Take Four
Nada poderia ter preparado o jovem jornalista para o cenário com o qual se deparou…
As portas do elevador abriram mesmo a tempo de darem as boas vindas ao objeto, ainda não identificado, que voou pelo hall da editora, estatelando-se fortemente contra o rosto do pobre homem.
O ruído da queda espalhafatosa de Blaine foi o suficiente para alterar o foco de todos os presentes.
— OMG! Blaine, estás bem? — gritou Tina, correndo ao encontro do amigo e calçando a arma do crime discretamente — Quem foi a besta que se atreveu a fazer isto ao meu melhor amigo? — perguntou a asiática, fazendo-se a desentendida, quando fora o seu próprio sapato que causara o estrago.
— Penso que a besta a que te referes, viria a seres tu mesma, Cohen-Chang — constatou o Editor Chefe, Jesse St. James. — Brittany! — chamou a loira que se apressou ao seu encontro — Uma vez que Cohen-Chang se sabotou a ela mesma ao atentar contra um colega, a reportagem é tua.
Jesse deu meia volta, regressando ao seu escritório.
— Yes! — exclamou baixinho, erguendo o braço em gesto glorioso e esboçando um sorriso de vitória.
— Espero ver o artigo pronto na minha mesa até às vinte e três horas — concluiu o Editor Chefe, fechando a porta do seu escritório.
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Era quase uma da tarde quando Blaine despertou no sofá da área de recreação, sendo presenteado com a cara de fúnebre seriedade do seu superior.
— Tens três artigos em atraso que não podem esperar nem mais um segundo, Blaine. Quero-os prontos para impressão até às cinco da tarde — disse Jesse, saindo de seguida, sem dar oportunidade para que este se localizasse e absorvesse a informação.
Blaine passou o resto da tarde mergulhado na imensidão do mundo das estatísticas e diferentes cenários de campanhas eleitorais.
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Exausto, mas satisfeito por ter realizado um bom trabalho, Blaine deixou três artigos sobre a secretária do Chefe Editor, tal como lhe havia sido ordenado. Olhou para o relógio, vendo que ainda faltavam três minutos para as cinco da tarde e sorriu com orgulho genuíno, quando um grito de agonia pairou pelo ar.
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Os paramédicos forcejavam contra a loira, cuja até então desconhecida força física lhes estava a causar problemas.
— Senhorita Pierce, tem que ficar quieta ou poderia vir a ter sequelas no futuro.
— Faz o que te mandam, Brittany, é para o teu próprio bem — murmurou Blaine com um tom de voz calmo e tranquilizante, ajudando-a a deitar-se na maca.
— Mas… A reportagem…
— Nenhuma reportagem vale mais que o teu bem estar, Britt. Precisas de cuidar de ti mesma. Haverão mais reportagens no futuro.
— Mas nenhuma sobre o evento de S. Valentim de Sebastian Smythe — respondeu a loira, sem notar o sobressalto que o nome do ator causara no outro jornalista.
— Tenho a certeza que outra pessoa tomará o artigo e fará justiça à tua visão — disse Blaine, acariciando levemente a cabeça da rapariga que lhe causava uma ternura fraterna que nunca antes fora despertada por nenhum outro ser humano, nem sequer mesmo o seu irmão Coop, que fora o seu herói e exemplo a seguir desde que tinha memória.
— Não! — exclamou Brittany exaltada, sentando-se repentinamente, esboçado uma carantonha fruto da dor aguda que a acometeu — Já sei! Blaine, tu podes fazê-lo.
O moreno quase caiu pela carinha de felicidade da sua amiga…
— N-Não posso, Brittany. Sabes que eu não entendo nada quando o assunto é sobre celebridades — desculpou-se, recorrendo a uma desculpa esfarrapada, pois não queria correr o risco de ser apanhado pelo "El Diablo" como dizia o seu irmão. Nunca chegara de facto a conhecê-la, mas se Cooper afirmava que ela era perigosa, ele acreditava. Afinal de contas o seu irmão nunca na vida lhe tinha mentido.
— Não vou deixar a Tina ficar com a história… Tenho quase a certeza absoluta que aquela casca de banana era dela.
— Britt, como é que podes assegurar isso?
— É óbvio que foi culpa dela, Blaine. Ela trouxe uma banana para o lanche da tarde. Realmente achas que foi mera coincidência que a casca tenha acabado tão perto da minha mesa? Aposto que ela fez de propósito — confidenciou a rapariga.
— E que razão teria ela para fazer isso? — questionou o moreno ligeiramente descrente.
— Vingança. Tina ficou fula da vida por ter perdido o artigo, pelo que como meu melhor amigo tens o dever de te encarregar desta história.
— Mas já te disse que não percebo nada de socialites.
— Só tens de te infiltrar no evento e gravar tudo o que acontecer, assegura-te de tomar notas de tudo o que ocorrer por mínimo que seja, que eu trato do resto — concluiu a jovem entusiasmada e sem dar direito a resposta, sendo levada pelos paramédicos.
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Blaine viu-se no espelho retrovisor pela terceira vez e suspirou antes de decidir se devia ou não entrar no restaurante. Abriu a porta e saiu, voltando a ver o seu reflexo na janela do carro assim que a fechou.
"Não consigo acreditar que estou realmente a fazer isto", pensou o jornalista encarando o seu "fantástico e indetectável" disfarce, que consistia numa gabardine, um chapéu, uma máscara cirúrgica e um par de óculos de sol que lhe davam uma aparência "nada suspeita".
Levantou o braço e voltou a suspirar ao constatar que estava quase na hora.
"Faltam menos de dez minutos para as sete. Sebastian já deve ter chegado e deve estar agora mesmo a preparar-se para o seu ansiado jantar romântico à luz de velas, acompanhado possivelmente por uma belíssima melodia de piano… Isso se tiver sido ele a escolher e não a manager", divagou o moreno sem se aperceber do rumo que iam tomando os seus pensamentos. "Santana nem se dá ao trabalho de averiguar os gostos de Sebastian, pelo que o mais provável é que a música não seja do seu agrado."
O homem mexeu a cabeça para afastar as suas divagações e regressar ao ponto focal, o artigo, e verdadeiro motivo pelo qual estava nesse preciso momento frente ao edifício, tentando passar despercebido pelo Maître do melhor restaurante de gastronomia francesa de New York, "Le Bernardin", enquanto descobria como entrar sem reserva prévia.
Após várias tentativas frustradas de evitar o olhar desconfiado do Maître, Blaine optou por procurar a entrada de serviço que era de uso exclusivo para o staff do restaurante.
"A Britt vai matar-me se descobrir que o evento já começou e que eu ainda nem sequer consegui entrar no restaurante."
O moreno deu a volta ao edifício, encontrando por fim a porta de serviço, que já seja por mera sorte ou ação divina, se encontrava aberta e sem vigilância, uma vez que o jovem assistente que a utilizara pela última vez para levar o lixo havia-se esquecido de a fechar. Blaine não sabia mas esta situação poderia muito bem vir a ser o motivo de despedimento do desafortunado rapaz e até mesmo o fim do seu sonho de escalada até ao topo como um dos melhores Chefs do mundo.
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Agachado e escondido atrás de um carrinho de comida, Blaine ignorou a mirada confusa dos clientes e do empregado de mesa que empurrava o carrinho até ao centro da sala. Armado com uma câmara fotográfica e um gravador de voz, o jornalista escapuliu-se para debaixo da mesa de centro, que operava como atração principal do restaurante, enfeitada com um gracioso arranjo floral.
