Capítulo III

Bob Andrews e Dave Jablonski estavam no corredor, conversando, quando Gina emergiu da rouparia com a expressão assustada e ajeitando os cabelos. Harry veio logo atrás dela, o que a fez corar intensamente. Inexistia um motivo plausível para que um cirurgião e uma médica residente tivessem se trancado ali.

Ambos os médicos fitaram Gina e esboçaram um sorriso, que ela devolveu com a esperança de que não desconfiassem de que passara quinze minutos em colóquio particular com Harry.

— Ei, Gina — disse o dr. Jablonski —, nosso grupo vai a um barzinho, depois do expediente, para tomar uns drinques. Quer ir conosco? — Dave, então, percebeu Harry empertigado logo atrás dela. — Você também está convidado, Potter. Seria um prazer.

Gina percebeu que os membros da equipe médica se tratavam uns aos outros pelos prenomes, com exceção do dr. Potter. Até mesmo seu crachá de identificação omitia o primeiro nome, como se este inexistisse. Maneira pessoal de manter distância dos colegas, como havia mantido dela até quinze minutos antes. Agora, a distância entre os dois tendia a zero, e de preferência sem nenhuma roupa para atrapalhar.

Isso trouxe à mente de Gina uma idéia pouco palatável: poderia ficar nua diante do homem que, na verdade, só existia em suas fantasias?

— Não, obrigado — foi a resposta de Harry Potter. — Com a chuva, as ondas estão boas, e eu pretendo surfar um pouco.

Surfar? O assombro tomou conta dos outros três rostos. Ninguém imaginava Potter como esportista, muito menos da tribo radical. Além disso, a frase que pronunciara aos colegas era a mais longa em muitos meses. Harry vivia concentrado em trabalho, assim como se concentrara em beijos habilidosos, perfeitos.

— Bem, então, divirta-se — desejou Bob.

— E quanto a você, Gina? — insistiu Dave. — Vai surfar ou beber?

Gina riu, aliviada por constatar que ninguém havia notado a tensão entre ela e Harry. Nunca tinha praticado exercício mais sério do que saltar na areia quente, de pés descalços, até o mar, onde dava algumas braçadas de completa amadora.

— Nem uma coisa, nem outra — respondeu. — Estou escalada para o plantão da emergência.

— Certo, talvez na próxima oportunidade — finalizou Bob.

Ele e o colega acenaram e seguiram em frente pelo corredor.

Novamente sozinha com Harry, Gina lembrou-se de não ter dado resposta ao pedido dele. Sabia o que desejava, porém não seria a coisa certa a fazer. Caso cedesse ao médico e à demanda do próprio corpo, poderia arruinar sua carreira como cirurgia. Bastaria um leve boato, e sua vida profissional viria abaixo.

No entanto a proposta era incrivelmente tentadora.

— Não sei se gosto de ver como você é tão popular — comentou Harry em tom grave. Palavras de um quase misantropo, excluído do circuito social do hospital.

Gina pensou que ele podia ser pouco sociável com os colegas, mas conhecia muito bem as artes da sedução. Devia ter conquistado diversas estudantes durante o curso superior.

— Bem, estou de saída — Harry completou, fixando os olhos verdes em Gina. — Por favor, não demore a tomar uma decisão. Nós nos veremos na segunda-feira, mas, se resolver me encontrar esta noite, ligue para o meu celular. — Passou-lhe um cartão com o número anotado.

— E você viria me buscar correndo?

— Provavelmente — ele respondeu, em tom malicioso. Era mais provável, refletiu Gina, que ela fosse atrás de Harry.

Seria constrangedor admitir, até para si mesma, que não dormia com um homem fazia muito tempo. Por conta de sua sina de se converter em amiga querida dos rapazes que conhecia, tivera poucos namorados. E também nos casos que incluíam cama, o relacionamento acabava se tornando mais amistoso e divertido do que passional.

Harry lhe acenava com outra perspectiva: derreter-se de paixão, vibrar de tensão erótica até satisfazer todos os sentidos adormecidos. Não se tratava, porém, só de satisfação sensorial. Ela se sentia segura ao lado do orientador, realizada ao aninhar-se no peito dele, amada ao receber e retribuir seus beijos agressivos.

Não era santa e pensava em sexo. Mas também em um pouco de ternura, na experiência intelectual e afetiva que poderia resultar do relacionamento com um cirurgião sério e respeitado. Gina sorriu para si mesma ao concluir que ninguém imaginaria Harry como um amante fogoso, capaz de devorá-la até com os olhos.

Ela jamais se contentaria com apenas uma noite.

Harry dirigiu seu jipe até a praia de Acádia e estacionou o mais perto possível da areia. A paisagem era portentosa. Na costa da Flórida, as ondas eram normalmente medianas, ideais para o surfe recreativo, em oposição às de porte mais competitivo das praias da Austrália ou do Havaí.

Naquela tarde, porém, as ondas estavam altas, convidativas, e Harry apressou-se para entrar na água. Adorava a praia, a temperatura da areia sob os pés, a água tépida batendo em seu corpo ao deslizar em cima da prancha.

O esporte o acalmava. Era o único que praticava, convencido de que lhe fazia bem, por alguns momentos na vida, sacrificar sua obsessão por controle e deixar o oceano guiá-lo.

Quando criança, ele não conhecera o controle nem a bondade, vendo seu pai maltratar ou espancar a mãe depois de monumentais bebedeiras. Adolescente, o próprio Harry experimentara o álcool como redutor de inibições diante das garotas. Chegara quase a violentar uma delas, sob o efeito da aguardente, depois de obrigá-la a se embriagar também. Depois, o pai tinha ido embora de casa, e aquele fora o dia mais feliz de sua vida.

Com dezessete anos, Harry jurara tomar conta da mãe e da irmã, Hermione, trabalhando e estudando com ferrenha determinação, sem distrair-se com nenhum dos divinos tesouros da juventude. Meticuloso, precocemente amadurecido, colocara coração e cérebro no estudo da medicina.

Era um jogo, um desafio que ele não podia perder, ainda que em prejuízo das emoções.

A responsabilidade para com a família estendera-se ainda para os primeiros pacientes, que confiavam nele e em sua patente habilidade como cirurgião ortopédico.

Ao longo dos anos, Harry tomara consciência de que seu comportamento arredio tendia a empurrá-lo para a solidão, mas nunca lhe fora fácil estabelecer diálogo e relações com os outros. Não era uma pessoa falante e simpática, ao contrário de Gina Weasley, capaz de conversar com um mudo.

Ele passara por sua casa ao deixar o hospital, a fim de trocar de roupa e vestir short e camiseta, porém não cessara de pensar em Gina.

Devia ter perdido a cabeça.

Em vez de aconselhar e acompanhar o progresso da jovem residente, havia proposto uma noite de amor com ela, como prelúdio de uma série de encontros íntimos mais frequentes.

Pretensão excessiva. Estava quase certo de que Gina diria "não".

Ela não ia bem no treinamento e ficara claramente nervosa com a probabilidade de que um romance com seu orientador rompesse o tênue fio que ainda a ligava ao hospital. Harry não compreendia a conduta de Gina. Pelos registros escolares, tinha tudo para ser uma profissional brilhante. Sua relação com os pacientes era fantástica. E, não obstante, ela se mostrava insegura, ansiosa, estouvada. Nada disso podia ser explicado por uma secreta atração por ele.

Harry suspeitava que Gina escolhera errado sua especialização. Seria mais feliz como psiquiatra ou pediatra. Por isso, ele evitava que a discípula participasse mais efetivamente das cirurgias, que exigiam um autodomínio que ela parecia não possuir. Por que havia elegido a ortopedia, quando seu currículo acadêmico lhe abria uma série de outras opções?

Enigma à parte, Gina era adorável, dona de um corpo que inevitavelmente despertava a luxúria. Harry saiu do estado de dúvida ao pensar que, melhor do que entender a estagiária, seria despi-la aos poucos, beijando-lhe cada centímetro de pele, até remover com a boca aquela incrível calcinha estampada com lábios vermelhos.

O dr. Potter apanhou a prancha na traseira do jipe e caminhou pela areia, resolvido a surfar enquanto Gina enfrentava o plantão no frio, estéril e agitado hospital.

— Ei, Harry!

Ele olhou e viu Neville e Rony avançando em sua direção. Eram seus companheiros de surfe desde o colégio, quinze anos antes, e encontrar-se com eles servia de refrigério para suas responsabilidades e preocupações.

— Então, como estão as coisas? — perguntou a distância.

— Você demorou — Neville queixou-se, atirando a própria prancha na areia antes de sentar-se.

— Um paciente grave, só isso. O que vocês pensaram? — Os amigos nunca imaginariam que ele estivera ensaiando sexo com uma colega, na rouparia do hospital. Chutou levemente a perna de Neville. — Por que você se sentou? Vamos pegar as ondas antes que sumam.

— Parei aqui porque estou com os ossos moídos. Problema para um ortopedista como você.

— Pare com isso. Mexa-se e suas dores vão sumir — disse Harry.

— Ele vai perder as melhores ondas do ano — Rony reforçou.

Neville deitou-se na areia, cobriu a vista com a mão e recitou:

— Vocês não me entendem. Sou um homem casado e, ontem, Tammy me manteve acordado e aceso quase a noite inteira.

— Bem, mas você não deve ter engravidado — Rony zombou.

— Isso é mais do que estou disposto a ouvir — protestou Harry, ainda excitado pelo encontro com Gina, uma hora antes. Não queria escutar nenhuma palavra sobre sexo.

— Não preciso me gabar, mas você deveria conhecer as delícias da vida conjugal, Harry, embora eu creia que está casado com aquele hospital. Sua irmã, Hermione, arranjou mais uma candidata para você, sabia?

Droga! Harry franziu a testa. De certo modo, os amigos participavam das buscas de Hermione, casada com Rony. Harry adorava a irmã, a despeito da tendência dela de julgar que todos os problemas dele se resolveriam por meio do casamento com uma de suas colegas.

Para poupá-la, ele nunca lhe diria que estava resolvido a Permanecer solteiro e não se importava em não ter companhia para jantar, exceto nas reuniões familiares. Bastava Hermione marcar um primeiro encontro, e ela desenvolvia expectativas que o irmão estava longe de poder cumprir.

Somente com uma pessoa Harry sairia mais de uma vez Gina Weasley.

Por enquanto, as qualidades dela centravam-se nas curvas sedutoras, nos lábios cheios cujo gosto eleja sentira. Precisava descobrir mais, sentir mais.

— Ponto para Hermione — Harry disse a Rony, em tom conformado. — Concordo em conhecer o novo achado de minha irmã, só para não contrariá-la.

— Obrigado! — exclamou Rony com entusiasmo, batendo a mão nas costas do cunhado. — Essa história de arranjar casamentos mantém Hermione longe da idéia de ter outro filho, o que ela realmente deseja. Mas, para mim, duas meninas já são o suficiente. Uma mal saiu do colo!

— Compre um cachorro para sua mulher — sugeriu Neville. — Suja tanto quanto um bebê, mas custa muito menos.

Todos riram da bem-humorada intervenção.

Harry não conseguiu deixar de pensar novamente em Gina. Com os seios fartos e as formas redondas, ela seria uma nutriz excepcional, talhada para parir e amamentar muitos filhos. Essa idéia o perturbou, pois conflitava com uma simples noite de paixão. Aliás, Gina também não era o tipo de mulher para uma só noite.

Aflito, ele incentivou os outros a entrarem no mar e saiu à frente, depois de depositar o celular junto às toalhas e pertences amontoados na areia. O aparelho estava ligado, mas não havia nenhuma chamada registrada. Por um momento, Harry tinha acreditado que Gina ligaria.

Foi com essa frustração e inexplicável ansiedade que ele enfrentou as ondas ao lado dos amigos. Como não havia perigo maior, permitiu-se um raro instante de desconcentração e surfou de maneira quase mecânica.

Em sua imaginação, Gina veio requebrando pela praia, a pele brilhante de loção protetora, os seios quase saltando para fora do sutiã. De que maneira aquele corpo curvilíneo se encaixaria no seu?

Harry suspirou alto, enfadado. A cena imaginada lhe provocou uma forte ereção, que ficou visível sob o short molhado. Seria melhor que os dois amigos nada notassem, senão ele se tornaria alvo de zombarias. Melhor ainda que Gina realmente não ligasse, escapando da proposta indecorosa.

Patético. Harry ordenou a si mesmo que apagasse a estagiária da mente e desse atenção à onda que crescia em sua direção, num desafio aos músculos das pernas.

A prancha se equilibrou na crista da onda, e ele sentiu os respingos de água fria. Era tonificante, e seus movimentos providenciais o mantiveram de pé, esquecido de Gina. Em oito segundos, a onda o catapultou até a praia, maltratando-lhe as costas até que, esgotado, Harry desabasse na areia.

Aquele tinha sido um de seus piores desfechos na prática do surfe.

— Uau! A água está gelada! — falou para três garotos sentados na areia, que sorriam para ele, divertidos com a situação. Já se conheciam.

Harry colocou a prancha de lado e espremeu a água dos cabelos; numa auto-avaliação, concluiu que se saíra muito bem para um surfista amador. Riu, satisfeito consigo próprio, até reparar que um dos meninos não só estava seco como ostentava um curativo na testa.

— O que foi, Andy? Não entrou na água? E esse machucado na testa?

— Mordida de tubarão — respondeu o menino inocentemente, alheio à dimensão de sua mentira. — Também me deixou seis marcas de dentes no pé!

— É mesmo? — Harry viu que Andy apenas dava de ombros.

— Era um tubarão pequeno, mas bravo. Escapei por pouco.

Poderia ser verdade. Os tubarões-martelo eram comuns nas águas próximas de Acádia e vinham até perto da praia, confundindo pernas humanas com alimento. Em geral cravavam os dentes nelas e logo liberavam a vítima, após constatar o equívoco.

— Bem, Andy, não entre no mar por alguns dias, até que as feridas estejam bem cicatrizadas.

— Pode deixar, doutor.

Rony havia se acercado e ouvido o final da história. Comentou que o ataque de uma água-viva era pior que o de um tubarão. Nenhuma das duas espécies, claro, era bem-vinda entre os banhistas.

— Todos deviam observar os avisos e bandeiras colocadas pela guarda costeira — falou Rony, apontando para um sinal de alerta próximo deles.

— Tem razão.

Harry não queria perder as melhores ondas que já vira em muito tempo. Abraçou a prancha e voltou ao mar, evitando a área de perigo. Surfar, pelo menos até a hora do pôr-do-sol, também o ajudava a não pensar em Gina.

A tática funcionou por alguns minutos, mas Neville logo surgiu na linha de arrebentação, gesticulando forte para o amigo. Aborrecido com a interrupção, Harry cortou suas evoluções em cima da prancha e apresentou-se.

— O que foi? Vocês não me dão sossego!

— O seu celular está tocando — Neville informou secamente.

Droga! Harry apressou-se até o lugar em que se encontrava o aparelho, perto de uma toalha azul. Podia ser ela! Já não esperava que Gina ligasse, levando em conta as razões que ela enunciara, mais seus próprios motivos. Ainda assim, ele a desejava, inclinou-se a fim de pegar o celular, que já havia parado de tocar, e leu a mensagem de texto.

Ligue para mim. Gina.

Tensão, alívio e expectativa se mesclaram no rosto molhado de Harry, também respingado de grãos de areia. Ele calçou as sandálias e começou a se afastar rumo ao jipe.

— Aonde você vai? — gritou Neville, inconformado com a desistência.

As melhores ondas da temporada ainda rolavam atrás de montanhas de espuma. Neville e Rony não entendiam que, naquele final de tarde, pudesse haver uma alternativa de lazer mais atraente. Mas, para Harry, ela existia e tinha nome: Gina.

— Tenho um encontro — ele bradou de volta para os dois. — Os homens solteiros também podem ser felizes!

Planejava ser realmente feliz. Por uma noite inteira.

N/A: Ai esta mais um capitulo para vocês se divertirem, Harry é surfista , meu Merlim imagine o corpo desse homem. Adorei a forma receptiva que vocês aceitaram esta fics, desse jeito antes do ano novo ela esta completa, eu sei que já atingiram a meta dos 3 comentários um pouco antes, mas tive um problema no notebook e não consegue mexer no arquivo. xD

Bom 5 comentários e o quarto capitulo será postado.