Summary: Imagine que a memória humana é um rolo de filme, do qual nós podemos cortar alguns quadros e transformá-los em palavras... Episódio 4, K+K WAFF.
Disclaimer: Rurouni Kenshin © Nobuhiro Watsuki
Tarde de outono
O passado não me perseguia.
O futuro não me questionava.
Naquela tarde eu era só presente.
Missô, sal e shoyu pesavam no meu ombro. A brisa acariciava a copa das árvores e brincava com os longos cabelos negros de Kaoru, como se quisesse trazê-los para mim. Ela riu, e o riso dela era o som mais gostoso de se ouvir. O outono começara no início daquela semana; o sol começava a descer do céu, o qual estava espetacularmente azul.
Kaoru me chamou, fingi não ouvir; queria que ela o fizesse novamente. Se pudesse, proibiria a todos que dissessem meu nome, para só ouvi-lo na voz dela. Que minha vida fosse toda ouvi-la repetir meu nome.
- Kenshin, mou!
Já ficara calado por tempo suficiente. Ela já estava furiosa, daquele jeito adorável dela de ficar furiosa. Respondi.
- Finalmente! Eu ia te perguntar se--
Ela ficou muda de repente, as maçãs do rosto rosadas, os olhos azuis arregalados, os lábios abertos. Sei que ela percebeu. Eu havia deixado de lado o "senhorita". Não fora um escorregão da língua. Fazê-lo apurara o sabor do nome dela. Sem tratamentos formais dali em diante, decidi.
- Ah... você... eu queria ver o sol se pôr.
Aquilo significava, na linguagem dela, "eu quero que você vá comigo ver o pôr-do-sol". Quem era eu para recusar tal convite! Eu, que há tanto tempo vinha procurando o momento adequado para mudar nosso relacionamento para melhor. - Está cedo... ainda temos algumas horas até lá. É o tempo para deixar as compras em casa.
Em casa. Palavras macias e aconchegantes que ela me ensinara.
Ela sorriu e continuou a caminhar alguns passos à frente de mim, o rabo-de-cavalo ondulando de um lado para o outro, evidenciando o sorriso que devia estar ainda em seu rosto. Eu também sorri, sentindo a mais estranha das felicidades: uma febre agradável percorria meu corpo, amenizada pela brisa fresca, e meu espírito estava completamente em paz. Agora tudo estava dando certo, a vida começava a realmente valer a pena, e não havia urgência em tomar coragem ou decisões. Aquilo viria mais tarde, com o pôr-do-sol. Naquele momento, naquele pedacinho de uma tarde qualquer de outono, havia somente o afago da brisa - motivo mais do que suficiente para que eu, despido de toda preocupação, sorrisse.
Nota da Autora: Fan fiction mesmo, que é bom, quase nenhuma. Mas inspiração foi o que não faltou:
A parte da brisa acariciando as árvores vem direto da música "Tenderly", do Nat King Cole (a versão que eu tenho é com a Ella Fitzgerald e o Louis Armstrong, perfeeeita); tabém me inspirou um pouco um poema de Ricardo Reis, não lembro direito o nome - acho que é Lídia, ou Lígia, coisa assim; os pôres-do-sol majestosos que sempre aparecem em Rurouni Kenshin; a capa do doujinshi "Violently Happy I", do Shinji Yamaguchi (vale ressaltar que a série "Violently Happy", ao contrário do que o nome pode indicar, é um dos poucos doujinshi não-hentai do Yamaguchi).
Tem também a ver com um sonho que eu tive, em que o Kenshin e a Kaoru passavam a tarde juntos na maior inocência... (sim, eu tenho sonhos com mangá! Hoje mesmo acordei com um pesadelo totalmente baseado em "Cruel Fairytales" da Kaori Yuki! Eu era atacada por cabeças de boneca, era nojento! XP)
E, claro, tem a ver com a minha impotência diante de um bloqueio de escritor devastador. Tô de mãos atadas para Izou Hen. Argh.
beijos da Prudence-chan
