Capítulo 4 – Certeza

No dia seguinte acordei com o telefone tocando. Abri os olhos e procurei saber das horas. Cacei meu relógio e vi que já eram 09:30. Dei um salto da cama e fui ver quem me ligava, atendi e vi que era da recepção me avisando que o café estava em seu término. Assim que desliguei ouvi um toc-toc em minha porta, coloquei o roupão e fui ver quem era apesar de saber muito bem quem era

- Oi Alex. Tudo bem?

- Ah! Oi! Tudo bem! Bom dia! Resolvi passar aqui pra ver se você quer ir tomar o café da manhã comigo?

- Por mim tudo bem. Entra aí. Só vou me trocar e logo desço com você.

Ele entrou meio sem graça e se sentou no canto da cama. Eu peguei a primeira roupa que eu achei. Não que tivesse tantas roupas assim, com essa vida de loba que levava em La Push, realmente deixara meu guarda roupa com déficit enorme. Isso me lembrava que precisaria passar numa loja urgentemente. De tão nervosa derrubei a mala no chão. Fui em direção ao banheiro e me troquei rapidamente. Assim que entramos no elevador avisei a Alex que não poderia demorar por causa da faculdade.

-Tudo bem. Eu tenho que encontrar um cliente às 11:00 e também não posso me demorar. Espero que esse cliente não seja verdadeiramente culpado. Não gosto nem um pouco de defender causas perdidas.

Olhei para Alex com certa admiração. Aquela atitude me surpreendeu.

-Mas como você sabe que se a pessoa é culpada ou não? – questionei

- Meu instinto. Se pudesse não defenderia esse tipo de gente. Mas como por agora não posso me dar o luxo de negar trabalho... Estou aceitando qualquer coisa.

- Sério? Eu também me ligo nesse negócio de instinto. Parece uma coisa que dá dentro da gente e não podemos ir contra. – cogitei

- Pois é. E geralmente estamos certos!

- Com certeza! – Rimos

Assim que saímos do elevador fomos para a primeira mesa vazia que vimos, o papo girou em torno do direito e logo cada um seguiu seu rumo.

Voltei para quarto, aí sim fui tomar meu banho. Entrei debaixo do chuveiro e me demorei. Acho que uns quarenta minutos e quando finalmente terminei coloquei o roupão, olhei no relógio, percebi que tinha um tempinho, então enquanto mexia na mala desarrumada, liguei a TV. Com o controle na mão fui aleatoriamente mudando de canais até que parei em um canal de notícias que me chamou a atenção. Tinha a seguinte manchete: "ATAQUE DE LOBO SELVAGEM SALVA VÍTIMA DE ESTUPRO!"

Pronto é agora que tudo vai ralo abaixo! – pensei

E se essa mulher viu a minha transformação? Como eu fico perante a aldeia? A reserva? Todos? Jake vai falar para caramba na minha cabeça.

Logo esses pensamentos deram lugar a outros menos conturbados. "Tenho certeza que fiz o certo e provavelmente ou outros fariam a mesma coisa", "E como eu poderia ficar parada vendo tudo acontecer!" E esses outros pensamentos logo também foram esquecidos pela reportagem. Aumentei o volume sentei na cabeceira da cama para prestar bastante atenção:

-Estamos aqui com Chelsea Withmore, que ontem teve uma experiência extraordinária. Chelsea conte o ocorrido para os nossos telespectadores:

-Bem – começou falando nervosamente – Foi tudo muito rápido. O que me lembro é que na hora em que aquele homem asqueroso estava me bolinando. Me imprensando com a faca na mão encostada no meu pescoço. De repente o lobo apareceu do nada e com uma patada fez com que ele jogasse a faca longe e deu uma mordida nesse braço dele. Ele tomou um susto tão grande que saiu correndo desesperadamente. Quando olhei para o lobo, tive a certeza que ele retribuiu meu olhar agradecido. Nunca poderei agradecer de uma maneira que ele merecesse – Terminando o relato em prantos.

Desliguei o televisor e fiquei olhando para ele desligado simplesmente sem pensar em nada. De repente o telefone celular tocou. Peguei e olhei o visor e li: Jake. Pronto, é agora! – pensei

- Ei Leah! Tudo bem?

- Tá... - dei uma pausa - Tudo bem...

- E como foi de viagem?

- Foi bem, mas cheguei meio tarde, mas agora já descansei. – respondi meio redundante

- E quando você chegou, deu pra conhecer a cidade?

- Jake, eu acho que meio respondi a essa pergunta. – Fui incisiva

- É, mas tem outra que eu tenho que perguntar claramente: O que te deu na cabeça de aparecer transformada? Como você pôde fazer isso...!

- Para! Eu fiz e está feito!

- Mas até onde eu saiba sou eu quem manda no bando. Eu sou o macho alfa, lembra-se? E não você! Não passou pela sua cabeça a irresponsabilidade dessa sua atitude!

- Jake! Pare um pouco e me pense na mulher que estava sendo violentada. E eu ali, vendo tudo. Como poderia ficar sem fazer nada!

- Você não precisa se transformar sabia? A polícia poderia muito bem resolver isso! Era so ligar e pronto! – Falou ainda mais impaciente

- Pode até ser, Jake, mas na hora não tive como conter a minha raiva. E além do mais eu não apareci para os dois em minha forma humana. E tem outra coisa, esse assunto já está resolvido!

- Mas Leah, eu ainda não acabei de falar c...

- Tchau, Jake! Dê um abraço em todos – E desliguei o telefone.

Ele ainda me ligou algumas vezes, mas sempre que via seu nome no visor, preferia dar um tempo. E por falar em tempo, como foi complicado para mim nesses primeiros dias. Me acostumar a andar de ônibus aqui na Filadélfia. Quando fui para o meu primeiro dia na universidade tive a certeza que ia demorar a me adaptar ao sistema público de transporte. Eu prefiro andar de ônibus do que metrô. Assim começo o dia vendo mais gente e me acostumando com o movimento da cidade, as pessoas. E por falar em pessoas quando cheguei na secretaria do campus, a senhora que me atendeu foi solícita, logo eu consegui achar o meu alojamento e de cara encontrei a minha parceira de quarto. Seu nome era Chelsea Withmore! Para meu espanto era ela. A própria. A garota que eu ajudei na noite anterior. A que deu entrevista. Aquela que me expôs na TV. Fiquei chocada. Olhei bem para ela e com medo que me reconhecesse, porém isso não aconteceu.

-Prazer, meu nome é Chelsea. Seremos companheiras de quarto. Espero que nos demos bem...

- Prazer – respondi um pouco acanhada – Me chamo Leah. Também espero isso. Mas acho que te conheço de algum lugar... – perguntei mesmo já sabendo a resposta

- Isso não me agrada nem um pouco. Mas tinha certeza que esse assunto viria a tona mesmo. É que eu de uma entrevista recentemente. Creio que você me viu pela TV. – agora falava com os olhos marejados – Eu fui quase estuprada ontem. Mas felizmente apareceu um lobo, cachorro, não sei e me salvou. Se não fosse por ele, provavelmente a essas horas eu estaria morta com certeza.

Vê-la daquele jeito me deixou comovida e uma sensação de alívio por fazer algo de bom percorreu todo o meu corpo. Ao mesmo tempo em que eu estava quase chorando como Chelsea me deu uma vontade de rir. Coloquei minhas coisas na cama. Dei um abraço nela e ela retribuiu. Lembrei o que ela disse sobre não conseguir agradecer completamente. Com esse gesto ela acabou de fazê-lo. O resto do dia passou sem nenhum acontecimento inesperado. Eu e Chelsea ficamos falando de nossas famílias, amigos e nos conhecendo melhor, até que a noite quando eu já voltava da minha aula inaugural meu celular tocou. Era Alex. Mas como Alex está me ligando se eu não dei meu número para ele? – pensei – Dei um tempo e atendi esperando ouvir sua voz e descobrir como aquele espertinho conseguiu meu número.