File #04

Adentramos o suntuoso hall da delegacia. Dotado de notável arquitetura e um belo vitral, podíamos contemplá-lo totalmente do beiral no segundo andar, onde estávamos. O ambiente se encontrava vazio, mesmo o computador atrás de um balcão no piso inferior estando ligado, a luz azulada emitida pelo monitor iluminando mais o recinto.

Brendon --- Este lugar costumava ser um museu... Até que se tornou sede do R.P.D.!

Retomamos a caminhada. Chegando ao centro do corredor que contornava o hall, o policial ativou uma escada de incêndio que deu acesso ao primeiro andar. Começamos então a descer pelos frios degraus, mãos firmes e pés atentos para que não nos movimentássemos em falso. Logo chegamos ao chão.

Adams --- Vamos dar uma checada naquele PC!

A máquina ligada mostrava que há alguns minutos alguém usara um cartão magnético de segurança para lacrar a porta do hall, evitando que mais mortos-vivos entrassem no prédio. Era melhor deixá-la assim. Brendon sentou-se na frente do computador e começou a digitar no teclado.

Brendon --- Tentarei contatar o exterior em busca de resgate!

Fiz que sim com a cabeça, e pouco depois, frustrado, ele saiu da frente da tela para que eu pudesse ler o que havia nela:

Acesso a Web – BLOQUEADO.

Acesso à rede interna do R.P.D. – EM MODO DE SEGURANÇA (APENAS ABRIR/FECHAR PORTAS).

Acesso à rede da Umbrella, Raccoon City – BLOQUEADO.

Acesso à Rede Nacional de Emergência – BLOQUEADO POR SENHA.

Brendon --- Droga, estamos incomunicáveis aqui dentro!

Adams --- Espere um pouco, o acesso à rede emergencial pode ser liberado através de uma senha, correto?

Brendon --- É o que parece!

Adams --- Você não sabe de alguém aqui no R.P.D. que conheça essa senha?

Brendon --- O responsável pelo setor "informático" do Departamento é o Phillips...

Adams --- Alguma idéia de onde ele pode estar?

Brendon --- Eu o vi pela última vez na sala de revelação, primeiro andar, ala oeste do prédio... Mas isso foi horas atrás!

Adams --- Merece uma olhada...

Brendon nem protestou, atento como estava à tela do computador. Enquanto ele tentava driblar os bloqueios de segurança por si só, eu me dirigi até uma das portas do hall que levavam à ala oeste, a primeira à esquerda vindo da entrada da delegacia, dupla... Desejei ter sorte.

A sala seguinte parecia servir como uma espécie de recepção, onde as pessoas esperavam para serem atendidas pelos policiais. No entanto, àquela altura qualquer cidadão de Raccoon que quisesse prestar uma queixa já devia estar perambulando pelas ruas em forma de zumbi. Sobre um banco havia uma prancheta com algum tipo de aviso aos oficiais, mas eu preferi deixá-lo ali.

Passando por uma divisória de madeira, encontrei outra porta. Cruzei-a. O novo corredor em forma de "L" me revelou, logo após uma curva, dois zumbis vagando em círculos. Tratava-se de um casal, jovem, provavelmente haviam sido namorados em vida.

Decidi acabar com o sofrimento dos dois. Apontei a Beretta, efetuando o primeiro disparo. A bala atingiu perfeitamente o ouvido esquerdo do rapaz morto-vivo. Ele continuou andando por alguns segundos, sangue e massa encefálica vazando-lhe pela orelha mutilada, até tombar inerte no chão. Percebendo-me, a mulher gemeu vindo em minha direção, braços estendidos para me agarrar. Fui rápido e, com dois tiros em seu rosto, fiz com que se unisse ao amado.

Eu ainda possuía sete balas na pistola e trinta de reserva. Talvez o suficiente para escapar daquele pesadelo.

Deixei para trás os corpos e o intenso cheiro de decomposição, adentrando a porta no final do corredor (ignorei uma outra à direita). A nova passagem tinha o formato de "U", e nela, para meu alívio, me deparei com mais seres vivos: dois policiais, um loiro e um moreno, estando este último com o uniforme sujo de sangue, cobriam rapidamente as janelas quebradas do corredor com tábuas e pedaços de madeira, barrando a entrada de zumbis. Estavam tão absortos com o trabalho de fixar os pregos, sem contar o alto barulho causado pelas batidas dos martelos que usavam, que nem me perceberam de início.

Caminhei até metade do caminho, onde existia uma porta-dupla. Só então o loiro me notou e, interrompendo as marteladas, voltou-se e perguntou:

Policial Loiro --- Quem é você?

Adams --- Um sobrevivente, assim como vocês! Estou procurando um oficial de nome Phillips, sabem do paradeiro dele?

Policial Loiro --- O Phillips? Eu o vi zanzando pelo primeiro andar, mas já faz algum tempo... Como os mortos-vivos estão ganhando cada vez mais terreno no prédio, é possível que ele já esteja morto!

Adams --- OK, obrigado mesmo assim!

Segui meu caminho, enquanto o loiro retomava as batidas e o moreno as continuava nem sequer me notando. Avancei até o término do corredor, onde encontrei nova porta de madeira. Girei a maçaneta, atravessando-a sem saber com o que me depararia depois...

O corredor seguinte possuía aparência mais imponente, quase marmórea, ressaltando a bela arquitetura da delegacia. Logo que dei meus primeiros passos, uma placa apontando para a porta ao lado da escada que conduzia ao segundo piso me chamou a atenção: "Sala de Revelação". Entrei sem hesitar.

Mas não havia ninguém na salinha. Apenas uma mesa repleta de papéis, pastas e uma máquina de escrever, um grande baú, armários e prateleiras, e ao fundo um anexo de iluminação avermelhada onde as fotos eram reveladas. Dei uma vasculhada em tudo e, não encontrando nada útil, regressei ao corredor. Teria de procurar Phillips em outro lugar.

Optei por subir as escadas, meus passos fazendo toda a estrutura de madeira estremecer. O primeiro corredor do segundo andar também estava livre de zumbis, apesar de indícios de provável luta, como uma porta quebrada e emperrada. Por sorte, a presente no final da passagem, junto a um estranho e suspeito conjunto de três estátuas, encontrava-se em perfeito estado. Passei através dela.

Mais um corredor. Junto a uma das janelas escuras alguém deixara uma enceradeira. Havia um zumbi logo à frente, gordo, mole e lento. Decidi não desperdiçar munição com ele, já que seria fácil desviar. Corri pelo monstro sem problemas, a não ser uma baba ácida que saiu de sua boca e quase atingiu meus sapatos. Entrei por uma porta que possuía a placa com as iniciais "S.T.A.R.S.". A antiga sala do esquadrão especial de Raccoon. Outrora local de trabalho de Chris Redfield, autor do e-mail para o FBI.

O recinto estava revirado. Papéis pelo chão, pilhas de folhas e pastas sobre a mesa do antigo líder da equipe, à minha esquerda. Nessa mesma direção, atrás do móvel, vi pendurada na parede uma foto emoldurada na qual estavam as duas equipes do S.T.A.R.S., Alpha e Bravo. Aproximei-me para ver melhor, apesar de não ser de serventia, já que eu nunca vira Chris e não saberia identificá-lo dentre seus colegas. Nisso, notei um nome na mesa do capitão. Albert Wesker. Redfield citara esse nome na mensagem. Até então, eu não sabia direito do que se tratava.

Em seguida averigüei uma prateleira contendo um fax, e então passei para as demais mesas. As duas equipes deviam se revezar em turnos ali, pois não havia espaço para todos os integrantes. Sem muita dificuldade, encontrei o gabinete de Chris. A guitarra presa à parede deixava crer que ele era o típico "garoto rebelde" amante de rock e problemas. Perguntei-me se aquela investigação valia mesmo a pena, apesar da epidemia na cidade já demonstrar que algo estava muito errado.

Curioso, descobri o diário do rapaz sobre a mesa. Mas quando ia lê-lo, um ruído atrás de mim desviou minha atenção. Assemelhava-se a algum tipo de "bip". Voltando-me, só então percebi que alguém estava sentado diante de uma bancada no canto da sala onde havia um grande aparelho de comunicação via rádio, fones cobrindo os ouvidos (e fora provavelmente por isso que não me ouvira entrar). Trajava uniforme da polícia. Cheguei perto lentamente, até exclamar:

Adams --- Olá!

O jovem oficial, um pouco assustado, retirou os fones e virou-se para mim. Certamente chamava por socorro e minha súbita entrada na sala revelou-lhe sua imprudência em ter deixado a porta aberta. Se eu fosse um zumbi, ele já estaria morto.

Policial --- Desculpe, estou tentando contatar resgate usando este velho rádio e...

Adams --- Por acaso se chama Phillips?

Policial --- Sim senhor, como sabe?

Eu sorri. Bingo!

Continua...