Cap. 3- Consequências

Samara sentiu que acordava de um longo sono. Abriu os olhos, viu uma mancha de infiltração no teto enquanto sentia algo amargo na boca, sensação de que estava esquecendo algo importante. Daí se lembrou.

- Você está bem? - Perguntou Severo ao ver a aparência ainda pálida da irmã que acabara de sentar repentinamente da cama.

- Nosso pai morreu? - Samara questionou como se a idéia de ter matado sem querer o pai ainda não tivesse entrado em sua cabeça.

- Sam, entenda que não foi sua culpa. Você não podia saber, não tinha controle. Nunca havia acontecido antes! - Disse o irmão tentando acalma-la.

- Eu posso ser presa por isso? - Samara continuou como se não tivesse ouvido nada.

- É claro que não!

A simples visão dessa ideia parecia aterrorizar Severo.

- Mas eu matei ele! - Insistiu Sam.

- Mesmo que tenha sido assim, você não fez por querer e pode alegar legitima defesa também. Mas eles não prendem menores de idade Sam, você nem foi pra Hogwarts ainda, não aprendeu a controlar seus poderes, acidentes assim acontecem!

- Não, não acontecem, filhos não matam pais assim...

- CHEGA! Não quero mais ouvir você falando assim! O que passou, passou!

Samara se calou por alguns minutos antes de continuar.

- Onde está a mamãe?

- Não sei ,– Falou Severo com um tom de desprezo- acho que chorando em algum canto.

"Chorando"?, pensou Samara. É verdade. A mãe ainda nutria um amor doentio pelo marido. A filha sempre sentira ódio disso, no entanto, hoje sentia tristeza.

- Onde vai? - Perguntou Severo ao ver a irmã se levantando

- Procurar a mãe.

- Oras, deixe-a onde está que está melhor! Como ela pode ligar pra um sujeito que batia em nós e nela mesmo? Ela deveria ficar feliz como nós ficamos!

- Ficamos? - Samara parou de repente como se tivesse ouvido algo muito absurdo- Ficamos felizes? Você ficou?

- Bem...- Tentou continuar Severo agora um pouco sem graça, como se tivesse sido pego fazendo algo errado- não digo felizes mas, aliviados não? Eu estava preocupado Sam em deixar você aqui com esse homem. Agora posso ir tranquilo.

Samara não queria mas era obrigada a concordar. A vida dos dois naquela casa seria bem mais fácil sem o pai. Porém, ela não queria ter sido a culpada pela situação.

- Bom, não sei dizer mas agora não quero pensar nisso, quero ver nossa mãe. - Samara falou decidida já rumando para a porta .

A menina encontrou a mãe encolhida em um canto de seu quarto. Não estava chorando mas parecia em choque. Quando Sam entrou ela desviou o rosto rapidamente.

- Mãe? - Chamou a jovem.

Não houve resposta.

- Mãe eu sinto muito, não foi de propósito.- Aguardando uma resposta que não veio, tentou manter a firmeza mas a raiva veio- Você sabe que não foi culpa minha! Se você tivesse interferido talvez as coisas tivessem sido diferentes! Você é tão culpada quanto eu nessa situação!

Mais uma vez Samara esperou uma resposta que não veio e desistiu. Quando estava saindo do quarto, no entanto, a mãe falou:

- Eu gostava dele. Tinha medo dele, mas ele não era sempre assim. Eu sei que ele me amou um dia. Hoje eu sei que não era feliz com ele mas, sem ele tudo parece vazio.

Somente Helen falava. Samara havia emudecido com o desabafo repentino da mãe que continuou:

- Estava imaginando, agora que Severo vai para a escola e logo você iria também as coisas poderiam ser diferentes pra nós dois...

- Diferentes? - A voz de Sam finalmente pareceu voltar e junto com ela a raiva- Só se você fosse ser o saco de pancadas no lugar da gente porque essa era a única coisa que acontecia aqui. Vocês dois só ficavam juntos porque nenhum dos dois tinha nada melhor. Os dois são fracassados! Egoístas! E saiba que ele não teria derramado uma lágrima se qualquer um de nós aqui tivesse morrido, incluindo você!

E terminando com sua fala, Samara saiu batendo a porta com força sem olhar para trás. Tinha medo de ver o quanto suas palavras poderiam ter sido duras para sua mãe.

No entanto, Sam não teve muito tempo de pensar nisso porque nessa hora uma campainha soou na porta e Sam ouviu os passos de Severo para abri-lá. Pouco depois os agentes do ministério da magia estavam lá.

- Bom dia, gostaríamos de falar com a Senhorita Samara Snape por favor. É você? - Falou o Sr. de aparência mais velha do trio.

Os três usavam ternos trouxas elegantes, um pouco diferentes entre si e de cores talvez mais extravagantes do que o usual, mas pareciam muito a vontades. Suas idades eram próximas, ninguém devia ter menos de 50 anos.

- Sim, sou eu. - Respondeu Sam com o pouco que lhe sobrou de coragem.

- Senhores, minha irmã não fez nada ela... - Severo começou a apressada defesa da irmã mas foi interrompido.

- Não se preocupe jovem, está tudo bem. - E se virando para Sam continuou- onde está sua mãe?

Já era esperado pelos irmãos Snape a visita do ministério. Era conhecimento de todos que assim que um bruxo nascia possuía um feitiço de rastreamento mágico para detectar feitiços involuntários ou não, feitos por um bruxo menor de idade.

Samara levou todos à porta da mãe, porém, antes mesmo de encostar a mão para bater, Helen saiu mais recomposta, embora seu rosto ainda tivesse uma aparência exausta.

- Pois não? Eu sou a mãe dos meninos, o que gostariam de conversar?

- Boa tarde senhora. Recebeu nossa carta de aviso, imagino?

- Sim. - Respondeu Helen, firme.

- Certo então, vamos nos sentar. - Disse educadamente um dos homens do ministério.

Todos se sentaram à sala para os esclarecimentos. Não durou tanto tempo quanto Samara achou que fosse mas, para seu nervosismo, poderia ter terminado bem antes.

O trio do ministério questionou o que havia ocorrido para tal desfecho surpreendente acontecer no qual Helen explicou calmamente. Após tudo esclarecido, os homens confessaram que aquele tipo de incidente infelizmente era mais comum do que se pensava, embora, nem sempre com consequências tão trágicas.

Na despedida, os três deram pêsames e desejavam sorte a família. Infelizmente o incidente, devido suas proporções, teria que ser acrescentado na ficha estudantil de Samara, mas que tudo não passava de formalidade.

A mãe surpreendeu os filhos ao se mostrar tão sã e por defende-los do ministério. Sam imaginou se algo do que falara havia surtido efeito.

Quando os funcionários do ministério finalmente se foram o silêncio voltou a reinar na casa. O primeiro a quebra-lo foi Severo:

- Obrigado mãe. Você nos surpreendeu...

A resposta surgiu, mas não foi diretamente para ele.

- Agora vamos ver a nossa situação. - Helen começou com uma certa frieza na voz- Eu não tenho emprego e seu pai morreu. Ele era o único que tinha emprego naquele escritório horrível. Eu não sei fazer serviços trouxas. Vocês não podem trabalhar mas tem que ir para Hogwarts. Severo precisa de uma nova varinha o que não é nada barato e há pouca coisa no banco, então, o que faremos?

Ninguém soube responder.

- Havia diversos motivos que me mantinham com o pai de vocês. Há muita coisa do mundo que vocês ainda não sabem.

- Isso não é motivo para covardia! - Falou Samara enraivecida- Vá e arrume um emprego! Você estudou em Hogwarts, se formou, não é inútil!

Helen parou e olhou bem para o rosto da filha achando nele, traços do pai.

- Pois eu ficarei viva para ver essa força de vontade que você diz ter. Vamos ver se você é mesmo tão melhor do que eu como diz, ou se irá fracassar ainda mais fundo por causa dessa sua arrogância.

E terminando isso saiu deixando os filhos sozinhos em seus pensamentos.

Passado um mês Helen estava vendo um emprego para trabalhar inicialmente como costureira para os trouxas, claro, usando magia para fazer e concertar as roupas já que, agora com a morte do marido ela tinha sua varinha de volta. Ela e Sam não haviam mais se falado desde então.

Severo tinha comprado uma nova varinha com as reservas de dinheiro que o pai havia deixado no banco, arrumado todas as coisas em seu baú e aguardado o tão esperado dia que agora, finalmente havia chego. Ele se preparava para embarcar no trem para Hogwarts.

- Você trouxe mesmo tudo? Olhou se pegou as suas roupas boas ou se foram as velhas e feias da mamãe? - Questionava Samara a caminho da estação.

- Sim, não precisa ficar me lembrando isso. Agora que papai morreu e mamãe está costurando pelo menos não devo mais ficar usando as roupas velhas dela. - Severo respondeu baixo e apressado, olhando atentamente em volta.

- Eu sei que você está procurando aquela sangue-ruim. - Falou Samara de repente com desprezo na voz, fazendo Severo estancar.

- Não a chame assim. Você não a conhece! - O irmão falou bravo.

- Não preciso conhecer! Você não lembra do nosso pai? Ele era trouxa também! São todos iguais, esses aí. Não acredito que você gosta dessa menina.

- Chega! Não quero brigar com você por causa disso logo hoje.

- Claro, você deve estar todo feliz, vai pra Hogwarts com ela enquanto eu fico aqui sozinha. - Sam falou e mesmo contra sua vontade algumas lágrimas brotaram em seus olhos.

Severo se comoveu e a raiva da irmã passou. Teria a abraçado se estivessem acostumados a esse tipo de gesto.

- Olhe, ano que vem você estará aqui embarcando comigo, não se preocupe. - Falou com carinho.

- Eu sei, mas um ano é muito tempo. - Samara falava com os braços cruzados e a voz embargada segurando as lágrimas.

- Sam, eu preciso ir. - Severo falo olhando o relógio. Já era a hora de atravessar o muro para embarcar. Atrás dele uma menina de cabelos bem vermelhos parecia olha-los.

- Eu sei, vá lá. Não perca o trem por minha causa. Eu não vou atravessar com você, será pior. Nos despedimos aqui.

Severo não contestou. Olhou a irmã, sorriu, apertou sua mão e deu as costas. Samara o viu localizar Lilian e a cumprimentar e, poucos segundos depois se dirigir a coluna e sumir, logo seguido pela ruiva. Agora Samara estava sozinha, só lhe restando aguardar ansiosamente o fim do ano que mal havia começado.