Capítulo III
-O despertar da alma de uma guerreira-
Uma radiante manhã surgiu. Calorosos raios de sol iam ao encontro de duas beldades loiras. Numa cama, coberta por uma colcha decorada com luas, estrelas e coelhos, dormia uma adolescente com um penteado bastante característico. Numa outra cama, coberta por sua vez, por uma colcha branca com círculos de vários tamanhos, azuis, vermelhos e amarelos, dormia outra adolescente, abraçada a uma almofada amarela. O despertador tocava freneticamente há vários minutos, no entanto permaneciam a dormir profundamente.
***
Noutro ponto da cidade, um grupo de rapazes chegava animado à escola. À medida que se aproximavam do portão, muitos eram os olhares a eles dirigidos. Subitamente, várias raparigas cercaram-nos e eles cumprimentaram cada uma delas. Muitos risinhos e suspiros eram ouvidos um pouco por toda a parte enquanto os rapazes circulavam pelo pátio. Um deles, apesar de divertido com a situação, olhava discretamente à sua volta, sem conseguir encontrar quem pretendia.
***
Os raios de sol continuavam a espreitar por entre as cortinas iluminando o quarto. O sono das duas raparigas era tão profundo que não ouviam nada, nem ninguém.
- Meninas acordem. – dizia Ikuko sacudindo Usagi e em seguida Minako – São 8:20.
- Hã? – retorquiram as duas adolescentes ensonadas.
- São 8:20. – insistiu Ikuko.
- O quê?! – gritaram saltando da cama. Começando a correr à procura dos uniformes.
- É o que dá porem-se na conversa até às tantas da madrugada. – resmungou Ikuko ao sair do quarto, deixando as duas raparigas numa jornada contra o tempo.
Saíram a correr de casa. Ouviram ao longe o toque da campainha da escola que era trazido pelo vento. Continuaram a correr, mas ainda estavam longe. Quando finalmente chegaram à escola, olharam para o relógio da entrada que marcava 8:50, estavam vinte minutos atrasadas. Percorreram o corredor, que estava deserto, naquele momento parecia estranhamente mais longo do que se lembravam. Passaram por várias portas, pararam de frente a uma delas e bateram a medo. Numa questão de segundos a porta abriu e um rosto severo surgiu, olhando-as de alto a baixo enquanto as duas raparigas recuperavam o fôlego.
- As meninas estão atrasadas. Têm a noção de que acabaram de interromper a minha aula? – a voz do homem fê-las estremecer e assentiram de imediato cabisbaixas – Ficam de castigo depois das aulas. – Usagi fitou o homem mas depressa se arrependeu, ao ver a expressão do homem à sua frente. – Por agora, ficam aí fora à espera que a aula termine. E não quero barulho! – a porta foi fechada e as duas amigas permaneceram incrédulas a olhar para a porta.
***
O pátio estava sereno. Vários arbustos, cuidadosamente aparados, e árvores em flor, enfeitavam o local. Os bancos de madeira e os campos de jogos não estavam ocupados naquele momento. Não se via ou ouvia ninguém em parte alguma. Até que, no cimo de uma árvore, surgiram dois vultos que fitavam o edifício.
- Tens a certeza que é aqui? – perguntou uma voz masculina.
- Tenho. Consigo sentir a energia. – respondeu uma voz feminina.
- E agora? Sabemos que a energia vem daqui, mas não sabemos quem…
- Trata de fazer o que te mandei! – disse interrompendo o outro, que se retirou de imediato. – Agora é comigo. – afirmou esboçando um pequeno sorriso continuando a observar o edifício.
***
Num longo e deserto corredor, encontravam-se duas adolescentes em pé, ao lado porta de uma das salas. Ouviu-se o som da campainha dando por terminada a aula. As várias portas começaram a abrir e diversos alunos começaram a preencher o local. A porta ao lado das duas raparigas também abriu e alguns colegas da turma saíram. Elas espreitaram para o interior da sala. O professor estava sentado à secretária e fez-lhes sinal para que entrassem, e assim o fizeram.
- No final das aulas quero que vão até ao gabinete do director para termos todos uma conversa. – afirmou o docente levantando-se da cadeira onde estava sentado. As raparigas assentiram e, antes de sair, prosseguiu. – E não quero atrasos! – disse num tom severo e autoritário. As duas jovens entreolharam-se e suspiraram resignadas enquanto o professor foi embora.
- Bem, agora é que vocês se tramaram a valer! – disse Makoto aparecendo atrás das duas loiras.
- Ai Makoto… – pronunciou-se Usagi aflita – Achas mesmo?
- Hum, hum. – assentiu a morena.
- Não te preocupes, o professor Ogitaka parece muito severo, mas não faz mal a ninguém. – disse um rapaz sorridente aproximando-se das três amigas.
- Er… Espero que sim. – disse Usagi um pouco desconcertada olhando para as amigas.
- És a Usagi não és? – perguntou o rapaz e Usagi assentiu – Muito prazer. O meu nome é Jadeite Osaka. – sorriu e estendeu-lhe a mão. Usagi ficou a olhar para a mão dele e não se mexeu.
- Er… Usa. – sussurrou-lhe Minako dando-lhe uma pequena cotovelada e olhando para ela incentivando-a a cumprimentar o rapaz. Usagi finalmente percebeu o que o rapaz queria e corou dando-lhe um aperto de mão.
- Eu sou a Usagi Tsukino. – disse encabulada.
- Não ligues. A Usa é mesmo assim. Está sempre no mundo da lua. – disse Makoto entre risos.
- Não faz mal. – disse continuando a fitar a loira à sua frente. – E vocês, como se chamam? – perguntou dirigindo o olhar às outras raparigas presentes.
- Eu sou a Minako Aino e ela é a Makoto Kino. – disse a loira sorridente.
***
Numa outra sala, três rapazes conversavam animados. Um loiro estava sentado numa das mesas, um moreno estava de pé, junto à janela, e um rapaz de cabelos brancos estava sentado no chão encostado à parede.
- Motoki, lembras-te quando o Mamoru foi buscar a bola ao quintal dos Toriumi e apareceu o cão deles? – perguntou Kunzite divertido.
- Claro que lembro. A cara que ele fez quando viu os dentes dele foi demais! – os dois rapazes riam-se enquanto Mamoru olhava para eles sério, mas não se conteve e começou a rir também.
- Essas foram as melhores férias de sempre. – afirmou Mamoru.
- Sim é verdade. – concordou Kunzite – E o melhor foi termos-te conhecido. Ficámos todos muito satisfeitos por saber que vinhas morar para cá.
- Eu cresci em Tóquio. – informou Motoki para surpresa dos outros dois – O meu pai foi transferido pela empresa para Quioto, onde estivemos durante dois anos. Agora os meus pais resolveram abrir o seu próprio negócio e aqui estou de novo!
- Sendo assim, ainda bem. – disse Mamoru e os rapazes sorriram. Arregalou os olhos ao ter uma ideia que o agradou. – Olha lá Motoki… Por acaso não queres ir viver connosco?
- Boa ideia mano. – disse o rapaz satisfeito com a ideia – Ainda temos um quarto disponível. A casa que o Mamoru herdou dos pais é enorme. – disse levantando-se do chão.
- Ah, não sei. E agora com a loja… – retorquiu pensativo – Vou ter de falar com os meus pais.
- Vá lá. Nós os cinco já arrasamos com tudo. Contigo a festa será ainda maior! – incentivou Kunzite animado.
- Vou tentar convencê-los. – disse sorridente ao sair da mesa – Agora desculpem-me mas vou procurar as minhas princesas. – o loiro dirigia-se para a porta quando foi interrompido pela voz do amigo.
- Hum. Princesas? – afirmou em tom provocativo Mamoru despertando a atenção do amigo.
- Não é o que vocês pensam. – afirmou ao ver a expressão maliciosa dos rapazes à sua frente – São três amigas minhas. Nem pensem nisso! – repreendeu o loiro ao ver os amigos a entreolharem-se – São irmãs para mim. E conhecendo-vos como conheço é melhor esquecerem. Vou procurá-las, até já. – virou costas e saiu.
- Está bem. Mas se mudares de ideias sabes que os amigos aqui estão sempre disponíveis para conhecer princesas. – disse Kunzite aproximando-se da porta, levantando a voz para o loiro que começava a afastar-se.
- Claro que estão. – manifestou-se uma bela morena, bastante séria, aparecendo por trás de Kunzite.
- Er… Olá Rei. – perguntou Kunzite tentando disfarçar – Tudo bem?
- Sim. – disse com ar de desaprovação a Kunzite – Olá Mamoru. – dirigiu-se ao moreno.
- Olá. – cumprimentou-a – Rei estás bem? – perguntou ao ver a rapariga cambalear por instantes.
- Hum? Sim, estou bem. – disse tentando tranquilizar os rapazes – Que sensação estranha. – pensou – Vou voltar para a minha sala, está quase a tocar. – disse Rei encaminhando-se para o corredor.
- Queres companhia? – perguntou Kunzite. Rei acenou negativamente com o braço.
***
No pátio, um pouco por todo o lado, vários grupos de estudantes aproveitavam para comer e conversar. Motoki procurou durante algum tempo, mas não as conseguia encontrar. Enquanto tentava verificar mais um dos pontos do local ouviu a campainha e voltou para a sala juntamente com os restantes alunos.
***
Não muito longe dali. Num imponente edifício, um colégio bastante conceituado, somente frequentado por alunos de prestígio, uma esbelta rapariga estava sozinha num dos corredores, perto de uma janela. Os seus cabelos, de tom esverdeado, caiam até aos ombros. Vestia um sublime uniforme. Uma camisola bordô, com um laço verde ao peito, e uma saia verde até à altura dos joelhos. A bela rapariga de olhos verdes e de expressão séria, contemplava um objecto que tinha em mãos. Um espelho dourado delicadamente ornamentado. Alguém, com um curto cabelo loiro, aproximou-se dela. Envergava um uniforme masculino, igualmente bonito, composto por um casaco bordô, uma camisa branca com uma gravata verde, e calças também elas verdes, o conjunto ocultava um corpo bem torneado e feminino.
- Há problemas? – perguntou colocando a mão sobre o ombro da rapariga, pondo-se à sua frente.
- Não consigo ver nada. Está tudo nublado. – disse com voz calma – Mas sabes o que significa.
- Sim. O que quer que seja não é bom de certeza. – a rapariga de cabelos esverdeados assentiu e voltou a olhar, repentinamente, para o espelho. – O que foi Michiru?
- Não sei bem. – disse esforçando a vista tentando enxergar melhor – Estou a ver alguém, mas não lhe consigo ver o rosto, há uma grande sombra à sua volta. – a loira olhou para o espelho em vão. Só se via a ela mesma através do reflexo.
- E quem pensas que seja? O inimigo? – olhou para Michiru que voltou a assentir.
- Estou com um mau pressentimento Haruka. – disse pousando a mão sobre a da loira, que permanecia no seu ombro – Temos de encontrar as restantes guerreiras rapidamente.
- Sim. Mas a V e o Artemis não têm tido muito sucesso. – afirmou Haruka revirando os olhos.
- Ela tem-se esforçado. Tens de ter paciência. – disse Michiru tentando apaziguar a loira.
- Eu sei, mas sinto que eles estão cada vez mais próximos. E se… – Michiru colocou o dedo indicador sobre os lábios da Haruka.
- Shh uma coisa de cada vez. – disse olhando-a nos olhos – Não nos podemos precipitar.
***
Em casa de Usagi Tsukino, em cima de uma cama coberta de luas, estrelas e coelhos, dormia, enroscada em si mesma, uma gata preta. Uma luz intensa invadiu o quarto fazendo a bichana abrir os olhos lentamente tentando acostumar-se à claridade. Não conseguia ver nada à sua frente. Subitamente, sentiu um reconfortante calor na sua testa e, no mesmo local, formou-se um quarto crescente. A luz, que até então banhava o quarto, desapareceu.
***
O longo dia de aulas terminou, por fim. Muitos alunos seguiram para casa e outros para as aulas extra-curriculares que começavam a decorrer. No entanto, duas jovens permaneceram por outros motivos. Encaminhavam-se até à sala do director, a mando de um professor, conformadas com um castigo que estaria por vir. Chegaram a uma sala, relativamente grande, bem iluminada pela luz do sol que entrava através das enormes janelas, que dava acesso ao gabinete que pretendiam. Várias cadeiras almofadadas e uma pequena mesa no centro, com uma jarra com flores artificiais, decoravam aquele espaço. Sentada numa secretária coberta de papéis, estava uma senhora ruiva elegantemente vestida, mas exageradamente maquilhada. As duas raparigas encaminharam-se até à mulher que se encontrava bastante atarefada.
- Desculpe. – começou Minako – Viemos falar com o director.
- O dr. Wakamoto está ocupado no momento, a tratar do processo de uma estudante. – informou a assistente sem encarar as raparigas – Podem aguardar ali. – apontou para as cadeiras que ali se encontravam e continuou a remexer nos papéis.
Minako e Usagi sentaram-se perto da porta e esperaram. Alguns minutos mais tarde, ouviu-se um grande estrondo vindo do interior do gabinete. A assistente deu um pulo da cadeira onde estava, devido ao susto, deixando cair no chão alguns papéis. As duas amigas levantaram-se e foram ajudar a senhora a apanhar os papéis. Outro som ouviu-se, parecia que algo era arrastado. A assistente, estranhando, resolveu ir bater à porta, não obtendo resposta, abriu-a um pouco e espreitou. Ficou pálida e começou a correr, deixando para trás as duas adolescentes atónitas. Usagi, cheia de curiosidade decidiu ir espreitar.
- Onde vais? – perguntou Mina segurando-a pelo braço .
- Quero saber o que foi aquilo. – retorquiu a loira.
- Então vou contigo. – Mina largou-lhe o braço. As duas aproximaram-se da porta, espreitando para o interior da sala, deparando-se com uma enorme confusão.
O gabinete encontrava-se completamente destruído. Janelas, mesas e cadeiras quebradas, papéis espalhados por todo o lado. A carpete azul escura que revestia todo o chão estava totalmente rasgada e vários armários tombados e partidos. Não viam nem ouviam ninguém na sala. Uma das paredes desaparecera, permitindo ver o pátio da escola. Destroços cobriam todo aquele espaço caótico. Minako e Usagi presenciavam a desordem, procurando perceber o que causara tudo aquilo. Ouviram um pequeno barulho vindo por baixo dos armários. Minako chegou mais perto e viu uma mão que se mexia, por entre os pedaços de madeira, a muito custo.
- Usa chega aqui depressa. – chamou Mina apontando para a mão que via a mover-se – Ajuda-me a levantar isto. – as duas levantaram, com algumas dificuldades, um armário e tiraram alguns dos escombros de cima do homem. Quando olharam melhor para ele aperceberam-se que se tratava do professor que as tinha colocado de castigo, estava bastante ferido. E um forte estrondo fez-se ouvir, vindo do pátio, seguido de gritos. Usagi dirigia-se até ao local, que antes estava tapado por uma parede, mas foi interrompida por Minako. – Espera, pode ser perigoso. Fica aqui. – antes que Usagi se pudesse pronunciar, Mina transformou-se. A loira tinha agora óculos vermelhos e um fato constituído por uma camisola branca e vermelha, uma gola azul escura, tipo marinheiro, de rebordo vermelho, uma saia azul com um rebordo igualmente vermelho. Um laço vermelho ao peito, luvas brancas até aos cotovelos, com orla amarela, protecções nos ombros, e sapatos azuis com um pequeno salto e uma presilha em torno do tornozelo, compunham o traje. Usagi fitou Mina por instantes, enquanto esta se dirigia até ao exterior, e esboçou um pequeno sorriso cheio de orgulho da amiga.
No pátio, um estranho ser agarrava um homem, possante de cabelo grisalho, que esbracejava tanto quanto podia. A criatura, com cerca de dois metros de altura, possuía umas enormes asas e o seu corpo musculado estava coberto de escamas de tom alaranjado. Orelhas pontiagudas e dentes desproporcionadamente grandes, conferiam-lhe um aspecto horripilante. O demónio prensava o corpo do homem contra o seu, fazendo-o gritar até à exaustão.
Três pessoas, um rapaz e duas raparigas, assistiam àquela situação, sendo que duas estavam bem mais animadas. O rapaz esboçava um grande sorriso. Era alto e tinha cabelos lisos e negros como breu, indo até meio do rosto. Trajava uma camisola azul escura, de gola alta e calças negras justas às suas pernas tonificadas. Um casaco de mangas curtas, preto de gola levantada mas meio pendida, cobria-o até aos pés. Calçava sapatos negros desportivos. Usando ainda luvas negras até meio do ante braço e pulseiras prateadas, grossas e ornamentadas, em ambos os punhos.
Uma das raparigas era quase tão alta quanto o rapaz. Possuía uma expressão de divertimento face à situação. Os seus cabelos negros, com intensos reflexos azuis, caiam de forma selvagem até à cintura. Vestia um belo corpete negro e bordô, que lhe acentuava todas as curvas, já por si, definidas, com uma rosa vermelha no centro, ao peito. Uma saia rodada e volumosa, bem curta, ficava-se pela altura das coxas. O pescoço estava envolto por uma gargantilha enfeitada com uma rosa vermelha desabrochada. As luvas de um bordô bem escuro, corriam ao longo dos seus elegantes braços, indo até acima dos cotovelos, terminando com faixas entrelaçadas até aos ombros. As suas botas negras, de salto alto, iam até acima dos joelhos, terminando com três formas pontiagudas. Uma pulseira bordô em cada punho, levemente ornamentada com fios dourados.
Por fim, uma rapariga loira de cabelos ondulados, assistia igualmente à cena, embora não estivesse tão divertida quanto os outros dois, limitava-se a esboçar um sorriso muito ténue. O seu rosto mostrava a sua jovialidade face aos outros dois que estavam presentes. Envergava uma saia longa com uma enorme racha, revelando as suas finas pernas, e uma camisola que a cobria desde a cintura até ao peito, entrelaçada por fitas que seguiam pelos seus braços até aos punhos. As suas roupas, de um tom rosa vibrante, cobriam delicadamente o seu corpo bem torneado. Um colar dourado, adornado com uma pedra cor-de-rosa de tom suave em forma de lágrima, embelezava-lhe o pescoço. Pelas suas pernas subiam faixas cor-de-rosa entrelaçadas, estando de pés descalços.
A navegante ali presente investiu pontapés e socos que não surtiram qualquer efeito na criatura. Evocou um pequeno objecto em forma de lua que lhe surgiu nas mãos, abriu-o e apontou-o ao monstro.
- Crescent Be… – o demónio abriu as asas com brusquidão e a navegante foi atirada contra uma parede, perdendo os sentidos.
Usagi, sem sequer pensar no perigo, correu em auxílio da amiga. A horrenda criatura aproximou a sua boca da do homem, quase inanimado pelo cansaço, e sugou-lhe o ar. Uma pequena esfera negra formou-se entre os dois corpos e o homem foi largado no chão. O demónio encaminhou-se até às duas raparigas, enquanto Usagi tentava, sem sucesso, despertar a amiga. Luna apareceu cravando as garras nos olhos do demónio, que gemeu de dor ficando um pouco atordoado. A gata acercou-se da dona, deu um pulo e, ainda no ar, uma cambalhota, fazendo aparecer um bonito alfinete. O objecto era redondo e dourado, com um pequeno desenho de uma lua, ornamentado com bonitas pedras de várias cores.
- Usagi pega no alfinete para te transformares. – Usagi fitou a gata arregalando os olhos – E diz Moon Prism Power, Make Up! – Usagi começou a rir.
- Afinal estou a dormir. É isso. – afirmou entre risos – Eu sonho com cada coisa. – disse pensativa. A gata resmungou e ela ignorou-a. – Acho que aquela história do Artemis falar me subiu à cabeça. A minha mãe bem me diz que eu tenho uma imaginação mui… – a loira foi agarrada subitamente pelo demónio, que a envolveu nos seus braços, começando a esmagar-lhe o corpo contra o seu fazendo Usagi gritar de dor.
***
Num vasto salão, em que as paredes, pintadas de vermelho, estavam decoradas com dois belos retratos, um de um casal e outro de um grupo de sete pessoas e um cachorrinho cinzento. Um grande sofá e três pequenos puffs, todos eles vermelhos, cobriam o espaço, garantindo lugares para diversas pessoas, muito bem decorados com almofadas pretas muito felpudas. Um pouco à frente havia um grande ecrã de televisão. Sobre uma carpete preta, estava uma bela mesa de vidro com uma jarra de rosas vermelhas. Uma parede arqueada separava o salão de uma pequena sala que continha uma estante cheia de livros, que se encontravam meticulosamente organizados por temas e ordem alfabética. Três irmãos, sentados no sofá, assistiam a um filme, acompanhados de um balde de pipocas, que apenas um deles comia, ou melhor, devorava, e por uma cadela cinzenta que fazia um grande esforço para tentar chegar às pipocas. Algum tempo depois, Hoshi ficou agitada começando a ladrar e a puxar Mamoru pelas calças.
- O que é que lhe deu? – perguntou Nephrite com o cenho franzido a olhar para Mamoru que encolheu os ombros sem saber o que dizer.
- Ela… Ela não costuma… Fazer isto. – disse Kunzite entre uma pipoca e outra.
- Pois não. Não sei o que… Aaaah – Mamoru colocou as mãos na cabeça que latejava fortemente. Os irmãos olharam para ele apreensivos.
- O que é que se passa mano? – perguntou Kunzite aproximando-se dele.
- Não sei. Mas quero que esta dor acabe depressa. – Nephrite correu até um armário, abriu a porta e procurou por uma caixa de comprimidos. Percorreu o corredor e foi até à cozinha, regressando com um copo de água.
***
O corpo de Usagi continuava a ser esmagado. As suas forças desapareciam lentamente. O demónio aproximou a sua boca da boca da loira que estava nos seus braços, sugou o ar e nada aconteceu.
- Mas… – pronunciou-se, confusa, a rapariga de cabelos negros, que assistia à situação como se de um espectáculo se tratasse. A sua expressão tornou-se séria. – Então acaba com ela!
- Porquê? Ela não tem nada a ver com isto. – retorquiu a mais nova – Além disso já temos o que queríamos. – afirmou mostrando a esfera negra que possuía nas suas mãos – Hebi, deixa-a, vamos embora. – antes que pudessem retirar-se alguém aproximou-se.
- World Shaking! – uma bola de energia dirigiu-se até ao monstro. Usagi foi libertada e colhida por uma navegante de uniforme azul-marinho que a levou para trás do edifício.
- Estás bem? – perguntou-lhe a rapariga de voz suave.
- Sim estou. – Usagi acariciava o pescoço, tentando recuperar o fôlego. A navegante afastou-se indo ao encontro da batalha.
- Usagi. Transforma-te. – Luna voltou a entregar-lhe o alfinete. Usagi olhou para ela com o cenho franzido e ia pronunciar-se. – Usagi Tsukino! Tu és a navegante da lua! – continuou a bichana um pouco exaltada – Não há tempo para explicações. Transforma-te agora. E diz Moon Prism Power, Make Up! – Usagi pegou no alfinete e repetiu as palavras da gata. O seu uniforme da escola deu lugar a um uniforme de navegante de cor branca e azul. Uma gargantilha vermelha, com um crescente lunar dourado, revestia o seu pescoço. As luvas e as botas vermelhas iam até aos cotovelos e joelhos, respectivamente. Possuía, na testa, uma tiara dourada com uma pedra vermelha no centro, e uma gola azul com duas riscas brancas caia-lhe sobre os ombros. Dois acessórios vermelhos cobriam os seus odangos e duas luas pendidas enfeitavam-lhe as orelhas.
Usagi olhou-se surpreendida. Ouviam-se alguns sons de pancadas vindas do outro lado do pátio. Aproximou-se da esquina do edifício e espreitou para o campo de batalha, onde duas navegantes se debatiam com o monstro.
- O que estás a fazer? – perguntou Luna fitando a dona.
- Tenho medo Luna. – respondeu a mais recente navegante.
- Medo? Mexe-te daí agora! – afirmou a gata com um olhar bastante ameaçador. Usagi aproximou-se, um pouco contrariada e receosa.
- Quem és tu? – perguntou o rapaz do grupo que assistia à luta.
- Eu? Er… – a navegante pensou um pouco e apresentou-se – Eu sou uma bela guerreira que luta pelo amor e pela justiça. Sou a navegante da lua! – afirmou procurando transmitir a segurança que não tinha.
- Navegante da lua? – Neptuno olhou para a navegante que acabara de chegar. Distraiu-se e foi agarrada pela mão do monstro que a começou a sufocar.
- Neptuno! – a outra navegante foi ao seu encontro, precipitando-se, sendo também ela apanhada.
As duas navegantes eram, aos poucos, asfixiadas. Seguravam a mão do monstro com as suas, tentando-se libertar. A navegante da lua olhava para elas estática, sem saber o que fazer, e lágrimas começaram a brotar dos seus olhos.
- Atira a tua tiara contra o demónio e diz Moon Tiara Action. – informou a gata preta, fazendo a navegante cair em si. Os braços das navegantes começavam a cair ao longo dos seus corpos. Aquilo era tudo menos um sonho, era pura realidade, e aquelas duas pessoas estavam prestes a perder as vidas mesmo à sua frente. Seguiu as indicações da gata. A tiara foi ao encontro do monstro atingindo-o, fazendo-o virar pó, e as navegantes tombaram fracas no chão.
- Raios! – protestou a rapariga de cabelos negros. O homem fez um pequeno gesto no ar, formando um círculo, que fez aparecer um portal. As três pessoas encaminharam-se até à passagem e retiraram-se. A navegante da lua aproximou-se da navegante V que começou a despertar. As outras navegantes recuperavam ofegantes.
- Muito bem navegante da lua, bom trabalho. – disse Luna aproximando-se da dona. Usagi sorriu e olhou para a navegante que estava apoiada nos seus braços.
- Como estás? – perguntou enquanto a loira tentava abrir os ollhos.
- Estou bem. – disse ao ouvir a voz da amiga. Piscou os olhos procurando ter a certeza do que estava a ver. – Mas… Quem és tu? Onde está a Usa? – perguntou ainda desorientada.
- Está tudo bem, não te preocupes. Falamos depois. – aconselhou a gata.
- Luna? – Mina colocou uma mão sobre a cabeça que doía.
- Sim. – a navegante da lua olhou para trás de si e depois em redor do pátio. O local estava um pouco danificado. O homem possante que fora atacado permanecia caído no chão, mas as outras navegantes tinham desaparecido. – Onde é que elas estão? – perguntou a Luna.
- Foram embora. – retorquiu a bichana – Chama uma ambulância e vamos para casa.
***
Aquele local atraía pessoas de toda a parte do país. Um lugar pacífico que permitia repor energias, acalmar qualquer coração, adquirir conforto. A grande série de escadas que possibilitava chegar àquele sítio não parecia intimidar as almas que ali se dirigiam. O majestoso templo, cercado por flora de diversas espécies, reunia beleza e espiritualidade. A tranquilidade reinava no ambiente de tal forma que era possível ouvir o som da natureza, sentir a pulsação da vida. Várias pessoas encontravam-se ali a rezar. Um senhor de baixa estatura bastante atarefado, envergando um traje tradicional, recebia os visitantes com muita cordialidade. Apesar da sua idade avançada apresentava-se com uma vivacidade invejável. No interior do edifício, uma jovem formosa de longos cabelos negros rezava, de olhos fechados acompanhada de dois lindos corvos, sentada em frente a grandes labaredas. Vestia um elegante quimono, vermelho e branco. As chamas agitavam-se cada vez com mais intensidade, como que reagindo às suas palavras. De súbito, abriu os olhos.
- Continuo sem perceber o que se passa. Mas este pressentimento… O que será isto? – murmurou a jovem pensativa. Muitas dúvidas invadiam os seus pensamentos.
- Rei. – chamou o senhor de avançada idade abrindo a porta e a rapariga virou-se para ele. – Preciso de ajuda, está aqui muita gente.
- Está bem avô. – respondeu Rei levantando-se e encaminhando-se até ele. Deu-lhe um beijo na testa e dirigiu-se para o exterior.
***
Três pessoas encontravam-se reunidas num lugar remoto. A escuridão era quebrada pela iluminação provinda de tochas cravadas nas paredes. O ambiente era pesado, o ar difícil de respirar. Uma rapariga de cabelos negros estava sentada numa poltrona, a sua expressão era séria e o seu pensamento estava longe, enquanto olhava para a esfera negra que tinha em mãos. Um rapaz de cabelos negros andava de um lado para o outro desnorteado, pensativo. À parte, estava uma jovem que escovava os seus cabelos loiros, sorria e cantarolava, abstraída de toda aquela tensão.
- Como correu? – pronunciou-se um rapaz, quebrando o silêncio. A sua expressão era triste e cansada, no entanto, o seu rosto tinha linhas suaves reflectindo jovialidade e maturidade. Os seus cabelos negros caiam até pouco abaixo dos ombros. Os seus olhos eram de um verde intenso que se destacava pela tonalidade bronzeada da sua pele. Trajava uma camisa negra de gola levantada e mangas arregaçadas, ligeiramente aberta no peito, mostrando os seus peitorais bem definidos. As suas calças eram negras e desportivas, ligeiramente largas e levemente rasgadas nos joelhos, e os seus ténis igualmente negros. O pescoço estava enlaçado por um grande fio em que pendia uma cruz prateada, que caía sobre a região visível do peito.
- Mais ou menos. – respondeu o rapaz continuando às voltas pelo local.
- Mais ou menos? O que queres dizer com isso? – a rapariga levantou-se e entregou-lhe a esfera, para a qual ele olhou confuso, dirigindo o olhar à rapariga que estava à sua frente.
- Conseguimos o que queríamos, mas… - a rapariga parou procurando as palavras certas para explicar o que acontecera – As navegantes apareceram e… Bem, agora há mais uma.
- Mais uma? Quer dizer que elas também vieram para cá? – perguntou repentinamente.
- Não, não são as mesmas. – o rapaz olhou-a de cenho franzido – Estas não me pareceram tão fortes, mas mesmo assim conseguiram destruir o Hebi.
- Não são tão fortes... Pois sim. Eu disse que deveríamos ter ficado por lá, mas nunca me dão ouvidos… - murmurou a loira, continuando a cantarolar.
- Como é que consegues estar tão descontraída? – perguntou a morena dirigindo-se até à loira que escovava os cabelos.
- Antes só tínhamos de nos preocupar com quatro navegantes, agora temos de nos preocupar com… - disse a loira calmamente, parando para pensar um pouco. - …oito. E vocês são os culpados. – apontou para os dois morenos que estavam com ela durante o ocorrido – Quiseste que o Hebi matasse a rapariga! – disse exaltada para a morena – Tu tens de fazer sempre o que queres, não é? Mesmo sabendo que ela não tinha nada a ver com os nossos assuntos. Agora desenrasquem-se! – completou decidida.
- Sua pirralha! Sabes muito bem porque é que fazemos isto! – disse a morena exaltada.
- Não importa. Temos o que queríamos. – disse o moreno de cabelos longos pondo fim à discussão – Mas temos de acabar com elas. – a loira olhou-o apreensiva – Não vou permitir que destruam os nossos planos.
***
Numa sala de jantar, estavam à mesa cinco rapazes. A mesa oval, de madeira e tampo em vidro, encontrava-se repleta de diversas iguarias. A sala era iluminada por um ilustre candeeiro antigo. E as paredes estavam decoradas com quadros que retratavam belas paisagens, conferindo cor e harmonia ao espaço.
- Como estás agora Mamoru? A dor de cabeça já passou? – perguntou Kunzite que estava sentado num dos extremos da mesa.
- Estou bem. – reconfortou o moreno – Passou de repente.
- Eu disse que era só esperar pelo efeito dos comprimidos. – disse Nephrite – Sempre que tenho uma dor de cabeça é tiro e queda.
- Pois… Mas as tuas dores de cabeça costumam dever-se às farras, não é? – zombou Zoicite fazendo os irmãos rir.
- Bem, eu vou dormir. – afirmou Mamoru levantando-se da mesa.
- Mas já? Ainda é tão cedo. – disse Jadeite olhando o relógio de parede.
- Eu sei. Mas estou cansado. Até amanhã. – Mamoru saiu da sala de jantar e foi para o quarto, seguido por Hoshi.
***
A sala ampla, de paredes vazias, estava em absoluto silêncio. Uma enorme janela possibilitava uma vista magnífica sobre a cidade. As diversas luzes, dos edifícios e das viaturas, destacavam-se como pequenos pontos no meio da escuridão da noite. Sentada no parapeito da janela, Haruka contemplava a cidade. Uma mão tocou-lhe no braço fazendo-a despertar dos seus pensamentos. Michiru sentou-se à sua frente, olhando para ela.
- Estás melhor? – perguntou Haruka acariciando a face da bela rapariga à sua frente.
- Estou. – respondeu com uma voz cansada – Desta vez foi por pouco.
- Sim. Pensei que te ia perder. – desviou o rosto contemplando novamente a paisagem – E eles conseguiram o que queriam. Mais uma vez.
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As duas loiras estavam no sótão a conversar, a esclarecer os últimos acontecimentos, longe da vista e, principalmente, dos ouvidos dos restantes habitantes da casa. O espaço era um pouco pequeno, mas ainda assim acolhedor. Um tapete cor-de-rosa, bastante felpudo, seria de assento às duas raparigas e a dois gatos, um preto e um branco, cada um com um quarto crescente na testa. Uma estante estava carregada de diversos livros infantis e mangas, junto a uma cadeira cor-de-rosa com as costas em forma de coração. Vários peluches cobriam uma pequena cama, revestida por uma colcha estampada com coelhos e corações.
- Ainda me custa a acreditar que és tu uma das navegantes que procuramos. – afirmou Minako.
- Pois… A mim também custa. – disse Artemis olhando para o lado.
- O que queres dizer com isso? – perguntou Luna desconfiada – Pensavas que me tinha enganado?
- Não! – exclamou o gato aflito – É que… Bem… Digamos que a Usagi não é exactamente o protótipo de uma navegante. – Usagi ficou com o rosto completamente corado, enquanto que o gato começou a assustar-se com o olhar de Luna.
- Pois olha que a Mina também tem muito que se lhe diga. – retorquiu Luna para espanto das duas amigas – Afinal de contas não só não derrotou o demónio, como ainda não encontrou nenhuma das restantes navegantes. – desta vez foi o rosto de Mina que corou fortemente - Embora isso seja mais culpa tua do que dela. – completou Luna de forma provocativa. Antes que pudessem continuar com a discussão, foram interrompidos pelo som de passos de alguém a subir as escadas.
- Meninas venham comer, já está tudo pronto. – informou Ikuko chegando ao sótão. As raparigas assentiram e seguiram-na levando os respectivos gatos consigo.
