Shura havia ligado para o celular de Aiolos exatas 27 vezes antes do mesmo atender. Como o grego não agüentava mais ouvir o celular tocando e começou a imaginar que era alguma emergência, respondeu, mal humorado.
- Sim, Shura?
- Aiolos, desculpe ligar a essa hora. – Somente quando o espanhol disse aquilo que o grego parou para olhar o relógio: seis da manhã. Não havia dormido, com todos os acontecimentos do dia anterior. – Precisamos ir conversar com Carlo.
- Shura, nem comece. Ele nunca vai perdoar o que nós fizemos a ele. Você viu a cara dele ontem, quando ele saiu do quarto! – Disse, desolado.
- Me escuta! Kamus me ligou, ele vai pegar um avião para a Itália daqui a pouco! Nós precisamos ir falar com ele, mesmo que ele nãos nos perdoe. – Shura parecia aflito. Queria demais consertar tudo com Carlo, e temia não ter outra chance. – Se você não for, eu vou sozinho.
Aiolos mordeu os lábios fortemente. Seu medo era o mesmo de Shura, precisava ao menos falar com o ex-marido. Depois, disse baixinho ao telefone, para esconder sua voz trêmula. – Vou me arrumar. Você me pega aqui?
- Pego, qual o hotel? - O espanhol pareceu mais animado com a resposta.
- The Riviera. – Disse, já pegando as roupas do armário. – Até logo.
- Até. – Shura desligou e também foi se arrumar.
Em quinze minutos, Aiolos estava no carro com o espanhol, rumo ao aeroporto. Enquanto isso, Carlo estava esperando seu avião, lendo. Ainda estava desolado e procurava se distrair. Havia avisado para Kamus sobre sua ausência de alguns meses, agradecido pelo outro compreender e aceitar.
A última coisa que esperava naquele dia, na sua vida, era ver aqueles dois ali. Havia levantado os olhos para ver os horários dos aviões e os viu, caminhando em sua direção e durante aquele momento, toda a pouca paz que conseguira reunir durante a noite tinha ido embora. Tinha olheiras enormes como Aiolos e Shura, porque também não havia dormido. Para evitar brigas, apenas pegou suas malas e se levantou, fazendo menção de ir para outro banco esperar a hora de partir.
- Carlo, espera. – Shura fez o movimento de tentar segurar o braço do italiano, mas parou no meio.
- O que vocês querem? Não humilharam o suficiente ontem? – Perguntou de modo seco, e agora sabia que já que começara, não iria parar até soltar tudo que estava engasgado ali. Agora amaldiçoava Kamus por ter contado para eles o que iria fazer. "Mas que raios esse francês tinha na cabeça?"
- Escuta... Deixa a gente explicar... – Apenas o espanhol falava. Aiolos apenas olhava Carlo, não se sentia no direito de estar fazendo aquilo. – A gente lamenta muito...
- O que vocês pretendem explicar? E tenho certeza que lamentam... Por serem pegos.
- Não é nada disso! Carlo, por favor... Só nos ouça, é tudo que pedimos... – Pediu. Carlo ficava cada vez mais estressado com aquilo. Olhou o relógio: Ainda tinha mais uma hora. Suspirou fundo, e pensou. "Se eu quero respostas, pode ser a única chance de conseguir."
- Está bem! Comecem. – Voltou a se sentar, e Shura e Aiolos suspiraram aliviados.
Durante a hora que se passou, Shura contou sua versão e Aiolos, a sua. O italiano ouviu os dois calmamente. Bom, suas perguntas de fato foram respondidas: os motivos, o período de tempo que fora traído, tudo. O do espanhol era egoísta, porém ao menos ele fora sincero, e já o do grego... Podia compreender. Ele mesmo fora e voltara com Afrodite diversas vezes, sem conseguir se livrar da influência do outro, isso até conhecer Aiolos.
Nesse momento, seu avião fora chamado e Carlo se levantou, perante os olhares inseguros de seus dois acompanhantes. Depois de pensar durante o pouco tempo que tivera, virou-se para ambos e finalmente deu sua resposta.
- Tudo que eu posso dizer é que... Eu consigo perdoá-los, mas não sou capaz de esquecer... – Olhou para Shura, e mais demoradamente para Aiolos. – Eu tenho que ir.
O espanhol ficou mais tranqüilo, e agradeceu o italiano. Já o grego, apesar do grande alivio, não conseguia se sentir plenamente feliz tanto pelo fato de que havia magoado Carlo, como pelo fato de que provavelmente nunca mais ficariam juntos.
O canceriano se despediu de ambos e embarcou no avião, em busca de um pouco de paz e tranqüilidade em sua terra natal. Ficou por lá durante o ano que se passou, falando com os amigos por e-mails e cuidando do escritório a distancia, na medida do possível.
Durante aquele ano, Shura tentara restabelecer seu relacionamento com Saga, e Aiolos havia apenas cuidado mais de sua carreira de engenheiro, crescendo bastante. Também falara bastante com Ikky, e aconselhou-o a buscar outro para si, pois não sabia quanto tempo iria ficar na Itália, e nem se iria voltar.
Carlo não deixara de pensar em Aiolos e nem de falar com ele por e-mails, e começava a realmente pensar se não poderiam ter algo novamente. Mas, no fim das contas, o único motivo para voltar era porque Aiolia havia morrido em um acidente de carro. Aparentemente, voltava bêbado de uma festa quando bateu com outro motorista embriagado. Ambos morreram na hora.
Pegou o primeiro avião que achou para voltar à Grécia, para poder ir pelo menos ao enterro. Estava muito chateado, afinal também sempre fora amigo de Aiolia, e imaginava como Aiolos deveria se sentir por perder o irmão mais novo. E, como ele imaginava, o ex-marido se sentia horrível, não parava de chorar, e Shura estava tão chateado quanto o italiano.
No dia do enterro, foi a primeira vez que os três se reencontraram. Cumprimentou o espanhol normalmente, porém foi mais carinhoso com Aiolos. Deixou que o outro chorasse consigo, e o consolou, como se ainda fossem casados. O grego em momento algum deixou de amar o italiano, e nos meses que se seguiram a tragédia, o canceriano ficou incondicionalmente ao seu lado para apoiá-lo.
Apesar de todos aqueles problemas que passaram no ano anterior, Carlo entendia que era uma hora difícil para Aiolos, além do tempo que ter ficado fora o ter ajudado a superar toda a situação anterior. Com o tempo, o sagitariano foi superando a perda, e ele e o canceriano estavam bem próximos novamente.
Cinco anos depois.
Era um dia relativamente bonito, meio tarde, quando Aiolos acordou. Mexeu-se um pouco antes de abrir os olhos, e logo sentiu o corpo do marido no seu, o abraçando. Sorriu e o olhou, meio sonolento, e o encontrou dormindo. Olhou o relógio e se espantou ao ver que era quase meio dia.
Ele e o italiano decidiram voltar uma última vez, tentar ao menos. Levaram o relacionamento com calma e agora estava tudo como era antes. Agora, sem a sombra de ninguém entre eles.
- Carlo... Acorde... – Sussurrou baixinho, acariciando os cabelos do outro.
O mesmo sorriu de leve, abrindo os olhos. Ultimamente estava com o sono meio leve, então não demorava a acordar.
- Bom dia... – O canceriano murmurou.
- Bom dia. – O sagitariano sorriu e murmurou de volta.
Carlo deu um leve selinho em Aiolos e se sentou na cama. O grego sentou-se também e suspirou, pensando no que teriam que fazer em algumas horas. Logo ouviu o italiano falar algo enquanto o olhava.
- Melhor nos arrumarmos, Olos...
- Verdade, senão depois não vai dar tempo.
Ambos se levantaram da cama e foram tomar banho. Haviam vendido o outro apartamento e agora moravam em outro, mais ou menos do mesmo tamanho. Carlo não se sentia à vontade de viver naquele lugar depois de pegar Aiolos e Shura, então optou por aquela decisão.
Depois do banho, se arrumaram e foram para o carro. No caminho, compraram umas flores.
Shura e Saga já estavam a caminho naquela tarde, eles também haviam conseguido se reconciliar. Demorou bastante, foram várias conversas longas e pesadas até conseguirem falar um para o outro tudo que os incomodava.
Quando Carlo e Aiolos chegaram ao cemitério, o capricorniano e o geminiano já estavam lá. Os quatro se cumprimentaram, e o sagitariano pôs as flores no tumulo do irmão.
- Já faz cinco anos, não? – Perguntou Shura, abraçando a cintura de Saga, ao mesmo tempo em que olhava o outro casal.
- Pois é... – Disse Aiolos, meio deprimido. Encostou a cabeça no ombro de Carlo e os quatro ficaram em silêncio. Depois de ficarem ali algum tempo, decidiram ir almoçar juntos em algum lugar por perto.
Os quatro voltaram a ser amigos, apesar de que Saga e Aiolos ainda não se davam muito bem. Os dois casais ficaram bem, porém Carlo estava um pouco mais ciumento com o marido, e o mesmo entendia e não parecia se incomodar muito. Quanto a Ikky, o italiano não mencionou nada com Aiolos sobre o ocorrido, afinal o japonês começara a namorar Seiya e agora nada acontecia entre eles, além de amizade.
Aiolos começou a pensar, enquanto via os outros conversando – "Eu nunca diria que isso podia acontecer... Que Saga e Carlo poderiam nos perdoar, e sentarmos todos juntos, como amigos novamente..."
Ao mesmo tempo, o italiano também pensava em algo, sorrindo para seu esposo, e depois para os demais na mesa. Pensava em como todos eles, de algum modo, tiveram a chance de começar de novo.
Acabou! Gente, desculpa a demora, desculpa mesmo. Esse capítulo é dedicado à Muk, e todos aqueles que deixaram reviews! Em especial, para aquela moça que ameaçou me bater via Mukuroo. Bom, espero que tenham gostado da fic, porque eu gostei muito de escrever, apesar dos bloqueios criativos gigantes.
Beijos, e mandem reviews o/
