O Monstro e a Pantera de olhos azuis
{Inoue Orihime}
Quando eu o vi pela primeira vez, eu tive medo... Medo dele...
Aquele cabelo azul, aqueles olhos azuis e ameaçadores, uma voz assustadora. E aquele seis marcado nas costas dele... Foi ele quem machucou o Kurosaki-kun... E não vai demorar para ele fazer isso de novo...
Curei o braço dele só por que me fora ordenado... Aquilo que ele fez com o garoto... A forma como ele o matou... Me fez ter medo só de estar na presença dele...
Aquele riso maligno... Aquela máscara presa ao rosto dele... Dentes afiados como os de uma pantera faminta...
Quando eu o vi pela segunda vez, eu tive dúvida... Dúvida do por que ele veio me ver.
Aquele cabelo azul, um olhar azulado e curioso, uma voz tímida. E aquele buraco que ele tem na barriga.
Ele veio até mim quando eu estava angustiada. E sem querer, ele me fez rir com algo tão simples como se complicar para dizer o meu nome...
Quando ele se foi, eu fiquei imaginando o que vou sentir quando eu o vir pela terceira vez.
Desde aquela segunda vez, se passaram muitas noites.
Eu rezava por ele também...
Numa noite, finalmente o sono chegou até mim. Deitei-me na cama daquele quarto e me cobri com o lençol branco. Por alguns minutos, olhei para a pequena janela no topo da parede, uma janela com grades de prisão. Lá fora estava aquela estranha lua. Uma meia lua. Fechei os olhos e rezei pelos meus amigos. Para que eles ficassem bem. Especialmente...
– Kurosaki-kun...
Adormeci com esses pensamentos. E sonhei com um monstro e uma pantera de olhos azuis.
Eu estava sozinha no deserto do Hueco Mundo. Era noite, estava frio e solitário. Caminhando em direção ao nada, uma sombra encobriu a minha. Com medo, eu me virei para ver o que ou quem era. E eu vi.
Era horrível. O corpo era humano, mas nas mãos e pés tinha garras enormes. A pele era pálida. O cabelo era laranja... Como o do Kurosaki-kun...
A cabeça tinha uma máscara... Parecida com a de um Hollow. Não... Definitivamente era uma máscara Hollow. Com dois chifres enormes. Olhava para mim. Ele ia me atacar.
Eu tentei correr, mas meu corpo não se moveu. Ele estava se aproximando cada vez mais. Eu estava com muito medo... Eu não poderia me defender daquele monstro...
Foi então que ele apareceu...
Era uma pantera branca. Mas não tinha pelos. Seu corpo era feito do mesmo material da máscara de um Hollow. Era enorme. E estava olhando para mim. Os olhos dele eram azuis... Como os do sexto Espada...
Quando a pantera percebeu que eu estava em perigo, sumiu do lugar onde apareceu e surgiu na minha frente. Rosnando para o monstro. Estava me protegendo.
Como se não importasse a presença daquela pantera, o monstro continuou avançando, e quando ergueu a mão direita, uma espada negra veio até ele, ele a apontou para mim... Quando iria me golpear, a pantera segurou a espada com a boca. Arrancou a arma fora e cravou os dentes no braço do monstro. Este rugiu de dor.
Foi um som horrível, eu podia sentir meus tímpanos chegarem a beira de um estouro. Tapei as orelhas tentando abafar aquele barulho. O monstro jogou a pantera contra uma rocha. Ficou imóvel, como se estivesse morto. Aquele ser branco estava me protegendo, e por minha culpa agora estava machucado... É minha culpa... Minha...
Eu pensei que tudo estivesse perdido. Que aquele seria o meu fim. Ser morta por um monstro. Mas... A pantera se levantou. Da boca saia um tipo de sangue verde. Não sei se era o sangue dele ou se era do monstro... Novamente ele se colocou na minha frente, me defendendo.
Os dois se atracaram... A pantera estava perdendo... Eu me desesperei. E gritei.
– PARE! KUROSAKI-KUN! PARE! – eu gritei desesperadamente.
Eu acordei... Tremendo... Assustada... E querendo entender como eu sabia que o monstro era o Kurosaki-kun...
Alguém bateu na porta do quarto. Logo ela se abriu e Ulquiorra entrou. Trazendo comida e bebida para mim.
– Bom dia... – disse ele friamente. Deixando a bandeja no criado mudo.
Eu olhei pela pequena janela no topo daquele quarto, ainda era noite. E a lua ainda despontava no céu.
– Bom dia. – eu respondi.
– Alimente-se. – disse ele olhando diretamente para mim, sem esboçar qualquer tipo de expressão. – Quando acabar, eu levarei os pratos embora.
Obedeci. Trouxera torradas e biscoitos com leite morno para acompanhar. Mas eu não estava com vontade de comer... E ele percebeu.
– Não tem fome, mulher? – ele me perguntou.
– Sim... Mas... – eu não sabia o que dizer.
– Se não quer comer mais, eu levarei a comida.
– Não, eu vou comer tudo...
– Então sirva-se. – ele colocou as mãos nos bolsos e ficou parado, me observando.
Mesmo que me incomodasse com ele me olhando daquele jeito, eu não podia reclamar, apenas comi tudo e por último bebi o leite que já estava um pouco frio.
– Terminou? – perguntou ele ainda me olhando.
– Sim. – respondi, colocando o copo do leite na bandeja.
Eu não vi como ele fez aquilo. Num momento estava na minha frente, no outro já estava preparado para sair. Já com a bandeja na mão. De frente para a porta que se abriu assim que ele se aproximou mais.
– Se quiser sair, tem minha permissão. Porém só poderá andar nos corredores. Não tem permissão para entrar nos aposentos, nem para sair do palácio. Pode ficar perto das janelas e apreciar a paisagem do deserto se for de sua vontade. Aconselho que não troque palavras com os habitantes daqui. Fui claro? – ele me olhava por cima do ombro esquerdo.
– Sim, senhor. – foi tudo o que consegui dizer.
– Ótimo. Se precisar de mim para reencontrar o caminho para este quarto novamente, basta um simples toque do seu dedo indicador no número quatro talhado na sua pulseira. Ele contem uma minúscula parte da minha Reiatsu, e eu saberei onde você está. E irei buscá-la.
– Certo... Mas eu acho que consigo acertar o caminho sozinha...
– Eu tenho sérias dúvidas quanto a isso...
–... – eu não consegui dizer nada.
– Desfrute do Las Noches. – nessas palavras ele se foi. Tão rápido que nem pude enxergar.
– Eu tenho sérias dúvidas... – eu disse imitando a voz dele. – Eu consigo achar o caminho sozinha! Quem ele pensa que é? – eu cruzei os braços indignada. Olhando de lado. Furiosa.
Resolvi que iria mesmo caminhar por aí. Mesmo que eu me perdesse, não iria chamá-lo para me buscar.
Andando sem um rumo definido, eu passei por vários corredores. Todos parecidos. Não. Todos iguais. Uma porta aqui, outra ali, e várias janelas com vista para o deserto lá fora. Parei em uma delas e olhei a imensidão seca do Hueco Mundo. Eu queria ir embora desse lugar agora mesmo... Mas assim, eu não poderia atrasar os planos do Aizen...
Fiquei olhando para fora por vários minutos, até que alguém apareceu.
Muito alto, magrelo, roupas brancas, sapatos pontudos, cabelo comprido e escuro, um estranho enfeite na gola da roupa, um tapa-olho cobrindo o olho esquerdo e um sorriso debochado estampado no rosto.
– O que a nossa convidada faz aqui fora? – perguntou ele a poucos metros de distancia de mim, se encostando à parede. Logo em questão de milésimos de segundo já estava bem perto de mim cruzando os braços.
–... – as palavras sumiram.
– O que foi? Tá com medinho é? Ou o Ulquiorra arrancou a sua língua? – perguntou ele mostrando a língua dele para mim. Tinha um número cinco gravado nela.
"Ulquiorra... é o jeito..." eu pensei, já levando a mão à pulseira.
Mas então... Ele chegou... O Sexto Espada.
– Deixe-a em paz e vá cuidar da sua vida Nnoitora. – mandou Grimmjow de algum lugar atrás de mim.
Olhei para trás e me certificar se era realmente ele. Eu estava certa. Era ele. E estava tão perto de mim que esbarrei o nariz no peito dele. Afastei-me um pouco para trás e olhei para cima. Ele é muito alto. Estava olhando diretamente para mim. Sério.
Na terceira vez que o vi, eu senti alívio... Alívio por ele estar aqui.
Aquele cabelo azul, um olhar sério e protetor, uma voz autoritária e aquela máscara que está presa ao rosto dele.
– Vem comigo garota. – ordenou ele para mim, fazendo um gesto com a cabeça para que eu fosse com ele.
Sem reclamar, eu obedeci. Caminhando logo atrás dele.
– Sempre estragando a diversão dos outros não é Grimmjow? – disse Nnoitora irritado.
– Cala a boca. – respondeu Grimmjow, sem parar de andar.
Já eu, não sei por que, mas parei de andar sem perceber. O Sexto Espada olhou para trás e disse:
– Acho que eu disse para vir comigo.
– Desculpe... – logo dei cinco passos apressados e voltei a acompanhá-lo.
Fomos os dois juntos sem olhar para trás. Depois que achei que já estávamos longe o suficiente, eu agradeci a ele:
– Obrigado. – disse baixinho.
– Se pensa que eu vou fazer isso sempre, pode ir tirando o cavalinho da chuva. – isso foi realmente uma bela patada da parte dele.
–... – e mais uma vez, eu fiquei calada.
– Mas mesmo assim, eu não podia deixar ele fazer nada com você... – ele disse olhando para baixo.
Por que ele está sendo gentil desse jeito comigo? O que ele está querendo? Ainda mais que ele é um cara do mal... Mas eu... Eu estou me sentindo segura aqui ao lado dele...
O que está acontecendo comigo?
