Segunda Parte – O Sumo Sacerdote que vaga por Nifflheim
A estalagem de Amatsu era certamente a mais agradável de todas as que o clã se hospedara. A brisa trazia o cheiro do mar não muito distante e o cheiro único das cerejeiras, que começavam a florescer. O clima pacífico não combinava com a situação nos quartos do andar de cima onde um grupo de guerreiros dormia profundamente, descansando depois de terem descido até o fundo do Labirinto de Tatames que se escondia no Palácio Imperial para acalmar o espírito de um Samurai que encarnara no corpo de um jovem desavisado¹. Eu ainda não sabia detalhes do que acontecera na luta, mas a aparência cansada e os ferimentos deixavam claro que não havia sido fácil.
Como eu imaginara que todos estavam dormindo, não esperava encontrar alguém no primeiro andar do estabelecimento. Mas fui recepcionada por uma figura de cabelos brancos com reflexos prateados sentada ("Ajoelhada seria mais correto, em Amatsu os habitantes não usam cadeiras...") lendo um livro pesado encapado em couro. Assim que Shini percebeu que não estava mais sozinho na sala ele lançou-me um daqueles sorrisos gentis e perguntou como havia dormido.
- Bem. Só não entendo o que tu tá fazendo acordado sozinho.
- Hábito de acordar cedo.
- Hum... – "Madrugar seria mais exato." - Que livro é esse?
- Ah, é um livro que eu achei por aí sobre as criaturas de Amatsu. As lendas daqui sempre me interessaram.
Dei a volta e debrucei-me sobre ele para espiar o livro. Era escrito na língua local e só reconheci vários tracinhos². Desisti e me acomodei na grande almofada livre do outro lado da mesa. Logo uma garçonete vestida com os trajes de seda veio perguntar se eu queria café-da-manhã. Aceitei e torci para que a refeição não precisasse ser comida com os palitinhos que eram usados no lugar dos talheres. Imaginem minha decepção quando a travessa com um pouco de peixe, frutas e arroz me foi servida... Acompanhada dos palitinhos. Shini aproveitou e pediu chá.
Enquanto eu tentava vencer a própria inabilidade do meu corpo, uma idéia me veio à mente.
- Shini...?
- Hum?
- Tu conhece Amatsu muito bem, não? Parece até entender esse monte de risquinhos...
Ele riu e comentou:
- Não é tão difícil, e eu tive tempo.
- Ahn... Quando foi isso? – Tirei discretamente meu caderno da bolsa. Quando peguei o lápis e me voltei para o caderno, encontrei um gatinho preto me olhando atentamente com seu par de olhos amarelos. Ficamos nos encarando, até que o dito animal soltou um miado fino, chamando a atenção de Shini.
- J.J.! Onde você passou a noite? – O Sumo Sacerdote tentou pegar o bichano, mas este achou interessante enfiar as unhas nas páginas a sua frente. Quando Shini recuperou o bichinho ele conseguiu um caderno de brinde. A surpresa nos olhos azul-celeste logo foi trocada por uma risada. Ele soltou as unhas de J.J. do meu caderno e devolveu-o. Como ele não perguntou nada, decidi que seria melhor deixar minha pesquisa para outro dia.
- Pra quê o caderno? – Perguntou meu companheiro de café-da-manhã distraidamente, virando a folha do livro. Fiquei sem saber o que responder, atitude essa que só abriu espaço para que ele passasse a me encarar. Nunca reagi bem quando me encaravam.
- Eu queria fazer umas anotações...
- Sobre...?
- ...
- Carol, eu vou pegar seu coelhinho e dar ele pro J.J.
- Tu não faria isso!
- É... Não. Mas a Ju faria se eu pedisse.
- Cruel...
- Pois é. Então, anotar o que numa manhã como essa?
- Sobre a tua vida.
Ele me encarou por um tempo, com o bule de chá parado no caminho para a xícara.
- Hum. Podia ter perguntado, não é como se fosse um grande segredo...
- Então?
- Então o quê? – Ele terminou de servir seu chá e voltou para o volume a sua frente.
- A história? – Abri meu caderno, procurando por páginas que não estivessem rasgadas.
- Hum? Ah! Certo, eu conto... Você vai anotar?
- Sim.
Ele abriu a boca para fazer a pergunta óbvia: "por quê?", mas mudou de idéia e tomou um gole de chá antes de começar a história.
O pequeno Shini Holyheart foi encontrado ainda bebê nas portas da Catedral de Prontera. Foi criado e educado entre as paredes do prédio, sendo aprendiz em especial do Padre Bamph, que serviu como figura paterna para o pequeno órfão. Nesse ponto o interrompi para matar uma dúvida:
- Quem te deu o nome de Shini?
- ... Não tenho idéia.
- Erm... Sabe o motivo do nome pelo menos?
- Não.
Tornou-se Noviço aos 10 anos após participar de uma das excursões cujo objetivo era purificar a Caverna de Payon, constantemente infestada por zumbis e outros seres dominados pela escuridão. Foi graças ao seu desempenho que Bamph notou a vocação do garoto de cabelos prateados para o sadercócio.
Ao passar dos anos o desempenho de Shini em várias áreas chamou a atenção do Bispo Thomas que o enviou junto com um grupo com a missão de descobrir a doença secreta que afligia a mãe do Imperador de Amatsu.
- Hum, é por isso que tu conhece tanto de Amatsu? Língua estranha inclusa...
- É, como eu não sabia quanto tempo ia ficar resolvi que tinha que aprender o básico.
Apesar de ter um grupo completo a sua volta, foi Shini quem descobriu que a doença não era doença, era culpa de uma Nove Caudas que resolveu possuir o corpo da velhinha.
- O que é estranho... Geralmente Nove Caudas preferem mulheres jovens...³
Após exorcizar o demônio em questão, Shini volta para o continente. No caminho conhece Arathorn, ainda Mercador. Os dois tornam-se, a partir daí, amigos inseparáveis.
De volta à Prontera, passa pelo teste para tornar-se Sacerdote, aplicado por Thomas. Concluiu a prova com sucesso e recebeu sua batina preta. Ao analisar suas ações do passado notou sua vocação para a parte mais difícil do sacerdócio: o exorcismo.
Ao comunicar sua decisão de seguir esse caminho, é mandado para as profundezas do Inferno, Nifflheim, para investigar as ações de Hel, a Senhora do Inferno. Usando todos os artifícios que conhecia, Shini consegue extrair algumas informações da poderosa rainha, conseguindo também descobrir que foi um ser do reino infernal que matou seus pais.
O trabalho pesado em Nifflheim permitiu o rápido desenvolvimento de Shini. A agilidade e a maneira com que ele os tratava chegavam a ser assustadora, contrastando com a calma usual do Sacerdote. Com sua "morada" no lugar, porém, Shini criou alguns contatos com a raça inimiga, que conseguia superar os esforços da FADAT (a Força de Ataque Direta às Artes das Trevas).
Na época em que o clã de Arathorn declinava e Shini se encontrava sozinho ele conheceu o Lorde FC que o levou ao clã Guerreiro das Sombras. Pouco tempo depois o treinamento em Nifflheim mostrou seus frutos quando Shini chegou ao nível em que poderia renascer.
Ao completar três anos na tropa de monitoramento da Cidade dos Mortos foi substituído (ninguém podia permanecer lá por mais tempo que isso, passava a ser perigoso para a saúde mental). Com o caminho temporariamente livre (e com o uniforme de Sumo Sacerdote personalizado com a cor azul no lugar do vermelho tradicional), Shini recebeu dois convites da Catedral: tornar-se regente do Santo Coral de Prontera (onde anos atrás havia se destacado) ou assumir o posto de Capitão da FADAT. Ele rejeitou os dois e decidiu por ser um investigador. Bamph – que agia de forma estranha ultimamente – pediu que Shini fosse atrás de informações para Igreja. O posto unia o útil ao agradável, pois assim ele podia viajar pelo mundo e continuar trabalhando pela Igreja.
Livre de compromissos que o prendiam a um lugar único ele podia participar da criação do Pactum Scelleris naquela noite agitada em Veins.
- Foi nessa noite que tu e a Ju começaram a namorar, não foi?
- É, mais ou menos... – Ele riu nervoso.
- Não é difícil para Sacerdotes e Sumo Sacerdotes se casarem? – "A Leka ainda se casou com um Algoz como o Zell...", pensei, considerando a imagem que a Igreja teria de classes como Mercenários e Algozes.
- Bom... Um pouco, mas sabe, existem formas de contornar algumas regras...
- Quais?
Nesse momento nossa conversa foi interrompida pelo barulho de passos nas escadas. A primeira criatura que apareceu no andar de baixo foi Belua, que pulou os últimos degraus e pousou levemente no assoalho de madeira. Logo atrás vinha Ju, com o capuz sobre o rosto escondendo o sono que persistia. Ela parou ao lado de nossa mesa e murmurou um "bom-dia" sonolento.
- Já acordada? – Perguntou Shini, puxando a esposa para perto e dando-lhe um beijo.
- Hum... Essa aqui – apontou para Belua – passou a última meia hora tentando me tirar da cama. Acho que ela quer caçar algum Pé Grande... Aproveito e pego o café-da-manhã.
- Ca-café...? – "Pé Grande de café-da-manhã?!".
- Uhum, vão querer um pedaço?
- Não... Muito obrigada.
- Também não. Quer ajuda? – Perguntou Shini, espreguiçando-se.
- Não precisa, é coisa pequena. Depois eu volto e a gente vai dar uma volta.
Com isso dito ela virou-se dando uma piscadela. Quando eu sabia que a distância já era segura me voltei para o Sumo a minha frente e perguntei:
- Não acredito que vocês se casaram.
- Não acredito que consegui levá-la para uma Igreja!
Decidi que havia conseguido o suficiente para aquele dia e pedi um chá.
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¹: Não é tão invenção minha, o guia de cenário do fórum da LUG diz que o Samurai Encarnado em questão encarnou numa sacerdotisa, mas o sprite do bichinho mostra um homem. Pelas roupas daria pra chutar que ele seria um tipo de sacerdote, mas o pergaminho nas costas me deixou em dúvida. De qualquer forma, é um cara com o espírito de um samurai maligno of d00m no corpo.
²: Se alguém nunca notou, Amatsu é a cidade japonesa do Rag, então, para mim, os habitantes (fugidos de Payon, por sinal, que é a cidade coreana) criaram um dialeto e uma língua própria, inclusive uma escrita em ideogramas.
³: Não é viagem, me baseei nos mitos sobre kitsunes (raposas) japoneses: quando uma kitsune possuía o corpo de alguém geralmente era o de mulheres jovens. Essa era a desculpa para doenças psicológicas ou qualquer comportamento estranho. Podem pesquisar, é tri *-*
Nota da autora: e mais uma edição quando o que todo mundo quer é capítulo novo XD Mas eu tinha prometido essa em especial, pq o namoro Ju e Shini não é tão só in game. Espero que gostem, e eu JURO que o capítulo 2 VAI SAIR. Ele só demora pq eu não tenho tempo de parar com as 1500 janelas que eu preciso pra escrever tudo que precisa ~~ Mas eu juro que escrevo. Juro.
