Vinho seco girava no copo de vidro. Sabemos a fundo que, quando muito amargo, rodopiar a bebida levemente deixa-á mais agradável. Talvez não. O gosto permanecia inalterado.

As pupilas fendadas de tédio e sono mostravam uma expressão muito insolente para qualquer um que tentasse manter um diálogo, ou estivesse-o tendo, com alguém naquele estado. O senhor visivelmente contrariou-se, mas o entendiado não importava-se milimetricamente. Bocejou sonoramente, quase de propósito. Ruído de desgosto escapou da pele pálida e machucada do mais velho. Aquele verão estava de matar.

- Ei, ei, entendeu? - reiterou na quantia de vezes que o Sol já iluminou nossos dias - Não faça-me tolo. Não tenho tempo para perder.

O contratado do pedido apenas inclinou-se para a esquerda do que estava observando-o. Riu e soou tão falso que chegou a ser cômico.

A gargalhada seca e superficial estalou nos quatro quadrados de concreto. O pescoço agora para trás do homem de fios pretos subia e descia. Não engolia, não mastigava. Era um tique. Não comumente, admitimos.

Não é como se o homem mais novo fosse responder. Era até ingenuidade que se esperasse isso. Um som vazio e sarcástico era o máximo que arrancava-se de sua existência e presença.

Então o jovem alisou os cabelos escuros com entre os dedos e sibilou. O observante pulou de imediato, saindo da sala. Um retângulo cheio de outros retângulos meio verdes balançou na luz da vela. O dinheiro era pouco, porém adequado.

Covardes não matam, covardes procuram outros que não o sejam. Aquela pequena quantia servia para que o corajoso apaga-se a covardia ou não de outro ser alheio.

Então nosso jovem sorriu verdadeiramente e limpou sua espingarda de cano duplo, jogando o resto de vinho no chão.


O herói do conto, o filho do trabalhador, o conhecido da banca de atirar em patinhos, o menino que a menina detestou, ou seja, o que estava ainda no circo, bocejou. Seu pai lançou-o puro descontentamento.

- Já está com sono? Devemos ir para casa.

E em troca recebeu um silvo de agonia e irritação adolescente. Protesto puro. Ora, mesmo cansaço vence a teimosia de permanecer num lugar que tanto ansiara? Jamais. Pobres adultos, sempre sem pensar.

- Ah, certo - o alto respondera, tão mecânico como uma prensadora de papel. Não havia porque reiterar.

Estamos rimando demais, então para terminar esta parte inclinaremos para um acontecimento totalmente sem repetição. Sem nexo também, mas nexo era a última parcela que havia naquela pessoa. Continuando, aquele outro, ou aquela, estava minutos encarando o teimoso.

Um R marrom pairava pela superfície da mão do membro superior direito dela. Ela sorria. Não planejado, como o anterior, nem feliz, como o do que estávamos falando, um sorriso apenas impulsivo. Você pode já ter ou não passado desta fase, mas quando encontramos outro humano do sexo oposto na mesma faixa de idade num lugar que tanto queríamos e que parece compartilhar nosso entusiasmo era formidável. Se não sentiu-o... Lamentamos.

O irmão mais velho ajeitava a meia 7/8 da adolescente. Uma mistura de preocupação e raiva expandia-se em sua face. Aquele quase adulto não possuía nenhuma porcentagem de paciência, nem inteligência o bastante para saber que uma meia desarrumada não merecia tanta atenção.

Entrementes, foi assim. Foi assim que se encontraram. Aquele dos fios encaracolados e aquela dos lisos. O primeiro mais loiro, a segunda mais morena. Fitaram-se na distância de alguns metros. Não estou comentando do irmão da moça, pois ele obviamente já a conhecia. Estou falando do filho do trabalhador. Santos, por que não havia um retrato de sua expressão no céu? Era angelical. Não era um dejá vu como se a houvesse conhecido, nem um reconhecimento longínquo, mas um conhecer instantâneo fantástico.

Foi anunciado que o circo fechou-se num grito alto dos já cansados palhaços, mas o novo mundo que criou-se para o menino não teria final.