Parte 4
"Estou com fome." David anunciou enquanto se mexia sobre o sofá. Já havia se passado uma hora do usual "assistir desenho matinais na televisão" e eu acho que ele não poderia mais suprir sua fome.
Ele me olhou encantadoramente por entre a cortina de cabelos castanhos, colada em sua bochecha, seu lábio inferior curvado num pequeno bico. Desnecessário dizer que eu estava completamente imóvel.
Primeiro, isso era um ímpeto bobo... O olhar que dizia "eu sou sexy e incompetente, então me mime, seu idiota". E então o suave... O ultra-adorável bico de puro abandono que faz até a pessoa mais vil querer mimá-lo (Benji Madden tentou fazer isso uma vez, mas eu lancei um olhar de desprezo e ele se afastou, tipo, dez passos). E, bem, eu sempre achei que isso era uma arma dupla, com a qual eu nunca poderia lutar.
Eu suspirei ruidosamente e apoiei minha cabeça no encosto do sofá. "Ótimo." Eu exclamei e você podia notar a mudança na expressão de David, a alegria repentina inundando suas feições. "Mas deixe-me avisá-lo, eu não sei cozinhar."
David encolheu os ombros despreocupadamente, como se não se importasse realmente que nós pudéssemos deixar a casa em cinzas se tentássemos algo no fogão, desde que nós matássemos a fome dele.
"E daí?" ele perguntou, me observando entre a cortina de cabelos em frente ao seus olhos. "Eu nunca cozinhei também. É pra isso que o Seb existe, Pierre. Ele é nosso escravo voluntário."
"E o pequeno gatinho sexual do Chu…" uma mão tampou firmemente minha boca e eu podia apenas ficar ciente do cheiro do sabonete de David. Aparentemente, ele me calou com a mão. "Por favor, Pierre, me poupe. Você não devia ter me falado sobre a vida sexual deles ontem, mas você falou. E agora eu estou te pedindo, por favor, não divulgue nenhuma outra informação. Eu não quero perder todo meu apetite."
Eu sorri contra a mão que tampava minha boca. "Isso era exatamente o que eu estava tentando fazer,"
Ele me cutucou no ombro e olhou nossas mãos presas, antes de olhar pra mim novamente. Ele riu enquanto murmurava dentro da minha orelha, tão próximo que me fez tremer involuntariamente com a sensação de seus lábios tocando minha pele. "Eu vou deixar você usar o avental se você for um bom menino."
Ah, Deus. Eu acho que eu vou lambuzar minhas calças agora.
Seriamente.
Ele me puxou pelas mãos unidas e me arrastou para a cozinha. Eu nunca tinha visto a cozinha antes.
Nas raras ocasiões em que a garrafa de café não estava cheia ou quando o café da manhã não estava pronto quando eu acordava, eu não tentava compreender as coisas. Eu não queria arriscar me mexer tão cedo, então em vez de preparar o café da manhã como um homem normal, eu chamava Sebastien com todo o meu fôlego.
E Sebastien, com sua verdadeira bondade, sairia do lugar da casa onde ele e Chuck estariam fazendo coisas pecaminosas para o outro, para me perguntar o que eu precisava.
Honestamente, ele era o namorado ideal. Se ele fosse um pouco mais emo, pequeno, talvez até mesmo pálido e magro, com olhos amendoados, eu pularia nele exatamente agora.
Infelizmente, ele não se encaixava nessa descrição.
David sim. Mas David retorna meus sentimentos? Infernos, não.
Chuck era um bastardo sortudo, entretanto. Esse cara provavelmente tem mais sorte do que todos nós juntos e multiplicado por 81. Eles fazem sexo ao menos duas vezes antes, durante e entre os shows. E foder com os olhos também conta!
David olhou para a frigideira em sua frente como se, subitamente, tivesse brotado tentáculos. "Na minha vida toda, eu nunca vi... Uma geringonça como essa."
Eu ergui minhas sobrancelhas.
"Okay, talvez eu tenha visto, mas eu faço idéia de como se usa isso."
Eu franzi meu rosto. "A gente não pode simplesmente pedir uma pizza?"
"Não acho que eles vendem pizza tão cedo."
Eu assenti. David estava certo. "Então, o que vamos fazer?" perguntei. Ele foi até o armário e puxou todos os utensílios, entregando-os para mim. "David, pra que nós vamos precisar de um martelo? E o que, infernos, um martelo está fazendo na cozinha, de todo modo?" E, então, eu adicionei como um pensamento tardio. "Espere. Não responda. Isso provavelmente é culpa do Pat."
Eu lancei um olhar para o avental pendurado ao lado da geladeira e sorri. "Hey," comecei, apontando para ele. "Veja, esse é o avental que o Seb ama. Aquele que o Chuck sempre pede pra ele vestir." Eu olhei desconfiadamente para a substância branca grudenta que sujou todo o segundo "o" da estampa escura, onde se lia "Kiss The Cook"¹. Agora, se lia "Kiss The Cock"². Provavelmente foi Chuck quem fez isso também, o bastardo. Eu estou começando a especular o motivo de Seb não estar se sentando por muito tempo. A bunda dele deve estar começando a doer. Pobre criança.
David suspirou enquanto coçava sua bochecha. "Honestamente, Pierre..." ele balançou a cabeça, exasperado, enquanto puxava o avental de onde ele estava pendurado e o segurava com um braço. "Seb e Chuck deviam comprar sua própria casa e se mudar para lá. Quero dizer, toda essa vida familiar rolando pela casa. Tudo o que o Seb precisa é uma peruca, um vestido e algumas facas e ele seria a perfeita e pequena dona de casa do Chuck. Eles praticamente fazem sexo em todos os cantos da casa quando saímos para fazer compras."
"Como você saberia?" eu perguntei, curioso.
David me olhou de modo significativo. "Eu sei."
Eu parei de me inclinar sobre o balcão. Estava pegajoso também. "Certo. Vamos voltar à tarefa, então."
David deslocou-se e se virou pra mim.
"O que vamos fazer essa manhã, caro senhor?"
"Nós vamos fazer ovos e torradas." Ele piscou. "E já que você tem sido um garotinho muito, muito bom essa manhã, você será privilegiado com a rara regalia de poder usar o avental."
Eu ri. "Mesmo? Bem, eu estou extasiado. Por favor, faça as honras e o coloque em mim!"
David deu risadinhas e colocou o avental ao redor do meu pescoço, indo para trás de mim para amarrar os barbantes na minha cintura. "Pronto." Ele disse assim que terminou. Ele deu um pequeno passo para trás e fez algo que me surpreendeu; eu estava, bem, estava... Surpreso?
David apertou minha bunda.
E qual foi a outra reação inteligente que eu tive? Eu me afastei, grunhindo. "Merda."
Me virei para encarar David, meus olhos arregalados. "Cara, você acabou de tocar minha bunda?" Não que eu tivesse algum problema com isso, é claro.
Ele sorriu descaradamente e juntou seu quadril com o meu. "Você fica tão gostoso com o avental; eu acho que vou fazer de você meu cozinheiro particular, entre outras coisas." Ele piscou pra mim e, ficando na ponta dos pés, me puxou para perto pelo ombro e pressionou seus lábios contra minha bochecha.
Minhas bochechas coraram. Minhas orelhas começaram a esquentar e, pior de tudo, eu senti todo o sangue se concentrar nas minhas regiões baixas. Merda. Eu me afastei, pegando uma tigela de alumínio e cobrindo o crescimento das minhas calças com ela.
"O que... O que foi isso, cara?" eu perguntei. David deu de ombros. "Eu achei que o avental estivesse sendo claro. Beije o cozinheiro. Pareceu uma idéia legal na hora."
"Oh."
E ali estava eu, com uma tigela de alumínio cobrindo minha ereção, pensando que ele correspondia meus sentimentos.
Como eu sou idiota.
Idiota pra caralho.
Depois do choque inicial de David ter apertado minha bunda e beijado minha bochecha (considerando que demorou um tempo), nós andamos até o fogão e pegamos os ovos.
Era realmente difícil cozinhar estando algemado ao seu melhor amigo e portando uma ereção que não passava, porque o mencionado melhor amigo cheira tão malditamente bem. Mas, de alguma forma, David e eu conseguimos. Ou melhor, ele conseguiu. Eu só fiquei de avental, desconfortável, a tigela de metal na frente do zíper da minha calça, mostrando o idiota que eu era.
David fez tudo. Para não mencionar o flerte desavergonhado. Eu queria matar Seb. Era culpa dele eu estar nessa situação desastrosa. Eu estava praticamente precisando de uma boxer nova, mas não era como se eu pudesse me trocar, de qualquer forma, considerando que David iria querer saber por que minha boxer está toda... Melecada quando nós não fizemos nada além de mexer no fogão na cozinha. Eu também não acho que gozar espontaneamente é como combustão espontânea. Eram duas coisas diferentes.
Depois de queimar levemente a torrada, junto com os ovos, nós tivemos algum sucesso em fazer nosso café da manhã, suficientemente bom para encher nossos estômagos.
Bem, um ovo mexido na verdade. Quando finalmente conseguimos algo de verdade, os alimentos tinham acabado.
Foi nessa ironia que David percebeu que precisava comprar mais ovos. "Eu acho que nós vamos precisar de mais ovos." Ele anunciou.
"Por quê?" isso veio do idiota com uma tigela de alumínio em frente ao pacote em suas calças.
"Nós estamos sem."
"Yeah, mas, Davey, não podemos sair e ir comprar mais. Nós estamos algemados, lembra? A não se que você queira se arriscar a parecer um demente idiota algemado à mim na merceraria..."
"Mas Pierre!" ele choramingou, me interrompendo.
E ele tinha que fazer aquela coisa do bico novamente. Aquele que o lábio inferior dele se curva e seus olhos castanhos marejam, enquanto ele olha para você como se você fosse cruel por ter chutado-o pra fora de casa.
Desnecessário dizer, minhas defesas estavam começando a desmoronar pouco a pouco... No momento em que David tocou meu braço e aninhou seu nariz no meu ombro, eu já estava entregue.
"Nós não vamos ter nenhum café da manhã decente se nos contentarmos com... Com isso!" ele gesticulou imperfeitamente para a travessa de ovos. Correção. Ovo.
"Bem, David, você pode comê-lo se quiser," eu dei de ombros, ignorando o cheiro do cabelo dele. Minha ereção estava começando a desaparecer. Eu não queria que ela voltasse novamente, você sabe.
"Não é grande coisa. Eu posso ficar apenas com alguns Lucky Charms. Eu não estou com tanta fome assim, de qualquer modo."
David suspirou. Ele olhou para mim por um longo momento, examinando meu rosto, seu cabelo caindo na sua testa. Eu fiz um movimento para afastá-los, mas parei quando vi que seus olhos brilharam visivelmente.
Eu odiava quando isso acontecia. Geralmente, quando David lança esse olhar, significa problemas. Nós provavelmente pularíamos de uma ponte para o inferno, ou algo do tipo, ou talvez nos equilibraríamos numa corda bamba para ver quanto tempo poderíamos ficar suspensos no ar. As possibilidades são infinitas, eu temo.
"Eu sei! Eu sei!" ele disse. Ele deu um passo para trás e sorriu. "Nós podemos dividir!"
"David... Está tudo bem. São apenas, bem, ovos. Eu nem sou um grande fã dessas malditas coisas. Você pode ficar com eles!"
Mas David não aceitou um "não" como resposta. "Você é meu melhor amigo, Pierre. Eu quero dividir as pequenas coisas que nós cozinhamos juntos. Ou melhor, o pouco que conseguimos."
"David..."
"Por favor, Pierre? Por favor?"
Eu podia dizer não?
"Okay, então, eu acho."
David sorriu alegremente assim que nos sentamos à mesa da cozinha. De começo era desconfortável. Um braço esticado sobre a mesa, enquanto ele se sentava na minha frente e nós olhávamos famintamente para a travessa na nossa frente.
David piscou.
"Eu vou sentar no seu colo." Ele anunciou.
Mamãe.
Eu acho que eu preciso da tigela novamente.
David andou até mim e se sentou indiferentemente no meu colo. Ele se remexeu um pouco, ficando mais confortável e eu juro por Deus que ele estava pressionando sua bunda contra a região entre minhas pernas. Eu rangi os dentes e tentei pensar em algo para me livrar rapidamente da minha ereção em formação.
Chuck... Isso. Chuck de maria-chiquinhas… Numa fantasia de banana. Dançando ao som de… De… Nsync.
Não funcionou.
Juntando minhas mãos, eu rezei para quem quer que estivesse ouvindo lá em cima para dar um jeito na minha ereção, porque – maldição! – David estava sentado no meu colo e movendo sua pélvis.
"Hey, Pierre." David chamou enquanto cortava um pedaço do ovo. "Abra a boca pro aviãozinho." Então ele começou a fazer sons de avião para os quais eu sorri falsamente. Ele se remexeu novamente, dessa vez pressionando suas costas no meu peito enquanto se movia para frente e, então, se virou para me encarar novamente, empurrando um garfo cheio de comida na minha boca.
"Bom menino." Ele disse amavelmente.
Eu soltei um leve gemido.
Por favor, que ele não note. Por favor, que ele não note. David brincou com o ovo e comeu um pedaço, antes de se lembrar de mim e me dar mais um pouco.
"Você é um crianção, Pie." Ele comentou, limpando o canto da minha boca com seu dedão. "Você tem tanta sorte de me ter como seu pai. Outras pessoas simplesmente deixariam suas crianças morrerem de fome e somente pensariam neles mesmos! Enquanto eu sou diferente e realmente me preocupo com o bem-estar do meu menininho, que está tão crescido agora e gritando com todo seu fôlego para todas as crianças ao redor do mundo." Ele fingiu fungar e, cara, eu tive que rir disso.
"Você é um garotinho muito bom." Ele sorriu, se empurrando contra meu peito e deixando nossos narizes se tocarem.
Menos, cara. Eu rosnei assim que ele se fez ainda mais confortável no meu colo e esticou suas pernas, de modo que cada uma estava exatamente alinhadas às minhas.
"Agora, o jornal da manhã." Murmurando, David se moveu para frente novamente e olhou para a palavra cruzada jogada ali. Com a comida a meio caminho da sua boca, ele estreitou os olhos assim que leu atentamente o jornal.
"Hey, Pierre, qual é a palavra de seis letras para construção? Começa com um E... termina com O e tem três sílabas."
Eu engoli seco.
"Ereção." eu disse, reunindo coragem para dizer a palavra. Sem sucesso.
Ele franziu o cenho e assentiu, virando-a levemente pra mim. "Oh, você quer dizer, igual essa cutucando as minhas costas?"
Fodeu.
-
¹ Beije o cozinheiro.
² Beije o pinto.
