IV

O que guarda o coração.

Já era quase meia noite quando os alunos de sétimo da Casa de Gryffindor saíram do exame de Astronomia. Os colegas de Harry tinham-se posto de acordo para armar uma pequena festa na Sala Comum, para celebrar nos últimos dias de exames e despedir do Colégio.

Mas Ron e Hermione viram a oportunidade de escapulir-se e dirigiram-se para o quarto das vassouras, de onde tomaram as suas e saíram a dar um passeio para além das Torres.

E agora se encontravam um junto ao outro, contemplando a mesma lua que Remus observasse dantes de se dormir.

Tinham enfeitiçado suas vassouras com o conjuro do amortecedor, pelo que a vassoura de Ron lhes servia de assento, enquanto a de Hermione se achava detrás, lhes servindo de respaldo, de maneira que ainda que a simples vista parecia que de uma hora para outra cairiam, em realidade se encontravam bastante cômodos.

-Sabes, Hermione? –Ron teve a iniciativa de começar a tratar o tema que tinham deixado pendente. –Estive pensando muito sobre o que praticamos a última vez. E verás, eu... acho que fui bastante grosseiro quando decidi mudar o tema dessa maneira, e por isso quero começar te oferecendo uma desculpa.

-Não te preocupes por isso, Ron. –Hermione tomou a mão de seu noivo. –Se achas que ainda não estás pronto para dar este grande passo, não te vou pressionar.

-Não é isso em realidade. –Interrompendo-a. –Claro que quero me casar e todo isso, mas... há algumas coisas que quero deixar em claro antes de tomar uma decisão desta natureza.

-Queres estar seguro se em realidade amas-me?

-Claro que te amo, Hermione. –Ron acercou-a com lentidão para ele e a abraçou de forma protetora. –Amo-te mais do que possas sequer imaginar. Posso-te assegurar que minha vida não teria nenhuma razão de ser se me chegasses a faltar.

-Então, Que é o que está impedindo que te decidas?

-Isso com exatidão, Hermione. –A rapariga olhou-o sem compreender. –É a dificuldade que tenho para tomar decisões.

Hermione só franziu o cenho ante a explicação de Ron. Sentia, de alguma maneira, que podia entender algo do que lhe dizia. No entanto, não podia deixar de advertir que algo se lhe estava escapando de seu entendimento.

Ao ver o gesto de sua noiva, metade entendimento e metade confusão, decidiu tratar de explicar-se melhor.

-Verás... –O ruivo tomou ar, esta ia ser uma muito longa explicação. –Tu sabes que eu pertenço a uma família muito numerosa. E que ademais, sou o penúltimo de todos meus irmãos.

-Assim é.

-E também recordarás como é minha família. Meus irmãos maiores sempre têm sido pessoas muito empreendedoras e a verdade é que à idade que tenho, eles já eram independentes. –O rapaz suspirou. –Não posso evitar pensar que algo me faltou, que tem feito que não possa sobressair como eles o fizeram.

-Ron. –Hermione voltou o rosto de seu apaixonado para que a visse aos olhos. –Eles são muito diferentes entre si. Tu és diferente a eles. E eu te amo porque és diferente aos demais.

-Mas não sou todo o que quisesse ser. –O rapaz desviou o rosto para outro lado. –Tens notado que de nós três a que sempre toma as decisões importantes és tu?

A jovem castanha guardou silêncio uns instantes, tratando de assimilar a pergunta de seu noivo.

-Isso é verdadeiro, Ron, mas... –Agora foi o turno dela para voltear o rosto para outro lado. –Vocês são os que têm pedido sempre minha opinião. Nunca achei que tomassem minhas resoluções de forma imperativa.

Ron deu-se conta de que a rapariga se tinha ofendido.

-E nunca as temos menosprezado, Hermione. Tu és a mais inteligente e preparada de três, e sempre temos respeitado tuas decisões, bem como tu o fizeste conosco. Jamais tivéssemos posto em dúvida tua capacidade, nem muito menos teu interesse em nosso bem-estar. De fato, se em todos estes anos que Harry e eu nos metemos em problemas, não tivesses estado tu aí conosco, simplesmente não tivéssemos chegado ao segundo ano.

Tomou-a dos ombros enquanto prosseguia.

-E não o digo só pelas vezes que nos salvaste a vida, senão por todas as ocasiões em que te desvelaste conosco para nos explicar as matérias que não compreendíamos. Hermione, és e tens sido sempre uma pessoa inestimável para nós. De modo que não penses que te consideramos como uma intrometida, como estou seguro que deves estar pensando.

-Conheces-me demasiado. –Hermione só atino a sorrir ante a explicação de seu noivo. –Mas então, que é o que tratas de me dizer? Porque até onde estou entendendo, estás falando sobre tomar decisões e todo isso...

-Exato. Verás... –O ruivo passou uma mão pelo rosto, tratando de ordenar suas ideias. –No caso de minha família, sempre têm sido eles os que tomam as decisões por mim. E eu o permiti durante tanto tempo, que agora a sozinha ideia de ter que tomar uma decisão por minha própria conta e risco simplesmente me aterroriza.

-É por essa razão que ainda não tens podido decidir que carreira tomar? –O rapaz guardou silêncio, dando a entender a sua noiva que ia pelo caminho correto. –Isso, e porque tens medo de que, se nos casamos, eu seja a única que tome as decisões importantes, ainda passando por sobre tuas opiniões.

O rapaz baixou o rosto, envergonhado. Essas mesmas palavras que antes pensasse em seus momentos de solidão, agora nos lábios de sua noiva se escutavam ridículas em verdade.

-Sou um estúpido, não é?

Agora foi o turno de Hermione de guardar silêncio, dando a entender que seu noivo tinha razão. Era um estúpido.

-A dizer verdade, não o és tanto. –Após que a rapariga recapacitara sobre seu último pensamento. –Acho que todo o que me disseste até agora tem muito sentido.

Hermione acomodou-se entre os cálidos braços de seu noivo, enquanto continuava com seu raciocino.

-Acho que a ti te passou todo o contrário que a mim. –Neste ponto a rapariga fechou os olhos, tratando de que a lembrança de seus pais mortos não a afetasse. –Eu fui filha única, e quando meus pais se inteiraram de meus poderes mágicos, de alguma maneira, ainda que eles jamais quiseram o admitir, me apartaram. De maneira que eu fiquei praticamente sozinha em um mundo no que nunca encaixei.

O ruivo não disse nada, só a estreitou o abraço no que tinha envolvido à jovem.

-Por isso, desde muito pequena aprendi a me valer por mim mesma em muitos aspectos. Ainda que sempre fui dependente de meus pais em alguns sentidos, em outros casos tratei de não estar tão sujeita a eles. Assim foi como me acostumei a tomar minhas próprias decisões. –Levantou o rosto para seu noivo, enquanto olhava-o aos olhos. –Por isso a ideia de me casar não me assustou. A dizer verdade, eu... sabia que quando a escola terminasse teria que voltar à que alguma vez foi a casa de meus pais. E a verdade é que não quero regressar e a encontrar vazia, sem eles.

A rapariga respirou com força, tratando de conter as lágrimas.

-Por isso foi que decidi me ir a Itália. Sei muito bem a carreira que quero cursar, e sei também o que farei quando me encontre lá. É só que... não me agrada a ideia de estar sozinha.

-Jamais estarás sozinha, meu amor... –Ron passou suas mãos por sua alborotado cabelo, acariciando-o com ternura. –O que não cheguemos a estudar na mesma escola não significa que não voltemos a nos ver. Ademais... ainda não tenho visto todas as opções de carreira que tenho. Pode que talvez a carreira que eleja seja no mesmo país.

-Para valer? –Uma faísca de alegria se vislumbrou nos olhos castanhos. –Quere dizer que também te irias a Itália?

-Bom... se encontro uma carreira atraente, não o sei. Talvez. –O rapaz de olhos cinzas agregou. –Quando saiamos de Hogwarts averiguarei que carreiras posso cursar lá. Talvez encontre algo interessante.

-Parece-me uma boa ideia. –A rapariga olhou-o, emocionada. –Vês ? Não é tão difícil tomar decisões.

-É verdadeiro. Não me custou muito trabalho. -Os rapazes guardaram silêncio uns momentos. –Sabes ? Pode que em um dia destes também me decida a te pedir em casamento.

-Só espero que não te demores muitos anos. Quero que seja Albus Dumbledore quem nos case. –Ambos riram. –Quantos filhos gostarias que tivéssemos?

-Três. –O rapaz suspirou. –Têm que ser meninas, todas com o cabelo alborotado e sorrisos pizpiretas. E muito inteligentes, como tu.

-Pois eu quero que sejam varões. Com os olhos cinzas...

-Mas que não tenham pecas.

-E que sejam ruivos, como tu...

-Está bem... -O rapaz suspirou. –Que sejam ruivos.

Harry tinha conseguido escapar da Sala Comunal após ter visto sair seus dois melhores amigos. Não tinha intenção dos seguir, pois sabia muito bem que ambos tinham assuntos pendentes que tratar. De modo que enquanto desejava-lhes boa sorte, dirigiu-se de novo para a Torre de Astronomia, pois sabia que a essa hora estaria vazia por completo.

Sentado no olhador com as costas apoiadas contra um dos telescópios, o rapaz de olhos como esmeraldas, contemplava o firmamento tachonado de estrelas, perdido em seus pensamentos. Por mais que tentava apagar de sua memória o acontecido a noite anterior, a lembrança das palavras que lhe confessasse a seu professor voltava uma e outra vez a sua mente, junto com a mirada de uns intensos olhos que se fincavam em sua alma como fiadas adagas negras.

Sentia uma grande opressão no peito. Desde que visse-o essa mesma tarde no salão, um enorme pesar o embargava ao recordar que o homem que tanto ansiava tinha passado de longo em frente a ele sem se tomar a moléstia do olhar sequer.

"Não existo para ele..." Pensou com tristeza enquanto uma solitária lágrima corria por sua bochecha. "O melhor será arrancar de meu coração."

O rapaz exalou um longo suspiro enquanto sussurrava o nome da pessoa que ocupava seus pensamentos, e que o suave vento da cálida noite de verão se encarregou de se levar, junto com sua exalação.

-Não se supõe que seu exame já terminou, senhor Potter?

O jovem de negros cabelos alborotados, tão alborotados como seu coração nesses momentos, secou com rapidez a lágrima que corria por sua pele enquanto se punha de pé.

-Sinto-o, professor. –O rapaz fez o amago de retirar-se. –Até amanhã.

-Ao menos não pensa me dizer que faz aqui a estas horas? –O professor tomou um dos ombros de seu aluno, impedindo sua retirada. –Terá que ser uma boa explicação, se não quer perder pontos.

-Queria estar sozinho. –E como a noite anterior, o Gryffindor sentiu um estremecimento quando advertiu a mão de seu professor sobre ele.

Severus aproveitou o momento para fazer que o rapaz se recargara contra um dos telescópios, enquanto ele voltava a encurralo com seu corpo. O tremor de Harry aumentou.

-Está seguro que deseja estar sozinho? –O fôlego do professor pastavam no rosto do moreno, quem não pôde evitar fechar seus verdes olhos. –Porque se é assim, serei eu quem se retire. Já sabe... para não seguir lhe molestando.

-Não... –O jovem sentia o corpo de seu mestre tão perto, que estava seguro de que se dava um passo para diante chocaria com ele.

-Não, que? –Severus fez-lhe esta pergunta com seus lábios colados ao ouvido do rapaz, fazendo que um suave gemido escapasse de seus jovens lábios.

-Quero dizer... não se vá. –Harry deu um passo para diante enquanto levantava ambas mãos e as posava com timidez sobre os ombros de seu professor. –Esta-se tão bem assim...

E ante a surpresa do adusto professor, "o menino que viveu" recargou com macieza sua cabeça sobre seu peito, enquanto fechava os braços ao redor de seu pescoço. Um suspiro escapou dos lábios de Severus, enquanto Harry levantava seu rosto e olhava-o aos olhos, para depois escondê-lo, ruborizado, entre as dobras de sua negra capa.

Passaram vários minutos antes de que algum dos dois se atrevesse a dizer ou fazer algo mais, até que Severus fechou seus braços ao redor de seu cintura, para o acercar mais a ele.

-Professor...

-Sim?

-Que perfume usa?

Severus separou-se um pouco do rapaz para olhar aos olhos, incrédulo.

-É que... gosto de muito. –Tratou de justificar-se Harry, ao mesmo tempo em que as cores subiam de novo a seu rosto o qual voltou a ocultar, tímido, entre suas roupas.

-É um perfume que eu mesmo elaboro. –O professor suspirou. –Não encontrarás a mesma essência em outro lado.

O rapaz levantou sua vista para Severus enquanto respondia-lhe.

-Não penso a buscar em nenhuma outra parte, professor.

Severus correspondeu ao doce olhar que o rapaz lhe dirigia, e enquanto o tomava com mais firmeza pela cintura, com uma mão acariciava o suave rosto do jovem que lhe cativava.

-Posso elaborar uma essência especial para você, senhor Potter. –Disse-lhe enquanto tratava de adotar, em vão, uma atitude profissional. –Só precisarei algo seu.

-Algo meu? –O jovem tratou de aparentar uma tática parecida à de seu professor, em uma clara atitude de profissionalismo. –Como que?

-Pois... –Severus olhou para a lonjura, pensativo. –Poderiam ser umas gotas de seu suor ou... de suas lágrimas. Como a que se secou quando se deu conta de minha presença.

Nesse momento Harry caiu na conta de que seu professor levava mais tempo aí do que se supunha.

-Sabe uma coisa, Senhor Potter? –Severus levantou o rosto de seu pupilo para fazer que o olhasse aos olhos. –Para ser-lhe franco, prefiro mais seu suor a suas lágrimas...

O rapaz se ruborizou com intensidade ante a clara insinuação de seu professor. Mas antes de que pudesse lhe responder algo mais, sentiu uns suaves e cálidos lábios se posar sobre os seus, em uma sutil caricia, tão ligeira e rápida como a palpitação de uma borboleta.

E Harry tivesse achar que tinha sido só imaginação sua, se não tivesse escutado as palavras de seu professor, tão sugestivas e sensual como as mãos que acariciavam suas costas.

-Mas prefiro bem mais seus beijos...

E voltou a beija-lo. Esta vez com todo o desejo e a paixão reprimida por tanto tempo, fazendo que Harry não pudesse fazer mais que lhe corresponder com toda a intensidade que seu jovem corpo era capaz de lhe expressar.

Foi um beijo longo, interminável, cheio de toda classe de sentimentos. Um beijo no que ambos entregaram tudo o que guardavam no mais profundo de seus corações e que, até essa noite, nenhum dos dois tinha tido o valor de expressar.

-E não te imaginas o gosto que me deu quando o professor Dumbledore me informou que nosso filho foi o melhor na matéria de poções...

Lucius e Narcisa Malfoy encontravam-se na sala de sua mansão. Ela se passeava de um lado a outro, contando a seu esposo sobre sua visita a Hogwarts, enquanto o loiro se achava sentado em um cadeirão em frente à lareira com um livro nas mãos.

Seguros de que estariam sendo escutados, o casal se tinha posto de acordo sobre que tipo de conversa entrariam quando regressassem a casa. Pelo que a conversa que nesse momento sustentavam era só uma atuação.

-Alegro-me por Draco. –Respondeu Lucius sem decolar a vista de seu livro. –Só espero que não se lhe vá a ocorrer se converter em professor de Poções, como Severus.

Narcisa calou. Ela não lhe tinha dito nada a Lucius para evitar uma reação dessa natureza, já que sabia que em realidade se dedicar às poções era o sonho de seu filho. E em vez de seguir com a conversa, decidiu dar por terminado o assunto. Bocejou fingindo cansaço.

Após dar-lhe as boas noites a sua mulher, Lucius ficou um momento mais na sala, lendo. O livro que sustentava em suas mãos levava por título "Magia negra. Como a combater." E o loiro parecia bastante interessado na leitura.

Peter Pettigrew, em sua forma de animago, permanecia escondido em uma esquina da habitação, pendente da conversa que o casal sustentava. Quando a mulher se retirou a descansar o rato respirou, aliviado. O superficial tagarelice da mulher desde sua chegada à mansão não tinha feito mais que aborrecer lhe.

"Pergunto-me que livro será esse que lê..." perguntou-se enquanto rodava seus brilhantes olhos de uma esquina a outra, alerta.

Nesse momento, Lucius bocejou e seguiu com sua leitura, até que pouco a pouco o sono o venceu. A mão que sustentava o livro foi caindo com pesada lentidão para um custado do mago enquanto o livro caía ao solo, esquecido.

Rabicho, quem não tinha perdido detalhe do ocorrido, se acercou com sigilo para o lugar onde o livro tinha caído, e começou a ler as páginas que tinha a seu alcance.

-Desmaius.

O rato caiu sobre o livro aberto, surpreendida pelo feitiço que Lucius lhe lançasse. Ao estar inconsciente, Peter Pettigrew não pôde seguir mantendo sua forma de animago, pelo que Malfoy pôde ver como o rato adiante dele se convertia no comensal conhecido como Rabicho.

Com a varinha ainda em sua mão, Lucius chamou a um elfo, quem em segundos apareceu na habitação onde Narcisa descansava.

-Perdoe senhora... –Desculpou-se o elfo. –O senhor a espera na sala. Diz que é urgente.

Narcisa Malfoy deixou a um lado o livro que lia e se apressou a chegar onde seu esposo. Não se surpreendeu ao ver a quem apontava o loiro com seu varinha.

-Severus tinha razão. –A mulher parou-se a um custado de seu esposo. –Terá que o fazer falar.

-Por desgraça não contamos com Veritaserum em casa. –O loiro tomou um punhado de pós e lançou-o à lareira. –Severus, Estás aí?

Mas após um momento mais de estar chamando a seu ex parceiro, e vendo que não tinha modo do localizar, decidiram se comunicar com Albus Dumbledore, quem respondeu através de seu lareira ao primeiro chamado.

-Temos a Rabicho. –Disse o loiro quando obtiveram resposta do diretor. –Queremos fazê-lo falar, mas não temos aqui o soro da verdade. E não podemos localizar a Severus.

-Não há problema. Tragam-no para cá, nós nos encarregaremos de lhe fornecer o soro –Depois do qual agregou. –Quanto a Severus eu me encarregarei do localizar.

Quando a cabeça de Dumbledore desapareceu entre os fogos, Lucius mandou a chamar a um elfo, quem levantou o corpo inerte do espião e lhe pôs sobre o ombro como se fosse um costal de papas. Lançou um punhado de pó e após mencionar o destino, o elfo desapareceu com seu ônus pela lareira. Momentos depois Lucius e Narcisa partiam por trás dele.

-Então, você acha que devemos estar em alerta?

-Assim é. E Harry, atua-me.

-Sinto-o...

Harry e Severus continuavam na Torre de Astronomia. O professor achava-se sentado no lugar que antes ocupasse seu aluno, de maneira que ficava recargado sobre o telescópio e Harry se tinha acomodado de costas a ele, entre suas pernas, de maneira que ambos tinham a mesma vista desde o olhador.

-Como sabes que Voldemort está próximo de atacar? –Durante todo o momento que levavam nessa posição, Severus não tinha perdido o tempo e lhe tinha passado beijando suas orelhas, sua nuca, seu pescoço e seus lábios, tantas vezes que já nem sequer levava a conta. –Tem-te estado convocando?

-Por sorte não, Harry. –Severus aproveitou que o rapaz voltou ao ver para beijar de novo. –Mas têm estado ocorrendo certas coisas que me fazem supor que a guerra está mais cerca do que qualquer se imagina.

-Que coisas têm ocorrido? –Harry fechou os olhos por enésima vez ao sentir um estremecimento causado por um pequeno mordisco em seu pescoço.

-Não posso te dizer, mas sim te vou advertir que uma pessoa próxima a nós corre um grave perigo.

Harry endireitou-se da posição na que se encontrava para ver a seu professor de frente.

-Talvez falas de algum de meus amigos? –O rapaz mostrou verdadeira preocupação. –Talvez é Ron ou Hermione?

-Não, tranquilo. Não se trata deles. –Severus desviou seus negros olhos para o horizonte, incapaz de seguir respondendo às perguntas de Harry. –Mas sim é alguém próximo.

-Não estarás falando de Draco, não é? –E ao não receber contestação-. É ele?

Severus instou a seu aluno a que voltasse ao lugar onde se achava dantes, enquanto lhe respondia.

-Sim, Harry. Mas não deves te preocupar. –O professor de poções acariciou o alborotado cabelo do jovem-. Já se estão fazendo os movimentos necessários para o proteger.

-Sabes? –Harry recargou sua cabeça no pescoço do professor, enquanto recordava-. Draco me contou de um sonho que teve ontem à noite.

-Um sonho? –O professor prestou toda sua atenção. –Que foi o que sonhou?

-Disse-me que tinha sonhado com velas negras e um círculo. Tinha homens encapuzados e ele estava no centro.

-Isso é tudo?

-Ao menos o que pôde recordar. –O rapaz suspirou no pescoço de seu professor. –Também me disse que tinha sentido muito medo.

Severus ficou calado ante o relato de Harry. Não quis o assustar, de modo que se guardou o pensamento para si.

Segundo tinha entendido, esse sonho de Draco era algo parecido à magia negra que se utilizava em certas ocasiões para consolidar uma união mágica entre um mago escuro e um mago de sangue puro. E tanto Voldemort como Draco cobriam ambos requisitos.

Severus estava seguro de que essa seria a forma em que Voldemort se uniria a Draco em caso que chegasse ao capturar, pelo que não teve duvida alguma em que o sonho de seu afilhado tinha sido premonitório.

"Terei que falar com Albus sobre isto. Se é necessário reforçaremos a vigilância sobre Draco..."

-Em que pensas? –A voz de Harry sussurrando lhe ao ouvido fazer voltar à realidade.

-Sinto-o. Perdi-me por um momento.

-Que classe de perigo corre Draco? –Harry seguiu insistindo sobre o tema-. Sabes? Voltamo-nos bons amigos, e em verdade estou preocupado por ele.

O professor de poções suspirou.

-Sinto-o, Harry. Mas isso é algo que não está em minhas mãos te contar. –Abraçou-o pela cintura enquanto brincava com seu nariz em seu cabelo. –Mas prometo-te que se é necessário que o saibas, eu mesmo me encarregarei de te informar de tudo o que ocorra.

-Prometes-me?

-Por suposto... –E ato seguido tomou seu rosto entre suas mãos e o beijou com paixão.

Harry correspondeu ao beijo de seu professor da mesma maneira, ao mesmo tempo em que dava-se volta para ficar sentado sobre suas pernas de em frente a ele. As mãos do jovem vagaram pelo peito de Severus, quem estremeceu-se ao sentir que uma delas tinha traspassou a barreira da roupa, o que fez que o mago maior aprofundasse com mais força o beijo.

-Ejem... Ejem!

O tossir que ambos escutaram praticamente os fez saltar. Severus separou-se de imediato de seu aluno, quem mal teve tempo de sacar sua mão de onde a tinha metida. E entretanto faziam-se uma bagunça para pôr-se de pé sem pisar nas capas mutuamente, não consertaram na divertida mirada de seu espectador, quem não pôde menos que ocultar uma travessa sorriso por embaixo de sua longa barba.

-Enervate.

Peter Pettigrew voltou em si com lentidão. Ao princípio achou que achava-se em frente a seu mestre, mas ao recuperar-se por completo adquiriu consciência do lugar onde se encontrava. Tratou de levantar-se, mas a ponta de uma negra varinha sobre seu pescoço instou-lhe a ficar no mesmo lugar.

-Lucius, Severus... traidores. –Rabicho dirigiu com desprezo sua mirada de um ao outro enquanto pronunciava estas palavras. –Quando o mestre se inteire...

-Não fales de traidores, Rabicho. –Albus interveio. –E também não se inteirará Voldemort, disso nos encarregaremos nós.

E ato seguido, Lucius levantou com pouca delicadeza o insignificante corpo do animago e obrigou-o a ficar quieto, enquanto Severus acercava-se a ele com um pequeno copo com um líquido transparente que o traidor reconheceu em seguida como Veritaserum.

-Não te atrevas a... glup! –Severus aproveitou que Rabicho abriu a boca para lhe esvaziar o conteúdo de um sozinho golpe.

-Não pensei que fosse tão estúpido. –O professor de poções cedeu seu lugar ao Diretor.

-Peter... Escutas-me?

-Perfeitamente. –Respondeu o aludido de forma automática.

-Tenho muitas perguntas que te fazer. De modo que quero que respondas. –O diretor se aclarou a garganta antes de começar. –Que estavas fazendo na mansão dos Malfoy?

-Estava espiando a Lucius e Narcisa Malfoy.

-Por que motivo o fazias?

-Fui enviado por meu mestre.

-Por que motivo foste enviado por teu mestre? –Os presentes lançaram um longo suspiro, pelo que o idoso se prometeu que as seguintes perguntas seriam mais extensas.

-Fui enviado porque meu senhor tem dúvidas sobre a fidelidade dos Malfoy.

-Que motivos te deu de suas dúvidas, e daí era o que esperava que averiguaras?

-Ele pensa que Narcisa Malfoy está influindo em suas decisões. E quer que averigue se é assim, ou se os dois estão em conspiração para desobedecer lhe.

-Tinha alguém mais com vocês? De que falavam?

-Quando falamos não tinha ninguém mais. Mas quando ia chegando vi que McEwan se retirava.

-Como soubeste que era McEwan? –Interveio Severus-. Talvez não trazia máscara?

-Sim trazia. Mas pude reconhecer sua voz chilena.

-Isso quer dizer que quando chegou, eles ainda falavam. –O diretor esfregou-se as mãos, pronto para outra banda de perguntas. –Escutaste que McEwan falava com teu senhor? De que falavam?

-Não soube de que falavam. Mas atingi a escutar as palavras Ministério e espião.

-McEwan é um espião de Voldemort no Ministério. –Severus dirigiu-se para o Diretor. –Mas não me surpreenderia que tivesse outros espiões.

-Que interesse pode ter Voldemort com os assuntos do Ministério? –Albus se riscou sua longa barba, pensativo, para depois dirigir-se aos Malfoy. –Talvez suspeitaria de seus planos de amparar legalmente a Draco?

-Não o creio. –Narcisa Malfoy interveio. –Lucius e eu não falamos nunca desse assunto, até esta amanhã.

-Peter, Saístes em algum momento da Mansão enquanto espiavas aos Malfoy? E se assim foi, A onde te dirigiste?

-Não. Não saí a nenhum lugar.

-Há algum outro espião para os Malfoy na Mansão, ou em algum outro lugar?

-Na Mansão só estava eu. Mas meu senhor disse-me que outros informantes os seguiriam quando saíssem.

-Então Voldemort deve saber que estivemos aqui. –A Sra. Malfoy retorceu-se as mãos, nervosa.

-Mas não sabe da chegada de Severus por nossa lareira, nem de nossas saídas pelo mesmo meio. –Lucius tomou a mão de sua esposa para tranquilizá-la. –Ademais, não sabe o motivo de nossas visitas. Pode pensar que só fomos a ver a Draco.

-Quanto tempo levas espiando aos Malfoy? –Perguntou o Diretor.

-Desde esta amanhã.

-Bem, agora sabemos que Voldemort não está inteirado de nada do que ocorreu na Mansão. Peter, Quais foram as ordens específicas que te deu?

-Estaria com os Malfoy desde o amanhecer até o anoitecer, quando se dormissem. Então me apresentaria ante o Lord para lhe render meus relatórios. Após isso regressaria à mansão, antes de que eles acordassem.

-Isso significa que Voldemort deve estar o esperando nestes momentos. –Severus passeou-se de um lado a outro. –Seguro que se demora um pouco mais o convocará por meio da Marca.

-Esse será seu problema, não nosso.

-Não o creias, Lucius. Se não acha a seu informante se dirigirá diretamente à fonte.

Ambos Malfoy guardaram silêncio ante o último comentário de Severus.

-Voltando ao do Ministério... –Albus Dumbledore interveio. –Severus, Conheces a alguém aparte de McEwan, que possa ser um espião?

Severus ficou pensando uns momentos. Depois moveu sua cabeça em sinal de negação.

-Não. –Foi também a resposta de Pettigrew quando o Diretor lhe fez a mesma pergunta.

-Talvez deveríamos tomar nossas precauções. –O Diretor acercou-se a sua Ave Fénix, para verificar que estivesse dormindo tranquila-. Precisamos averiguar que assunto se traz Voldemort com o Ministério.

Após assegurar-se que a ave estivesse bem, regressou a seu lugar em frente a Peter.

-Severus, que não te surpreenda se te convoca um destes dias. –E ante a mirada de estranheza dos Malfoy. –Quererá averiguar que vieram a fazer vocês aqui.

-Devemos pôr-nos de acordo todos, já que pode ser que os chame a vocês também. –Severus rodeou a Rabicho, enquanto tratava de ordenar suas ideias. –Se pergunta-me, lhe direi que quiseram ver a Draco sozinhos, mas que o Diretor lhes proibiu devido ao novo regulamento. Já sabem, o das visitas.

-Assim se fará verossímil minha versão de que não tenho podido ter contato com ele. –Lucius voltou a ver a Severus. –Como evitarás que leia tua mente e o descubra tudo?

-Não te preocupes por isso. Domino a Oclumência.

-Já vejo.

Lucius Malfoy compreendeu então, que o verdadeiro trabalho de Severus como espião estava do lado da Luz, e não de Voldemort, como ele mesmo cria. Apreciou em seu interior a situação, já que isso lhe garantia o bem-estar de seu filho. Nesse momento, mais que nunca, agradeceu a sua esposa a ideia do deixar baixo seu custodia.

-O verdadeiro problema... –O diretor interrompeu os pensamentos do loiro-. Será quando os chame a vocês, já que, como me disse a Sra. Malfoy, não dominam essa habilidade.

Todos guardaram silêncio uns instantes, até que Severus falou.

-Poderiam depositar suas lembranças mais comprometedores em um penseira. Assim, quando Voldemort leia suas mentes, não poderá obter muito proveito. –Todos assentiram ante a ideia do professor de poções. –Albus, está reagindo.

Peter Pettigrew moveu-se enquanto sacudia a cabeça de um lado a outro, surpreendido. Quando pôde enfocar sua vista se encontrou com quatro pares de olhos que o observavam com ressentimento.

-Não deveram fazer isso... glup! –O comensal conhecido como Rabicho, voltou a ficar em trance baixo os efeitos da poção que Severus voltou a lhe fornecer.

-Estúpido, Escutas-me?

-Perfeitamente.

-Que farás quanto te libertemos? –Os três voltaram a ver a Severus, incrédulos, mas ele lhes fez um sinal de que não se preocupassem.

-Irei ver a meu mestre. E lhe contarei a verdade.

-Que lhe contarás? –Os outros três olhavam-no, preocupados.

-Lhe contarei que Lucius e tu são uns traidores. Também lhe falarei sobre o que eles falaram na Mansão. E também...

-Estás consciente que se Voldemort se dá conta que foste descoberto, se molestará muito contigo?

-Sim.

O professor de poções passeou-se adiante do comensal, analisando-o.

-Sabes que lhe falhaste, Verdade? e acho que sabes muito bem o que lhe ocorre a quem lhe falham...

Peter Pettigrew não disse nada. Então Albus tomou o lugar de Severus em frente o rato.

-Peter, és um fugitivo da justiça. Tens sido perseguido por assassinar a todas as pessoas pelas que inculparam a Sirius Black. –O Diretor fez uma pausa, esperando que sua ouvinte assimilasse o que dizia. –Sabes que com muito gosto te enviaria a Azkaban?

-Sim, sei-o.

-Então... –Severus Snape falou de novo. –Tens duas opções. A primeira, entregar à justiça, para que sejas julgado por teus crimes, com pena de passar o resto de tua vida na prisão ou... apresentar-te ante Voldemort, para que após que te torture, te amaldiçoe e te volte a torturar, te mate no meio do mais cruel das dores.

-Não podemos o deixar ir. –Narcisa Malfoy interveio, pálida em extremo. –Lhe contará tudo...

-Não te preocupes, Narcisa. –O diretor tratou de tranquilizá-la. –Severus não tem nenhuma intenção de deixar ir. Não é assim, Severus?

-Verdadeiro. Mas... –O professor de poções acercou-se a Albus. –Também não podemos enviá-lo a Azkaban com tudo o que sabe. Falaria e então nos descobriria não só ante Voldemort, senão ante qualquer.

-Não há nada de que se preocupar. Apagarei sua memória de todo o que recorde desde esta amanhã, de maneira que não poderá dizer em absoluto nada do acontecido na Mansão e aqui. –O idoso de longa barba consultou seu relógio. –São mais das três da manhã. O melhor que podemos fazer é nos retirar a descansar. Amanhã muito cedo avisarei ao Ministério para que vinham por ele. Enquanto, o manterei inconsciente e baixo rigorosa custodia, para que não represente perigo algum.

-Como manejarás isto ante os meios?

-Falarei manhã a primeira hora com o editor do Profeta. Mudarei um pouco a versão dos fatos para não os envolver a vocês. –Voltou a ver a Rabicho-. Dantes de que passe de novo o efeito, Alguém quisesse lhe fazer alguma outra pergunta?

-Sim, eu. –O professor de poções plantou-se ante Pettigrew-. Escuta, quero que me respondas uma pergunta, e quero que o contes tudo com luxo de detalhes. Verdade que vocês foram os que rechearam os pescados com picante para que quando eu os lançasse ao lago o Lula gigante se voltasse louco?

Ron e Hermione estavam sentados um junto ao outro no sofá da Sala Comunal. Estavam a ponto de despedir-se quando o retrato se abriu deixando entrar a Harry.

-Harry? –Ron olhou-o, surpreendido-. Pensávamos que já estarias dormindo, como todos os demais.

-Já são quase as duas da manhã. –Hermione deixou seu lugar ao lado de seu noivo para saudar ao moreno-. Onde estavas?

-Fui a dar um passeio. –O rapaz permaneceu de pé em frente a eles. –Não podia dormir.

-Mas... –Hermione ia dizer algo mais quando lhe pareceu ver, quase escondida entre a teia da camisa de seu amigo, o que parecia ser uma marca vermelha em seu pescoço. Olhou-o aos olhos, perspicaz.

Ante a mirada de sua amiga, o moreno desviou a sua. E após desculpar-se com eles por não poder ficar a falar, se dirigiu para o dormitório.

-Não o notaste algo raro? –O ruivo não decolou a vista de seu amigo até que teve desaparecido. –Algo bem como... agitado.

-Com segurança está cansado. –Hermione acercou-se a seu noivo e deu-lhe um beijo. –Eu também o estou, de modo que me retiro.

-Sairemos a passear manhã?

-Por suposto. –Enquanto subia os degraus que conduziam ao dormitório. –Após café da manhã.

Ron ficou um momento mais na Sala Comunal, pensando na estranha atitude de seu colega.

Desde que tinha-se feito noivo de Hermione, o rapaz tinha estado observando detidamente a forma em que sua noiva analisava às pessoas que se encontravam perto. Foi bem como aprendeu a distinguir quando o estado de ânimo de seus colegas era alegre ou triste, ou como no caso de seu melhor amigo, errante.

Assim foi como desde fazia algum tempo o tinha vindo notando. Harry atuava às vezes muito estranho. Só bastava com o observar um momento para se dar conta de seu estado de ânimo. E ainda que ninguém lhe imaginasse, tinha descoberto que suas atitudes e mudanças de humor em general ocorriam quando uma pessoa em particular estava perto. Ou quando se falava dela.

"Acho que já vai sendo hora de que Harry se sincero comigo, como eu o fiz com ele. Não quero que pense em nenhum momento que não sou capaz do compreender."

E com estes pensamentos subiu com rapidez os degraus que o conduziam a seu dormitório. Quando chegou se dirigiu para a cama de Harry. Estava deitado e coberto com as cobertas, tinha os olhos fechados, mas Ron negou-se a achar que estivesse dormido.

-Harry... –O ruivo sussurrou ao ouvido de seu colega. –Sei que estás acordado, devemos falar.

Mas não recebeu resposta.

O rapaz não se deu por vencido e se sentou junto a ele. Acercou de novo seus lábios a seu ouvido e seguiu falando-lhe.

-Não sei onde estiveste, e também não o que fazias, mas acho que sei ao menos em quem pensavas...

As últimas palavras pronunciadas por Ron surtiram efeito, pois as duas esmeraldas que o rapaz tinha por olhos se abriram de imediato.

-Sabia-o!

-Silêncio... –O moreno tampou lhe a boca. –Vais acordar a todo mundo.

-Sinto-o... –O ruivo acomodou-se na cama junto a seu amigo, quem teve que fazer a um lado para que ambos coubessem. –E ? Vais contar-me o?

-Contar-te? –Harry fez-se o louco. –Que teria que te contar?

-Vamos, Harry, Talvez achas que estou cego? Achas que não me dou conta da forma em que o olhas?

-Hermione disse-te, Verdade? –Harry recargou sua cabeça sobre uma de suas mãos enquanto olhava a seu amigo.

-Hermione? –O ruivo se ressentiu-. Estás-me dizendo que já lhe contaste coisas a ela que a mim não me contaste?

-Não, Ron. Bom... algo assim. –O moreno mudou sua posição para ficar deitado bruços, com as mãos embaixo de seu queixo. –Ela se deu conta. E já a conheces, quando quer se inteirar de algo...

-E bem? Vais contar-me o ou não?

O rapaz de olhos verdes suspirou. Sabia que se ficava calado era capaz de que lhes amanhecesse, e a dizer verdade, estava muito cansado.

-Está bem, Ron. Mas a verdade não há muito que contar. –Olhou-o com sagacidade. –Ademais, não me disseste de quem estamos falando.

-Vamos, Harry, Tenho que mencionar seu nome?

-Como sei que não é só um truque teu para que fale?

Ron não pôde evitar sorrir ante a sagacidade de seu melhor amigo.

-Sabes? Acho que já te juntaste muito com ele. Se até estás-te voltando igual de agudo e desconfiado.

-Ron... Dás-te conta de que estamos falando de um varão? Isto é... –O moreno duvidou um momento. –Não te importas com o fato de que seja...?

-Gay? –O ruivo encolheu-se de ombros em um gesto que indicava que não se importava em absoluto. –É meu melhor amigo, quase como um irmão. Isso tem mais importância para mim que qualquer outra coisa. Ademais, eu sempre o soube.

-Como? –Harry endereçou-se de sua posição e ficou vendo de em frente a seu amigo. –Não recordo te ter dito nunca.

-Não foi necessário. Bastou-me com uns comentários que me fizeste.

-Com uns...? –Harry estava a cada vez mais intrigado. –Que comentários?

-Bom, uma vez comentaste-me que... –O ruivo pôs-se colorado. –Oliver Wood tinha uns olhos muito bonitos.

-Isso disse? –Agora foi o turno de Harry de se pôr vermelho. –Não o recordo.

-Claro que não. Foi durante uma visita a Hogsmeade, e paramos em três vassouras. –O rapaz de olhos cinzas fez um esforço para seguir recordando. –Também me disseste que não eram tão bonitos como os do professor Snape. Eu não podia achar que me estivesses dizendo isso. E passei-te porque tinhas alguns copos de rum de groselha a mais. Mas estou seguro que de ter estado em teus cinco sentidos o tivesses pensado duas vezes dantes de dizer semelhantes disparates.

-Sabes uma coisa, Ron? –Harry sentou-se, enquanto recargava suas costas contra a cabeceira. –Agora estou em cinco sentidos. E deixa-me dizer-te que não tenho conhecido outros olhos mais belos que os do professor Snape.

-Não sei porque, mas tinha o pressentimento de que me dirias algo como isso. –Ron acomodou-se na cama da mesma forma em que Harry o fizesse. –Com exatidão, que é o que sentes por ele?

-Amo-o.

O ruivo se rascou a cabeça, desconcertado.

-E não pôde ter sido outro? Não sei... Lupin, talvez?

-Ron...

-Ou o mesmo Wood?

-Ron...

-É que... não o sei... o professor Snape...

-Ron!

-Já, já... está bem. –O ruivo cruzou-se de braços. –Caracoles. Olha que dizer que tem olhos belos. Só falta que digas que é a ternura personificada...

-Isso também. –O moreno lançou um longo suspiro. –Ademais, é maravilhoso beijando...

-...!

-Vamos, Severus. Isso foi faz vinte anos, Não poderias o esquecer já?

-Não, Albus. Não é algo que se esqueça com facilidade. –O ex pupilo enfrentou a seu ex professor. –Ou talvez já esqueceste que por essa travessura mal passei em uma semana inteira aventando pescado fresco ao animal para que voltasse a confiar no que a gente lhe dava? Sabes que até o dia de hoje detesto o cheiro do pescado cru? E ainda te ris? Se agora que o recordo, tu foste quem me impôs esse castigo...

-Já, já... –O idoso tentava deixar de rir, em vão. –Não esqueças que eu também fui enganado. Esses marotos sim que lhes arranjavam para sair airosos de seus travessuras. Ah, que tempos aqueles...

-Não me recordes, Albus. –O ex comensal suspirou. –Foi uma das épocas mais terríveis de minha vida.

Severus se recargou na parede junto à lareira. A só lembrança de tudo o que viveu nesses desagradáveis anos ainda lastimava sua alma e seu coração, no ponto de sentir que todo seu ser voltava a se encher de uma intensa amargura.

Albus levantou-se de seu assento e acercou-se com lentidão ao homem recargado na parede, cuja vidrosa mirada perdia-se na busca de coisas invisíveis através do fogo que crepitava, como se buscasse que os fogos pudessem converter em cinzas todas essas lembranças que tanto o atormentavam.

-Lamento-o, Severus... –O idoso posou com macieza uma mão no ombro de quem amava como a um filho. –Perdoa se tudo isto não fez mais que acordar essas lembranças que tanto te empenhaste em enterrar.

-Tentei-o, Albus. –O homem vestido de negro apertou os punhos com força, enquanto os estrelava contra a parede com tanta fúria que suas juntas começaram a sangrar. –Diabos! Sabes que tenho tentado esquecer! Sabes que a cada dia que tem passado desde que me deste aquela oportunidade não tenho feito mais que tratar de percorrer passo a passo o caminho que me leve à redenção!

O atormentado homem ocultou seu rosto entre suas mãos, enquanto umas pequenas gotas de sangue manavam delas, manchando o andar sobre o que se encontrava parado.

-Mas a cada vez que dou um passo... algo ocorre que faz que retroceda tudo o que já tenho andado. E... meu ser volta a encher-se de amargura e ressentimento. E quanto mais me esforço por avançar, mais sinto que retrocedo. Albus, eu já não posso mais... sinto que as forças se me estão acabando.

Severus voltou seu rosto para olhar de cheio àquele homem que era como um pai para ele. E sentiu-se miserável ao ver que os sempre brilhantes e alegres olhos como o mesmo mar, derramavam lágrimas que se deslizavam com lentidão sobre as bochechas do idoso mago.

-Olha-te Albus... –Severus secou com uma de suas trémulas mãos uma das tantas lágrimas do velho. –Tu é a única pessoa que em realidade se preocupou por mim. Tu tens sido quem me ensinou o caminho do bem. Sei que minha vida seria pior que o lixo de não ter recebido tua ajuda quando mais te precisei. E olha como te pago... fazendo-te chorar. E agora me olha a mim. –Severus passou suas pálidas mãos sobre seus secos olhos. –Estou vazio por dentro. Tão seco que não posso ser capaz de chorar, quando precisamente em um mesmo dia, tenho visto se derramar as lágrimas das três pessoas que mais amo neste mundo.

Albus Dumbledore tomou entre as suas as mãos de seu protegido. E enquanto acariciava-as com ternura conjurou um feitiço que as sanou de imediato.

-Sabes, Severus? –O mago maior tomou o rosto do professor entre suas mãos. –Oxalá bem como pude curar as feridas de tuas mãos, pudesse curar também as feridas de teu coração. Mas por desgraça não é assim. E crê-me quando te digo que, no momento em que mais afundado te sintas, sempre terá alguém junto a ti, para te ajudar a sair a flutue.

-Estarás sempre comigo?

-Estarei sempre contigo, Severus. –E o idoso acrescentou. –Ademais, tens a teu afilhado que te adora. E... se meu coração não me engana, há um jovem Gryffindor de olhos verdes que acho que também faria qualquer coisa por ti...

Severus Snape olhou-o, ruborizado por completo.

-Albus, o que viste na Torre...

-O que vi na Torre foi uma maravilhosa mostra do que duas pessoas maravilhosas como vocês podem ser capazes de fazer se estão juntas. –Albus palmeou as costas de Severus, em um amigável gesto. –Sabes ? Já me estava perguntando por que se estavam demorando tanto...

-Escuta... –Severus tomou uma pluma de Fawkes, que se encontrava na mesa do Diretor. –Não temos... isto é, só o tenho beijado. Não quero que penses que...

-Sei-o, Severus. –O idoso olhou-o, divertido. –Talvez achas que não me inteiro de todo o que passa em meu Colégio? Mas diga me uma coisa... Já lhe disseste que o amas? –Severus guardou silêncio ante a pergunta do idoso. –Não, pelo que vejo.

-Amo-o, Albus. É só que... –Severus titubeou. –Acho que ele não se merece que o ate a mim. Isto é, a alguém como eu.

-Não achas que isso é algo que deve decidir ele? –Albus Dumbledore olhou com firmeza aos olhos de seu amigo. E depois agregou.

-A ninguém se lhe diz o que deve ou não fazer. Essa é a essência do livre arbítrio do que os seres humanos tanto nos jatamos. O coração de Harry elegeu-te a ti, e teu coração o elegeu a ele. Ninguém tem direito a obrigar a ninguém a permanecer a seu lado. Mas acho que também não devemos negar-nos a liberdade de amar e ser amados, com todos nossos defeitos e todas nossas virtudes. Harry viu algo em ti que o fez te amar. Bem como tu descobriste nele a razão para o amar.

Severus baixou o rosto, pensativo. Tratando de assimilar todas e a cada uma das palavras que seu mentor lhe dizia.

-Não vou dizer o que deves ou não fazer, Severus, essa é só decisão tua. Mas ao menos peço-te que tomes em conta o que te digo. Não deixes passar a oportunidade de amar e te deixar amar. Pode ser então que o caminho à redenção que tão difícil se te faz percorrer só, não seja tão doloroso se alguém o caminha junto a ti.

De regresso às masmorras, Severus Snape recordava a cada uma das palavras que seu velho amigo lhe dissesse. E enquanto preparava-se para dormir, dirigiu seu pensamento para a que agora considerava sua maior razão para não se dar por vencido.

Uns verdes olhos como esmeraldas e uns lábios vermelhos e doces, como cerejas, foram as imagens que, junto com as sábias palavras de seu melhor amigo e mestre, Severus guardou no mais profundo de seu coração.

"Pode ser então que o caminho à redenção que tão difícil se te faz percorrer só, não seja tão doloroso se alguém o caminha junto a ti."

Continuará.

Próximo capítulo: Destinos marcados.

Notas: Agradeço muitíssimo o que sigam o curso da história. Asseguro-lhes que conforme avancem os capítulos se porá mais interessante.

Por outro lado quisesse pedir-lhes um grande favor. Para o seguinte capítulo preciso saber um dado que até o dia de hoje ignoro. De casualidade alguém sabe de que cor tem os olhos Oliver Wood? Lhe estarei eternamente agradecida à(s) pessoas(s) que possam me dizer. No caso em que não tenha um acordo sobre a cor de seus olhos, terei que me inventar. Espero que não seja necessário.

Por verdadeiro, esta é um esclarecimento que esqueci fazer no capítulo anterior. Sei que Oliver é dois anos maior que Harry, pelo que se supõe que deveu graduação dois anos antes. Tive que mudar a idade a um ano menos para poder o adaptar à trama da história.

Graças a todos os que têm seguido o fic, e obrigado também por seus reviews. Até a próxima.

Besitos

K. Kinomoto.

Nota tradutor:

Interessante ponto de vista Kinomoto, nem eu lembro de cor são os olhos de Oliver! Merlin devo ler os livros de novo? :O

Espero comentários!