Chapter IV – A conversa com Dumbledore
O primeiro jogo de Quidditch do ano chegou e a escola encheu-se da agitação habitual que precedia os jogos. Gryffindor contra Ravenclaw.
Ron estava particularmente nervoso, não parava de dizer que sentia que ia fazer asneira e que por causa dele iam perder.
-Não sejas parvo, és um óptimo Keeper, só precisas de estar concentrado e principalmente com confiança, se fizeres isso vais ver que não há uma que passe por ti.- Comentou Harry já meio exasperado.
Ao que Ron respondeu com um longo suspiro.
-Oh por favor Ron. Essa tua falta de confiança chega a ser patética, sabes perfeitamente o que vales!- Comentou Hermione enquanto lia o profeta diário.
Ao ouvir este comentário, Ron alegrou-se um pouco mais e decidiu-se a comer as suas torradas, o que não impediu que à medida que o início do jogo se aproximava, este fosse adquirindo uma preocupante cor esverdeada.
Felizmente os augúrios de Ron não se concretizaram e Gryffindor venceu com uma larga vantagem, graças também ás defesas de Ron, algumas delas bem espectaculares.
Enquanto voltavam ao castelo, Harry e Hermione tiveram que se resignar a ouvir a descrição de Ron do jogo.
-Harry! Harry espera!- Gritou uma voz aguda por trás deles.
-Harry deu meia volta e viu Colin Crevey correr, em direcção a ele.
-Parabéns Harry, o jogo foi absolutamente genial!- Disse o rapaz ofegante quando finalmente os alcançou.
-Obrigado Colin, mas era só isso que querias?-
-Oh não, mandaram entregar-te isto!- Respondeu Colin, entregando uma carta a Harry –Devem ter já preparado uma festa enorme na sala comum. Vais para lá agora, não é Harry?- Prosseguiu o rapaz na sua voz excitada.
-Hum… já lá vou ter Colin, vai indo.- Disse Harry, examinando a carta.
Colin seguiu o seu caminho meio contrariado e Ron virou-se para Harry curioso.
-De quem é Harry?- Perguntou.
-Hum… Do Dumbledore.- Respondeu Harry.
-Abre-a.- Disse Hermione.
Harry não precisou que lho dissessem duas vezes, retirou então o pergaminho e viu a letra pequenina e certinha do professor.
-Quer que eu vá ter com ele amanhã à noite.-
-Para que é que será?- Indagou Ron.
Harry imaginou que teria algo a ver com a profecia, afinal já ia sendo tempo de Dumbledore o esclarecer mais um pouco.
-Terá alguma coisa a ver com Voldemort?- Perguntou Hermione algo apreensiva.
Harry olhou para os amigos e pensou que talvez estivesse na altura de lhes contar tudo acerca da profecia.
-Olhem, há uma coisa que eu tenho que vos dizer!-
Harry não queria ir falar sobre aquilo para a sala comum, pois não teriam a mínima privacidade, então contou-lhes tudo ali mesmo, apesar da chuva que ameaçava começar a cair. Contou-lhes como a profecia fora feita, como Voldemort o escolhera a ele ao invés de Neville e como nenhum poderia viver enquanto o outro sobreviver.
Contou tudo de uma vez, sem que Hermione ou Ron o pudessem interromper e quando acabou, respirou fundo e aguardou. Foi como se lhe tivessem tirado um peso da consciência.
Ron e Hermione remeteram-se ao silêncio por alguns momentos, até que a rapariga o quebrou:
-Bem Harry, com ou sem profecia, acho que isso era algo que já, de algum modo, tínhamos mentalizado e tu sabes que nós vamos estar sempre contigo, portanto…-
-É isso mesmo. Já passaste por tanto, também hás-de passar por isto! Mas então deve ser por causa disso que o Dumbledore quer falar contigo.- Disse Ron.
-Penso que sim.- Comentou Harry, suprimindo um sorriso.
Ficou feliz por Ron e Hermione não o recriminarem por não lhes ter contado antes, nem se terem mostrado incomodados com o facto de o amigo que tinham na frente deles, ir acabar por ser ou assassino, ou assassinado!
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Harry passou o dia seguinte completamente distraído, absorvido pela curiosidade sobre o que o professor Dumbledore poderia querer com ele. O que lhe valeu um sermão de Snape e 20 pontos a menos para Gryffindor.
Um pouco antes da hora marcada para o encontro, Harry já se encontrava em frente da porta do escritório de Dumbledore.
Bateu e depois de recebida permissão, entrou.
Dumbledore encontrava-se junto á janela, de olhar perdido na paisagem nocturna dos campos de Hogwarts, mãos entrelaçadas atrás das costas.
-Boa noite Harry. Senta-te.- Disse o Professor, apontando a cadeira em frente á sua secretária.
Harry obedeceu e aguardou.
Dumbledore sentou-se em frente a Harry e perguntou sorrindo:
-Então Harry, como tens passado?-
-Hum… Bem… O normal…- Respondeu Harry.
-Tens notado alguma coisa de estranho ultimamente? A tua cicatriz voltou a doer-te?-
Harry lembrou-se de quando voltara ao grande Salão e tivera todos aqueles estranhos pensamentos, e da súbita dor na sua cicatriz.
-Não… Nada de especial!-
Dumbledore pareceu reflectir durante alguns momentos, mas quando voltar a falar para Harry fê-lo normalmente, sempre com um sorriso amigável.
-Deves estar curioso por saber o motivo da tua presença aqui, não é verdade?-
-Sim professor! Tem alguma coisa a ver com a profecia, não tem?- Perguntou Harry, sem poder conter mais a sua curiosidade.
-De facto! Harry, quero que penses muito bem na pergunta que te vou fazer, quero que respondas sinceramente.- Respondeu Dumbledore calmamente.
Harry assentiu e Dumbledore continuou:
-O que te quero perguntar, é o seguinte, até onde serias capaz de ir para acabar com Voldemort? Isto é, serias capaz de matar?-
Harry não precisou sequer de pensar, respondeu prontamente:
-Claro que seria, a própria profecia á muito clara, nenhum pode viver enquanto o outro sobreviver. Acho que tenho razões suficientes para não hesitar na altura de matar Voldemort.-
-Acho que não me fiz entender! Eu não estava a pôr em questão se serias, ou não, capaz de matar Voldemort, eu estava a pôr em questão se serias capaz de matar outras pessoas para chegar a esse fim.-
Desta vez Harry ficou em silêncio, nunca colocara a hipótese de matar outro alguém para além de Voldemort, também não tinha a certeza de ser capaz de o fazer. Afinal o caso de Voldemort era diferente, era ele o culpado de quase tudo o que de mau acontecera na vida dele, mas matar para chegar ao seu fim era completamente diferente, matar sem alguma razão muito forte para o fazer, ia completamente contra todos os eus princípios. No entanto resolveu tornear a questão:
-Professor, está-se a referir a Devoradores da Morte?-
Dumbledore sorriu:
-Calculei que não serias capaz de responder, e Harry, estou contente que não o tenhas feito, na verdade, teria sido de facto uma surpresa se tivesses respondido afirmativamente. Sabes, por vezes, a vida apresenta-se-nos injusta, mais do que já foi até ao momento, e mais uma vez exige de nós sacrifícios, e se queremos seguir em frente temos de fazer esses sacrifícios, mas lembra-te Harry, podes sempre escolher, podes sempre seguir outro caminho, lembra-te que a profecia não te obriga a nada, só a segues se quiseres.-
-Hum… Professor, porque é que me está a dizer isto tudo?- Perguntou harry confuso.
-Em breve irás perceber, mas não hoje!-
-Mas professor- No entanto Harry não continuou, pois o olhar de Dumbledore, apesar de não se mostrar de modo algum ameaçador, dava-lhe a entender claramente que não deveria insistir.
O silêncio instalou-se entre ambos, mas uma pergunta assaltara o espírito de Harry e ele sentiu que podia colocá-la:
-Hum… Professor… Porque é que aceitou, aqui na escola, o Professor Devant e o Thomas Lestrange?-
-Tens alguma razão que me faça pensar que não o devia ter feito?
-Bem… O professor Devant foi um Devorador da Morte e o Thomas Lestrange é filho de quem é!-
-Penso que o Professor Devant já vos deve ter explicado tudo aquilo porque passou, portanto acho que não será preciso eu dar mais qualquer razão para ele se encontrar aqui, quanto ao Thomas, não devemos julgar as pessoas pelas suas origens.-
Harry sentiu-se tremendamente insatisfeito com a resposta, mas resignou-se.
-Acho que terminamos a nossa conversa Harry.- Disse Dumbledore gentilmente.
Harry levantou-se e dirigiu-se para a porta, mas algo irrompeu na sua mente:
'Sempre a esconder-te coisas! Nunca te dá as respostas que precisas! Impõe-te, acaba com isto de uma vez, ou serás um fraco? '
Harry estacou.
'Não, não sou fraco nenhum!'
Virou-se de novo e encarou Dumbledore.
-Sim Harry?- Perguntou Dumbledore, com um tom de voz mais firme que anteriormente.
Harry manteve-se em silêncio, sem desviar o olhar de Dumbledore.
Dumbledore franziu o olhar, levantou-se e aproximou-se dele. Colocou a mão no seu ombro, exercendo um pouco de pressão, olhou-o directamente nos olhos, e disse numa voz cortante:
-Acho melhor retirares-te imediatamente!-
Harry ainda fez um pequeno movimento em direcção à sua varinha, no entanto, uma imensa dor na sua cicatriz apoderou-se dele e esqueceu-se completamente do que se preparava para fazer. Fechou os olhos e só voltou a abri-los quando a dor começou a desaparecer. Dumbledore sorria-lhe.
-Acho que devias ir Harry! Vê se descansas e não te esqueças do que conversámos hoje aqui.-
-Sim professor…- Respondeu Harry ainda meio atordoado.
Harry dirigia-se agora para a sala comum dos Gryffindor, perdido nos seus pensamentos, ainda tentando perceber tudo o que tinha acontecido no escritório do Dumbledore, quando ouviu uma voz que ele conhecia tão bem. Foi sem surpresa que, quando virou para o corredor à sua direita, se deparou com Liah.
Estava ajoelhada, a apanhar uns livros do chão para a mochila e a resmungar consigo mesmo. Ainda não tinha dado pela presença de Harry.
Ele sorriu, a mera presença de Liah fazia-o sentir-se instantaneamente melhor.
-Posso ajudar?- Perguntou gentilmente.
Liah parou com o que estava a fazer e olhou para ele, por momentos pareceu a Harry que ela ia sorrir, mas com certeza fora apenas a sua imaginação, pois ao invés disso adquiriu antes uma expressão séria.
-Não, não te incomodes, eu desenrasco-me sozinha, obrigado.- Respondeu Liah friamente.
-Só queria ajudar!- Ripostou Harry.
-Pois é, mas eu não preciso da ajuda de ninguém, muito menos de um Gryffindor cheio de manias.- Disse Liah, arrumando os últimos livros na mochila e colocando-se de pé em frente a Harry.
-Porque é que estás assim?- Perguntou o rapaz, algo alterado.
-Porque sou assim! Olha Potter, eu não tenho tempo para perder contigo, tenho alguém à minha espera!- Respondeu Liah, começando a dirigir-se para a escadaria.
Harry precisou de alguns momentos para encaixar o que ela tinha dito.
Deu meia volta e perguntou, antes que Liah desaparecesse do alcance da sua vista:
-Alguém! Como assim alguém? Quem?- Tentou manter um tom de voz calmo, tarefa que se revelou completamente impossível.
Liah parou e encarou-o, um sorriso claramente forçado no rosto.
-Desde quando é que eu tenho que te dar explicações Potter? Faz-me um favor e vai morrer longe!- Dito isto retomou o seu caminho.
Harry ficou ali, naquele corredor escuro, durante um bom bocado. Sentia-se prestes a explodir de raiva. Como é que ela fora capaz de lhe fazer aquilo! Como é que podia falar assim para ele! Decididamente era uma perfeita Slytherin, intratável, antipática, falsa. De qualquer forma, porque é que ele estava a sentir-se incomodado com aquilo tudo, o que é que tinha a ver com ela? Liah era uma pessoa odiosa que só lhe merecia desprezo!
Harry suspirou e encostou-se á parede, um pouco mais calmo que antes.
Por mais que tentasse, não conseguia que Liah lhe fosse indiferente, pior, não conseguia ter qualquer sentimento de ódio para com ela. Bastava um olhar dela para que o mundo ficasse, subitamente, perfeito.
O facto de ela lhe ter dito que tinha alguém à sua espera deixara-o completamente de rastos, revoltado.
Harry agitou levemente a cabeça, como que a tentar ver-se livre de todos estes pensamentos. Retomou então o seu caminho, esperando encontrar na sala comum Ron e Hermione, para que por momentos se conseguisse esquecer de tudo o que se passara com Liah.
Liah atirou a sua mochila para um canto e caminhou para junto da janela, apoiou a cabeça no vidro gelado da mesma e abraçou-se a si própria, tentando não se sentir tão sozinha.
Como queria que fosse verdade o que dissera a Harry, queria ter alguém á sua espera, alguém de quem ela gostasse, alguém que lhe desse valor, alguém que a fizesse esquecer tudo aquilo que sentia pelo jovem Gyffindor. No entanto, pensava que conseguira fazer com que Harry pensasse que era verdade. Não queria que ele tivesse pena dela, preferia que ele a odiasse. Quis mostrar-lhe que não precisava dele, que para ela, ele significava menos que nada, mas desejava que também para ela tudo isso fosse verdade, mas por mais que se esforçasse, não conseguia que assim fosse.
Harry dava mais valor ás aparências do que a qualquer outra coisa, nunca iria envolver-se com uma Slytherin, isso iria com certeza estragar a imagem do menino corajoso, verdadeiro e heróico de Gryffindor. Isto deveria bastar para Liah se conformar que ele não valia nada e esquecê-lo de uma vez por todas, mas não.
Se o simples facto de ela ser uma Slytherin o impedia sequer de falar para ela, Liah nem queria imaginar o que ele faria, ou não faria, se soubesse de toda a verdade!
-Harry, pensa bem, é muito provável que os Devoradores da Morte se metam no teu caminho! Achas que eles vão ficar a assistir enquanto tentas matar o Quem-Nós-Sabemos? Pouco provável.- Comentou Hermione.
Harry contara a Ron e a Hermione toda a sua conversa com Dumbledore. Eles não se mostraram muito surpresos com a pergunta do professor, e agora que pensava melhor, Harry apercebia-se que provavelmente não teria outra escolha, se não acabar com quem se metesse entre ele e Voldemort, afinal ou era ele, Harry, ou eles, porque tinha a certeza que os Devoradores da Morte não hesitariam em matá-lo, até o fariam de bom grado.
-Tens razão! E sabes que mais, eu não vou hesitar, se para chegar a Voldemort tiver que matar algum Devorador da Morte, vou fazê-lo. Nenhum pode viver enquanto o outro sobreviver, não é verdade?-
-Harry, Dumbledore disse-te que podias escolher, portanto não deve ser assim uma coisa tão simples de decidir. Uma coisa é estarmos aqui a falar, outra muito diferente será estares frente a frente com alguém, pretendendo acabar com a vida desse. As coisas não funcionam assim, tipo, tenho que te matar, vou-te matar, adeus! Pode ser um Devorador da Morte, Harry, mas é uma pessoa.- Argumentou Hermione.
-Hermione, e tu achas que eu não tenho essa noção? Mas é uma coisa que eu tenho que fazer, que só eu posso fazer, não posso fugir disso, portanto vou fazê-lo. Ninguém me vai deter, ninguém.- Rematou Harry, determinado.
-E nós vamos estar aqui para te ajudar!- Disse Ron sorrindo.
Hermione ficou por momentos apreensiva, mas acabou por sorrir também.
Harry estava, de facto, decidido! Voldemort tinha que pagar por tudo o que fez, e ninguém o iria impedir de fazer com que isso acontecesse.
