Avisos: Não tem avisos importantes. Vocês já sabem que não sou, e nunca vou ser dona de nada, para minha infelicidade, pois assim não posso ser rica e milionária u.u' (e para a felicidade de vocês, pois se eu fosse, estaria tudo atrasado huahuahua)
Biografia
Capítulo 03
Finalmente estava com o número em mãos, faltava apenas coragem para entrar em contato com o tal escritor que faria a sua obra. Tyson enchera tanto da sua paciência, que até desanimava. Mas, apesar de todos os avisos, ela insistiu em ser a primeira a manter contato com o outro.
Imaginava alguém inteligente, que havia viajado e conhecido diversos lugares... alguém que teria prazer em conhecer e, quem sabe, não se tornar sua amiga. Mas o empresário havia jogado um balde de água fria em suas esperanças, dizendo que o cara era mais frio que uma pedra de gelo.
Segundo Tyson, jamais aquele escritor, alguém como Kai Hiwatari, iria olhar para Hilary e tentar ser amigo dela. Ele poderia passar anos e anos trabalhando para ela, mas nunca criaria laços maiores que os profissionais.
Logicamente, isso assustou Hilary. Que tipo de pessoa era Kai?
Analisava o papel, temendo ligar e descobrir que o que haviam lhe dito era verdade. Mas ela teria de fazer isso, mais cedo ou mais tarde.
Pegou o aparelho em mãos, discando pausadamente os números, desejando não ter de encontrar ninguém em casa.
(¯·..·¯·..·¯)
As horas passavam e, por mais que digitasse naquele velho notebook, o dia lá fora ainda continuava brilhando. Culpava São Pedro pelo tempo razoavelmente bom, mas sabia que ele seguia apenas ordens superiores.
Por esses e outros motivos é que agradecia por não ter um chefe. Tinha um editor, que o cobrava por resultados. Mas ele era contratado para isso. Caso não quisesse mais, poderia demiti-lo a hora que quisesse.
Poderia, se este editor não fosse Max.
O poder de persuasão de Max, às vezes, poderia ser muito grande. Bastava surgir alguma coisa que era de seu interesse para que ele colocasse suas asas de fora e tomasse as rédeas. E apesar de já saber como lidar com Max, por diversas vezes, Kai preferia não bater de frente e causar mais estresse, e por isso acabava por se render aos pedidos de seu editor.
Hilary Tachibana era o nome escrito no pequeno briefing[1] entregue a ele. Se sua memória não estivesse falhando, e acreditava que não estava, já escutara esse nome. Devia ser mais uma dessas novas atrizes que surgem, fazem uma novela ou duas, posavam nuas para revistas masculinas e depois, quando terminavam os seus quinze minutos de fama, desapareciam da tela da TV, dando lugar a mais um rostinho bonito que iria seguir os mesmos passos.
Besteira. E das grandes.
Ainda não conseguia acreditar que Max havia visto uma grande oportunidade de ganhar dinheiro com a biografia de uma atriz, provavelmente, de quinta categoria. Claro, não era o nome dele que estaria estampado na capa dos livros que iriam encalhar nas livrarias de todo o país, mas sim o de Kai.
- Cretino! – esbravejou, enquanto esmurrava a mesa ao seu lado, onde repousava a xícara do seu café.
Bastava esperar o toque daquele maldito telefone para que pudesse sair do conforto da sua casa e conhecer o seu mais novo 'trabalho'. Havia conversado com Max no dia anterior e este lhe garantira que iria passar o seu número para a atriz, pedindo que esta entrasse em contato e marcasse uma data para se conhecerem.
Não sabia a hora em que ela ligaria, mas estava ansioso para que isso terminasse logo. Se tinha de trabalhar, queria que fosse de uma vez. Quanto mais demorasse para terminar, iria se sentir mais preso aos pedidos de Max.
Quando o telefone tocou, já nem se lembrava mais de que esperava uma ligação.
- Alô? - mas a pessoa permanecia muda. Apenas um ruído pertencente à respiração.
Kai, que agora já se lembrava de que poderia ser Hilary, não insistiu muito. Tentou ser o mais calmo possível para não assustar a moça.
- Quem é? – perguntou, esperando que dessa vez houvesse uma resposta.
Do outro lado da linha, Hilary não sabia o que fazer. A voz que havia acabado de escutar era diferente... Esperava um voz grave, mas o que escutara era algo completamente oposto. Não aparentava ser voz de alguém com facilidade para fazer amigos, mas também não era de alguém frio, como Tyson lhe garantiu.
- K-Kai? – ela arriscou a dizer.
- Exato. – foi a única coisa que ele respondeu.
- Eu... – a coragem de falar estava lhe fugindo. Ou falava de uma vez, ou sabia que não iria conseguir mais. – Eu sou Hilary, acredito que o Max já deve ter falado um pouco de mim.
- Ah, claro. Tachibana, estou certo?
- Exato! Meu empresário conversou com Max, o combinado seria de nos encontrarmos algumas vezes... eu contaria tudo sobre minha vida e você colocaria isso em palavras...
- O básico de todas as biografias.
Aquela frase foi um ponto a favor de Tyson. Kai havia dito aquelas palavras com tanta frieza, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Pensou em retrucar, mas não queria criar desavenças logo de cara. Ainda tinha muito a conhecer do escritor, e esperava que o tempo que trabalhariam juntos servisse para algo.
- Sim... - toda a conversa permaneceria daquele jeito, se não fosse por mais um acesso de coragem da parte de Hilary. – Mas... não estou ligando para saber os procedimentos de escrever um livro. Na verdade, é algo muito mais simples. Acredito que, para que possamos ter um bom relacionamento durante este trabalho, nada melhor do que nos encontrarmos e conversarmos um pouco!
Kai permaneceu em silêncio do seu lado da linha. Não era de seu agrado sair para conversar com alguém, ainda mais com uma desconhecida como ela. Poderia ser o trabalho que fosse, mas não queria aquilo.
Olhou para o lado, encontrou um porta-retrato na sua escrivaninha. Lembranças... era tudo o que aquilo representava agora.
Sem saber de onde aquela resposta havia saído, apenas disse. – Onde?
- O que acha de ser amanhã na Cossette? É uma confeitaria muito conhecida do centro. Podemos tomar um café da manhã lá, o que acha?
- Às oito está ótimo.
Hilary sentiu um arrepio enorme na espinha. Odiava acordar cedo, ainda mais para esses eventos. Já tinha se acostumado com os chamados de Tyson, quando este pedia para praticamente madrugar na porta de seu escritório. Mas... até Kai faria isso?
- Hilary? – ele perguntou, estranhando que a moça ficou muda do outro lado.
- Claro, às oito!
- Combinado, e não se atrase. Não sou alguém que gosta de esperar. – ele disse, sem que ela esperasse aquele tipo de reação.
Ela engoliu a seco, mas logo respondeu também. – Pode ficar tranqüilo, estarei lá antes mesmo de você se dar conta de que horas são.
- Assim espero. – e, sem maiores rodeios, desligou a ligação.
Hilary ainda segurou o telefone por alguns segundos, tentando entender o que realmente havia acontecido ali. A frieza com que havia sido tratada era clara, bastava apenas descer goela abaixo. Por um outro lado, aquilo lhe instigava a querer conhecer mais sobre ele. O que fazia com que uma pessoa pudesse agir assim era um verdadeiro mistério, mas Hilary pretendia ir além e descobrir mais e mais, conforme fosse aumentando o ritmo de trabalho ao lado do escritor.
(¯·..·¯·..·¯)
Se raiva matasse os mortos novamente, Hilary teria ganas de estrangular o inventor do despertador até que este morresse mais uma vez. Justamente naquele período do sono, o que mais gostava de curtir, o aparelho tocara, lembrando-a de algum compromisso que possivelmente teria naquela manhã.
Compromisso...
... manhã...
... Kai!
Levantou-se o mais rápido possível e correu para o banheiro, tomando uma ducha rápida e tratando de se aprontar para sair. Havia prometido para Kai que estaria lá cedo, mas nunca imaginaria que, em seguida, receberia um comentário daqueles.
Kai dera um ultimato. Ou chegava no horário, ou nada feito. Ela, logicamente, dissera que estaria lá na hora marcada. Mas não imaginara que seria tão difícil de cumprir o acordo e estar de pé quando necessário.
Uma última observada em frente ao espelho... péssima! Suas olheiras estavam mais profundas do que nunca, mostrando o quão óbvio era o fato de havia acabado de acordar.
Durante o caminho todo pensara quanto aquilo valia para sua vida. Um contrato... um negócio com o escritor mais reconhecido de todo o Japão. Os livros de Kai passaram a ter um significado todo especial para ela. Assim como já tinham para outras milhares de mulheres japonesas.
Mas não eram as milhares de mulheres japonesas que estariam ali. Era ela, e precisava provar que poderia ser uma ótima companheira de trabalho.
Quando deu por si, estava em frente ao local combinado. Cossette, a confeitaria mais freqüentada desde que se entendia por gente. Repleta das mais variadas receitas, o local era atraído por visitantes dos mais diversos lugares de Tóquio. E não seria diferente com Hilary e Kai. Pois, ao que sabia, o escritor também não era um morador do centro da cidade.
Entrou pela porta, notando que todas as mesas estavam lotadas. Algo dentro de si disparou um alarme de alerta: Como poderia tomar café com Kai, naquele lugar, se não havia mais nenhum lugar vago.
Sua mente trabalhava a mil, pensando em uma resposta conveniente para ela, quando escutou uma voz.
- Se pretendia conseguir um lugar para se sentar, deveria ter ao menos pensado em chegar antes. Como conhecedora deste local, deveria ao menos saber que a Cossette não é como as outras confeitarias. – Kai dizia, em alto e bom som, para todos os presentes escutarem. Inclusive Hilary.
- Me desculpe, mas não cheguei a pensar nisso quando combinamos.
Kai não respondeu. Manteve-se quieto por um bom tempo, até que por fim saiu e a única coisa que Hilary pode observar era ele conversando com uma das atendentes recepcionistas do local. Não era possível identificar o assunto, pois ambos falavam em um tom praticamente inaudível aos ouvidos humanos que estivessem a uma certa distância.
- Vamos embora? – questionou Hilary, assim que Kai estava de volta.
- Aguarde. – e essa foi a única resposta de Kai.
Por um momento, Hilary sentiu-se intimidada ao ver que ele não estava para conversas, mas a moça resolveu investigar um pouco mais sobre o que seria realizado.
- Então... como pretende fazer esta biografia?
- Exatamente como você havia dito na noite passada. Recomendo que nos encontremos algumas vezes por semana... podem ser uma ou duas... a partir dos relatos que você der, podemos montar o trabalho. Após isso, basta seguirmos os modelos e estaremos prontos para lançar.
- Biografia é uma obra que exige muito esforço, hm? – ela tentou iniciar um novo assunto.
Com uma certa estranheza no olhar, Kai esperou para responder. Preferiu pensar nas inúmeras possibilidades de motivos para a mulher falar daquela maneira. Como não havia encontrado nenhuma condizente com suas palavras, seguiu o roteiro básico para uma entrevista.
- Em uma biografia, todo o trabalho se resume a contar a história de alguém com as suas palavras. Se considera isso um trabalho difícil, então é difícil.
- Há quanto tempo você escreve?
- A 'entrevistada' aqui é você.
Hilary não continuou. Sabia que o escritor havia alcançado um nível de tolerância acima dos limites. Poucos minutos depois, a atendente se aproximou.
- A mesa 02 está disponível. Podem me acompanhar?
(¯·..·¯·..·¯)
Quando saíram do recinto, Kai passou a caminhar a passos lentos, enquanto apenas assistia a moça andando a sua frente, parecendo bem mais relaxada do que quando haviam se encontrado. Talvez, aquele encontro a deixara com uma impressão diferente do que a que possuía.
- Kai?
- Hm?
Hilary olhava para aquele triste escritor. Ficava imaginando quando ele poderia se tornar alguém normal... alguém que não rejeitaria as pessoas apenas com a sua personalidade.
- Vamos... ou vai ficar parado aí para sempre? – disse, sem diminuir o ritmo da caminhada.
- Não estou parado.
- Mas está quase!
Kai não respondeu. Preferiu continuar andando na velocidade em que estava, mantendo a distância entre ele e a moça. Ela permanecia alheia a tudo, buscando entender o que realmente se passava pela mente de Kai. Decidida a obter um pouco da sua atenção, ela parou e caminhou lentamente até ele.
Ao notar os passos de Hilary, Kai parou e recuou um passo.
Maya...
... exatamente como ela costumava fazer quando queria alguma coisa...
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~Flashback~
O telefone estava tocando novamente. Olhou no visor, era ela. Havia dado seu número, mas não esperou que ela realmente ligasse. Não era a primeira vez, mas esperava ser a última, que alguém tentava conquistá-lo. Apesar de Maya ser especial, não gostava de se sentir como um prêmio em jogo.
- Diga. – foi como atendeu.
- Bom dia para você também, Kai!
- Não vai ser hoje o dia que você vai conseguir me fazer dizer "bom dia" ao atender ao telefone. Ainda mais após levantar.
- Deixando este seu bom humor de lado, vamos ao que interessa! Aceita sair comigo?
- Maya, são cinco horas da madrugada! Que diabos pensa em fazer esta hora? Volte a dormir e pare de atrapalhar o sono alheio...
Kai apenas escutou um pequeno riso do outro lado da linha.
- São cinco horas da madrugada e este é o melhor horário para o tipo de programa que eu curto!
- Perfeito, vá e aproveite. – disse ele, sem ao menos se interessar com o que poderia ser.
Com apenas um dedo, apertou o botão de desligar do telefone. Colocou-o novamente no gancho, acreditando que, desta vez, seria possível ter um sono digno. Havia chegado tarde da faculdade e ficara até as três fazendo trabalho, merecia um descanso!
Como já era de se esperar, o telefone tocou novamente.
- Nunca mais desligue na minha cara! Vai se arrepender amargamente do dia que repetir este feito! – gritava ela, em um tom que, nem de longe, intimidou Kai.
- Maya, arranje outro idiota para atormentar!
- Nascer do sol... dentro de 15 minutos... te aguardo no ponto mais alto da cidade! – e desligou, sem dar chances para Kai retrucar. O rapaz bem que tentou chamar no celular da amiga, mas só dava caixa postal.
"Idiota... certamente desligou para não dar chance de conseguir encontra-la...", pensou, enquanto sentava na beirada da cama, decidindo sobre o que fazer dali para frente. Poderia muito bem recusar e voltar a dormir, mas a consciência lhe consumia por dentro. Abandonar alguém que estava à sua espera não era coisa do seu feitio. Se algo acontecesse com Maya, se culparia até o dia de sua morte.
Sem tirar o pijama, apenas colocou um sobretudo por cima e saiu pela cidade, em busca do ponto mais alto.
Quando finalmente se tocou de que deveria ser o morro que se localizava ao sul, subiu e encontrou a garota sentada em meio à grama. Ainda era noite, e ela parecia absorta em pensamentos. Mesmo assim, virou-se quando escutou os passos do amigo na grama.
- Sabia que viria.
- Apenas para se certificar de quão idiota você é.
- Você não consegue recusar o meu convite.
- Acredite, Maya. Eu consigo. Ainda mais porque me fez levantar da cama, quando o sol ainda nem nasceu.
- É justamente este o programa!
- Você já disse.
Maya sorriu de lado. Passou a caminhar lentamente na direção de Kai. Quanto mais se aproximava, mais sentia o nervosismo por parte do outro. Era óbvio o quanto ele gostava dela, apenas nunca teria coragem para se declarar. Na faculdade, Kai era um rapaz muito isolado. Apesar de fazer um curso que exigia descontração e interação com o grupo, parecia não se adequar à grade de Jornalismo. Restava que a iniciativa partisse dela, torcendo que esta fosse bem aceita.
- Duvido que consegue recusar este meu outro convite.
- Maya, não provoque...
- Então me beije...
Kai não respondeu. Apenas assistiu a colega de sala se aproximar ainda mais de seus lábios. Atrás dos dois, o sol nascia como era previsto por Maya. As luzes refletiam e iluminavam, mostrando que um novo dia estava por vir.
~Fim do Flashback~
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- Kai? - a voz de Hilary o tirou daquelas recordações intermináveis... afinal, até quando iriam durar? Ela ainda estava ali. Poderia fazer o que for, a memória sempre o trairia. E daquela vez não era diferente. Apesar de acreditar ter superado, flashes como aquele mostravam que estava enganado e que ainda continuava sendo assombrado e perturbado pelas próprias lembranças.
Olhou para sua frente, Hilary ainda aguardava uma resposta para algo. Talvez para seus chamados... talvez para uma outra pergunta que não havia prestado atenção. O melhor para tudo era fingir que nada havia acontecido e saírem logo dali. Queria ir para casa e descansar... era tudo o que precisava.
- Vamos... já está ficando tarde...
Hilary estranhou. Tarde? O sol nem havia chegado ao meio do céu e ele dizia ser tarde? "Tudo bem... nada mal para o primeiro contato.", pensou, ao se lembrar de todas as especulações que ouvira do empresário ao dizer que Kai era uma pessoa fria e sem sentimentos. Até poderia ser, é verdade.
Mas, para ela, Kai não passava de uma pessoa solitária.
... Continua ...
N/A: [1] Briefing: conjunto de informações necessárias para o desenvolvimento de um trabalho, sendo muito utilizadas em Administração, Relações Públicas e Publicidade. O briefing deve criar um roteiro de ações a serem tomadas para obter o resultado que o cliente procura. É como descrever um problema, e com estas pistas, ter idéias para criar soluções. ^^
