Capítulo III
I: Tapete voador
Havia o som distante de areia movendo-se, sendo cavada do chão por um caminhar compassado. Um ruído rítmico, lento que fazia seu coração bater cada vez mais devagar. Estava acabando, era o que pensava. Sentia enjoo, tentou sair de sua letargia e levar as mãos à face, mas só pode ouvir um tilintar de corrente e os braços não se moveram de trás do corpo. Tentou então levantar de seus joelhos, mas as costas logo bateram contra uma superfície rígida, mal pode se mexer.
Os olhos cor de avelã se abriam lentamente e, arrastando o rosto no piso, ela tentou descobrir onde estava. Era uma caixa muito, mais muito pequena de madeira quase podre, estava curava sobre os joelhos, as mãos presas as costas, a face em contato com o chão. Podia ver cupins caminhando pelos cantos e sentir o cheiro de podre. Estava muito bem fechada, tanto que não sabia precisar que parte era a tampa, por entre as tábuas de madeira podia ver a luz amarela do sol do deserto, forte ainda que rala e lentamente foi dando-se conta de sua situação. Gemeu erguendo o rosto descoberto na madeira. Ouviu o som do um cavalo e instintivamente quis levantar outra vez. Amaldiçoou mentalmente os bastardos que a haviam capturado. Sua língua áspera guardava um gosto amargo e cítrico, provou dele por mais alguns instantes para conseguir lembrar-se de um sabor similar na água de seu cantil. Havia sido envenenada, mas não tinham intenção de matá-la. Não assim pelo menos.
O som calmo da areia foi lentamente substituído pelo ruído de uma mesquita fazendo-a tentar levantar alarmada uma terceira vez, sentindo o pescoço preso por correntes ao chão, assim como as mãos juntas as suas costas. Deitou-se então com calma e pôs-se a planejar sua fuga. Aqueles bastardos deviam ter envenenado cada gosta de água daquele oásis só para capturá-la. Mas seria em vão, eles não a conheciam.
- O Demônio do Deserto! – ouviu um deles gritar.
Sorriu de forma amarga, revelando os dentes pontiagudos e movendo de leve o queixo escamoso para frente.
- Jogaremos direto no fogo! Para que não tenha chances de escapar! – o mesmo homem continuava gritando na mesquita que parecia quieta para ouvir o discurso de seus raptores.
- Joguem-me. – sussurrou melancólica consigo mesma – Eu nasci em chamas do ventre de uma guardiã do fogo, isso não irá me matar, seus bastardos. – tinha um quê melancólico em sua voz.
Longo foi o tempo de solidão de Sahel, tão longo que se acostumou a falar consigo mesma para não perder o costume da língua. A multidão pareceu comemorar, mas houve a interrupção de uma segunda voz.
- Não é suficiente, – a voz anciã tossiu – o jeito mais seguro de matar um demônio é decepando a cabeça.
- Isso sim. – confirmou, sua voz baixa se assemelhava ao chiar de uma cobra – Mas para isso... – sorriu uma segunda vez e as tatuagens escritas em henna em seus braços reluziram douradas como seus olhos por alguns segundos.
- Abram a caixa! – um os caçadores brandiu e ela fechou os olhos fingindo estar ainda desacordada.
Ouviu o som de trancas e logo depois a caixa foi levantada, deixando apenas o piso no qual a moça estava acorrentada. O sol tingiu suas pálpebras de vermelho e teve que fazer algum esforço para não as mexer. O som da lâmina sendo desembainhada a alarmou, mas antes de qualquer movimento do seu pretendente a carrasco a areia levantou do chão da mesquita com uma rajada de vento forte. Uma ventania estranha se formou e a nuvem de poeira encobriu a todos. O metal das correntes fez um barulho alto quando os elos se partiram. A areia assentou, mas a ventania não cessava, poucas pessoas puderam ver uma dança de lençóis no ar, mantos e véus que estavam para vender na mesquita aos poucos se concentrando e ajustando de um jeito que formou uma silhueta feminina no ar, o rosto semicoberto e o corpo bem vestido pelos tecidos finos. E então, de repente o vento parou. Viram-na cair pesadamente por alguns metros até ser delicadamente colhida por um tapete voador que rápido ganhou altitude.
Ela olhou para trás apenas uma vez, todos gritavam pela Maga Lagarto, o Demônio do Deserto que escapara mais uma vez da morte. O vento que criava com seus poderes oscilava abaixo do tecido grosso que deslizava na corrente de ar, ela prendia o véu sobre rosto, escondendo a bocarra mutante. Já estava ali a tempo de mais, era hora de migrar mais uma vez.
II: O pedido da Rainha
A pequena armada estava pronta para partir uma vez mais, se encontravam na sala do trono fazendo os últimos preparativos, os templários receberam armaduras completas douradas como as dos cavaleiros e dos próprios príncipes. O sacerdote também, embora se apressasse em escondê-la embaixo da sua veste como podia. Ostentação era pecado e despertava a inveja nos demais.
- Por que um emblema pagão? – resmungava baixo – Sou fiel a meu deus, não fica bem para um homem em minha posição ficar andando por aí levando um símbolo herege no peito, assim como para os fieis que vem comigo.
- É apenas adorno, reverendíssimo. – Camus disse desinteressado, se soubesse que Shaka ia desandar a reclamar de cavalo dado teria bebido um pouco mais de vinho.
- Não poderiam ter adornado com uma cruz? – retrucou – Sou contra esse tipo de devoção a uma figura como essa, afinal, o que é essa mulher?
- Estranha-me muito reclamar tanto, reverendíssimo. – Mu falou com sua voz firme e calma, sem desviar o olhar as amarras frouxas de sua própria armadura. – Afinal é a imagem da Virgem que carrega no peito.
- A Virgem? – ergueu uma sobrancelha desconfiado – Nunca havia visto uma imagem assim.
- Creio que não tenha vindo muitas vezes ao nosso reino, assim retratamos a virgem, em sua beleza e juventude, com asas angelicais, ajoelhada em oração.
- Entendo.
- Sinto que a armadura não seja de seu agrado, mas é uma das doze melhores, lhe garanto. Para sua proteção. – Mu lhe olhou pela primeira vez, dando um sorriso leve.
O vislumbre do conselheiro o atordoou um pouco, ele tinha a expressão calma, mas o olhar era intenso como se conseguisse ler sua mente. Ficou emburrado um instante e praguejou mais um pouco desconfortável com o peso extra do metal. Encarou de novo o conselheiro despreocupado, sua aparência peculiar o havia alarmado de início, mas percebeu que sua índole era boa, além de tudo parecia ser o mais sensato até ali e tinha grande influencia sobre os príncipes. Decidiu então que ele era bom o bastante para ter por perto e andou para junto de seus soldados, reclamando o desalinho de suas armaduras.
- Ei, Mu.
- Hum? – sorriu para Aiolia que se escorava em uma mesinha perto de si.
- Essa Virgem da armadura não é a Virgem dele. – sussurrou olhando de viés para o clérigo.
- Não disse que era. – falou terminando enfim de vestir-se e levantando os braços para testar a mobilidade.
- Você deu a entender que sim.
- Fazer as pessoas acharem que estou dizendo o que querem ouvir é meu trabalho, Aiolia. – ele explicou simplesmente, fazendo uma expressão séria, mais cativante.
- Não faz isso comigo, faz? – disse ficando emburrado.
Mu riu de leve e encarou o jovem príncipe, eram amigos desde pequenos e por isso não havia títulos entre os dois, mas ainda assim era um conselheiro e, mesmo que o outro não se apercebesse, cumpria sua função.
- Coloque seu capacete. – falou desconversando.
- Responda minha pergunta. – ordenou um pouco mais agressivo, Mu achava divertido irritá-lo.
- Não preciso. – disse sorrindo mais uma vez e indo para perto de Mascara da Morte que lhe indicava um amassado no ombro da armadura.
Aiolia cruzou os braços e bufou, olhou para a peça faltante em sua armadura e torceu a boca. Saga também não usava o elmo, pensava olhando para o primogênito, então por que deveria?
- Saga é mais cuidadoso e experto que você. – Aioros parara a seu lado silenciosamente, o fez tomar um susto – Ponha o capacete.
O mais velho parecia distraído brincando com o medalhão que levava no pescoço, o abria, fitava o conteúdo demoradamente e fechava de novo, nunca o soltando da mão. Aiolia franziu o cenho insatisfeito com a ordem que todos pareciam lhe dar. Para um príncipe ele não mandava em absolutamente nada. Bufou. O mais novo tomou o medalhão na mão e também fitou seu interior.
- Ainda com isso?
- Ainda é um pouco difícil de acreditar.
- Também, pudera... – aproximou a peça do rosto – Não parecem asas de libélula. – Aioros o olhou desconfiado.
Se Aiolia dizia que não pareciam então acreditava, o caçula tinha a horrível mania de comer insetos quando era mais novo, então devia entender de asas. O moreno riu-se com a lembrança do irmão quase bebê enchendo a boca com insetos enquanto ele e Saga bolavam no chão de tanto rir, e claro, depois o castigo dos dois por terem sido maus irmãos. Suspirou engolindo o riso antes que Aiolia percebesse, ele sempre ficava irado com aquela história.
- Parece o que então? – perguntou fitando as asas cintilantes.
- Nada que eu tenha visto antes. – disse dando de ombros fechando o medalhão e devolvendo para o mais velho – Vai ver você acertou uma fada. – gracejou.
- Nem brinque com isso. – bateu na madeira da mesa três vezes.
- O que acham que ela quer agora? – Kanon se aproximava trajando a coroa de príncipe e ajeitando a capa nervosamente, olhava para Saori que se distraia no trono com o anel de realeza em seu dedo.
Aioros a olhou torcendo a boca e Aiolia gemeu sentindo no estomago que não seria nada bom. Shion adentrou o salão seguido por uma figura de cabelos entrançados e máscara no rosto, ele vestia uma túnica azul simples e uma capa alinhada, luvas grossas de couro e sua postura chamou atenção dos demais. Saga legou algum tempo para lembra-se de fazer a reverência. O Mestre Conselheiro avançou no salão ignorando os olhares de estranheza, apenas Kanon não mirava o outro assim, na verdade, sentia-se amargo em fitá-lo.
- Pode dizer-nos, vossa majestade, qual assunto tem a tratar? – Shion falava com autoridade, apesar de manter a voz suave, típica de conselheiros.
Saori olhou a todos se demorando em cada rosto antes de ver a assombração enegrecida no fundo do salão com seus cabelos esvoaçantes, a rainha engoliu em seco e respirou fundo levantando de seu trono e dando uns poucos passos no patamar. Juntou as mãos um pouco abaixo do peito relutou um pouco antes de fazer o que tinha que fazer.
- Estive pensando... – baixou a cabeça em um postura incomum a uma rainha, sua voz travou na garganta.
- Pensando em... – Aioros incentivou.
- Nessas ditas bruxas. Em como muitas delas são condenadas a fogueira injustamente. – silenciou engolindo em seco de novo.
- Fazemos o possível, minha rainha. – Shura falou.
- Eu sei, mas... Mas não acham que ela tem direito a um julgamento justo? Quero dizer, e se não for uma bruxa, se for alguém que é refém de uma maldição e de repente vai parar na fogueira porque assustou alguém. Não lhes parece que seria mais certo de nossa parte dar-lhes um julgamento como elas merecem?
- O que está propondo, Saori? – Kanon perguntou, para a agradável surpresa de seu gêmeo que segurava a pergunta na boca.
- Que as tragam para o castelo e façamos um tribunal com a corte. – disse gesticulando mais a vontade – Eu sei. – anteviu os protestos – Eu entendo que é complicado, nada fácil trazê-las até aqui. Mas condenar inocentes não é muito pior?
- Sacrifícios precisão ser feitos para manter a ordem. – Shaka disse – Provavelmente aquelas que foram acusadas injustamente fizeram por merecer. Se alguém está amaldiçoado é porque se envolveu com bruxaria, talvez até por vontade própria. Não interessa a igreja poupar ninguém, só o Senhor poderá julgar.
O discurso do sacerdote era sério e conciso com suas doutrinas, ele pouco se movia para falar em contraste com a rainha e seus gestos amplos de mão, por um segundo os dois se encararam e Shaka sentiu-se impelido a fechar os olhos.
- Mas... – prosseguiu, para o espanto de seus companheiros – Este é seu reino afinal de contas. Peço apenas que eu tenha palavra nos julgamentos.
- Terá. – se apressou em responder, vendo um grande empecilho se dissolver como que por mágica.
Os templários se olharam desconfiados, Shaka dobrado fácil assim? Ele deveria estar planejando alguma coisa. Afrodite e Máscara da Morte trocavam olhares significativos sobre aquele pedido, seria nada, nada fácil, e não viam onde sua rainha queria chegar com tudo aquilo. Quer dizer, Saori tinha fama de boa monarca por um motivo, e um motivo apenas: era Shion quem governava. Ela apenas aparecia acenar para o povo, usar a coroa, ir a bailes... Era a primeira vez que tomava alguma posição sobre a caça às bruxas, e logo uma tão polemica, logo com aquele clérigo ali. Era no mínimo suspeito, mas nem mesmo Shion pareceu contestar, então, fazer o que? Sem diversão para aqueles dois.
- Ótimo. – o sacerdote respondeu, ignorando o clima de desconfiança no ar – Podemos ir agora?
- Acredito que sim. – Kanon respondeu pigarreando em seguida, fazendo uma leve reverencia a Saori e se despedindo com um gesto, não estava nada satisfeito.
Já estavam de saída, os príncipes mais a frente conversando entre si, Shion indo atrás, trocando instruções de última hora com Mu. Precisariam de alguns soldados, teriam que convocar rápido a armada de prata para poderem parir e providenciar algumas celas para as rés que encontrassem no caminho. Então o Mestre Conselheiro deu por falta de seu antigo companheiro de armas.
- Onde está Dohko? – procurou acima das cabeças, ninguém soube lhe responder.
Em um bosque ali próximo, Margareth passeava desde cedo, a capa vermelha ondulando a brisa, os passos silenciosos, os olhos castanhos vidrados na presa, trazia na cintura dois coelhos para sua próxima refeição, e estava pronta para pegar o terceiro que comia alheio a sua presença. Sua seta estava prestes a voar certeira, mas subitamente o seu alvo foi sonoramente envolto por dentes afiados como facas e mastigado com deleite. A Vingadora desarmou o arco e suspirou.
- Rozan, sua peste. – falou calma se aproximando da fera – Aquele era meu.
- Já não basta esse nariz, você ainda quer ficar gorda? – ela se vira e vê o homem sentado folgado em uma pedra.
O cabelo pouco comprido, rosto perfeitamente liso, roupas de couro, pele e linho reluzindo de tão novas e um nariz tão arrebitado quanto o seu próprio.
- Olha quem fala de nariz. – pôs o arco nas costas e cruzou os braços – O que está fazendo com esse dragão?
- O que quer dizer? – ele ficou de pé um tanto confuso.
- Ele pertence ao aspirante a mendigo cheio de sarna do meu chefe. – falou simplesmente.
- Não é como se alguém pudesse de fato possuir um dragão e... – cruzou os braços debochando da postura dela – Ei! É assim que fala de mim quando não estou por perto?
Margareth piscou algumas vezes, desfez o enlace dos braços e estreitando os olhos desconfiada observou melhor sua companhia. Quase levou um susto ao reconhecer os olhos verdes.
- Ora, veja só. – sorriu irônica – Parece que tomou o banho da década.
Dohko franziu o cenho, abriu a boca para retrucar, mas reconsiderou.
- Onde está seu cavalo?
- E isso é de sua conta? – falou sem agressividade e pôs uma mão na cintura, concentrando o peso do corpo em um dos pés.
- Preciso dele. Juntei-me a armada real, não posso ir montado em Rozan. – deu de ombros – A propósito, preciso que o leve de volta aos cinco picos, ele é bem-vindo na cachoeira.
- E volto de lá a pé? – perguntou elevando uma sobrancelha com o tom seco.
- Claro que não, você pode roubar outro cavalo por aí. Estamos indo ao reino de Lion, se apresse e nos encontramos lá. – ela bufou – Ei, eu ainda sou o chefe, certo? – disse divertido, mas ela apenas o olhou torcendo a boca – Margareth?
- Estou pensando. – suspirou o vendo fazer uma cara emburrada, ela o observou por um momento, achava que ele deveria ser mais velho. Talvez aquele absurdo de sebo na barba tivesse conservado bem a pele – O cavalo está ao pé da serra, ao leste.
- Nos vemos depois.
Disse ele seguindo na direção indicada e a moça arrumou os cabelos oleosos atrás da orelha se aproximando de Rozan, que prontamente roubou os coelhos amarrados em sua cintura.
- Peste. – gemeu entre dentes.
III: A cabana na floresta
Abriu os olhos e viu os ralos raios de luz escapando pelas frestas de madeira e palha. Tentou mover-se, mas a mão se encontrava pesada demais, o cenário estava desfocado, distante, podia ver uma mulher vir em sua direção, mas antes que ela pudesse se aproximar as pálpebras fraquejaram e fecharam de novo.
Sangue. Via sangue. O fio de uma espada que cortava sem piedade, gritos, pedidos de misericórdia, o cheiro de madeira queimada, a tosse causada pelas cinzas, os ataques. O confronto de espadas e a vitória, uma cabeça rolava, um garoto chorava chamando pelo pai, uma mulher atacava com uma foice, mas a espada era cruel, não havia perdão, só existia raiva e nada além de raiva.
Seus olhos abriam arregalados e sentia dor, uma dor aguda, forte, o suor escorria pela testa, estava tonta, tinha a sensação de queda apesar de estar consciente de suas costas pressionadas contra o leito macio. O peito apertava, buscava por ar, estava difícil respirar, só sentia cinzas a tapar as narinas. Os olhos giraram nas orbitas e depois fecharam.
Pessoas corriam de cima a baixo, fugiam da espada assassina que agora se encontrava sem fio, apenas esmagava as vítimas sem dó. Não havia perdão, não havia mais nada. Queimaram seu mundo com o fogo do inferno, e desse fogo ela surgia, ela era agora o que eles a acusavam de ser. Um demônio de olhos roxos.
- Scarlet!
Ou viu a voz de Maggie, sua protetora. Uma bondosa curandeira que uma vez adotara um bebê abandonado por seus olhos incomuns, olhos de ametista, a pedra dos magos. Mas não, não poderia ser a velha senhora, não poderia ser sua voz, pois ela havia sido morta. Queimada como bruxa, ela que nunca na vida havia feito mal a ninguém, cujo único pecado havia sido continuar ajudando todos independente dos riscos que corria e no fim... No fim foi queimada como bruxa por aqueles que havia salvado, alguns deles havia ajudado a nascer. Não era justo.
E a justiça só seria reestabelecida pelo fio de sua espada.
- Scarlet!
Despertou de súbito. A voz que a chamava não era mais da idosa, era uma voz sóbria, jovem e forte, sua visão estava nublada, tonta, difusa. Um cheiro forte de álcool ocupava as narinas fazendo sua cabeça latejar e a obrigando a voltar à realidade. Sentou-se ofegante e aos pouco reconheceu os olhos semelhantes aos seus e os cabelos cacheados da outra curandeira.
- Kourin. – gemeu o nome da outra.
- Graças aos deuses! Tinha quase certeza que você não acordava mais.
- Não diga besteira! – respondeu agressiva.
Scarlet passou a mão no cabelo ruivo, ensopado de suor e dispensou agressivamente a ajuda de outra, apoiando as costas na cabeceira e se mantendo sentada, então foi tomando consciência da dor em sua barriga e levou os dedos ao abdômen enfaixado. As memórias voltaram. Ela havia saído para buscar ervas, pegaram Maggie e a levaram a fogueira quando estava fora, quando voltou tentaram captura-la também, mas ela se defendeu e quando percebeu o que tinha ocorrido a sua protetora foi dominada por uma fúria incontrolável. Matou sem fazer distinção, até ser acertada por um golpe certeiro e cair de joelhos no chão de terra.
Não fazia ideia de como havia sobrevivido, mas estava ali, na cabana de Kourin e quase havia morrido.
- Foi bem difícil te tirar do meio da confusão. Ficamos um bom tempo paradas protegidas por minha capa. Demorei a te dar cuidados, realmente pensei que você já era. – falou de forma calma e gentil, examinando escoriações menores no braço da outra.
Ignorava as tentativas de Scarlet de desvencilhar-se, até mesmo a segurava a força. Ajoelhou no chão ao lado da cama e deu um jeito de tirar o curativo para examinar a ferida maior. Não estava nada bom. As duas se viraram quando a porta abriu em um rangido. Uma velhinha risonha e baixinha entrava com as mãos fechadas em concha.
- Ahh... – pareceu desanimada – Você acordou, minha filha, depois de tanto tempo que levei achando um pote bonito pra por seus olhos. – deu de ombros – Deixa pra próxima então. – soltou um riso agudo, e se aproximou das duas com seu andar de pinguim.
Olhou a ferida da outra bem de perto, batendo o quadril na cabeça de Kourin para afasta-la da cama e soltou um assobio. Rindo, abriu as mãos encima do ferimento pressionando-o por um segundo.
- Prontinho! – Scarlet olhou para seu abdômen e soltou uma interjeição de nojo.
- Vermes?!
- Vermes. – a velhinha falou batendo as mãos e rindo fino e rouco – Mas eu lavei. Eu lavei, hein? – riu de novo – Kourin! Cuide das suas visitas. A vovó vai viajar, viu? – falou e depois pensou um pouco – E eu também vou viajar. Viajar é bom, faz bem para o juízo. – riu pousando a mão na barriga.
A velhinha pegou uma bolsa e rindo deu um beijo na testa da neta. Despediu-se e saiu falando sozinha e praguejando pela floresta. Scarlet olhou para a morena que ajeitava os cabelos castanhos antes de se ajoelhar novamente próxima a cama. Olhou para os vermes e sorriu amarelo.
- É um jeito eficiente de tratar, meio nojento, mas funciona. – explicou refazendo o curativo e a ruiva ficou em silêncio – Vovó é meio louca, mas sabe o que faz.
- Mataram a Maggie. – disse seriamente olhando para um ponto qualquer da cabana rústica.
Os móveis eram de madeira e havia animais talhados em cada parede ou coluna. Cadeiras revestidas de pele, uma mesa coberta com renda e um tapete sujo em frente à porta. Imaginava que estava no meio da floresta, nunca havia entrado na casa de Kourin antes, apenas ficava do lado de fora esperando Maggie terminar o chá com a avó da outra.
- É, eu sei. – a morena falou e mordeu o lábio – Sinto muito.
- Não sinta, não foi você.
- Vovó está meio que fugindo, falou que vai aos Cinco Picos até essa loucura passar e quer que eu vá também, mas não posso deixar o vilarejo desamparado.
- Devia ir, eles não merecem sua atenção.
- Precisam de mim.
- Maggie foi morta pelas pessoas que ela cuidou. – Falou séria, apertando a mordida, não, não ia chorar.
- Estão todos apavorados, Scarlet. Alguém começou a fazer fogueiras, um sacerdote até onde sei, e todos agora acham que é o certo. Não é como se...
- Não os defenda. – disse encarando-a quase com ódio no olhar.
Kourin calou-se e apenas terminou o que tinha para fazer. Alguns minutos depois ela finalizava o curativo e foi mexer um caldeirão sobre a lareira, cantarolando uma das canções que sua avó louca tinha ensinado. Depois de um tempo inquieta com a dor e com a consciência de que havia vermes em seu ferimento Scarlet, que já havia corrido toda a casa com os olhos, reparou numa figura encolhida ao lado da lareira. Bem sentada, com aparência um pouco suja, a franja no meio do rosto, olhando para si de forma desconfiada.
- E essa aí? – perguntou a outra que nem se deu ao trabalho de olhar.
- Sophia. – a menina falou com um pouco de esforço.
- Foi acusada de bruxaria. – Kourin completou provando do ensopado.
- Por quê? – Scarlet perguntou.
- Eu leio. – Ela respondeu.
- Ela leu todos os livros pra casa em dois dias. – apontou para as três pilhas de volumes grossos ao lado da menina – Foi assustador.
- Me colocaram numa fila com mais de dez mulheres todas para a fogueira. Uma foi queimada por ser bonita e não ceder a homem algum, ou por ser bonita e ceder... Não entendi muito bem os critérios, mas parecia que eles estavam usando qualquer coisa que queimasse para alimentar o fogo, mas acho que madeira seca seria melhor. Acho que...
- Você fala demais. – Scarlet torceu a boca.
- Acho que ela ainda está em choque.
- Ah, não. Não, não. Sempre falei muito. Mas geralmente me mexo mais, só que não sei se é seguro aqui com essas janelas. Sabia que palha queima muito fácil, era melhor trocar esse teto, se alguém...
- Quieta. – Scarlet disse fazendo um gesto de mão.
As três ficaram em silêncio por um longo momento, Sophia com seus cabelos longos e castanhos e olhos castanhos avermelhados batia o pé ritmicamente. Kourin olhou para ela e suspirou.
- Só consegui salvar ela. Só ela. – a curandeira disse de forma melancólica e o ar pareceu ficar um pouco mais pesado.
IV: Noite da caça, dia do caçador
A armada seguia seu caminho, Dohko os havia alcançando pouco depois de saírem da cidade e fugiu de todas as perguntas de Shion com maestria. Seguiram na estrada e ao entardecer do segundo dia seguiam uma trilha dentro de uma floresta, Dohko olhou para os lados um tanto desconfortável.
- Acho melhor levantarmos acampamento. – Aioros disse ao irmão e Kanon assentiu.
- Melhor sairmos da floresta. – O Justo se pronunciou.
- A floresta se estende muito ainda a frente, íamos cavalgar noite adentro. – Mu rebateu.
- Então devemos voltar. – o caçador prosseguiu.
- Por que? – Kanon perguntou um tanto desconfiado e Dohko engoliu em seco.
- Não é seguro.
- Algo que queira nos contar? – Shion indagou elevando uma sobrancelha.
- Definitivamente não.
- Então ficamos. – o Mestre Conselheiro concluiu já descendo do cavalo e conduzindo-o para fora da trilha pronto para arrumar sua barraca.
Escondidos entre arbustos e galhos dois olhos felinos observavam a armada com certa satisfação. A garota se moveu furtivamente se aproximando um pouco, os ombros dançando com a visão do caçador. Passou a língua nos lábios e recuou. De onde estava, Dohko sentiu um calafrio e olhou para o lugar onde segundos antes Anubis o observava. E como se o alarmasse, sua mente lhe mostrou o encontro de meses atrás em memórias vívidas.
Estava na pista de Pandora, perseguia de perto e a havia encontrado mais de uma vez. Os poderes da bruxa seguiam limitados, embora Dohko não entendesse porque, o espelho havia sumido então àquela altura Pandora devia estar com força total, mas não era isso que ocorria. A floresta estava escura com a noite sem lua e Dohko se aquecia junto ao fogo, escorado em Rozan, torcia para que não chovesse, pois dormiria ao relento, mas aí algo o atingiu.
Acordou algum tempo depois com um belo galo na cabeça e um tanto desnorteado. Tentou levar as mãos à nuca, mas as percebeu presas e despertou de sua letargia. As mãos estavam amarradas por tiras de couro. Estava ajoelhado, os braços abertos e amarrados até o ombro, mal conseguia sentir os dedos. Olhou em volta e viu orbes felinos cor de âmbar brilhando na escuridão. Ouvia um quase ronronar e aos poucos a imagem do felino se formava a frente. O jaguar estava deitado como uma esfinge, o rabo batendo violentamente contra o chão, o olhar fixo. Lentamente a fera se levanta e circunda o corpo do caçador uma vez apenas, o pelo macio acariciando a pele morena, e a calda deslizando por baixo do peito do velho cavaleiro que lhe olhava desconfiado. O felino se afasta e se espreguiçando na terra e habilmente se pôs embaixo de um tecido largado ali, se esgueirava para dentro da cortina branca e aos poucos mudou de tamanho. Dois braços humanos aparecem na ponta oposta do pano e logo uma cabeleira bagunçada e castanha que deu lugar ao rosto feminino quando a criatura arquejou as costas. A garota tomou um longo fôlego e empurrando o chão com os braços se pôs de pé em um movimento fluído. Trajava um vestido branco e folgado. Moveu os ombros em onda e deu início a um andar elegante e lento.
Pôs-se de cócoras em frente ao homem e sorriu maliciosa com seu lábio felino. Acariciou o rosto barbudo de Dohko com as duas mãos.
- Vai ser o primeiro de vocês a pagar por seus crimes. – falou com a voz baixa e rouca.
- E que crime seria esse? – Dohko falhou em tentar afastar o rosto.
- Mataram minha amiga Bastet. Todos vocês humanos devem pagar.
- Não tenho nada haver com sua amiga.
- Não importa. – ficou séria – Será o primeiro.
Pôs uma mão no ombro dele e apoiou o peso do corpo, dando um salto e girando o corpo para cima em torno do braço que estava apoiado. Pousou com os pés presos como ganchos no quadril dele e passou a outra mão lhe alisando o pescoço.
- Não tenho dó de você, então... – ela arranhou junto a omoplata – Vou demorar um pouco aqui.
O cavaleiro emitiu um som de fúria, uma espécie de rosnado que pareceu divertir muito seu carrasco.
- Como um tigre. Que interessante. – falou irônica e passou a língua pelo lábio.
Arrastou a unha pelas costas dele sem machuca-lo e então pareceu escolher um lugar e afundou a garra comprida até o início do dedo. Depois, sem pressa alguma, foi cavando na carne e separando uma tira de pele enquanto seu dedo passeava pela costa larga. Dohko sentia a dor da pele rasgando e soltou outro ruído, algo mais classificado como fúria do que como dor. O sangue escorria grosso pelo corpo e tinha sensibilidade mesmo no trecho de pele separado da carne até que por fim ela tirou o dedo e puxou a tira, fazendo a carne estalar quando rasgou. O homem puxou as amarras com os braços e o couro rangeu se recusando a ceder, ele ofegava e ela continuava presa a sua cintura com as pernas.
- Ora, já quer ir embora? Mal comecei. – riu rouca – Mas já pode começar a implorar se quiser.
- Como se fosse adiantar. – disse entre dentes e soltou um rosnado quando a unha voltou a afundar na carne.
- Tigre, tigre, queimando brilhante, nas florestas da noite... – ela sussurrava em seu ouvido – Qual mão ou olho imortal poderia enquadrar sua terrível simetria? [1]
Uma segunda tira se desprende da pele, e depois outra. Sempre lenta, sempre dolorosa, sempre acompanhada de um rosnado humano, mas animalesco. A noite correu quase toda assim, a exceção de uma vez ou outra que a garota de cabelos castanhos e repicados parava para comer algum animal cru.
- Vou contar um segredo. – disse sentando em frente a ele e lambendo o sangue da mão – Sei que seria inútil tentar matá-lo. Mas pelo menos a marca posso fazê-lo manter, tigre. Gostei de você, não é tão humano quanto parece.
- Se não vai me matar... – ele falava ofegando, a mais leve brisa fazia suas costas arderem em brasa.
- É só um aviso: Desista.
- Trabalha pra Pandora.
- Não trabalho pra ninguém, tigre. Só estou retribuindo um favor. Nós felinos não somos muito de obedecer a ordens, acho que sabe como é.
Ficou de pé e aos poucos foi crescendo de tamanho e deixando o vestido branco deslizou pelas costas, ela se transfigurou de novo no jaguar pouco antes do sol nascer, rosnou alto para ele e correu mata a dentro.
Um arrepio violento o tirou do episódio e o colocou de frente Shion que o encarava como se lesse sua mente.
- Acho que devia contar.
Todos já haviam armado barracas e sem Rozan ou Margareth por perto o velho cavaleiro começava a se sentir indefeso. Para sua sorte viu a sua protegida se aproximar a pé, a capa voando leve, assim como os cabelos negros e finos.
- Quem é? – o conselheiro perguntou quando viu que ele reconhecia a moça.
Aproximou-se de Shion e falou bem baixo.
- Diga-me que tem uma jaula na bagagem.
- Várias. – disse mostrando o pequeno comboio de grades um pouco mais distante.
- Prepare-se.
De alguma forma, a moça só percebeu quando era tarde demais, Dohko passou o braço por seus ombros e falou como sempre fazia com sua pupila, animado. Até chegar perto das jaulas e a empurrar dentro de uma quadrada de barras diagonais e congruentes, trancando em tempo recorde. Se demorasse um segundo mais seria prontamente atacado pela garota que se jogara ferozmente contra as grades em um chiado felino que assustou todos os presentes, mal entendiam do que se tratava.
- Pegamos a primeira. – Dohko sorriu.
A garota de semblante furioso foi aos poucos se acalmando e a pele clara de Margareth foi dando lugar a tez mais escura, e aos olhos cor de âmbar. Ela continuava pendurada na grade, mas baixava o rosto parecendo mais calma.
- Só queria dar uma olhada nas suas costas, tigre. – moveu o tronco um pouco para o lado de forma animalesca – Ver se não precisava de retoques. – bateu delicadamente a unha na grade – Não precisava disso tudo. – falou séria, lentamente pondo os pés no chão – O que me entregou?
- O cabelo está limpo demais e ela jamais me deixaria chegar tão perto. – ele sorriu – Tem visto sua amiga Pandora por aí?
- Amiga é uma palavra forte. Mas não, não tenho. Tem visto caçadores de panteras por aí?
- Se vir, te aviso.
- É justo. – ela falou – Agora me solte! – falou agressiva.
- Eu não. Você veio tentar me matar. – ela riu.
- Você não, tigre, gosto de você. Queria só matar todos os outros, estou com fome, sabe? – rugiu baixinho e Dohko se mostrou irritado – Oh, tem muitos deles... Pode até ser só um, tipo aquele magrinho ali. – apontou para Mu que engoliu em seco.
- Nem pensar.
- Não seja tolo. Eu posso facilmente quebrar essa jaula.
- Não tente. – Shura se meteu em frente à metamorfa e apontou a Excalibur entre as grades. Ela se jogou rápido do lado oposto da grade, rugindo felinamente e dando uma espécie de patada com a mão, mas sem intenção de sequer tocar na lâmina prateada.
Claro que não havia apenas prata naquele metal, mas havia prata também, ela não podia arriscar. Lembrava-se bem de seu último ferimento a prata, quase a matou. Mas sem querer havia revelado sua fraqueza. Dohko sorriu.
- Parece que não vai tentar fugir. Ele fala bem sério e é bom com essa coisa. – ela chiou dando outra patada no ar e Dohko fez sinal para o rapaz afastar a espada de forma que ela ficou mais confortável, sentando-se no piso – Quer nos dizer seu nome?
- Anubis.
- Um nome pagão, não me surpreende. – Shaka falou com cara de paisagem, por ele tacavam fogo na jaula agora, não basta ter usado bruxaria na sua frente, ela ainda admitia ser uma assassina.
- Chame-me Ann. – disse coçando as mãos e olhando de forma agressiva para o loiro.
- Ann. Sou Dohko. – ela bufou.
- Prefiro tigre. – disse debochada.
- E este com a espada é Shura. Seu guardião por agora.
O cavaleiro de Capricórnio olhou para o Justo com desconfiança e depois para Aioros que deu de ombros e assentiu.
- Ela teme sua espada. – o príncipe falou.
O moreno embainhou sua lâmina e cruzou os braços encarando a garota de olhos âmbares. Ela chiou agressiva para ele e se recolheu, recostando-se quase deitada na grade. Mediu o espaço entre as barras de metal, era bem apertado de fato, se fosse um pouco maior... Ainda não era poderosa o suficiente para virar um bicho tão pequeno e se ele a pegasse escapando, não queria nem imaginar. Bufou e cruzou os braços, por um tempo tinha que se conformar, por um tempo apenas.
Mais dois dias de jornada se passaram, Anubis se mostrava cada vez mais agressiva, era difícil até mesmo alimenta-la. Mais de uma vez ela se transformou em um jaguar deixando Shaka escandalizado por ter tirado as roupas para não rasgá-las. Mais de uma vez o clérigo propôs queimá-la, mas era calado por seus seguidores. Shion havia percebido que a fraqueza dela era prata, era muito comum em seres daquela natureza.
V: Sol e Lua
Pararam para descansar próximos a uma vila, bem modesta de fato, todos tinham parado para ver os cavaleiros passando. Milo achou que seria inteligente da parte dele comprar algo quente e gostoso para comer, porque, convenhamos, Aldebaran era um ótimo cozinheiro, mas nem o melhor cozinheiro do mundo faria ossos de coelho terem gosto bom. Shaka falava em gula, mas sempre ficava com a melhor parte da caça.
Passando por ali uma garota passeava olhando para o mapa e contraindo o rosto, se desesperando, batia os pés no chão contrariada e corria os olhos azuis pelo pedaço de couro desenhado.
- Ahhh... errei de novo. – gemeu, olhando as crianças correndo pela vila - Não era pra ter nada aqui.
Os olhos azuis tinham uma clara expressão de derrota e ela não desistia de olhar o mapa e encontrar qualquer indicativo de em que ponto do papel estava. Bem, tinha passado pela montanha, por um rio, por uma vila, até aí tudo bem, depois por outro rio e... Espera só tinha um rio no mapa, gemeu de novo percebendo que tinha feito a volta em algum ponto da caminhada, como podia ser assim tão perdida? De repente, em seu andar tonto, ela bate em alguém e cai sentada no chão, já pronta para praguejar e xingar quem quer que fosse, mas foi impedida por aquele cheiro divino de pão fresquinho e seu estomago roncando fortemente.
Seus olhos azuis encontraram os de Milo que recolhia alguns pacotes do chão. E se desculpava cordialmente.
- Não! – ela se apressou – Foi culpa minha, estava distraída. – disse ajudando a recolher os pães e o cavaleiro sorriu para ela.
- Tudo bem, também não estava prestando atenção. Estava procurando um amigo – disse recolhendo o último embrulho e colocando numa bolsa lateral – Por acaso não viu um ruivo francês por aí, senhorita...?
- Lancaster – pensou um pouco e corrigiu-se – Ou melhor, Ceres, me chame de Ceres – deu a mão em cumprimento, mas o rapaz a usou pra ajudar a levantar – E não, não vi nenhum francês, senhor...
- Milo. – ele disse com um sorriso galante – Eu adoraria continuar conversando com tão bela dama, - Ceres só conseguiu pensar "Dama? Onde ele tá vendo uma dama?" e levantou uma sobrancelha – Mas tenho que encontrar meu amigo.
- Entendo. – assentiu passando por ele sem dar as costas de modo um pouco furtivo – Então até mais Milo.
- Até. – ele acenou e foi procurar Camus por aí.
Ceres então tirou um pão que tinha roubado de detrás do corpo e deu uma bela de uma mordida, estava faminta. Talvez se seguisse aquele rapaz pudesse garantir o jantar.
Milo invejava muito essa habilidade que o francês tinha de evaporar fácil assim. Mas Camus não evaporava, não. Ele apenas se escondia um pouco, o serviço não era bem o que esperava. Não tinha tempo para ler, não viajava para longe onde pudesse conhecer povos diferentes, não tinha nenhum enriquecimento cultural. Então o francês dedicava seu tempo livro a visitar tabernas por aí e provar os mais variados tipos de vinho e cerveja, alguns horríveis, outras verdadeiras descobertas e era isso que fazia naquele momento. Os homens tinham seguido a marcha mais cedo, mas ele ficou para trás depois do almoço dizendo apenas que tinha algo a averiguar. Não gostava daquela gente toda, a armada real e aquela armadura dourada, pesada, ostensiva e mais os cavaleiros da ordem de prata que seguiam em comboio atrás eram verdadeiros bárbaros. Era demais para um homem como ele, tão fino, educado e introvertido. Pedia mais uma dose ao garçom e enquanto aguarda olha para a moça sentada ao seu lado no balcão, não era bem o tipo de figura que se espera encontrar em um lugar como aquele. Loirinha, olhos de um azul forte, mas delicado, com aquela áurea angelical quebrada apenas pelo rústico copo de chope em sua mão.
Ela bebeu meia caneca de uma vez só, limpou a boca nas costas da mão de forma grossa e se apercebeu dos olhos frios encima de si.
- Que tá olhando, imbecil? – as palavras não soariam tão grotescas nem se saíssem da boca de um ogro desdentado, a garota estava visivelmente bêbada.
Camus deu de ombros, pegou a caneca de vinho recém servido no balcão e virou de uma vez. Ficou um pouco zonzo, as bochechas já estavam quentes há algum tempo, olhou de novo de soslaio para a moça e ela lhe pareceu mais alta, olhou melhor por um segundo e a viu cada vez maior, subindo como uma bolha de sabão até ficar clara a distância entre seu corpo e o banco. Ele observou por um momento, não parecendo impressionado. Passou a mão entre o acento do banco e garota averiguando que estava completamente vazio. Depois olhou para o garçom que fitava a moça boquiaberto e chamou sua atenção, soltando algumas moedas sobre a mesa. Olhou mais uma vez para a garota que agora batia a cabeça no teto e balança o pescoço, pousando a mão na testa.
- Bebi demais. – declara e saí da taberna sem perder um passo sequer.
Encontra Milo conversando com algumas moças quando sai e quase vai até ele com o mesmo olhar frio de sempre. Quando o loiro o vê se despede das garotas e fica encarando aquela cara de paisagem. O interessante naquela expressão sóbria e séria de Camus é que Milo sempre a via como um olhar acusador.
- Nem olhe assim pra mim, eu estava só conversando. E você estava bebendo! – apontou o dedo para ele. Camus não expressou reação – Pare de me acusar!
- Não estou acusando. – e o tom completamente sem emoção parecia sempre deboche – Não tenho culpa se sua consciência não está limpa.
- Ora... Vamos logo embora! – disse irritado.
Caminharam até onde o resto da armada estava e foi como se tivesse estourado um pote de mel na frente de abelhas, se não fosse Aldebaran com todo o seu tamanho para fazer a escolta dos companheiros com certeza chegariam a sua barraca com os pacotes vazios.
- Vocês demoraram. – Milo sorriu amarelo e Camus não deu atenção ao gigante – Conseguiu averiguar o que queria? – perguntou ao francês.
- Sim. – respondeu seco.
Os três se sentaram do lado de uma árvore, já era fim de tarde, haviam andado muito. Ann tinha hábitos noturnos, mais de uma vez acordou a todo só por diversão. Havia cansaço geral e ficaram gratos quando o herdeiro ao trono resolveu parar a marcha no meio da tarde, assim todos poderiam ter uns minutos de sossego enquanto a metamorfa continuava dormindo. Para Aldebaran não havia sossego de estomago vazio, então não pode descansar como se deve até os companheiros voltarem de viagem, sem falar que eles o haviam deixado com Shaka e... Bem...
- Cadê nossa cabana? – Camus indagou, dando-se conta de que não via seu merecido leito e precisaria dele em breve.
- Bem... – o gigante começou e depois coçou a cabeça rindo sem jeito – O reverendíssimo disse que estava muito claro na dele então...
- Então? – Milo incentivou não gostando do andar da carruagem.
- Então eu usei a coberta da nossa barraca para cobrir a dele. – disse rindo mais alto, mas completamente sem graça.
- Você quer dizer que vamos dormir ao relento? – Milo se alarmou.
- Ah, não! Já está anoitecendo, quando escurecer monto a nossa.
Os outros dois se encararam descontentes, mas logo se voltaram à refeição. Milo pegou carne e pão macio e dividiu entre os dois e deixou a bolsa de lado, próxima a árvore e era precisamente essa oportunidade de Ceres estava esperando. A garota prendera os longos cabelos castanhos e soprava a franja repicada da testa. Havia se movido silenciosa e do alto da árvore esperava uma oportunidade de furtar algo mais para seu pobre estomago castigado. Sorriu divertida focalizando a bolsa cheia de pacotes quentinhos e cheirosos. Desceu pelo tronco do lado oposto ao que os cavaleiros conversavam. Mordia o lábio enquanto abria a bolsa tem fazer ruído. Pensou em levar um embrulho inteiro na mão, mas precisaria das duas para subir de volta. O cheiro estava forte, se saísse dali carregando a comida era bem capaz dos mortos de fome da armada de prata perceberem. Abriu com cuidado a embalagem e pegou um pão o colocando dentro da roupa no espaço deixado pelos seios pequenos e pondo outro pedaço na boca começou a subir de volta no tronco, mas para seu azar, Aldebaran era rápido na mordida. Camus se levantava para pegar mais comida uma vez que Milo tentava protegê-la com a vida e logo que se aproxima da bolsa vê a menina de braços e pernas brancas e finas tentando subir pela árvore.
- Ei. – Ceres se assusta com a voz do francês e falha na escalada caindo sentava pela segunda vez naquele dia.
O barulho chama a atenção dos outros dois que levantam para ver o que ocorria e veem a menina com pão nas roupas e na boca, um tanto assustada por ter sido pega no flagra.
Mas para a sorte de Ceres o Sol acabava de se por no horizonte e seu corpo ficava semitransparente, a seu lado uma menina se feições idênticas surgiu e olhou a situação um tanto confusa, mas não teve tempo de entender o que ocorria, Ceres tocou sua mão de forma apressada e quando a escuridão da noite tomava conta só restou a segunda garota, sentada em frente aos cavaleiros com pão na boca e nas roupas sem compreender nada no que ocorria.
- Eu devo estar muito bêbado. – o francês praguejou cosigo mesmo, nunca antes havia visto uma prova tão clara de magia.
- O que diabos aconteceu aqui? – Milo perguntou – Ceres, será que você pode explicar isso? – perguntou exaltado.
- Você a conhece? – Aldebaran perguntou.
- E você acha que ainda tem alguma garota bonita na vila que o Milo não tenha ido atrás de conhecer? – o ruivo disse enquanto alisava os próprios cabelos.
O gigante riu, e os três se voltaram outra vez para a menina que lentamente tirava os pães da roupa e punha no colo ao mesmo tempo que se sentava mais comportada Por fim tirou o que estava na boca e pousou junto com os outros.
- Não sou Ceres. – disse com a voz baixa e tímida.
- Não é? – Milo perguntou ainda irritado.
- Bem, quero dizer, eu sou Ceres, mas só de dia.
- Certo. – Camus disse – Entendi.
- Entendeu? – Aldebaran perguntou.
- Sim. O que acontece é que essa garota está mais bêbada que eu. – concluiu – Ou há alguma bruxaria envolvendo essa garota e a outra que se chama Ceres de forma que as duas dividem o mesmo corpo. – falou com mais seriedade.
- É exatamente isso. – disse com a voz sonolenta – A segunda opção, quero dizer. Sinto muito se minha irmã causou problemas, acredito que ela tenha se perdido outra vez. – suspirou – Ela sempre se perde. – falou melancólica.
- Sua irmã? – Milo falou desconfiado.
- Não acham que devíamos levar o caso ao reverendíssimo? – Aldebaran propôs.
- Melhor falar com todos de uma vez. – Camus propôs – Como se chama?
- Luna. – disse de forma plácida e doce.
- Venha comigo.
Depois de reunir a todos em volta da fogueira, a garota que ficara em um canto esperando e comendo o pão da tentativa de roubo frustrada de Ceres. Ela olhava para aqueles homens de forma tímida e com algum incentivo de Kanon ela começou a falar.
- Bem. – ela falava baixo, o que fez os presentes se aproximarem mais para ouvir – Tudo começou quando nascemos.
- Nossa... – Afrodite exclamou revirando os olhos – Não precisa contar assim tão do começo. – a garota ficou insegura mais continuou.
- Bem, éramos gêmeas. E como sabem gêmeos são considerados amaldiçoados. Nossos pais não sabiam o que fazer, pois não queria ter que matar uma de nós, então uma bruxa apareceu e lhes ofereceu a solução de seus problemas a troco de deixarem-na ficar em suas terras por algum tempo. Ela dizia estar em busca de algo ali perto e teria que esperar. Eles concordaram e ela nos lançou um feitiço: Uma para o Sol e outra para Lua, nunca juntas em par. Uma de dia e outra de noite até o encanto se quebrar. Ou algo do gênero, não lembro as palavras exatas, mas o que importa é que Ceres é quem habita este corpo de dia e eu a noite. Só nos vemos na hora da troca, mas ainda assim é rápido, nem podemos conversar. Nos falamos apenas por cartas. Então buscamos a bruxa que fez o feitiço para pedir que o retire.
- E onde está a bruxa? – Aiolia perguntou.
- Não sabemos, a última noticia é de que estaria a oeste, mas Ceres se perdeu outra vez. Acho difícil conseguirmos acompanhar a trilha.
- Qual o nome dela? – Shion perguntou já ciente da resposta.
- Pandora.
Todos trocaram olhares entre si, sabendo bem o que significava.
- Ouça, Pandora é perigosa, você faria melhor se desistisse dessa busca. – Kanon tentou dissuadi-la.
- Você sabe o que é ter uma irmã e ser impedida de estar com ela? Não poder abraça-la ou rir com ela? – o príncipe se sentiu profundamente tocado e fez esforço para não olhar para Saga preso em uma máscara muito perto de si – Não é que eu não queira. Eu não posso desistir. Nós não podemos.
O jeito de ela falar era delicado e contido, mas as palavras eram fortes, eloquentes.
- De qualquer forma ela deve vir conosco, não? – o clérigo disse – Amaldiçoada, deve ir a julgamento. Ponham-na em uma cela.
- Shaka, você não vai fazer isso com a menina. – Milo, falou e o loiro estava prestes a retrucar, mas foi impedido pela fala de Aioros.
- E também não é você que decide prender ninguém. Não tem autoridade sobre nossos homens.
- Não estava ordenando aos seus homens, mas aos meus. – o sacerdote falava calmamente, a voz dele não se exaltava quase nunca e a expressão era pacífica, quase sempre de olhos fechados.
- De toda forma, penso que não é necessário. Também queremos Pandora, e as meninas serão bem vindas no grupo, não acham? – Mu disse pondo panos quentes na situação.
Ainda houve uma breve discussão, mas estava acertado, Luna e Ceres seguiriam com os outros enquanto o caminho fosse o mesmo.
VI: A fada e o gato
Em uma floresta longe dali, solumbrava ao cair da noite. Ali, na floresta do esquecimento vivia uma princesa fada de nome Alice, seus cabelos negros e cortados no ombro, a pele tão pálida quanto a da tia querida e os lábios tão vermelhos que pareciam tingidos com sangue fresco. Era início de noite e ela estava deitada em uma rede de fios de linho balançando-se, chamas azuladas dançavam em volta dela, iluminando muito de leve a noite recém-caída. Havia sido um dia repleto de brincadeiras, o Capturandam era muito melhor que qualquer cachorro de raça e quem imaginaria que uma lebre de Março era tão boa companhia para tomar chá? Até mesmo chapeleiro aparecera para uma xícara ou duas, e claro, como sempre, tentando lhe empurrar aqueles chapeis horríveis, mas era o de menos, se divertia com suas charadas. Agora só queria balançar-se na rede até o sono chegar, mas havia alguma agitação na mata, alguém balançando as folhas e pisando nos galhos secos, melhor tomarem cuidado com os momeraths, não queria outra choradeira sobre o quanto eram insignificantes por seu tamanho diminuto.
Aos poucos foi percebendo o que era tudo aquilo. Uma pessoa devia estar procurando por ela. Pois bem, seja quem fosse, não a faria levantar da rede, se queria mesmo algo havia de lhe encontrar.
Ouviu o balançar de galho acima de si. Uma lua minguante surgiu ao lado da cheia que figurava aquela noite, escutou um cantarolar baixo, sorriu e fechou os olhos azuis gelo já sabendo que tentar ver não adiantava.
- Está mesmo indo, Cheshire?
- Já disse para não me chamar assim. – no galho a bruxinha ilusionista se fazia parcialmente visível, ao menos o rosto, pescoço, mãos e pés se distinguiam na escuridão – E sim. Estou indo. Esse lugar é maluco demais, mesmo para mim. Foi divertido brincar com você, mas tenho que voltar antes que o povo do vilarejo descubra que saí.
- Sei como é... – falou se espreguiçando. Não, ela não sabia.
- Não quer mesmo mudar a cor do meu olho bruxo? – disse com seu corpo esguio aparecendo confortavelmente deitado em um galho que se inclinava com o peso.
- Já disse, me traga um olho verde e o farei.
- E eu já disse que é difícil encontrar um olho verde no mesmo tom do meu – disse emburrada, mas logo sorriu exibindo o canino pontudo – Mas se eu encontrar lhe trarei.
- Combinado. – olhou para a bruxinha de olhos bicolores que enfim aparecera por completo.
- Ah... Tem um velho na floresta procurando você. Agora vou indo. Xawzinho. – disse e pulou do galho sumindo antes de atingir o chão.
Alice apenas suspirou, deixou uma perna escorregar pelo linho e usou o peso dela para se balançar mais confortável na rede, espreguiçou bocejando.
- Que esse velho não venha depois que eu estiver dormindo. – desejou.
Não demorou muito tempo para que abaixo de sua rede estivesse o pobre senhor que não sabia como chamar a atenção da meia fada que repousava sem ter de fato pego no sono.
- Fada Azul. – falou com a voz rouca e cansada, e ela virou-se ficando deitada de barriga para baixo e olhando o senhor de cima.
- Pois não? – sorriu travessa.
- Eu tenho um desejo. – o senhor falou inseguro trazendo um embrulho bem firme nas mãos.
- Conhece as regras?
- Sim. – disse exibindo um boneco muito bem feito, era de madeira, mas havia sido tão bem talhado e lixado que superava a qualidade de qualquer um de porcelana – É meu maior tesouro, meu melhor boneco. – mas ela não estava interessada.
- Como se chama?
- Pinóquio. Ele se chama Pinóquio.
- Eu estava perguntando de você, velho tolo. – riu – Mas que importa? O que quer?
- Um filho. – falou abraçando o boneco – Minha esposa e eu nunca podemos ter um e...
- Certo, certo. Poupe-me do drama, sim? – falou apoiando o cotovelo na rede e segurando o rosto com a mão – Acha mesmo que esse boneco equivale a um filho?
- Para mim sim, senhorita. Eu o amo como a um.
A menina sorriu travessa e sentou-se na rede.
- Que seja então. – pulou do alto caindo como uma pena azul até o chão – Dê-me aqui.
Ele entregou o boneco e ela o pôs no chão a sua frente. Juntou as mãos e fechou os olhos com força, entoou um mantra com a boca também bem fechada e então abriu as mãos de repente e nesse movimento o boneco cresceu. Ela abriu os olhos contente e catou o menino de madeira delicadamente lhe dando um beijo na ponta do nariz.
- Para que não minta.
Colocou o garoto no chão de pé e de pé ele ficou. Os olhos estáticos umedeceram e ele piscou não uma, mas duas vezes para depois abrir um sorriso.
- Aí está seu filho. – sorriu de forma maliciosa e o velho senhor ficara estático.
- De madeira? – ele estava atônito e sentindo-se ludibriado – Um menino de madeira?
- É o melhor que posso fazer com um boneco de madeira. – ironizou.
- Sim, mas...
- Ora. – irritou-se – se não o quer eu o queimo! Pronto, acabou! – jogou uma rajada de fogo azul no menino e ele fechou os olhos e tentou se proteger com os braços.
- Não!
O velho gritou e protegeu a criança mágica que continuava confusa com a situação de seu nascimento.
- Meu filho! – o velho exclamou com a voz rouca – Obrigado! Muito obrigado!
Agarrou o menino e saiu correndo de lá com ele nos braços antes que a princesa fada mudasse de ideia. Alice voltou a sua rede e balançando-se tranquila não tardou a dormir.
VII: A fuga de Cheshire
Em Cheshire, cidade que figurava na divisa de dois reinos, o povo tinha fome. Sem saber que o temido Sorriso de Cheshire estava de viagem para visitar uma amiga, os aldeões temiam adentrar a Floresta de Sangue. A cidade já tinha um certo tamanho, mas a rotina continuava sendo a típica de um vilarejo qualquer, com pessoas de um vilarejo qualquer. A verdade é que independente de o quanto a cidade evoluía em estrutura e em eficiência na colheita, o povo continuava bárbaro como se vivessem há mil anos atrás. E havia um grande agravante. A cidade ao pé da Grande Montanha Branca era cercada daquela floresta densa onde ninguém ousava pisar. Se a colheita não era suficiente, ficavam com fome e se alguém ficava doente não viam outra solução a não ser mandar a pobre criatura embora para que não contagiasse os outros. E claro... Sempre havia as acusações de bruxaria, mas não podiam desperdiçar madeira em fogueiras.
Na praça um garoto adolescente observava enquanto o pai carregava um barril de água que havia enchido mais cedo a muito custo. Colocou-o no centro da praça e depois voltou puxando sua filha mais velha pelo braço até o objeto de madeira, o povo se acumulava para olhar, adoravam esse tipo de espetáculo. A menina se debatia e implorava, explicava-se.
- Era só um chá, pai. Só estava fazendo um chá!
- Chá com ervas da Floresta de Sangue?! Você não me engana, filha bruxa! – O velho barbudo retrucava.
O povo cochichava, os burburinhos ficando cada vez mais altos e desrespeitosos. O jovem rapaz olhava para a irmã e tocava o olho roxo que ganhara ao tentar ajudá-la. Ele entendia bem, o que acontecia era que o pai já não tinha como sustentar todas as bocas e o menor deslize levou a irmã a morte.
- João, que está acontecendo? – atrás de si uma menina pequena de cabelo negro e olhos sonolentos puxava suas roupas.
- Nada, Sara. Volte para dentro. – ordenou sem olhá-la.
- Mas quero ver. – choramingou.
- Volte e se esconda. Fique quieta até eu voltar para casa.
A menina entendia que por se esconder ele queria dizer se esconder do pai. Sim, isso já era comum para a pobre criança. A irmã mais velha gritava sendo agarrada pelos cabelos e sua cabeça afundada na água do barril, ela se debatia e o velho chefe da tribo gritava.
- Isso! Isso que fazemos com bruxas!
E toda a plateia foi ao delírio. Perguntava-se se só ele via algo de errado nisso. Só ele via que quase não havia mais moças jovens na cidade, as que existiam viviam trancadas e com medo? Não era possível, mas não podia mais esperar simplesmente que o pai matasse o resto da família, a mãe e a irmã já haviam sido vítimas, precisava salvar ao menos a Sara. O pai jogou o corpo inerte no chão e começou a mover o barril de volta para casa.
- João! Seu inútil, ajude-me aqui se ainda quiser ter água para beber! – esbravejava o homem.
Obedeceu o pai e viu os aldeões brigando pelo corpo da falecida como carniceiros por um osso ruído. Já havia cruzado todos os limites.
Naquela noite tudo o pai roncava sonoro e vez ou outra chamava o nome da esposa morta. João se vestiu de todos os agasalhos que pode encontrar e fez o mesmo com Sara que estava com sono demais para tentar entender.
- Estamos indo embora. – ele disse dando um beijo em sua testa.
Prendeu-a bem as suas costas, como se fosse uma mochila, felizmente ela tinha um tamanho certo, se fosse um pouco maior talvez ficasse tudo mais difícil. Atravessou ruas escuras e becos e alcançou o pé da montanha. Não seria fácil, quase não tinha comida, mas não via outra alternativa se não sair por ali, adentrar a floresta não era opção. Melhor o risco de morte a morte certa afinal. A pedra era quase reta na vertical, difícil de escalar até metade de sua altura, mas não tinha outra escolha, o pico era sempre branco, coberto por neve intocada não importava a estação e a certa altura do trajeto a pedra ficava gelada ao contato com a mão. Ele estava cansado, comia pouco e era fraco, um garoto magrelo, quase puro osso, mas era por Sara, por sua irmã, e isso o impulsionava para cima.
Chegou até a parte onde poderia caminhar, ofegava e andou apenas o suficiente para zerar a possibilidade de queda. Tirou a irmã das costas e a abraçou, acordando-a no processo. A menina o olhou, remexeu um pouco em seus braços, mas logo voltou a dormir. Ele pôs as luvas com cuidado nas mãos feridas pelas pedras ásperas e decidiu descansar e dormir. No dia seguinte continuou subindo a montanha, conseguia avistar a cidade por inteiro e ia na exata direção oposta. Depois de muito tempo em marcha acelerada seus pés alcançaram a neve do topo, Ainda havia uma longa subida e tinha pouca comida, mas daria um jeito de chegar ao outro lado.
Em certo momento João achou ter ficado louco, ouvia um canto distante entre uivos do vento cortante. Aos poucos a voz ficava mais alta, era macia, fina, sobrenatural de tão bela. Sentiu-se em transe e impelido a buscá-la, mas ainda que inconsciente, seu braços apertaram a irmã contra com peito na intenção de protegê-la. Andou por pouco tempo até avistar um ponto vermelho divergindo da nevasca. Soube que a canção angelical vinha de lá, e seus pés teimavam em ir naquela direção. Aproximava-se cada vez mais até a imagem da mulher se formar clara em sua frente.
Eram cabelos quase brancos voando junto aos flocos de neve e pele pálida como o mais fino mármore, ela era mais alta que ele, o corpo fino, feminino, delicado e completamente nu. Sim, ele se sentia extasiado, enfeitiçado pela voz e beleza, ao se aproximar mais viu os olhos translúcidos e chegava cada vez mais perto. Do outro lado a mulher sorria, mais um ratinho levado que vinha correndo para o queijo na ratoeira. Estendeu os braços para ele, estava pronta para tocar sua pele e o dar o beijo de inverno que o transformaria em picolé de gente, mas de súbito sua voz cessou interrompida pela outra.
- João? – Sara espremida contra o peito do rapaz tentava ganhar sua atenção e quando o canto parou ela conseguiu.
Ele afrouxou o laço e olhou para as faces rosadas da criança, apenas metade do rosto aparecendo em meio aos agasalhos e cobertas. O rapaz se ajoelhou e segurou a menina firme no colo, olhou de volta para a moça da neve e suplicou.
- Por favor, deixe minha irmã ir, por favor!
Gahan se irritou, olhou para os dois de cima e com a mesma voz etérea deu um grito de desgosto. De que ia adiantar poupar uma criança tão pequena, sozinha no mundo ela não teria chance, fazia tempo, mas ainda lembrava como era estar só. Se tivesse sorte talvez até achasse um bom lugar pra ficar e vivesse bem por um tempo, mas... Bufou uma rajada de neve.
- Saí daqui, fedelho! – disse arisca – Antes que mude de ideia!
A neve parou de cair e mesmo o nevoeiro fino se dissipou, ela fez um movimento de mão, o mesmo que usaria para enxotar um cachorro pulguento e o rapaz tirando força não sabia bem de onde correu para longe da criatura levando a criança em seus braços.
- Mas que droga! Uma garota não pode nem se divertir. – praguejava consigo mesma e sumiu em meio ao branco da montanha para esperar o próximo rato que se arriscasse a passear.
~0~
[1] Trecho do poema Tiger de Willian Blake
A parte VI desse capítulo teve uma parte inspirada na obra de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas e Alice do outro lado do espelho
Yo, minna!
Até que enfim saiu \o/ Uhuuuuuuull!
Bem, deu trabalho o_O Não sei que me deu na cuca que de repente tá todo mundo aí xD Mas não se preocupem, não vou apressar as coisas, não quero sair me atropelando depois u.Ú
Vou ver se respondo as reviews, por que, neh? xD Não quis demorar mais ainda pra postar, estou mais que atrasada, então vou deixar pra fazer isso depois.
Bem, é o que tem pra hoje :D
Beijinhos!
V. Lolita
