N/A: Devido a falta de reviews as atualizações desta fic serão feitas mensalmente.
Poisoned Rose
- Capítulo 3 -
Riff apertou os lábios, contendo um gemido de dor. Estava tonto e mal conseguia respirar, a cabeça doendo a cada palavra proferida por seu mestre, ainda que não passassem de meros sussurros. No entanto forçou-se a agüentar, tentando entender o que Cain explicava com tanta empolgação.
- Me dê seu braço, Riff.
O mordomo obedeceu, apesar de não estar totalmente ciente da explicação que recebera. Porém, o conde não parecia disposto a perder mais tempo e logo dobrou a manga de sua camisa, expondo a pele ainda mais alva que o normal.
- Mestre...Cain? – indagou com dificuldade, a voz mal sendo notada entre a oscilante respiração. Entretanto o nobre não só ouviu como pôs um dedo sobre os lábios secos.
- Você vem sendo envenenado há alguns dias Riff, se eu não aplicar o antídoto na veia poderá não ser suficiente. – ainda que as mãos jovens tremessem, o conde falava sério.
O mais velho sorriu, olhando de soslaio para o líquido claro e cheio de bolhas de ar na seringa. Estava imensamente feliz com o cuidado e preocupação de seu mestre, mas era mais provável que morresse da injeção não do veneno, caso não o orientasse.
- Pegue a...minha maleta... – o mordomo mantinha um kit separado no quarto de seu mestre justamente para emergências. Cain logo a pegou, trazendo-a pra perto da cama, não sem antes lançar um olhar de agradecimento ao dono das mechas prateadas. Nunca fora bom com agulhas e estava nervoso demais para se lembrar do pouco que sabia.
- Use o garrote. – Riff começou a indicar os passos lentamente, como se não fosse ele a estar com a vida por um fio.
Assim o nobre seguiu, cumprindo a risca todas as etapas. Limpou a pele e tirou as bolhas de ar da seringa. Respiro fundo uma, duas, três vezes. Precisava se acalmar ou só traria mais dor.
Então porque suas mãos não paravam de tremer?
Percebendo o que afligia seu pequeno mestre os olhos azuis se fecharam lentamente.
- Finja que estou morto. – pediu o mordomo, a consciência ameaçando abandonar-lhe, deixando apenas a dor de deixar o nobre em tal angústia..
- Riff... – já devia ter aceitado que se aproximava mais dos mortos, sempre se escondendo entre sombras e venenos quando entre os vivos. Sim, os mortos sempre estariam a lhe cercar, compartilhando sua vida frágil e eterna, murmurando lamentos em seus ouvidos, marcando sua pele e roubando seu calor.
Afinal, era um Heargraves. Era Cain.
E não havia maior prova disso que a cena que se desenrolava ante seus olhos dourados.
O coração gelou, uma calma fria e cortante se apoderando de seu ser.
Cain, o fratricida. Deus punirá sete vezes mais aquele que tentar lhe matar. Mas sem a morte não estaria condenado a vagar eternamente, queimando sentimentos e memórias até que não sobrasse mais nada além de cinzas e vazio?
Até que não houvesse mais Riff...
O mordomo sentiu a picada porém, ela nada significava ante a dor que se apoderou de seu peito. O líquido lhe foi injetado, queimando pelas veias, até o ponto que gritaria se fosse capaz, no entanto isso também era irrelevante.
Porque Cain não estava lá.
Ainda que soubesse que seu mestre mal se movera, seu Cain não estava mais ao seu lado. E essa era uma dor que jamais conseguiria suportar.
Tentou abrir os olhos. Não importava o quão fraco estivesse, precisava ver seu querido conde. Tinha que sorrir e lhe estender a mão.
Mas não conseguiu.
A última coisa que percebeu foi a porta sendo fechada.
XxX
A pequena Mary caminhava pelo corredor, buscando irritada por seu teimoso meio irmão. O viu a alguns metros a frente e já se preparava para correr ao seu encontro, despejando mil perguntas infantis e birrentas, quando percebeu de onde ele saia.
A pequena dama parou, sentindo os pés grudarem no chão, fundindo-se a ele e lhe consumindo lentamente, transformando-a numa bela e vazia estátua de mármore.
Porque aqueles olhos lhe encaravam abertamente, rasgando sua alma sem o mínimo de remorso, trazendo lágrimas aos seus próprios sem que sequer percebesse. A boca rosada se abriu, os lábios trêmulos tentando formar uma palavra, qualquer uma. Porém, quando Cain se aproximou, andando como se pisasse em seu próprio coração, a assustada lady não conseguiu fazer nenhum som.
- Fique com Riff. – o conde ordenou, como se falasse com uma relez empregada. Não via o rastro que deixava atrás de si, ou mesmo o caminho sombrio que se abria a sua frente. Apenas sumiu pelos corredores como se nada houvesse acontecido.
Era o início do fim.
XxX
Os dias se passaram e a sombria névoa que envolvia o herdeiro dos Heargraves parecia mais densa que nunca. Os animais do jardim fugiram, as flores pareciam se negar a desabrochar. Empregados pediam demissão um atrás do outro, os poucos que ficavam fazendo de tudo para não cruzarem com os demoníacos olhos de gato. Até mesmo o pequeno sol que ali vivia, a doce e vivaz Maryweather parecia ter se apagado, consumida pela angústia vazia que se apoderara da mansão e seus ocupantes.
No entanto, nem mesmo ela poderia entender, ou mesmo vislumbrar o tamanho do sofrimento de Riff. O mesmo Riff que Cain quase morrera para salvar, mas que agora ignorava com todas as forças, sua frieza, envenenando as safiras como nenhum veneno jamais seria capaz.
Mesmo assim, o mordomo continuava lá, lutando por cada segundo que poderia passar com seu tão amado senhor, recolhendo as migalhas que lhe eram oferecidas. Guardava-as no peito como o mais precioso tesouro, embrulhando-as na esperança de que, um dia, tudo voltaria a ser como antes.
Até lá, sua mão continuaria estendida...
Era nisso que acreditava. Era por isso que jurava, apostando sua própria alma.
Mas o mordomo não era de ferro. Por mais que guardasse tudo dentro de si, encarando o mundo com uma máscara perfeita e vazia, havia momentos como esse, quando Cain lhe dava as costas e saía, desaparecendo na noite britânica para só voltar ao amanhecer fedendo a uísque barato e sexo; que as lágrimas reencontravam o caminho até seus olhos e rolavam, silenciosas e esquecidas.
Em um desses momentos seu tão férreo controle falhou. Seus braços fortes se fecharam, envolvendo o corpo frágil do mesmo modo que fizera tantos anos antes, naquele tão fatídico dia. As roupas impecáveis foram amassadas e molhadas, a cartola e a bengala foram ao chão.
- Volte. - Riff pediu, a voz baixa e sofrida como jamais fora ouvida, os olhos fechados incapazes de conter o pranto.
E, por um segundo, Cain se viu novamente ajoelhado ante o leito, tomando a mão áspera na sua, rezando para que aquele que lhe era tão caro não o abandonasse.
- Não me deixe...
O nobre se virou, encarando as safiras tão tristes que se abriram em espanto. Sabia que as havia quebrado. Tinha ciência de que poderia até mesmo apagá-las para sempre se quisesse contudo, naquele mísero mais interminável momento, também se deu conta de que tais olhos miravam e sempre mirariam apenas a si.
O verde recuou, deixando o dourado ainda mais livre. Cain se esticou, ficando na ponta dos pés.
Os lábios se aproximaram...
Porém a morte, eterna sombra a assombrá-lo jamais o libertaria tão facilmente. Com um único e cruel golpe de sua foice, cortou o peito do jovem herdeiro, lembrando-o de seu destino.
Porque até mesmo Riff lhe abandonaria um dia.
O som do tapa cortou o cômodo.
O conde pegou a bengala e saiu, sumindo nas sombras da noite sem sequer olhar para trás.
Ao mordomo, tudo que restou foi recolher novamente os pedaços de seu coração, enquanto lançava um olhar vazio para o pulso direito.
