Traduzido por ferporcel
Betado por Thity Deluc e Clau Snape



Quando a coruja do Harry chega quase uma semana depois, Hermione coloca o pacotinho gordo dentro das vestes como se fosse um segredo. Ela permite que uma curva leve e triunfante apareça em seus lábios antes de ler a carta que acompanha o pacote durante sua torrada com chá matinal.

Querida Hermione,

Desculpe a demora. Não está na época de Guelricho no momento e foi difícil para caramba de conseguir. Tive que mostrar meu distintivo de auror e usar o fator Potter para ficar no topo da lista na botica. O que eu não faço pelos amigos, heim? Será que eu quero saber o que você quer no lago? Não se preocupe em me reembolsar: Feliz Natal, Hermione.

É. Falando em Natal. Você tem idéia do que eu poderia comprar para o Prof. Snape de Natal? Estava pensando que uma dose de Poção Anti-Teimosia seria uma boa porque ele ainda não respondeu nenhuma das minhas cartas. Tranquei as memórias dele no meu cofre por enquanto até ele me deixar saber se ele as quer de volta ou não. É meio estranho escrever para ele quando parece que minhas cartas estão desaparecendo num buraco negro.

Falando em estranho. Você e o Rony me colocaram no pior dos meios, você sabe. Agradeço por você não dizer nada na sua última carta porque não é como se a minha cabeça já não doesse de ouvir o Rony falar sobre tudo isso. Eu disse para ele que não vou tomar partido. Porque, francamente, vocês dois se trataram como merda. É, ele foi desatencioso e egoísta, mas deixar um cara de bunda de fora daquele jeito foi simplesmente cruel. Eu só queria dizer que eu espero que você esteja bem e que sinto muito pelo que aconteceu.

Cuide da Gina. E se cuide.

Com amor, Harry.

Hermione coloca a carta no bolso junto com o Guelricho e morde o último pedaço de torrada, sentindo ao mesmo tempo afeição e exasperação inflexíveis. A carta de Harry a lembra que o Natal é em apenas três semanas, agora, e a idéia de ficar em Hogwarts sozinha é mais picante que a Marmite que arde em sua língua.


Defesa Contra as Artes das Trevas é absolutamente fascinante no momento. Apesar da maneira carrancuda e abrupta, o Prof. Snape é realmente um professor organizado e capaz. Parte da classe resmunga do tópico deste mês porque não há aspecto prático nele e parece História da Magia às vezes. Mas Hermione acha que a história dos bruxos das Trevas que usaram magia para ganhar poder é muito relevante, dado tudo pelo que eles passaram no ano anterior.

Hermione fica chocada e inquieta ao saber que a maioria dos ditadores trouxas, de Lorenzo de' Medici a Napoleão, Nazarov e Hitler, tinham um bruxo das Trevas espreitando nas sombras por trás como uma aranha gorda, ou influenciando-os sutilmente ou fazendo-os dançar nas cordas de marionete. Ela começa a se perguntar quantos dos problemas éticos e guerras do mundo tiveram o dedo da magia sombria. E depois seu estômago se retorce desconfortavelmente quando ela considera que algum de seus próprios atos não foram completamente éticos, então ela se concentra no fato de seus pais estarem a salvo e felizes e muito contentes em permanecer em Perth, dane-se como eles foram parar lá para começo de conversa.

— Após décadas de confinamento isolado em Nuremgard, Grindelwald foi enfim assassinado pelo bruxo das Trevas mais recente deste século. — Com uma careta retorcida, Snape deixa cair o pedaço de giz na mesa com um tinido. — E em preparação para a aula da próxima semana, a tarefa de vocês é um metro e vinte sobre a raison d'être de Tom Riddle. — Snape revira os olhos quando diversas expressões registram nervosa incerteza. — Escrevam sobre as razões dele para querer poder, seus idiotas... a motivação suprema para os atos dele. E se vocês citarem o novo livro de Rita Skeeter, terão uma nota começando em "P".

Hermione se demora depois que o resto da classe saiu em fila para o almoço. Snape finge ignorá-la por vários segundos antes de suspirar dramaticamente. — Eu não vou ter uma discussão filosófica sobre Voldemort com você agora, Srta. Granger — ele rosna. — Quero os seus pensamentos sobre o assunto.

Hermione não consegue realmente acreditar que ele vai ensinar sobre o Lorde das Trevas, dada a associação e a história um tanto próxima dele com o homem e as perguntas constrangedoras que a classe certamente fará. Mas ela está curiosamente respeitosa do fato do Snape preencher as lições desta maneira.

— Ah, não, professor — ela diz rapidamente. — Eu não queria discutir nada disso. Tive outra idéia sobre a lula gigante...

— A sua nova teoria tem base teórica confiável, Granger? — ele diz sem a menor exasperação.

Hermione fica incerta por um segundo. — Ah, bem, talvez. Eu só estava pensando...

Snape faz cara de quem está seriamente arrependido de tê-la convidado para achar uma solução. — Como você pensou que encolhê-lo, ou movê-lo para outro lago, congelar a água para deixá-lo letárgico e erguer uma Proteção Eletrificada eram boas idéias? — Ele as lista nos dedos longos e sujos de giz. — Logo você estará me dizendo que gostaria que os elfos domésticos o servissem no jantar com molho tártaro!

Hermione murcha as bochechas e decide sair enquanto pode porque ele está certo – ela realmente não tem uma idéia boa o suficiente no momento. Entretanto, ela hesita à porta. — Harry quer saber quando o senhor escreverá de volta, professor — ela diz, suas palavras se atropelando.

Ela se move rapidamente o bastante para evitar o pedaço de giz que mói contra o batente da porta. — Sensível — ela resmunga consigo mesma. Ele não joga giz desde o terceiro ano, quando Remo e Sirius espreitavam pelo castelo. Ela está realmente sorrindo quando considera que tem uma aptidão especial de irritar o Snape.


Hermione está impaciente para que a noite termine e a manhã possa vir. Ela decidiu esperar até lá para visitar Syrena porque não pode ter certeza de onde a selkie estará agora – Syrena é jovem, e Hermione espera que morar no lago não evite ter um horário de ir para a cama.

Ela se senta perto da lareira – o inverno está fincando as garras no castelo, e o frio paira por tudo como neblina – tentando começar sua redação de Defesa Contra as Artes das Trevas. Ela provavelmente compreende mais o íntimo de Voldemort do que o resto da classe; Harry preencheu muitas horas vagas no acampamento contando-lhe sobre as sessões dele com Dumbledore e o que ele vira da vida de Riddle.

Argh — ela pensa com frustração —, queria que tivéssemos acesso à internet. Uma fascinação com a psicologia é outra peculiaridade de seu pai (às vezes ela se pergunta se os dentes são realmente a vocação dele), e ela se lembra dele pegando-a lendo um livro sombrio e arrepiante sobre assassinos em série certa vez. Depois daquilo, ele mudou a coleção para o escritório dele. Hermione está começando a achar que Voldemort poderia ter sido um psicopata – não no sentido geral que os filmes trouxas falam dos assassinos em série e criminosos, mas no sentido clássico e clínico. Entretanto, ela só queria citar uma lista de características comportamentais. Ela tem quase certeza que o egocentrismo patológico e a incapacidade de amar de Voldemort são grandes "X" na coluna psicopata.

Gina se intromete em suas considerações:

— O que foi, Hermione?

Hermione oferece a Gina um olhar esquisito. Não é que Gina estivesse evitando-a – é mais o contrário, na verdade – mas esta é a primeira vez que elas conversam desde O Incidente.

Gina aponta para onde a pena de Hermione sangrou no pergaminho – uma mancha de Rorschach gigante comeu suas notas manuscritas. — Gah — Hermione resmunga, desaparecendo o pedaço de pergaminho com uma sacudida irritada de varinha. — Estava pensando em quanto gostaria de falar com meu pai — ela diz com um suspiro.

— Você não… vai voltar para casa no Natal? — Gina pergunta cuidadosamente, contornando o fato de que Hermione foi convidada para a Toca. Mas aquilo foi Antes, e Hermione não é estúpida o suficiente para achar que ainda é uma opção válida.

— Não. É muito longe para ir no feriado de inverno, e conseguir uma Chave de Portal neste estágio avançado é... — Hermione dá de ombros. E mesmo assim, seus pais vão fazer rafting na Nova Zelândia ou coisa assim, e ela não quer interferir nos planos deles.

O rosto de Gina cai um pouco e preocupação enruga entre as sobrancelhas arqueadas dela. — Você não vai ficar aqui sozinha no Natal, vai? — Ela pressiona os lábios fechados por um momento. — Olha, tenho certeza que seria...

— Um desastre completo se eu fosse para a Toca, Gina. Mas obrigada assim mesmo. — Hermione sorri para Gina. Ela está tocada pelo fato de que a amizade delas não parece ter sido construída apenas nos laços que conectaram Rony a ela. — Olha. Eu tenho um monte de pesquisa para fazer, e vou persuadir a Profa McGonagall a me deixar ir até uma vila trouxa para telefonar para os meus pais. Posso até começar nosso projeto de Poções do próximo semestre.

Gina sorri. Apesar de estender o convite, ela parece mesmo aliviada que Hermione tenha recusado. — Você é realmente formidável, Hermione — ela diz.

Dando a Gina o que parece ser um sorriso forçado, Hermione assente com a cabeça e depois descarta a lição de casa em favor de escrever de volta para Harry:

Querido Harry,

Obrigada pelo presente de Natal, Harry. Aprecio todo o trabalho que você teve por mim. Estou fazendo algumas pesquisas sobre a lula gigante, na verdade, embora eu prefira que ninguém saiba disso, se é que você me entende?

O Prof. Snape provavelmente apreciaria o Volume 63 de Pocioneiro Prudente se você conseguir por suas mãos em um. Tenho certeza que ele lhe escreverá de volta eventualmente – acho que ele é do tipo que você tem que ficar lapidando até que canse de lutar contra você.

Sim. É horrível ficar no meio. Eu me lembro do quarto ano e de como foi difícil com você e o Rony e é por isso que eu não quero desabafar com você sobre isso tudo. Estou bem, sério. Acho que isso aconteceria eventualmente com certeza. Só sinto muito por não ter sido de uma forma mais fácil, de forma que pudesse manter a amizade dele, eu acho.

Boas festas, Harry.

Com amor, Hermione.


Mesmo um Feitiço de Calor não alivia o frio cristalino que se alojou bem no centro de seus ossos. Hermione está bem preparada esta manhã – ela até Transfigurou um maiô – mas ficar em pé na água gelada até os joelhos e mastigando o que parece um monte de elásticos com uma divertida pequena selkie assistindo não é sua idéia de bom divertimento. Hermione se pergunta se seus pés só amorteceram ou se é o Guelricho começando a funcionar quando seu peito pára e o mundo começa a piscar com pequenos flocos de luz. Sim, o Guelricho — ela decide, jogando-se na água para se juntar à Syrena.

Syrena nada ao seu redor excitadamente, circulando num espiral estonteante. — Oh, você veio antes do congelamento — ela gorjeia. — Era isso que eu estava tentando lhe dizer no outro dia... para vir antes do congelamento ou não a veria até que esquentasse de novo!

— É claro — Hermione diz, sentindo-se um pouco estúpida por ter vivido no castelo por tanto tempo e nunca ter realmente pensado nas implicações do inverno quando a superfície prateada do lago congela como aço com a neve. — Você ficará bem?

O riso de Syrena faz bolhas alegremente. — O lago não fica sólido, boba — ela diz simplesmente.

— Bom, sim, eu sabia disso — Hermione permite. — Quero dizer, você não vai ficar com frio?

Syrena dá de ombros. — Somos feitos para a água. Meu pai gosta do congelamento porque o Kraken fica lento e estúpido.

Hermione sorri. — Bem, isso é bom. — Ela realmente quer dizer à Syrena que ela, Hermione Granger, solucionará o problema do Kraken de uma vez por todas para que os selkies nunca mais tenham que guardar suas fronteiras de nada mais malevolente que um tubarão errante novamente. Mas ela morde a língua porque sabe o que é prometerem o mundo e depois tê-lo tirado de você. — Você vai me contar o resto da história?

— Venha. — Syrena executa uma volta de costas graciosa e mergulha para águas mais fundas, movendo-se devagar o suficiente para deixar Hermione acompanhá-la. Hermione luta para manter sua exasperação sob controle; a selkie parece impassível de que o tempo de Hermione é limitado e que Hermione está impaciente pelo resto do conto. Syrena pára abruptamente e mostra seu sorriso bonito-feio, e depois diz algo em sereiano borbulhante suavemente e observa o verde ao redor com expectativa.

Num momento seguinte, um demônio de pele esverdeada com chifres pontiagudos e dentes afiados vem efervescente na direção delas, quase capotando nos dedos longos magros e feios com a pressa. Hermione saca sua varinha rapidamente, os olhos arregalados com alarme.

— Não, não, não — Syrena diz rapidamente, lançando-se entre o Grindylow e a varinha. — Queria lhe mostrar para o Balrog. — O Grindylow pára abruptamente, fazendo um som ofegante tipo gristo, gristo, gristo no fundo da garganta. Ele lambe a mão da Syrena e flexiona os dedos longos e esqueléticos. — Ele é meu amigo, está vendo?

Hermione mostra seu sorriso falso e fraco para Syrena. — Sim, estou — ela diz, seu alívio vindo à tona num amontoado de bolhas. Grindylows lhe causam arrepios por alguma razão, como naquele filme Gremlin. Deve ser o olhar um tanto parado e demoníaco. Mas porque Hermione quer agradar Syrena, ela diz: — Olá, Balrog. Prazer em conhecê-lo.

Syrena murmura para Balrog algo em sereiano novamente. O Grindylow faz aquele som de novo e parece contemplar lamber a mão de Hermione. Hermione cruza os braços sobre o peito. — Leenash? — ela lembra Syrena. Ela é a favor de fazer um tour pela vida selkie eventualmente, mas se deixar o lago sem a resposta, ela vai remoer isso o inverno inteiro. — Você disse que ela foi embora e você não sabe o que aconteceu. Mas muitos anos depois... — Hermione ergue as sobrancelhas.

— Muitos anos depois, Barba Prateada veio até o meu pai com uma caixa grande. Ele disse que Leenash se fora para a água além do sol, mas que ela gostaria que seu corpo voltasse para sua família. — Syrena aponta para uma piscina escura de sombras sob um rochedo altaneiro que parece crescer do fundo do lago. — Ali. Eu posso lhe mostrar.

Hermione segue Syrena, com um franzimento de testa distraído. Barba Prateada. Dumbledore? Ela sente alívio ao ver Balrog perambular para longe preguiçosamente, flutuando de volta de onde ele viera. Pelo que ela consegue se lembrar, há uma vila selkie até que grande naquela direção. Entretanto, a visibilidade não é boa o suficiente para enxergá-la.

— Syrena? Esse Barba Prateada era como eu? — ela pergunta, batendo os pés furiosamente para acompanhá-la.

— Sim — Syrena diz. — Ele era um Mágico do Ar, como você. Mas ele também foi para o céu.

Hermione assente com a cabeça com um sorrisinho saudoso e nostálgico. — Sim, ele foi. Ele era um velho muito sábio.

— Meu pai ficou muito triste. Todo o lago ficou muito escuro, embora fosse a época mais quente. — Syrena pára no que só pode ser um cemitério submerso. — Leenash está aqui — ela diz, nadando para longe novamente, desta vez para mais fundo no cemitério.

Hermione tem cuidado para não tocar nenhuma das pedras escuras que estão arranjadas de forma regular enquanto segue a Syrena. — Syrena — ela borbulha nervosamente, agora se sentindo um pouco como se estivesse se intrometendo onde não devia.

— Aqui — Syrena diz, parando perto de uma rocha salpicada de algas. Ela traça o pequeno dedo sobre a inscrição na rocha: Leenash Banaphrionnsa.

Hermione mergulha a cabeça para mais perto, seu cabelo flutuando numa rede emaranhada ao redor de sua cabeça. — O que a segunda palavra significa? É o... sobrenome dela?

Syrena inclina a cabeça para o lado, franzindo a testa de forma que as sobrancelhas cheias e negras se juntam. — Não. Ela só tem um nome: Leenash. A palavra lhe diz sobre a posição da família dela... Eu também sou Banaphrionnsa, como a Leenash. — Syrena lê a pergunta no rosto de Hermione antes que ela possa deixar sua boca. — Significa que o pai dela era o Chefe da Tribo. O líder, sim?

Hermione pode apenas erguer as duas sobrancelhas em surpresa.


N.A.: Balrog: emprestei desavergonhadamente o nome de O Senhor dos Anéis. Exceto que os pobres Grindylows são demônios muito inferiores, é claro.

Banaphrionnsa: Galego escocês para princesa.

Obrigada a todos que lêem e deixam reviews. Escrever esta história tem sido uma experiência brilhante e prateada para mim.

Obrigada à Gelsey por betar a versão original e por ser uma amiga incrível!

N.T.: Marmite, pelo Wikipédia, é um dos produtos alimentares ingleses mais populares. Está na categoria dos alimentos intensificadores de sabor e é muito empregado como pasta para untar tostas. É elaborado exclusivamente com extrato de levedura obtida como subproduto do processo de fabricação de cerveja.

Também segundo o Wikipédia, rafting é a prática de descida em corredeiras em equipe utilizando botes infláveis, equipamentos de segurança. U-hu! :0P