Disclaimer: O anime/mangá "Naruto" não me pertence, ele é de propriedade exclusiva do Masashi Kishimoto.
Warning: Descreve a relação entre duas pessoas do mesmo sexo (MaleXMale).
"O amor nasce de pequenas coisas, vive delas e, por elas, às vezes morre." - Lord Byron.
Capítulo 4 – Crack!
Uchiha Shisui dissertava sem parar sobre um novo projeto tecnológico, que gostaria de empreender para aumentar os lucros e garantir ainda maior crescimento para a Sharingan Corporation. A ideia consistia em fornecer para as empresas brasileiras, sistemas de captação e transmissão de imagem em alta tecnologia para a futura Copa e Olimpíada, mesmo com a restrição da presidenta sobre a exportação estrangeira, eles acreditavam que uma reunião com os governantes sobre o auxilio das construções públicas atrasadas poderia convencer a mulher, já que muitas outras empresas europeias e norte-americanas conseguiram sua influência sobre algumas obras e planos.
- Nem que para isso tenhamos que conceder um patrocínio e estampar a nossa marca em todas as emissoras de rádio e TV, além das mídias impressas de todo o mundo. – ele continuou, mostrando um gráfico com as estimativas de sucesso da propaganda massiva.
O homem ocupando o topo da mesa de reuniões olhava a tudo aparentemente compenetrado, mas sua mente estava longe. Desde a última conversa que teve com o seu amante, ele não conseguia se concentrar direito no trabalho. Se antes seu desempenho profissional estava um caco pela confusão oriunda da distância que estava sendo imposta entre ele e Naruto, agora, a situação era agravante, devido o seu desentendimento familiar e o relacionamento incômodo com a sua esposa. Ele realmente estava muito preocupado.
O Uzumaki pediu para que ele encontrasse o caminho da própria felicidade. No entanto, ele já sabia qual era a decisão que queria tomar. Infelizmente, nem sempre querer é poder. Seu desejo era pedir o divórcio e correr para os braços do outro homem, impor a sua vontade para seu pai e sua mãe, não se preocupar com a reputação da sua empresa depois de revelar a sua orientação sexual e só pensar no que era melhor para si mesmo. Contudo, ele não podia arriscar o império que os Uchihas demoraram tanto tempo para construir, era um orgulho e um laço sanguíneo que ele não poderia abrir mão.
- Sasuke-kun, o que acha sobre isso? – perguntou Orochimaru, apontado com a caneta o painel branco onde se encontrava a descrição do projeto. O velho lambeu os lábios, em uma atitude que ele considerava atraente a fim de atrair o presidente, mas o ato só fez o moreno estremecer em repulsa. Contendo a vontade de fazer uma careta de nojo, ele jogou a própria caneta esferográfica na mesa.
- Acho prudente fazer uma pesquisa de mercado antes de tomarmos qualquer decisão. – levantou-se. – Segunda-feira que vem teremos outra reunião para que você possa me apresentar os resultados, Shisui! – ninguém ousava contradizer o tom imperial, que o corvo adotava nos negócios.
Sem esperar uma resposta, ele marchou para fora da sala, sentindo-se enclausurado dentro do cômodo cheio de empresários. Ao invés de voltar para o seu escritório na presidência, ele se encaminhou para o elevador, pretendendo utilizar o horário de almoço para espairecer um pouco. Andou até seu Lamborghini Murcielago no estacionamento subterrâneo, entrou e não perdeu tempo em colocar o carro em movimento, com uma arrancada barulhenta. Dirigiu por minutos incontáveis, sem saber o que fazer. Ele só precisava de uma pausa longe do ambiente corporativo. Ponderando um curto momento, decidiu direcionar o veículo – em alta velocidade – para a sede da Akatsuki.
Parando o carro em uma vaga disponível na rua, o corvo relaxou no banco, encarando o edifício, como se refletisse no porquê de estar ali. Ele só precisava falar com o irmão, conversar com ele, já que Naruto estava sendo mais um incômodo do que um relaxante nos últimos dias. Quando ele viu seu primo, Uchiha Obito, sair do prédio, decidiu que não poderia ficar por muito mais tempo parado. Saindo do automóvel, ele se dirigiu ao parente que o encarava um tanto surpreso.
- Hey, Sasuke! O que você está fazendo aqui? – estendeu a mão para cumprimentá-lo.
- Hn. – deu um breve aceno. – Vim falar com o meu irmão. Itachi está aí? – indagou, recebendo o cumprimento cordialmente.
- Ele está lá dentro. – indicou o local com um movimento de cabeça.
A conversa dos dois foi interrompida por inúmeras crianças que correram em direção a eles gritando por "tio Obito" e falando várias coisas ao mesmo tempo. Sasuke se afastou para poder encontrar o homem de cabelos compridos. Andando pelos corredores com os passos firmes e a pose imponente, ele encontrou o Uchiha mais velho trocando algumas palavras com Deidara, que ao vê-lo, abriu um sorriso debochado.
- Olha o que temos aqui, un! – o rapaz de longas madeixas loiras cruzou os braços.
- Pare de provocá-lo, Deidara. – o tom sereno, mas sério do outro destruiu qualquer ironia da pose do mais baixo.
- Estraga prazeres! – virou o rosto para o outro lado em uma pose emburrada, arrancando um sorriso de escárnio de Sasuke, que só observava a troca entre os dois. – O que o trás aqui, irmão-bebê do Itachi?
- Hn! – virou-se pro mais velho, ignorando o outro. – Preciso falar com você, Aniki¹. – lançou um olhar de soslaio para o loiro. – A sós.
- Prepotente! – Deidara começou a se afastar. – Nos falamos depois, Uchiha. – acenou para Itachi.
- O que está fazendo aqui, Otouto? – os dois começaram a andar juntos para a sala privada do mais velho.
- Não aguentava mais ficar na empresa, precisava sair um pouco. – deu de ombros.
- Alguma coisa está te incomodando? – ambos entraram no escritório e o homem de cabelos compridos fechou a porta em seguida.
- Por que teria alguma coisa me incomodando? Eu só precisava respirar um pouco, estava me sentindo claustrofóbico lá dentro... – Sasuke se sentou em uma poltrona no canto do cômodo.
- Eu te conheço, irmãozinho tolo. – Itachi bagunçou as madeixas negras do outro, irritando-o.
- Pare com isso! – tirou as mãos de sua cabeça. – E eu não sou tolo! – franziu a testa, visivelmente com raiva do fato de que seu nii-san² ainda o tratava como uma criança.
- Hn. – fez um gesto de descaso e caminhou para a mesa de mogno, apoiando-se nela. – Você ficou sabendo da última? – o tom contido chamou a atenção do outro.
- Não. O que é? – o mais novo virou a cabeça para olhar o homem com curiosidade.
- Konan trabalha ensinando arte em papel para um grupo de mulheres donas de casa aqui na sede, e, todas elas são leitoras assíduas de romances. Você sabe como o sexo feminino adora esse tipo de leitura! – olhos negros reflexivos desviaram para a janela. O jovem Uchiha estranhou o comportamento, já que apesar de ser uma pessoa tranquila, seu irmão nunca fora de enrolar uma situação.
- Diga qual é o ponto logo, Itachi! – autoridade escorreu pela voz profunda.
- Elas trouxeram uma revista feminina e na seção de fofocas havia uma matéria bem interessante que citava você e o seu psicanalista loiro...
As palavras fizeram o coração de Sasuke gelar e bater loucamente no peito; as palmas das mãos suando de nervosismo. Se ele fosse mais expressivo, teria arregalado os olhos em surpresa. Observando o irmão vasculhar em uma gaveta, ele viu a edição impressa em sua mão, que logo estava sendo oferecida para si.
Ele pegou o exemplar com receio e reparou que a edição era um pouco antiga, cerca de um mês e meio atrás.
- Abra na página 35 e leia você mesmo. – Itachi se afastou e sentou no sofá de frente para o mais novo, querendo observar as reações diretamente.
O corvo abriu a revista, sentindo os dedos tremerem em expectativa e receio, enquanto procurava a folha indicada. Quando ele encontrou, o que viu, fê-lo ranger os dentes em fúria; seus olhos semicerrados adquirindo um brilho perigoso. A foto impressa mostrava Naruto, aparentemente sussurrar algo no ouvido de um ruivo, que ele logo reconheceu como sendo Gaara, o empresário e dono de Suna Enterprises Communication e melhor amigo do seu amante. O homem estava segurando a mão bronzeada entre as suas e ostentava um pequeno sorriso. Abaixando o olhar para ler a matéria, seu sangue ferveu ainda mais.
O escritor mais adorado do Japão está apaixonado?
Correm rumores de que o tão idolatrado loiro fisgou o coração de um dos homens mais frios e cobiçados do nosso país
Depois dos boatos sobre o possível envolvimento amoroso entre o psicanalista e o presidente da Sharingan Corporation, Uchiha Sasuke. Uzumaki Naruto está sendo visto frequentemente com Sabaku no Gaara, desmentindo qualquer ligação com o marido de Haruno Sakura. As fofocas causaram indignação por parte dos fãs do trio, que não conseguiam acreditar na traição de figuras tão honradas no meio das celebridades.
Contrariando as notícias, o escritor deixou bem claro que a única relação entre ele e seu paciente, era estritamente profissional e que no momento ele tinha preocupações mais importantes do que com o seu coração. O caso foi abafado depois da coletiva de imprensa e apesar das suspeitas, nenhuma prova poderia ser dada para confirmar o fato de que o empresário, filho de Uchiha Fugaku, poderia estar em um caso extraconjugal com loiro.
Semanas depois do mal entendido, Naruto foi fotografado em diversas ocasiões com o ruivo e por mais que ele negue, nós, da revista Beads Friend³, acreditamos que há um amor rolando no ar, pois em todas as imagens, ambos aparecerem incrivelmente próximos e íntimos, diferentemente de Sasuke, que jamais foi visto junto com psicanalista em uma posição que gerasse suspeitas.
No ano passado o escritor, em uma entrevista, confessou que era homossexual, quebrando inúmeros corações que esperavam ter a chance de namorar um homem tão sensível e romântico como o Uzumaki, embora apaixonadas, as fãs ficaram felizes ao saber que ele esteja abrindo o coração para outra pessoa íntegra e de boa índole como o proprietário de Suna Enterprises Communication.
A cada palavra que o Uchiha lia, ele apertava o papel com força entre os dedos. Controlando a vontade de rasgar a revista, ele virou a página para ver as imagens seguintes. Como dito na matéria, todas as fotos mostravam o seu amante em uma posição bem íntima com Gaara: próximo demais para o gosto do moreno. A raiva era tanta que ele ignorou completamente as partes em que seu nome era citado, e, se olhar pudesse lançar chamas negras eternas, o exemplar impresso teria virado pequenas partículas de cinzas.
- Tem ideia de quem poderia ter dito algo sobre vocês dois? – perguntou o outro, surpreendendo Sasuke, que estava preso em suas divagações.
Ele voltou a olhar para matéria, sentindo um gosto amargo na boca, porque todas as fotografias mostravam sorrisos felizes e calorosos dirigidos à outra pessoa que não fosse ele. Engolindo em seco, ele se deu conta sobre o que o seu irmão estava querendo dizer. Ele havia sido citado na matéria. Alguém havia descoberto sobre a traição e contado para algum jornalista.
- Eu não faço a mínima ideia. Sempre fomos discretos demais e como diz a reportagem, não há nenhuma foto que nos comprometa... – franziu a testa, começando a se preocupar com esse fator adicional.
- O seu psicanalista foi esperto... – Itachi se inclinou para fingir olhar a revista, mas roubando um olhar de relance para o rosto do mais jovem. – Pelo que eu pesquisei, ele negou tudo assim que as primeiras revistas divulgaram o boato, com uma diplomacia surpreendente, e desviou a atenção de você, começando a sair com esse tal de Gaara. – jogou com as palavras para tentar arrancar mais respostas do homem com o rosto tão idêntico ao da sua mãe.
- Será que... – ele se remexeu desconfortável, experimentando a sensação de seu estômago se embolar com a insegurança, o ciúme e a raiva. – Naruto está fazendo isso somente para distrair a atenção da mídia?
O outro voltou a sua postura relaxada sobre o sofá e soltou um suspiro cansado.
- Eu não sei, Sasuke... – fechou os olhos, reflexivamente. – Ambos nunca apareceram fazendo qualquer outra coisa a mais que pequenos gestos íntimos, nada muito explícitos. – olhos negros encararam os orbes tão parecidos com os seus. – Eu pesquisei muito depois do que eu li e nada é muito concreto. Só há suposições, mas eles estão, há um bom tempo, nesse clima. – pausa para analisar a aparência do outro, era quase imperceptível, mas ele conseguia ver com exatidão os sentimentos carregados do irmão mais novo. – Definitivamente eu não sei o que isso quer dizer...
- Três meses.
- O quê? – Itachi não entendeu a declaração fora de ordem.
- Eles estão neste clima há três meses. – explicou com o olhar perdido no carpete, como se algo muito interessante começasse a fazer sentido.
- Como sabe? – franziu o cenho, confuso.
- Nesse tempo, Naruto começou a agir estranho. – levou as mãos para acariciar a têmpora, tentando amenizar o pulsar incômodo, como o Uzumaki costumava fazer quando ele estava com dor de cabeça, mas sem sucesso. – Ele começou a ignorar algumas das minhas chamadas, parou de me ligar, só me telefona em raras exceções e por mais que, pessoalmente, não tenha mudado tanto, sinto que ele está impondo certa distância entre nós. Na última sexta-feira, ele tinha dito que saiu com Gaara, mas me explicou outro motivo. Que tipo de ajuda o meu homem precisa que tinha tanta necessidade da presença do Sabaku? Eu poderia ter feito tudo o que ele quisesse! – as duas últimas frases foram ditas em um rosnado, demonstrando toda a sua possessividade.
O Uchiha mais velho teria recuado de medo se fosse outra pessoa, mas como todos os membros da sua família, não havia uma única dica externa que denunciasse seu temperamento naquele momento. Seu olhar penetrante analisava, como os de um falcão, todas as reações abertas do mais novo. Sasuke estava tão transtornado que não se dava conta que mostrava todo o seu descontrole emocional pela sua linguagem corporal e suas palavras desmedidas.
- Ele não é seu homem. – disse em um tom sereno.
- Sim, ele é! – apertou a revista com ainda mais raiva, amassando-a e querendo tacá-la com força no rosto do seu irmão.
- Ele é livre. Sakura te pertence, assim como você pertence a ela. – levantou-se, caminhando até o bar instalado em sua sala. Ele pegou dois copos com gelo e os encheu com uma boa dose de uísque, oferecendo um para o mais novo, que aceitou prontamente com as sobrancelhas e os lábios franzidos.
Sasuke tomou um gole, refletindo sobre o que o outro disse. Ele sabia que Itachi tinha razão e este fato o atormentava. Por ser casado, jamais poderia reclamar seus direitos sobre o homem; não poderia tirar qualquer satisfação com Gaara a respeito de flertar com alguém que, longe dos olhares alheios, lhe pertencia. Nos últimos dias, estava odiando o seu matrimônio, mas nenhum outro sentimento se assemelhava com o que estava sentindo naquele instante. Neste momento, sua repulsa pelo casamento com a mulher de cabelos cor-de-rosa era tão grande, que fez o seu estômago retorcer em uma sensação desagradável, enquanto ele culpava sua união pelo infortúnio que estava passando. O Uchiha mais novo apenas não conseguia suportar ver Naruto com outra pessoa, dessa mesma forma que as imagens retratavam. Olhando as fotografias mais uma vez, sua mente girou em consternação.
Deixando o copo inacabado em cima da mesa de café, ele se levantou e com passos firmes caminhou até a porta.
- Aonde você vai, irmãozinho? – perguntou visivelmente preocupado.
- Resolver isso o quanto antes! – saiu antes que o mais velho pudesse replicar.
O corvo praticamente correu para o carro, ainda com a revista na mão. Em sua cabeça, só conseguia pensar em esclarecer tudo com o Uzumaki. No fundo, ainda tinha esperança que o loiro só estava fazendo isso pela necessidade de manter o romance que os dois tinham às escuras.
(***)
Quando Sasuke pegou a cópia da chave do apartamento simples do Uzumaki, já sabia que o encontraria absolvido em sua nova obra. Ao abrir a porta, ele se deparou com o corpo esguio do homem sentado no chão, com a perna esquerda esticada e a direita dobrada, apoiando o braço. Ele estava encostado no sofá, olhando absorto para a tela do notebook em cima da mesa de café, enquanto brincava com uma caneta estereográfica. Os olhos incrivelmente azuis, cobertos pelas lentes de óculos de aro fino, faziam-no parecer ainda mais concentrado.
Toda a vez que o moreno o observava dessa forma sentia vontade de atacar o outro com beijos até o final dos tempos. Em sua opinião, ele acreditava que essa visão tinha o mero intuito de distraí-lo para o verdadeiro motivo que o levou até ali e, quando Naruto virou o rosto para ver quem havia entrado em seu apartamento, em plena quarta-feira à tarde, Sasuke sentiu a raiva ser meramente substituída pelo desespero.
Ele não podia deixar que o Uzumaki o deixasse, pois precisava tanto do amor do rapaz, que se sentia sufocado somente em imaginar perdê-lo. Sua aparência desgrenhada deveria ter assustado o amante, porque Naruto se levantou com um pulo, quando o viu. Rapidamente o corvo fechou a porta e andou a passos acelerados na direção do mais novo, passando os braços pelo pescoço bronzeado e se agarrando a ele como se o mesmo fosse a sua única tábua de salvação.
- Sas... – foi interrompido bruscamente pelos lábios que tocaram repentinamente a sua boca com necessidade. A língua exigiu espaço e ordenou uma resposta do amante, que estava estático em surpresa. Colocando as mãos na cintura delgada, o loiro massageou a região por debaixo do paletó preto caríssimo que o Uchiha usava. Ele correspondeu o toque com o mesmo fervor que o amante, tentando transmitir todos os seus sentimentos, antes de empurrá-lo afastado. – O que aconteceu, Sasuke? – perguntou alarmado, fazendo o moreno piscar com o súbito frio que o apossou.
- O quê? – seus pensamentos ficaram lentos, enquanto tentava processar a pergunta. Dando-se conta de que deveria explicar sua visita inusitada, ele perguntou. – Por que não me contou?
- Contar o quê? – uma sobrancelha dourada se ergueu em dúvida. O olhar cerúleo brilhava em um sentimento grave, sério e preocupado.
- Sobre estarem desconfiando de nós e terem publicado notícias em diversas mídias sobre isso. – os lábios rosados se franziram, juntamente com o cenho, enquanto olhava para o homem diante de si com raiva contida. Seu humor oscilando consideravelmente devido ao transtorno.
- Você ficou sabendo... – o psicanalista se afastou, sentando-se no sofá, enquanto apertava as pálpebras com o indicador e o polegar.
- Como não ficaria? Saiu em praticamente todas as revistas de fofocas, jornais e em alguns programas de televisão. O que você esperava? – jogou o volume impresso que ainda segurava ao lado do notebook ligado.
- Eu pedi para o seu assessor não se preocupar com as notícias, pois eu cuidaria de tudo. Quem te disse sobre isso? – acenou com a cabeça em direção ao exemplar.
- Meu irmão. Ele também não estava ciente sobre isso, até que uma das mulheres que estudam na sede da Akatsuki mostrou essa edição antiga da Beads Friend. Aparentemente, só os veículos de fofocas deram destaque a esse tipo de notícia... – comentou, reflexivamente.
- Eu tomei providências antes que isso se tornasse um escândalo maior. – seus braços esticaram-se sobre o encosto do estofado. A postura relaxada do loiro contrastava terrivelmente com o seu interior tumultuoso, e a pose descuidada do mesmo enfureceu ainda mais o Uchiha, que esperava um pouco mais de diplomacia do amante.
- Começando a sair com Gaara? Diga-me, quando pretendia me contar que estava me traindo? Você mentiu para mim, disse que ele estava aqui só para te ajudar em um problema profissional e eu te dei confiança! – os punhos se fecharam com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Seu corpo inteiro tremia e ele tentava controlar a vontade que sentia de socar alguma coisa, mais especificamente, o rosto bronzeado e cheio de cicatrizes do loiro.
- Eu não estou te traindo... – azuis cerúleos de repente adquiriram um brilho determinado e resoluto.
- O que você chama isso que as fotografias mostraram, então? – a mandíbula se apertou. Sua mente tão nublada pelo ciúme que não conseguia enxergar o significado por trás do olhar do amante.
- Eu te amo, Sasuke. – a voz rouca retumbou por todo o ambiente em um barítono tão profundo, que quase fez o corvo recuar em alarde. – Essas notícias só chamaram a minha atenção para algo que tentamos ignorar. – se levantou e caminho, pegando o volume impresso de cima da mesa. – Por mais que aos olhos dos outros sejamos apenas paciente e psicanalista, que passaram a serem amigos pelo grande tempo de contato, ainda haverá muitos que desconfiarão. – rasgou a folha do caderno. – Você passa algumas noites no meu apartamento e eu tenho vizinhos. Infelizmente, não podemos controlar as pessoas gananciosas que procuram dinheiro à custa dos outros... – picou os papéis e depositou-os em cima da mesa. – Mesmo que decidamos nos encontrar em hotéis, os funcionários saberiam o que estamos fazendo porque somos figuras públicas! – o moreno sentiu a respiração falhar. – Eu estava sem coragem para te dizer que não posso mais, porque eu te amo tanto, – Naruto lambeu os lábios, sentindo os olhos marejarem. As palavras fazendo o empresário recuar com os olhos arregalados. – eu te quero tanto – a voz embargada do homem fez algo no interior normalmente estoico do Uchiha quebrar. – e apesar disso tudo, nós ainda não podemos ficar juntos e isso... – o loiro apontou para ambos, indicando o relacionamento que levavam. – Está acabando comigo...
- Naruto... – desespero penetrou todo o seu ser. As palavras afundando em sua mente com o peso de um rinoceronte, esmagando-o e machucando.
- Eu estou tomando esta decisão por nós dois, já que você é incapaz de abandonar a sua esposa e ficar comigo. – Sasuke ameaçou dizer algo, mas foi calado com um gesto de mão. O psicanalista respirou fundo para estabilizar a voz e seu emocional abalado. – Eu não estou te pedindo para escolher, porque desde o início, você sempre deixou claro que isso era exatamente o que queria... – olhos azuis claros migraram para um anil, que transmitiam a sua tristeza de forma tão densa que o corvo sentiu a garganta embolar e os olhos arderem, seus pulmões ardiam e seu coração estava tão acelerado e dolorido, que achou que iria adoecer a qualquer momento. Ele deu passos vacilantes em direção ao amante, pensando rapidamente em uma maneira de fazê-lo mudar de ideia.
Antes que o Uzumaki pudesse recuar, braços fortes e pálidos o puxaram para um abraço, enlaçando o seu pescoço em um aperto firme e quase sufocante. O corvo estava com medo de largá-lo e perceber que o outro sumiu de sua vista, sem que pudesse ter a chance de impedi-lo. Ele aspirou o cheiro extasiante e cítrico de laranjas nos fios de cabelo dourado, com saudade antecipada, perguntando-se como suportaria ficar sem aquele homem perto de si.
- Não faça isso, por favor. – ele murmurou, fazendo os olhos azuis se arregalarem no apelo dado pelo empresário, que sempre foi tão arrogante e autoritário.
- Você tem que ver a insanidade disso tudo, teme. – mãos bronzeadas empurraram o moreno para agarrar o rosto pálido e olhar profundamente nos orbes ônix. – Uma hora isso aconteceria e você sabe disso! – empurrou a franja comprida em uma carícia suave, sentindo a textura macia das madeixas negras. - Eu não consigo mais suportar te ver voltar para a sua casa, que não é a mesma que a minha. Eu não aguento mais vê-lo beijar a Sakura e dormir na mesma cama que a dela, sabendo que são uma família e que eu sou apenas um intruso.
O Uchiha olhou para baixo, incomodado com a intensidade dos olhos azuis e com as descobertas sobre os sentimentos de Naruto. No fundo se sentia culpado por nunca ter observado melhor o amante e só ter reparado no comportamento deste, quando começou a impor certa distância entre eles. Seus pensamentos foram interrompidos pela voz do loiro.
- Por causa desse amor que eu sinto por você e das circunstâncias, eu estava perdendo o controle sobre a minha vida... – ele levou os lábios para depositar um beijo terno na testa do mais alto. – Eu sou um psicanalista e não posso deixar isso acontecer. Quando um não quer, dois não lutam, então, eu decidi que a iniciativa para que colocássemos nossas vidas nos eixos tinha que partir de algum lugar, e, eu tomei esta posição...
Sasuke não suportava mais ouvir, sua mente girava e seu interior todo se retorcia. Sua vista virou um borrão e ele só conseguia gritar consigo mesmo em pensamento, não querendo acreditar no que estava acontecendo. Ele nunca se sentiu tão sozinho como agora e seu coração gritava para ele fazer o que devia ser feito; dizer que se divorciaria de Sakura para ficar com ele, que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para tê-lo, mas nada saiu de sua boca. O moreno só conseguia balançar a cabeça negativamente, ouvindo os chamados do Uzumaki, bem distantes.
- Sasuke! – o psicanalista o chacoalhou bruscamente, acordando-o de seu estupor.
Olhando atordoado, ele se afastou do outro, tirando as mãos do seu corpo com um tapa. Ele estava chateado, muito chateado.
- Dentre todas as pessoas, eu nunca pensei que você seria o primeiro a me deixar... – cuspiu com raiva e mágoa na voz. – Eu confiei em você e na primeira oportunidade, você corre como um belo covarde que você é! – ele viu o loiro o olhar incrédulo.
- Sasuke? – o tom quebrado e assustado. – Eu achei que você entende...
- Não me venha com "Sasuke"! – interrompeu-o, imitando o tom do outro ao chamar o seu nome. – Essas desculpas esfarrapadas que você está me dando para ficar com Gaara não me convencem...
- Bastardo, filho de uma puta! – não aguentando as ofensas, Naruto gritou. – Cansei das suas infantilidades! – agarrou o braço do homem e o puxou em direção à porta. – O dia em que você começar a agir como um adulto que é, entenderá que minha decisão foi a melhor para nós dois... – antes que o moreno pudesse reagir, ele estava no hall do andar do loiro, fora do apartamento. – Vá viver a sua vida, tenha muitos filhos pequenos de cabelo cor-de-rosa e olhos negros. Vá ser feliz, Sasuke! Para mim já chega, acabou! – fechou a porta com força.
(***)
Do lado de dentro, o escritor e psicanalista deslizou pela porta e se sentou no chão. Lágrimas não derramadas faziam os olhos azuis anil brilharem ainda mais. Ele mordia o lábio inferior com força, tentando controlar a tristeza e a dor de ter que se despedir do homem que amava dessa maneira. À sua frente, Kurama estava sentado em toda a sua glória arrogante, como se o olhasse de cima.
Um segundo depois, o gato caminhou em sua direção e bateu sua cabeça peluda em sua mão, como se o gesto fosse consolar o dono.
Pela primeira vez, o felino não reclamou quando foi agarrado em um abraço forte, como se entendesse que aquele ato poderia amenizar o choro e o sofrimento incontrolável que rompeu a figura quase inabalável e forte de Uzumaki Naruto.
Aniki¹ – é comumente usado entre membros parentes da Yakuza (máfia japonesa), porque se refere a um irmão mais velho que também é chefe da família. Nesse caso, como Sasuke cresceu com a visão de que seu irmão mais velho seria o líder do clã, tornou-se um costume se dirigir ao Itachi dessa forma. É um sinal de respeito.
Nii-san² - forma simples, carinhosa e abreviada de "onii-san", irmão mais velho.
Beads Friend³ - revista feminina direcionada às mulheres entre os 30 e 40 anos.
