela melhore…

- Não te preocupes, eu direi.

- Obrigado, Sra. Granger.

- Oh, eu não sou a mãe dela. O meu nome é Eleanor Allister. Pensei que soubesses que-

- A mãe dela morreu – disse mais para si do que para a loira.

- Sim. – Eleanor parecia querer acrescentar mais alguma coisa, mas acabou por fechar a boca sem dela sair som algum.

- Então eu vou andando…

Eleanor sorriu-lhe e Draco afastou-se. Recriminou-se profundamente pelo seu erro. É claro que sabia que aquela não podia ser a mãe de Hermione. Ela havia morrido, a própria morena lhe tinha confidenciado isso. Mas a pressa e a vontade de vê-la era tanta que nem parou para pensar quando viu a mulher.

A minha mãe morreu quando eu nasci. Ocorrem complicações no parto e ela não aguentou, mas eu sobrevivi. Foram precisos 8 anos para que o meu pai olhasse para mim com afecto. Eu não o censuro, mas às vezes é difícil, porque sinto que ele ainda tem raiva de mim, sinto que ele me culpa pela morte da minha mãe.

Naquele momento, sentiu uma enorme empatia pela morena, tal como naquela noite. Ficou ainda mais desanimado por não ter podido falar com ela. Mesmo sem saber o que dizer, queria poder vê-la. Talvez não conseguisse falar, mas queria olhá-la da mesma forma como a tinha olhou naquela noite, esperando que ela compreende-se.

Ao olhar uma última vez para uma das janelas da casa número quatro, viu um pequeno vulto e perguntou-se se Hermione estaria mesmo doente.

x.x.x

Draco caminhava pelos corredores da escola enquanto olhava em volta. Procurava por Blaise. Eles tinham combinado de se encontrar com o grupo para ir à loja de música perto da casa de Cho e o amigo tinha desaparecido desde que dissera ter de ir à casa-de-banho.

A certa altura os seus olhos caírem em Hermione. Ficou ali, parado, a olhá-la enquanto a morena falava com a Madame Pomfrey. Não sabia bem porque havia parado ou porque se sentia tão indeciso. Mas quando a viu despedir-se da psicóloga, tomou uma decisão. Não havia tempo para hesitações.

- Granger! – chamou enquanto se aproximava. A rapariga, assim que reparou quem a chamava começou a andar ainda mais depressa. - Granger, espera!

Podia ver que ela não queria falar com ele, mas isso não o impediu de correr pela multidão de alunos que saía das salas de aulas. Só mais um pouco e estava quase lá. Se ela ao menos ficasse quieta!

- Draco? O que estás a fazer?

O loiro olhou para trás de si e deparou-se com Blaise que o olhava com certa confusão.

- Blaise! Eu estava só… - Merda, havia perdido Hermione. Por esta altura já ela ia longe.

- É impressão minha ou tu estavas a chamar pela Granger?

Voltou a sua atenção para o amigo. Praguejou mentalmente.

Tinha agora duas hipóteses: fazia-se de desentendido como se não soubesse do que o amigo estava a falar ou admitia que estava, de facto, a chamar pela Granger porque queria falar com ela sobre o que tinha acontecido ontem, pois estava de consciência pesada. A primeira não iria resultar, pois Blaise estava bastante desconfiado e não iria acreditar na desculpa esfarrapada e a segunda seria como assinar a sua própria sentença de morte.

- Onde é que tu te meteste? Andei horas à tua procura! – Mudar de assunto é sempre mais seguro.

- Eu disse-te que ia à casa-de-banho.

- Sim, mas quando disseste 'casa-de-banho' pensei que fosse aqui em Hogwarts e não na China!

Ao dirigir-se para os jardins da escola com Blaise de modo a encontrarem-se com Cho, Jenna e Burt, Draco avistou alguém dentro da biblioteca que lhe interessou muito. Tinha perdido a primeira oportunidade de falar com Hermione, mas não iria deixar que acontecesse o mesmo com a segunda.

- Vai andando com o pessoal que eu já lá vou ter – disse, distraidamente, para Blaise.

- O quê? Mas eles estão ali à nossa espera!

- Eu sei, mas diz-lhes que eu depois vou lá ter com vocês à loja.

- Mas onde é que tu vais?

Mas Draco já ia longe e não ouviu.

Entrou na biblioteca apressadamente, recebendo um olhar de Madame Pince. Ignorando-o, mas mantendo a calma, procurou por uma rapariga de cabelos castanhos chamada Hermione. Alguns alunos que estudavam no local olhavam-no curiosamente, por vezes sussurrando com o colega do lado; todos eles estavam espantados por ver Draco Malfoy entrar na biblioteca de livre e espontânea vontade, mas este não lhes fazia caso.

Quando já estava a perder a esperança de poder encontrá-la, captou a sua silhueta na mesa mais afastada de todas, uma estante de livros tapava qualquer raio de visão e o loiro reparou, com um certo humor, que ela fazia tudo longe dos outros, até numa simples biblioteca, ela tinha de estar completamente isolada.

Ela lia atentamente e escrevia furiosamente no papel como se a sua vida dependesse do quão rápido acabaria aquele trabalho. Pensou em inúmeras formas de fazer notar a sua presença, mas, felizmente, não foi necessário levar nenhuma delas à prática, pois Hermione reparou que estava a ser observada. O seu rosto foi assalatado pelo espanto e Draco quis aproveitar aquela oportunidade, quando ela ainda tentava processar o que estava a acontecer, para poder persuadi-la a ouvir o que ele tinha para dizer.

- Vi-te pela janela. – Quando ela não disse nada, acrescentou: - O que estás a estudar?

- Oh, por favor, não finjas que estás interessado. É patético.

Certo. Ela havia recuperado. As suas chances pareciam cada vez mais pequenas.

- E tu não finjas que me odeias – devolveu.

- Eu não preciso de fingir.

- Ok, vamos começar de novo – disse Draco enquanto se sentava na cadeira de frente para a morena. – Olá, Granger. Como estás?

Hermione olhou-o com desprezo.

- Não podes ao menos tentar? Estou a tentar ter uma conversa cordial contigo.

- Eu não te devo nada – retorquiu Hermione, voltando a atenção para as suas anotações.

Draco decidiu abrir o jogo.

- Ok, estás zangada comigo e eu percebo. O que eu fiz não foi própriamente justo-

- O quê, estás a falar do facto de me teres humilhado em frente aos teus amigos, mais uma, mesmo depois da nossa conversa daquela noite? Não somos amigos, Malfoy, não tens de me dar qualquer tipo de satisfação.

- Então porque estás a falar assim comigo?

Hermione emitiu um som esquisito, que a Draco lhe pareceu demostrar indignação, e pôs de lado as suas anotações, encarando totalmente o loiro.

- Achas estranho eu estar a falar assim contigo? Peço desculpa se me dirigi a ti num tom de voz inapropriado para a nossa tão óbvia intimidade!

- Não te tomava por sarcástica. Não sabia que eras assim.

- Tu não me conheces. Não fazes a mais pequena ideia de como sou. Provavelmente, pensavas que era uma doce menina que nunca se chateia com ninguém e se esconde dos outros com medo do que eles possam dizer, por isso compreendo que estejas surpreendido.

- Não estou surpreendido.

- Mentes.

Draco suspirou. Se achava que encontrá-la era difícil, então falar com ela era o fim do mundo.

- Eu não queria... Se soubesses o quanto eu te queria ajudar, defender, mas... – Draco bufou, frustrado por não conseguir encontrar as palavras para poder transmitir o que queria dizer. – Naquela noite... foi real... eu gostei de falar contigo e, de certa forma, tu ajudaste-me. Ajudaste-me a ver as coisas de maneira diferente.

- Então porque não o demostraste? Se foi assim tão importante para ti, porque agiste como se nada se tivesse passado? – acusou Hermione.

- Tens de compreender que há certas coisas que eu não posso fazer! Há certas... situações em que eu não posso me meter. Não me cabe a mim!

Hermione olhou-o longamente, como se o estivesse a anlisar.

- Sabes, para alguém que é tão dono de si, que tem assim tanto controlo sobre a sua vida e pode fazer tudo o que quiser, há muitas coisas que tu não podes fazer.

A rapariga fez menção de se levantar, mas Draco segurou-a pelo pulso e pediu-lhe que ficasse.

- Por favor, não te vás embora.

- Não tenho mais nada a fazer aqui.

- Deixa-me falar contigo! Só te peço isso, que fiques e me oiças. Mais nada.

- Porque é que isto é assim tão importante para ti?

- Porque... porque sim – respondeu. – Cinco minutos. É tudo o que preciso. Depois não te chateio mais.

Hermione pareceu reconsiderar e acabou por ceder.

- Cinco minutos – disse.

- Eu não tenho muito jeito para estas coisas. Nunca dei muita importância para pedidos de desulpa, mas sinto que te devo um. Tu foste espetacular comigo, mesmo depois de tudo o que te fiz e, tens razão, não me deves nada. Mas mesmo assim disseste-me tudo aquilo, ajudaste-me sem pedir nada em troca. Nunca ninguém tinha feito isso por mim. – A morena quis interromper, mas Draco impediu-a. Precisava de dizer aquilo. – Acho que deveria ter começado por perguntar se estavas melhor, mas, como eu disse, não tenho muito jeito para estas coisas e depois também não acreditei muito quando me disserem que estavas doente.

- Eu também adoeço. Não sou diferente dos outros seres humanos.

- Mas será que não te calas? Eu pedi para me ouvires!

- Mas eu não faço o que tu me mandas! – retorquiu Hermione, furiosa. – Não devias ter ido a minha casa. Não sei quem foi o pobre garoto que tu torturaste para ele te dizer onde eu morava e nem quero saber. Não devias ter ido.

- Eu estava... estava-

- Preocupado comigo? Duvido, Malfoy. Eleanor é a minha futura madastra, sei que me querias perguntar isto desde do início. Não que seja da tua conta, mas ela é noiva do meu pai, vão se casar brevemente.

- Não pareces muito entusiasmada.

- É o meu pai que tem de gostar dela, não eu. Nem todos podem gostar uns dos outros, como é o nosso caso.

Hermione levantou-se.

- Onde vais? – perguntou o loiro.

- Os teus cinco minutos acabaram.

- Mas eu ainda não acabei!

- Dei-te cinco minutos, era esse o acordo. Não tenho a culpa de não teres dito tudo o que querias.

- Tens sim! – protestou. – Estás sempre a interromper-me e não me deixas terminar!

- Então a culpa é minha?!

- É! Falas demais!

- Isso não é verdade!

- É pois!

- Oh, isto é ridículo! Vamos continuar a discutir como duas crianças de seis anos?

- Tens razão, devíamos estar a fazer coisas mais próprias para a nossa idade – disse Draco, distraídamente. Porém, Hermione não notou o súbito ar ausente do loiro.

- Finalmente, algo em que os dois concordamos! Deve ser mila-

Mas Hermione não pôde terminar a frase nem impedir aquilo que iria acontecer. Talvez se ela tivesse reparado no súbito ar ausente de Draco, ela poderia ter antecipado, mas não reparou. E não pode evitar quando Draco a calou com um beijo.

Como tudo o que lhe vinha acontecendo ultimamente, aquele beijo foi inesperdo. Foi inesperado quando sentiu os lábios do loiro sob os seus, foi inesperado quando toda a sua mente ficou em branco e toda a razão a abandonou, foi inesperado o quanto se sentiu desapontada a partir do momento que Draco se afastou. Foi inesperado, porque ela nunca poderia ter antecipado todas as emoções, todas as perguntas. Talvez o beijo, se o tempo tivesse parado e ela pudesse analisar a situação meticulosamente, mas nunca o que sentiu.

Draco sempre achou que ela falava demais. Chegava a divagar. Algo tinha de ser feito e o beijo pareceu-lhe a coisa certa a fazer. Lembrava-se vagamente de uma vozinha dentro da sua cabeça que lhe tinha dito, enquanto se inclinava para beijar a morena, de que se iria arrepender aquilo. Draco ignorou-a, mas ao encarar o rosto lívido de Hermione, deu razão à pequena voz que, anteriormente, lhe tinha soado tão irritante. Basicamente, tinha acabado de fazer uma grande besteira.

Normalmente, se Draco tivesse beijado, repentinamente, uma rapariga na biblioteca, para quebrar o silêncio desconfortável, ele diria algo como "Ainda bem que escolheste a mesa mais afastada de todas" e depois os dois ririam da situação. Mas esta não era uma 'rapariga', era a Granger! O que, Diabo, lhe tinha passado pela cabeça?

- Isto foi um grande erro – murmurou Hermione.

Contem com Hermione Granger para constatar o óbvio.

x.x.x

Dois dias haviam passado desde o 'acidente', como Draco lhe chamava. O terrível, desastroso dia em que beijara Hermione. Não contara a ninguém o que acontecera. Os amigos perguntaram-lhe vezes sem conta o que se passava, pois o loiro andava ainda mais carrancudo e difícil de aturar do que o costumo. Se eles soubessem... Nem pensar, isso nunca iria acontecer!

Uma vez, o loiro deixara-se imaginar, sem pressões ou limites, a entrar na escola com Hermione Granger de mão dada. Mas rapidamente a imagem mental foi apagada. Isso jamais aconteceria. Seria suicídio social. Para além de que Draco não nutria qualquer tipo de sentimento de afeição por ela. Lá porque eles conversaram e Draco até gostou, isso não queria dizer que ele gostasse dela. E nem ela gostava dele. Isso seria absurdo.

Era uma noite de Sábado e Draco encontrava-se na festa de um gajo qualquer. Blaise tinha-o arrastado, disse que seria divertido e que seria bom para ele tirar "essa cara de enterro". Nem sabia quem era o anfitrião, mas não importava. Ele também não deveria conhecer a maior parte das pessoas que ali se encontravam. Enquanto os seus amigos bebiam até cair e Blaise se animava com uma loira que reconheceu ser Lavender Brown, Draco estava com a mesma cara com que havia entrado – entediada. Ele estava aborrecido. Noutras circustâncias, talvez estivesse a curtir o momento com Pansy que o olhava descaradamente, mas as circustâncias eram aquelas e Draco não se sentia minimamente animado.

- És cego ou quê? – uma voz tirou Draco do seu devaneio.

- Hun?

A voz que pertencia a um bêbedo Dean Thomas, sendo 'bêbedo' a palavra-chave (visto que Thomas nunca falaria com Draco se estivesse sóbrio) riu.

- A Parkinson não tira os olhos de ti. Devias aproveitar.

Draco limitou-se a ignorá-lo. Bêbedo ou não, isso não tornava Thomas mais tolerável.

- Queres? – ofereceu Dean e Draco aceitou, mas só porque nunca dizia 'não' a uma boa cerveja. Deu um gole e olhou para Pansy. Ela estava bastante sexy naquele dia. Draco sentiu-se incrivelmente estúpido por não se estar a divertir. No fundo, ele sabia a razão de todo aquele mau-humor, mas não queria admitir. Isso tornaria as coisas reais e é sempre mais difícil lidar com a realidade do que com a fantasia.

Decidiu seguir o conselho do palerma do Thomas. Ele devia estar a agir normalmente como se nada tivesse acontecido, porque nada tinha acontecido. Era assim que deveria começar a pensar. Não iria deixar que o 'acidente' mudasse a sua vida. Não valia a pena. Então, com o espírito renovado, o loiro aproximou-se de Parkinson.

- Demoraste imenso tempo.

- Não tinha reparado que estavas assim tão interessada em mim – mentiu Draco.

Pansy sorriu.

- Isso é mentira. Reparei que olhaste para mim quando chegaste, mas desviaste logo o olhar. Mas não importa. Estás aqui e isso é o que interessa.

O loiro deixou-se levar pela sugestividade de Pansy e beijou-a como já o deveria ter feito desde que chegou. Um beijo surpreendente, fascinante, cativante; Pansy sabia como deixar um homem louco. Noutras ciscunstâncias, essas seriam as plavras que se formariam na sua mente, mas aquelas não eram outras circunstâncias. O beijo não era surpreendente nem fascinante, mas sim... aborrecido. Tal como todos os outros beijos que Draco tinha experimentado. Todos... menos um. Lá estava outra vez ele a pensar no 'acidente'. Aquilo tinha de parar!

Pansy sorriu de forma provocante e Draco deu por si a forçar um sorriso. Mas ele não queria sorrir. Não se sentia bem... O beijo... havia deixado-o enjoado...

Desta vez, foi a morena que o beijou e o sentimento que o loiro havia experienciado antes não mudou, apenas se intensificou. Quando se separaram, Pansy disse qaulquer coisa, mas Draco não ouviu. Ele deveria ter gostado... era suposto ter gostado... não havia nada de mal no beijo... O que se passava com ele?

Draco desviou a sua atenção para duas pessoas que riam ali perto.

- Também ouvi essa história – disse um dos rapazes. - O Zabini contou-me. Essa louca ainda vai acabar num hospício!

- Tanta inteligência só podia dar em merda – disse o outro. – Mas digo-te uma coisa, essa Granger deve ser uma depravada...

- O quê? Depravada? Nem pensar, Liam, ela deve ser aspirante a freira!

- As santinhas são sempre as piores. Coitada, ela não deve ter muita acção. Bastava um qualquer lhe dispensar alguma atenção e ela mudava logo de aspiração.

Draco não soube como aconteceu. Não soube se foi o riso dos dois idiotas, se a maneira como falavam de Hermione, como se ela fosse uma vadia. Permanecia um mistério. Mas o loiro sentiu uma raiva tão grande dentro de si, uma raiva acumulado que gritava para se poder soltar, que não aguentou e atirou-se contra o último dos rapazes que tinha falado. Deu-lhe um murro naquela cara nojenta que merecia uns bons hematomas. Mas ele retribuiu e, quando deram por si, estavam os dois à luta no meio da festa enquanto as pessoas os incentivavam a contiuar. Draco descarregou tudo naquele filho da puta. A cada golpe sentia-se mais liberto, como se um grande peso estivesse a sair dos seus ombros. Era uma liberdade tão agradável que o facto de o adversário saber ripostar não o impedia de continuar a bater-lhe.


N/A: Cá está o quarto capítulo. Sei que demorou imenso tempo, mas há uma razão para isso. O meu computador avariou e eu fiquei sem ele por muuuiito tempo, e perdi muita informação inclusive os todos os capítulos que já estavam escritos. Portanto, agora tenho de escrever tudo outra vez o que não é muito agradável, mas eu vou fazê-lo na mesma. Espero que perdoem esta minha grande demora, mas não foi realmente culpa minha. Quero agradecer a todos os meus leitores, principalmente a Lauh Malfoy (este capítulo já foi maior que os outros... considera uma prenda de Natal xD), Sophia DiLUA (obrigada pela review! espero que tenhas gostado deste capítulo) e PatriciaSofiaMalfoy (muito obrigada pelos elogios! é bom ver que existem mais portugueses por aqui, eles são difíceis de encontrar xD não te preocupes que eu não vou desistir... não pretendo demorar tanto a postar os próximos capítulos... já tenho tudo planeado, o que vai acontecer... é só passar para o computador xD). Espero que todos tenham tido um bom Natal e, como em princípio não vou postar até 2008, um feliz Ano Novo!xD Beijos.