Aloha!
Mais um capítulo do Beco. Não estou querendo assustar ninguém com os títulos, eu simplesmente sou horrível neles, como em sumários.
A essas alturas, meu amigos, vocês já acham que eu sou capaz de tudo, hã? Bem, minha frase favorita no mundo das fanfics é:... Estou só esquentando.
Bom, em primeiro lugar, alguns personagens amados aparecem e desaparecem da trama, mas é muito difícil dar "voz" para todos ao mesmo tempo. É uma briga danada, já tenho capítulos quase prontos à frente, mas preciso ir dosando a entrada deles conforme a trama e novos itens simplesmente aparecem Então, paciência... Não vai sobrar pedra sobre pedra na Treze...rs. E na Sete.
Não sei se o capítulo está longo demais, eu espero que não esteja cansativo, mas acho bobagem parti-lo ao meio. Esse capítulo está um tanto sério no começo, mas é culpa de um dos personagens e parte do motivo todo desse povo amado de Tolkien estar no Beco.
Reitero os avisos quanto à classificação. Situações inusitadas, um pouco rudes ou de caráter sensual pipocam a qualquer momento. Fique alerta e não leia se não gostar de abordagens..hum...fortes? (Rated M com bons motivos!)
Agradeço meu querido grupo tolkien pelo apoio e as fantásticas reviews, aqui ou nos chats. Vocês me dão energia para continuar ousando.
&I A Sadie Sil – maravilhosa mestre que deu um vislumbre de uma nova abordagem a diversos personagens. Simplesmente, amo tudo que você escreve. O DESTINO DE MUITOS. É Perfeita, já li tantas vezes que sou capaz de lançar frases inteiras de Elrond! A intensa, avassaladora O Significado das Trevas. E uma das minhas fics favoritas: E Ainda Estamos Aqui, o baluarte da amizade, fazendo jus ao jeito que Tolkien quis dizer.
I& Nimrodel Lorellin – é um abuso receber um elogio seu, já que você arranca minha alma do corpo com suas fanfics. A lindíssima e inesquecível Era Uma Vez no Verão e a em curso Crônicas Aragornianas. (é um espanto como você escreve Aragorn como Tolkien deve ter concebido!)
&I Kwannon – Eu tenho que agradecê-la por simplesmente ser astutamente infame a maior parte do tempo! Fantástica: A Máscara Dourada.
I& Giby, a Hobbit – Menina linda, com a modéstia do tamanho de Arda.
&I Lene – Desenhos fantásticos. Essa mulher de Ilúvatar nos dedos!
I& Lady Éowyn, Dani de Rohan – Meus agradecimentos para a beta mais incompreendida do mundo! A mulher que sabe dar honra aos homens de Gondor! A lindíssima, Nos Jardins de Ithilien, a IMPECÁVEL Cento e Dez Dias, o Fio da Esperança, e claro, aquela que eu amo, mas está duro dessa mulher continuar... E Se Você Partir. Tenha fé, querida sis´, eu não vou judiar do Faramir no Beco.
I& Kiannah – Num deixou review, mas me deu a frase do ano, que provocou alívio e satisfação: Vá em Frente!!! Lágrimas na Chuva, é um delírio e seu Elrohir, simplesmente devastadora.
Hannon-le
Glossário no final / Itálico para os Valar & sindarin/ Pensamentos entre aspas.
Um Pouco Mais de Violência Desnecessária
Nas mãos do Ilusionista
(...) im so high ,i could hear heaven
eu estou nas alturas, eu posso ouvir o paraíso
im so high ,i could hear heaven
eu estou nas alturas, eu posso ouvir o paraíso
oah but heaven no heaven dont hear me (...)
Pare! Mas o paraíso, não... nenhum paraíso pode me ouvir (...)
O Ilusionista permaneceu no meio-fio por um longo tempo. A turba na fila levou algum tempo para entender a resistência do homem em oferecer algum novo tipo de entretenimento, mas enfim, como sempre, à vontade dele prevaleceu. Um novo embalo de r&s invadiu o Fantasma e os primeiros alucinados da fila se divertiram com os comentários espirituosos dos seguranças. Outro espetáculo à parte.
O jornalista debandou nas proximidades, sentindo-se confiante com o pré-acordo com o Arqueiro e a proteção do Ilusionista.
O homem achegou-se do Arqueiro lentamente. Seus olhos cinzentos investigaram a figura parada sob a luz do poste, seus lábios não se moveram, mas havia um tom de descontentamento no brilho que emanava do seu rosto, muito mais luminoso do que a parca iluminação concedida pela prefeitura.
O Ilusionista chegou bem perto do Arqueiro e conteve o impulso de colocar a mão sobre o ombro dele, um hábito dos dias antigos que era difícil não repetir. Era o tipo de gesto reconfortante que selara a amizade deles por muitos anos da Terceira Era e solidificara-se na Quarta. Foi o último gesto antes de Legolas partir para os Portos e foi o primeiro quando todos eles se reencontraram no Além-Mar.
Por isso, o próprio Arqueiro reprimiu o movimento discreto, baixou os olhos e quase se curvou, mas reteve-se na saudação e apertou os punhos dentro do colete. Ninguém entenderia tal gesto no Beco e a última coisa que o Arqueiro queria era receber uma enxovalhada de pensamentos libidinosos de uma interpretação distorcida. Coisa dos tempos modernos que ele odiava.
A amizade estava agonizando nos tempos modernos. O sexo estava em tudo, à lealdade era uma moeda de troca, a fidelidade era um rito da moda. A honra reduzira-se a uma vestimenta bonita para se olhar, mas que ninguém escolhia vesti-la fora das lojas.
A fila limitou-se a um único olhar para certificar-se que o Ilusionista não faria nada de novo aparecer. Novas figuras esguias adentraram o Beco, conversando e rindo. Dois deles afastados, no seu próximo ritmo.
A Sete estava iniciando seu turno de prazeres e horrores.
--- Mae Govannen. – proferiu o Ilusionista num sopro de voz. Sabia que somente o amigo entenderia.
O Arqueiro sorriu ao ouvir o belo sindarin. A saudação serviu como um longo banho purificador naquele mundo escuro.
--- Mae Govannen – respondeu o Arqueiro.
--- Caminhe comigo. – pediu o Ilusionista, levantando o tom de voz. Os recém-chegados ouviram a solicitação com impressão de ordem e desviaram do caminho dos dois. O que era exatamente a intenção do antigo Rei de Gondor.
O Arqueiro iniciou o passo e deixou a calçada. Os dois caminharam lado a lado, muito devagar, sob as estrelas frias que cintilavam nos dedos da noite.
--- O Minotauro falou com a Voz. – começou o Ilusionista. – Disse que foi um teste a sua boa vontade. - Ele pareceu triste com a constatação. - Eles são como terroristas assumindo a culpa por desastres com grande empáfia em seus corações. Não aprendem nada...
O Arqueiro torceu o nariz com nojo.
--- Boa vontade, o meu saco. Eu teria que ter uma boa vontade da porra para aceitar o teste. – sintetizou ignorando a expressão do amigo. – É mentira dele.
--- Eu sei, mellon-nin. – retrucou o outro, calmamente. – Isso preocupou a Voz. O Minotauro só assumia os delitos quando a Voz o interpelava. Desta vez, ele se explicou... – o Ilusionista parou e conteve o passo do Arqueiro segurando-o pelo cotovelo. – Você sabe o que isso significa.
--- Está fora do controle. Minos. – o Ilusionista maneou a cabeça em curtas afirmativas. O Arqueiro suspirou. – Sintetizando: Estou fodido.
A sobrancelha do Ilusionista executou uma curva elegante e ele maneou a cabeça para o lado, retornando o passo.
--- Eu não colocaria dessa forma, mas a sua idéia está perto da realidade.
--- Bom, você não, mas eles com certeza colocariam. – resmungou o Arqueiro. Vociferou, mal humorado. – O que você tá olhando?!
--- Nada, Arqueiro. Relaxa. – o rapaz de olhos castanhos. Tibet. Sorriu, num misto de admiração e inveja. – To sabendo que a Dama te zoou hoje.
O Ilusionista foi rápido e conteve o Arqueiro pelo braço. Sua atenção voltou para o rapaz no poste. Ele estava jogando uma goma de mascar na boca e rindo do Arqueiro. O olhar do Ilusionista perfurou sua alma, tão sério e pouco amigável que o rapaz engoliu a goma em seco. Engasgou e tossiu.
--- Comporte-se, Alacar. – a falsa quietude do rapaz não enganou ao Ilusionista. Ele deixou o braço do Arqueiro e diminui a distancia entre eles. – Você bebeu?
Os olhos castanhos de Alacar viraram nas órbitas fingindo pouco caso, mas a rebeldia durou pouco. A seriedade do Ilusionista dava nos nervos. Engoliu em seco. A bala parada no meio fio incômodo da garganta para a traquéia.
--- Não... – tossiu um pouco mais, a garganta arranhando. – N-Ã-O. – insistiu, imprimindo convicção nas sílabas separadas. – E é Tibet, não Alacar.
--- Como o pico. – ironizou o Arqueiro, repetiu o chavão. Ele não conseguia pensar num codinome mais estúpido que aquele, mas Alacar achava que vendia bem. – na verdade, Tibet é um país dominado pelo governo Chinês e o lugar sagrado que você diz levar os clientes é um monte. – deu de ombros. – Isso sim, combina com você. – os lábios vermelhos do Arqueiro se contraíram em um ricto de desprezo. – Monte de merda.
Mais uma vez, o Ilusionista interferiu. Colocou-se entre o Tibet e o Arqueiro simplesmente bloqueando o caminho. O Ilusionista maneou a cabeça e moveu o rosto para o lado, muito devagar. Seus olhos prateados cintilaram no escuro.
--- Para a verdade, basta uma única palavra. – refletiu o Ilusionista. Uma sombra de tristeza perpassou na íris do homem, mas logo foi substituída por um reflexo metálico. Contraiu o maxilar, soprando com austeridade. - Sabe o que eu acho da mentira, Alacar.
Alacar vistoriou a quadra da Treze onde se situava o seu "ponto" de trabalho. Os outros rapazes e moças já estavam posicionados, fingindo que não viam a cena, mas Alacar sabia que estavam tão sintonizados na conversa como uma dona de casa na novela das dez. Ele suspirou contrafeito e se viu preso nas janelas cinzentas do Ilusionista. Ele era o único que não usava os codinomes no Beco, somente com o Arqueiro. Nenhum deles compreendia o motivo daquilo, mas dava uma sensação de prioridade e importância. O Ilusionista nunca elevava a voz e jamais havia batido em nenhum deles. O medo que ele inspirava vinha muito da sua amizade com a alta roda, seu poder de decisão e da estranha sensação de morte que advinha quando você o desapontava. Embora fosse nítido que o Ilusionista suportava as diabruras do Arqueiro e o tratasse com respeito, não era lógico que somente ele não ouvisse o nome de batismo pela boca do Ilusionista. Porém, mais uma vez, o Ilusionista tratava a todos com respeito.
Era o típico cara que você pode tentar odiar até a morte, mas tudo que vai conseguir é desenvolver uma adoração irracional por ele.
Alacar tentou revirar o cérebro em busca de alguma resposta para o Ilusionista que o convencesse que falava a verdade. Nada surgiu. Ele era um rapaz bonito e inteligente, estava no último ano da faculdade e pretendia dar adeus ao Beco para sempre ao se formar. Porém, na frente do Ilusionista, seu cérebro virava geléia.
Uma figura nova despontou da Sete para a Treze. Alacar jurava que o rapaz estava correndo antes de recuperar a compostura. Ele o reconheceu. Já tinha visto aquela figura antes pelo Beco.
O Ilusionista estava esperando uma resposta. A certa. Ele tinha a paciência de um monge para extrair verdades. Sem mover um músculo.
A geléia se transformou em pólvora ao fitar o sorriso irônico do Arqueiro, atrás do Ilusionista. O loiro bateu a palma da mão esquerda sobre a direita com o punho fechado, com a mensagem clara e implícita, francamente universal.
--- Pare com isso, Arqueiro. – sibilou o Ilusionista, sem se voltar.
"Quem se fodeu agora?" Pensou o Tibet, a sombra de sorriso logo esmoreceu com a resposta do Arqueiro
--- Você, com certeza. – falou o Arqueiro, com aquele sorriso odioso que só o tornava mais bonito.
--- Como você faz isso?! – indignou-se Tibet, fitando o Ilusionista com furiosa incompreensão. – Eu só pensei, porra! Pensei!!!
--- Pensa baixo, Tibet, o Relevo. – o Arqueiro estendeu a palma e antecipou-se, com um suspiro de enfado. – Tá, eu sei, você é inteligente. Está na faculdade, etc. etc..blá blá blá. – a cabeça do Arqueiro caiu para frente de súbito. Um segundo depois, ele alinhou a coluna, ergueu o rosto e abriu um grande bocejo. – Desculpe, peguei no sono.
--- Você pensa que é grande coisa, né seu loiro metido a besta?!! – o sangue de Tibet subiu à cabeça. Ele tinha feito de tudo para tirar o Arqueiro da Treze e encomendara uma boa "festa" surpresa na Sete, onde o encapuzado seria o recheio do bolo. Péssima idéia. O Arqueiro não só descobrira a armadilha como mandara todo mundo para o hospital.
Tibet ganhara uma dívida fenomenal com aquilo. Os amigos e ele amargaram duas semanas no hospital da Sete, perderam os clientes para outros e sobrara o gasto com a parafernália que haviam comprado para a diversão, além do cubículo sem número na Sete. O que se transformaria em dias de puro entretenimento e quem sabe, uns vídeos para colocar no You Tube e ganhar grana a mais se transformou rapidamente em ondas contínuas de agonia. O próprio Minotauro apareceu para investigar o ocorrido, o que só aumentou o castigo deles.
A mensagem soou clara no Beco ganhando os recônditos sórdidos da Sete. Não mexa com o novato.
A rixa entre eles só não era maior do que o ódio de Tibet pelo outro garoto de programa.
--- Porra, eu não penso, Tibet, o Cume, eu sou.
-- Já chega. – cortou o Ilusionista. O humor do Arqueiro estava degringolando rapidamente naquela noite. E embora fosse uma criatura rebelde naqueles tempos, Legolas acatou sua bronca e se calou.
O Jornalista se aproximou muito lentamente da cena. Sentia os olhares de curiosidade dos outros. Seu instinto o instigava a continuar para frente, o mais perto possível do trio. Sua mente dizia para esperar o convite, porém, a voz da intuição pressionava seus passos adiante.
--- Eu sou um homem ocupado, Alacar. – proferiu o Ilusionista, muito sério. – Não me faça perder mais tempo... – com deliberada calma, o homem enfiou a mão por dentro da jaqueta, puxou um objeto fosco e redondo do bolso. A luz do poste deitou iluminação na pequena moeda. – Terei que cobrar.
Os olhos castanhos de Alacar se arredondaram de medo. A sim, a moeda. Não era só a admiração e os contatos do Ilusionista que o fazia temido. Tinha aquele pequeno objeto de prata que fazia tremer as almas do Beco.
--- Qual sua escolha, Tibet? – falou o Ilusionista, baixando os olhos para a moeda. O vento soprou contra seus cabelos e uma espécie de linha paralela de tempo escoou lentamente entre eles, enredando-os em sua trama. O silêncio cobriu o Beco e os seus integrantes desistiram de fingir desinteresse. – Quanto tempo você está me fazendo perder?
--- Eu... – gaguejou, a bala enroscada na garganta atrapalhando o ar.
--- Cinco minutos. – informou o Arqueiro, satisfeito. Fingiu consultar o relógio. – Ah, não, errei. Foi mal. – com um olhar venenoso, completou. - Dez
O Ilusionista encarou o garoto de programa estudante universitário. Seu rosto tinha uma mistura de compaixão e autoridade. Ele segurou a moeda entre o indicador e o polegar, levantou o objeto brilhante à frente do rosto do rapaz.
Os olhos castanhos de Tibet se tornaram duas poças negras com um mero halo ao redor. Ele ofegou de medo. Em especial, medo do desconhecido. Ele sabia, não havia como escapar do preço cobrado pelo Ilusionista.
--- Você ainda tem algum tempo e escolha. – sentenciou o Ilusionista. A presença dele se elevou a uma energia magnética.
O Jornalista e Tibet piscaram juntos, atordoados com a súbita imagem que explodiu em frente aos seus olhos. O Ilusionista pareceu se tornar mais alto e severo, com uma grande sombra atrás de si e uma luz em sua fronte.
"O que é isso? Uma estrela?" pensou o Jornalista, tremendo. Era a tal moeda. Aquela que teria que pagar. Ele engoliu em seco, junto com o rapaz.
O Arqueiro cerrou o maxilar e virou o rosto com a enxurrada de imagens que saltaram do Tibet para a sua. Ofegou e quase caiu de joelhos.
--- Porra, isso é hora? – resfolegou, estranhando a súbita presença do jornalista. Reconhecera-o pelo cheiro de ambiente fechado, colônia de barbear e vodca recém ingerida. Misturava-se ao medo de Tibet em uma cacofonia de aromas.
--- Segure-o. – Avisou o Ilusionista, os olhos cravados no rosto do Tibet. – Ele vai cair.
Sem precisar perguntar, o Jornalista correu para o lado do Arqueiro. Simplesmente sabia que o Ilusionista estava falando com ele.
"Por que não o chamara de Jornalista?"
--- Você acha que ele é tapado para te chamar assim? – proferiu o Arqueiro, evitando que o Jornalista o tocasse. Ignorou o ar espantado do rapaz e voltou a se concentrar em uma forma de bloquear a avalanche de imagens.--- AH... Não faça isso.. – a face do Arqueiro se contorceu de nojo. – Eu não podia estar em outro lugar agora?
--- Pare de esconder a verdade, o tempo está passando. – tornou o Ilusionista. – Eu vou lhe conceder mais um minuto. – autoridade inquestionável do homem tragou a atenção da noite a sua volta. – Você tem uma oportunidade em escolher a maneira como vai me pagar, Alacar.
--- Eu não bebi!!! – gritou o rapaz, os olhos esgazeados, alternando loucamente entre a moeda, o rosto do guardião e a figura encapuzada, arqueada com espasmos de dor. – Arqueiro, por favor!
--- Ótimo – rosnou o Arqueiro. – Agora você apela para mim, né? – cerrou os olhos no esforço em construir outro bloqueio. – Puta que o pariu, você só perde em santidade para os membros da Klu Klux Khan.. – tornou a resfolegar. – Ai, minha cabeça, porra! Caralho, pára com isso! – apertou as têmporas com as mãos, pressionando com força. Pipocavam cenas sobre cenas recheadas com cenas. – Ah, tenha dó! Alguém desliga o satélite, minha cabeça vai sair do ar!
O Ilusionista não hesitou. Agora as almas do Beco estavam ao redor deles. Ele sabia o que tinha que fazer e não poderia deixar inacabado.
Sinto muito, mellon-nin
---Ordem da Voz, Alacar. – falou, tão baixo que o rapaz precisou se encurvar, o que não era difícil. – A verdade. Última chance.
O Jornalista estava hipnotizado pelo ínfimo objeto, agora na palma da mão do Ilusionista. O relevo era de prata... azul. Movia-se. Ele quis se aproximar, mas o Arqueiro caiu de joelhos ao seu lado e a voz do Ilusionista se fez ouvir.
--- Eu disse: Segure-o.
--- Desculpe...- o Jornalista se abaixou e segurou o Arqueiro pelos ombros. A pele dele estava fria como gelo.
--- Tira as mãos de mim! Porra, que adianta você me segurar depois que eu já fui ao chão? – falou, trincando os dentes.
--- Você está gelado feito um cadáver.
O Arqueiro fechou os olhos. Estava começando a ficar difícil dividir os dois universos mentais. Aquela vida curta e desregrada de crimes se misturando as suas memórias.
--- Aw, nestagi! Parece que eu estou morrendo. – falou o Arqueiro, os olhos cerrados. - O Chefe não me facilita mesmo!
--- Do que ele está falando? – pensou O Jornalista.
O Ilusionista estava concentrado na tortuosa tarefa que vinha adiando há meses. Só Ilúvatar sabia o quanto ele havia tentado, todos seus esforços escorrendo pelos bueiros do Beco.
A moeda capturou a parca iluminação. O desenho em alto relevo coroou-se de um brilho sobrenatural, azul escuro do mar contra o azul celestial do dia. Os olhos do Tibet ficaram gravados ali, ofegando por ar, engasgado com a goma de mascar na garganta e com os pensamentos que eram arrancados da sua cabeça, suas terríveis memórias. O Arqueiro estava certo. Ele era um santo no Beco perto do que fizera no passado.
Quase caiu de joelhos em frente ao Ilusionista, mas o homem não o permitiu. Segurou-o pela gola, exigindo que ele fosse um pouco mais que um animal naquela hora.
--- Encare sua Verdade como um homem. – replicou o Ilusionista com autoridade. – Diga-me a Verdade, Alacar...
O Tibet engasgou e tossiu. Viu o grupo de colegas reunidos ao redor. Alguns clientes se tentaram se aproximar, mas logo os Seguranças do Fantasma bloquearam a quadra. Os corpos do Fantasma saíram pela Boca e levantaram os punhos, a maioria já chapada e enlouquecida com as atrações de dentro, eles estavam loucos por mais um espetáculo lá fora. Todos atrás do cordão vivo dos Seguranças.
O Ilusionista percebeu a realidade que se desdobrava as suas costas com tanto desprazer que a tarefa com o garoto de programa lhe provocava. Era nessas horas que ele queria realmente ser capaz de desaparecer, mas como sempre o fizera, não falharia. Não daria as costas a uma tarefa.
Na mente do Jornalista, algumas luzes se ascenderam. Ele captava partes de uma realidade alternativa atrás de todo o espetáculo. Apesar das palavras rudes do Arqueiro, ele não o afastou e o Jornalista sentia os espasmos que contraíam os músculos do braço do garoto, e ouvia uma série de palavras inteligíveis, como se ele estivesse conversando com alguém invisível. Era um belo som, rico e iluminado, mas o teor das palavras causava contorções no seu estômago.
O Tibet queria muito dizer a Verdade, mas não podia. Não no Beco, não com centenas de espectadores. Ele atingira a glória dos seus anos de pecado na Sete e depois, também na Treze, quase esquecera do que as memórias escondiam atrás dos inúmeros programas. A escola era uma fachada, um sonho de redenção que ele queria alcançar e fugir ao mesmo tempo.
--- A verdade... – ele engasgou e encarou os furiosos olhos metálicos a sua frente. – É a que não quero. Não quero, Ilusionista.
A moeda girou na palma da mão do homem. Ele estava infinitamente triste e decepcionado. Tibet quase recuou na sua decisão.
--- Por que ela o incomoda tanto? – murmurou o Ilusionista para si próprio, sem esperar resposta. Surdo aos gritos da turba e os insultos dos clientes que tinham seus prazeres bloqueados pelo espetáculo.
Alacar hesitou e finalmente, concentrou-se somente no Ilusionista.
--- Porque eu odeio tudo que fui, o que sou e que vou ser. – respondeu, parte da verdade dançando na sua boca. Seus olhos castanhos escureceram decididos. – E a máscara do que criei é a única coisa que me mantém vivo. Vai tirar isso de mim, senhor?
O Arqueiro se contraiu inteiro com aquilo. Ninguém parecia mais insatisfeito do que ele com a cena. Ele tinha uma vida inteira horrível se debatendo na sua cabeça, sentindo o peso das palavras de Alacar, que ele nunca apreciara ou pudera sentir o mínimo de compaixão. É difícil ser empático quando alguém quer desesperadamente a sua ruína, até mesmo para um elfo. Mas naquele instante, a sua natureza estava traindo-o com aquela carícia em seu rosto, trazida pelo vento.
Não acha que é sofrimento demais para o edan, meu querido Greenleaf?
O Arqueiro cerrou os olhos e os punhos. Nienna. Com a Valië não tinha conversa. Ela cozinha seu coração com frutas e transforma suas emoções em pétalas.
"Sim, é, minha senhora".
A sinceridade nas palavras de Alacar empurrou os dedos do Ilusionista, a moeda rolou na sua palma para entre os dedos e ficou parada ali, equilibrada entre o indicador e o médio, ansiosa por executar o seu papel.
Someone told me love would all save us
Alguém me disse que o Amor irá nos salvar
But how can that be look what love gave us
mas como isso pode ser, veja o que o amor nos ofertou
A world full of killing and blood spilling
um mundo repleto de assassinatos e derramamento de sangue
That world never came
esse mundo nunca existiu
--- Vou. – sentenciou o Ilusionista, em resposta. O silêncio cobriu o Beco, até a noite em sua dança enfurecida parou de sacudir o bracelete de brilhantes e resolveu espiar a cena. Ele se curvou um pouco e largou a gola da camisa do rapaz, sabendo que ele ia se sustentar nas pernas. Baixou o tom de voz, a maneira que somente o Arqueiro e o rapaz pudesse ouvi-lo. – Mas vou dar-lhe algo em troca...
--- Deixe-me ficar como estou!! – guinchou Alacar, sem saber o que estava pedindo, perdendo ou querendo.
Now that the world isn't ending
Agora, o mundo não está acabando
It's love that I'm sending to you
É amor que estou enviando para você
It isn't the love of a hero
E não é o amor de um herói
And that's why I fear it won't do
E por isso eu temo que não será suficiente
As mudanças sempre foram horríveis para ele.
O vento soprou nos cabelos do Ilusionista e ele fitou o céu, seus lábios mal se moveram enquanto ele cantava baixinho. A canção parecia um pedido.
--- A resposta é sim... – falou O Arqueiro, reduzido a uma figura embolada no chão. Ele xingou um bocado e respirou ruidosamente. – Termina com isso, mellon-nin.
O Jornalista tentou repetir a palavra composta que parecia traduzir um novo mundo. Não sabia o significado, mas ansiou por ouvi-las dirigidas a sua pessoa, sem saber o porquê. Sua tentativa provocou um riso fraco e irônico do Arqueiro.
O sindarin não era um idioma para se aprender em um minuto. Era engraçado pra cacete ouvir o sindarin proferido daquela forma, mesmo encolhido no chão, com a cabeça explodindo. Por Elbereth, ele poderia até agradecer ao Jornalista pela distração!
--- Escolha sua face – inquiriu o Ilusionista e ergueu a moeda à frente do garoto de programa.
A sensação de plenitude envolveu Alacar. Ele sabia que não tinha mais jeito. Já vivera aquilo inúmeras vezes no Beco, quando sua perspicácia e inteligente eram insuficientes para evitar um final de noite dantesco. E resistira.
Ele fitou a moeda prata, com seus riscos móveis e azuis. Era algo tão bonito. Não podia ser tão ruim...
--- Cara?
O Arqueiro riu mais uma vez e contraiu os músculos da face com as novas imagens. Ele ia precisar de um bom banho quando terminasse tudo aquilo.
--- Não, criança. – sibilou o Ilusionista, muito sério. Girou a moeda de um lado e depois o outro, oferecendo as escolhas cuidadosamente – Verdade ou Mentira?
Os grandes olhos castanhos se encheram de dúvidas, mas se debateram na segurança cinzenta do antigo Rei de Gondor.
Ele hesitou e resfolegou. Titubeou e arriscou as palavras.
--- Vai doer? – perguntou, por fim.
O Ilusionista se aproximou um pouco mais e soprou a resposta, bem baixinho. Um profundo alívio percorreu o corpo do Arqueiro com os pensamentos novos de Tibet. Só os pensamentos de uma criança abandonada, encolhida num canto, cheia de receios. Agora havia um novo elemento nos seus pensamentos, a imagem de um homem alto e elegante, com uma moeda de prata na sua mão, a outra estendida para o menino.
Ao seu lado, o Jornalista não perdia nenhum detalhe, o interesse naquilo tudo era muito particular para ele. Em especial, aquela resposta. A única coisa que não ouviu.
A decisão singular emprestou uma certa nobreza na face harmônica do Tibet.
--- Verdade. – escolheu.
A turba silenciou massacrada em expectativa. Os Seguranças exerciam um magnetismo inusitado e todos permaneceram, arfantes e tensos na linha formada por três homens tranqüilos, com rostos inocentes de crianças.
A moeda cintilou e reluziu, o Ilusionista sorriu para o Tibet, finalmente. Quem o conhecia, como o Arqueiro, sabia o que aquilo significava. Orgulho. Elessar conquistara inúmeros aliados com aquele sorriso que você faria de tudo para manter no rosto dele.
And they say
E eles dizem
That a hero could save us
Que um herói poderá nos salvar
I'm not gonna stand here and wait
Eu não vou ficar aqui esperando
I'll hold on to the wings of the eagles
Eu me agarrarei nas asas das águias
Watch as we all fly away
Observe enquanto nós voamos para longe
O Ilusionista jogou a moeda para cima. Ela rodopiou no alto inúmeras vezes com seu brilho prata-azul-dourado, ofuscando qualquer outra luz feérica do Beco. Não houve um único olhar que não a seguisse, todas as cabeças para cima e então, lentamente, para baixo. As bocas abertas em expectativa, os olhos arregalados, pregados naquele ínfimo objeto que girava com a força do destino, embora nenhum deles soubesse qual seria ele, e como aquela combinação de prata e azul pudesse ter tamanho poder.
Alacar esqueceu de respirar, seus olhos pregados na moeda que foi alojar-se nas mãos do Ilusionista. Ressurgiu plena em sua palma quando ele abriu a mão. Todos se inclinaram, as bocas contendo o suspiro do desfecho, os amigos do Beco se correndo de medo e expectativa.
Conheciam a moeda faer, mas ela era como a Morte: Ninguém voltava para contar o que acontecia depois do Ilusionista cobrar o seu tempo.
O Ilusionista fitou a superfície. Verdade. Ele abriu um amplo sorriso e estendeu a moeda para Alacar.
--- Você ganhou. – sibilou, satisfeito. O rapaz estendeu a mão, os dedos tocaram na moeda fria. E se retesaram com a frase final – Vá em paz.
Silêncio absoluto.
Alacar tocara na moeda, ela escorregara para sua mão. E então, a Faer caiu na escuridão. Uma moeda preciosa cintilando azul cristalina e radiante, perdida entre os paralelepípedos do beco sujo.
O Jornalista ofegou e gritou. Milhares de gritos explodiram no Beco.
Tibet, o mais odioso dos garotos de programa do Beco e como dizia sua fama, o mais hábil no seu ministério apanhara a moeda vencedora.
E desaparecera.
Num piscar de olhos, ele sumiu. Sem efeitos especiais ou som ameaçador. Sem Adeus ou Preparação. Desapareceu tragado pelo vazio do Beco, reduziu-se a memória das noites agitadas. Seu corpo perdeu a luminosidade e dissolveu-se no vazio.
Sob o olhar do Ilusionista e centenas de testemunhas. Mudas. O Jornalista sabia que jamais haveria uma palavra sobre aquilo. Seria sempre o silêncio cúmplice e aterrorizado do desconhecido, das possibilidades.
O Arqueiro se levantou. Mais uma vez, incólume, como se nada houvesse acontecido. A turba se agitou atrás da linha dos Seguranças. Os outros garotos e garotas de programa estavam chocados. Uma delas chorava e nenhum deles teve a coragem para se aproximara.
Todos os olhares convergiam para a moeda que brilhava solitária no chão.
and there watching us there watching us as the hope flys away
e eles estão zelando por nós, zelando por nós, enquanto a esperança ganha as alturas
and there watching us there watching us as we all fly away
e eles estão zelando por nós, zelando por nós, enquanto todos eles ganham as alturas
O Ilusionista se abaixou lentamente, e todas as mentes estavam focalizadas nele. Algumas atordoadas pelo choque e medo, outras pela mistura de bebidas e prazeres do Fantasma, e outras pelo receio do futuro.
O Jornalista viu uma mão estendida e só então, percebeu que continuava no chão, tremendo e suando, com aquela constatação que se tem só uma vez na vida. Ele ia morrer. Nenhum dos seus contatos poderia salvá-lo de pagar a tal moeda ao Ilusionista. Naquele instante, ao contrário dos outros espectadores que começavam a ganhar vozes e gritos, o Jornalista gostaria de estar muito longe dali. Desejou jamais ter entrado no Beco.
Porém, o Jornalista aceitou a mão que oferecia apoio para se levantar. A temperatura retornara ao corpo do Arqueiro e o calor que emanava dele emprestou um pouco de forças para o Jornalista se levantar. Ele pousou aqueles olhos inescrutáveis sob a proteção dos óculos escuros sobre o Jornalista e maneou a cabeça diante do agradecimento murmurado.
A gritaria atingiu o pícaro do insuportável. Novas notas e moedas, gritos de exaltação ao Ilusionista encheram o Beco. Ninguém sabia o que tinha acontecido ali.
Ele era ou não era o maior Ilusionista que existira? Diziam as vozes loucas de júbilo, felicidade em estarem no Beco e assistirem tantos espetáculos variados.
O Ilusionista apanhou a moeda. Instinto puro: todos recuaram. Agora o Jornalista sabia porque o Ilusionista não precisava de Seguranças ou abrir seu caminho a força para transitar pelo Beco ou dentro do Fantasma.
Verdade ou ilusão, ninguém queria pagar a aposta.
--- Exceto você. – falou o Arqueiro, mais uma vez, arrancando o pensamento da mente alheia, com infinito desgosto. – Eu disse que custaria caro. – ele deu um tapinha consolador no ombro do Jornalista quase derrubando o rapaz. – Essa vai ser a foda mais cara da sua vida, brou´.
O Ilusionista guardou a moeda e lançou um olhar de aviso para o Arqueiro. Eles se entenderam sem palavras e o homem retornou o caminho por onde havia passado. Suportando com elegância os gritos e o peso de centenas de olhares, desejos e convites com uma dignidade que era outro espetáculo de se assistir.
O Arqueiro virou-se para o Jornalista.
--- Veja isso. – o Arqueiro guardou as mãos dentro dos bolsos do colete. Seu sorriso sardônico brincando nos lábios. – É minha parte favorita..
O Jornalista moveu o rosto para frente.
O Ilusionista alcançou o cordão humano dos Seguranças. Os três se entreolharam e manearam a cabeça para o homem, em um sinal que parecia de encorajamento ou algo do gênero. A Turba gritava e atirava dinheiro.
O Ilusionista fitou as notas amassadas e o brilho das moedas no chão. Outras cédulas revoavam o ar como aviõezinhos de papel na sua direção. Para o prazer da multidão, até mesmo ouro foi voar para a figura elegante do homem. Ele apanhou a moeda no ar com um movimento ágil e seguro, passou o olhar na fila que se comprimia, os motoristas que esperavam ao lado do carro e então, o Ilusionista proferiu, uma única vez, as três palavras mágicas que poucos podiam proferir e ter obediência lá no Beco.
--- Calem-se. – era quase um murmúrio.
Choque. Medo. Respeito. Ardor. Compulsão. Desejo. Submissão.
Um segundo para varrer a emoção de todos eles.
Silêncio absoluto. Instantâneo.
--- Guarde seu dinheiro. - O Ilusionista girou a moeda na mão e levantou o pulso. Com um golpe rápido e certeiro, ele atirou a moeda na face de quem havia atirado. Como ele sabia, ninguém poderia dizer, mas o dono não disse nada e ninguém ali foi homem ou mulher suficiente para rir.
Exceto o Arqueiro.
--- Recolham isto. – ordenou o Ilusionista, a voz ribombando com autoridade. Ele ajeitou o casaco de couro. A musica country soou, ele apanhou o telefone e com um simples gesto, dispensou todos ali.
O espetáculo estava oficialmente encerrado.
As gargalhadas do Arqueiro quebraram o silencio como uma trovoada de sinos na tempestade. Era um som inesgotável e empolgante. Empurrou a turba para seus destinos, dissolvendo o as implicações do espetáculo. Até mesmo o Ilusionista sorriu. Ondas magnéticas de calor, chuva de verão e memórias da doçura ácida do mirtilo.
Com o riso do Arqueiro, o tempo voltou ao seu compasso e as almas do Beco, aos seus interesses.
O barulho de ignição dos carros foi engolido pela música do Fantasma. E ninguém ousou sequer encostar acidentalmente no Ilusionista quando ele desapareceu pela Boca do Fantasma.
O Arqueiro levou a mão ao abdômen, contendo o riso aos poucos.
--- Essa foi de foder, certo? – ele parou e emitiu mais um eco cristalino. Fitou o rapaz, ainda muito abalado ao seu lado. – Garoto, está pronto para receber sua parte no acordo? – apertou o ombro do Jornalista, com um sorrisinho irônico. – Oh, não me diga que vai dar pra trás agora?
O Jornalista tirou a mão do Arqueiro do seu ombro e fitou-o com toda dignidade que pôde reunir.
--- Eu não dou para trás, Arqueiro. – frisou e respirou fundo, empurrando as palavras para fora da boca. – Por onde começamos?
O Arqueiro recolheu o sorriso. A maneira como contraiu o maxilar parecia indicar uma expressão de seriedade e exame. O Jornalista se viu fitando o próprio reflexo nas lentes escuras.
--- Pela Sete, com uma rápida parada no Goa Yeins.
--- O que vamos fazer no Goa Yeins? – o Jornalista evitou a saída rápida do Arqueiro, colocando-a a frente dele. – Espere, vamos fazer um acordo, você e eu, primeiro.
O Arqueiro cruzou os braços à frente do corpo.
--- Ah, ok. – pensou, descruzou os braços. - Bem, a resposta é Não.
--- Espere, eu nem...- o Jornalista se irritou. – Sabe, essa sua mania é realmente irritante, para não dizer desrespeitosa, aviltante e violenta! – enumerou convicto. Mas parou, aquele riso de novo. Sinos de vento. – O que foi agora?
--- Você tem razão. – concordou o Arqueiro, rindo mais ainda quando a boca do Jornalista despencou do queixo. – Acaba de ganhar o indulto.
--- Eu o quê?
--- Acho seu acordo viável. – explicou o Arqueiro, ainda incoerente para o Jornalista. – Nada de captar seus pensamentos. – com um baixo assovio, o Arqueiro encerrou a discussão. – Um prêmio para mim, de qualquer forma. E então, num está com fome baixinho? – parou, ao ver que o Jornalista continuava imóvel. Estalou os dedos. – Você realmente não tem a mínima idéia do que é timing, certo? É aquela hora que você se move ou fala, o tempo perfeito a ser preenchido com um ato seu... Algum sino tocou aí dentro?
--- Você não vai ouvir minha mente?
--- Hum... nah.
O Jornalista apertou os olhos e caprichou na frase mais cabeluda e ultrajante que pode pensar. O Arqueiro torceu o nariz e deu de ombros.
--- Você mentiu!!! – acusou o Jornalista, pôs em movimento, zangado. – O que eu esperava de um do garoto de programa?
--- Eu não sou um garoto de programa, meu chapa. – retrucou o Arqueiro. – Não sei o que pensou, mas depois de um longo tempo adivinhando qualquer merda de pensamento, a gente meio que pega o embalo da coisa. – ajuntou, com um sorrisinho. – Você não é exatamente uma mente brilhante em esconder emoções, sabia? Aliás, eu sei o que quer perguntar. De verdade.
O Jornalista recuou para a calçada ao lado do Arqueiro. Ele sempre se julgou tão impenetrável.
--- Ta aí uma boa qualidade no Beco. - o Arqueiro riu baixinho.
O Jornalista grunhiu em resposta e ocultou o sorriso.
--- Você mentiu!!! – acusou, ainda bravo com a criatura.
--- Eu bem que tentei. – defendeu-se o Arqueiro. – Seria melhor para você, mais confortável. Porém, os humanos são bem estranhos. – refletiu, sem esperar resposta. – Não querem o que pedem, desejam o que não podem ter, rejeitam o que já conquistaram.
O jornalista apanhou uma caderneta de couro do bolso e arrancou a tampa com os lábios. O objeto ficou preso entre os dentes e ele rabiscou as palavras em um código cifrado. O Arqueiro estudou a página, entendeu tudo, mas resolveu não implicar mais com o garoto.
--- Pretende escrever tudo que eu disser?
--- Não... – o jornalista guardou a caderneta. – Só o que preciso citar.
--- Então, a fonte estará errada. – revelou o Arqueiro, os dois alcançaram o final da última quadra. O barulho ameaçador da Sete dando as boas vindas. – Essa frase não é minha.
--- De quem é?
--- Se continuar com a sua má sorte, você irá conhecê-lo. – disse o Arqueiro.
O jornalista ficou em silêncio. Entraram na Sete a tempo de ver a porta dos fundos se abrindo e dois seguranças, nem de longe simpáticos como Pip impulsionarem um corpo de um lado para o outro, braços e pernas como uma gangorra e jogarem descuidadamente o que era humano para dentro da caçamba de lixo. Lembrou-se do Ilusionista e da moeda.
Aquilo ou desaparecer... Era melhor desaparecer.
I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&I&&I&I&I&I
"Quando na Sete, faça como o Goa"
O jornalista recuperou a voz. Já tinha visto aquilo na Sete. Era a epítome do ditado "Antes ele do que eu".
--- Arqueiro? – chamou o Jornalista, sabendo que o outro conhecia sua dúvida antes de proferir. – Além de não ler a minha mente, o que você vai fazer... – implicou, torcendo o nariz, emendando a pergunta. – O que ele...bem, você sabe.
--- Ele disse: Eu jamais machucaria ninguém de propósito. – revelou o Arqueiro. – E pode acreditar no Ilusionista.
--- Bom saber.. – murmurou o Ilusionista. - Que não vai doer. Estranha moeda. – arriscou um olhar para o perfil de mármore, encapuzado. – Que moeda é aquela? A Tal faer? E o que significa faer?
--- Ela não se chama faer. – corrigiu o Arqueiro. – E não vou explicar, estou com fome e se você borrar as calças de medo vai estragar meu apetite. – provocou, aumentando o passo. Replicou, porém, suavemente - É cedo para dizer seu nome ou explicar qualquer coisa. A madrugada apenas começou.
--- Eu gostaria de saber.
--- Ah, tá. Claro. – murmurou o Arqueiro.
--- É importante, eu acho. – insistiu o Jornalista.
O Arqueiro deu de ombros e cruzou a ruela com o Jornalista nos seus calcanhares. Alguns corpos desafiavam as leis da física em becos escuros e o Arqueiro acenou para uma menina bonita que estava encarrapitada em uma banqueta alta de madeira. O comércio de uma única porta era basicamente a única iluminação da entrada da Sete. Diversos casais comiam ali perto, sentados na calçada, rindo e falando obscenidades. O homem atrás do balcão sem dúvida ganhava de todos eles, rindo a valer e dando grandes socos na superfície de madeira. Um pouco mais, pensou o Jornalista, e ele derrubaria o próprio bar.
Enquanto o Goa estava aberto, a Sete era um lugar remotamente agradável. A risada do barman e cozinheiro enchia a ruela, às vezes ele embalava algumas canções com os seguranças do Fantasma, que escapavam rapidinho para comer alguma coisa e por breves instantes, os freqüentadores esqueciam seus problemas e desejos. Somente os clientes mais enfadonhos e perturbados tentavam evitar aquele clima de descontração, mas o Goa dava um jeito em um instante.
O Jornalista ouvira falar algo sobre um machado. Um enorme machado e como o Goa adorava assustar os engraçadinhos, com a mesma habilidade de escalpelava os assassinos e traficantes dali. Contava-se que o Goa podia girar o machado acima da cabeça e lançar a arma afiada em oitocentos quilômetros por hora, sem contundir os músculos e sem errar o alvo. Ele apanha o machado, voltava para o Goa Yeins e servia suas famosas bebidas para todo mundo, não falava mais sobre o assunto. Era até cortês com os amigos da vítima, mesmo um bando indignado. Invariavelmente, eles viravam seus amigos.
Estava sempre defendendo as garotas e os garotos da Sete. Era adorado. Sempre que alguém precisava se vingar e não pretendia passar o resto da vida fugindo da Sete, recebia logo o conselho: Faça como o Goa.
--- Aye, finalmente você moveu seu rabo loiro até aqui! – gritou o homem com sua voz possante e outro soco na madeira.
--- Goa! – gritou o Arqueiro em resposta. Empurrou o rapaz que comia a menina com os olhos enquanto devorava o sanduíche. – Saí fora, otário, você não paga nem uma visão dos peitos quanto mais o resto.
O rapaz nem xingou quando caiu no chão em uma aterrissagem de bunda, digna de um piloto de Boeing. Tratou de engolir o resto do lanche entalado na garganta e disparou para o outro lado da rua. Sua conversinha mole foi achar outros ouvidos, um pouco mais em conta.
--- Você sempre espanta meus clientes! – indignou-se a menina.
--- Eu sei o que é melhor para você, flor. – replicou o Arqueiro. – Você deveria me ouvir mais vezes...
--- Eu queria tanto ir para a Treze. – ela falou, dengosa, estudando o Jornalista com uma avaliação rápida e bastante técnica. As roupas dele eram impecáveis, o relógio, uma imitação, mas cara. O físico delgado e forte, o rosto atraente, olhos expressivos. Ela fez um calculo rápido e se recostou nele, curtindo o embaraço do Jornalista.
O Arqueiro elevou uma das sobrancelhas e estalou os dentes em reprovação.
--- Por mim, você saia da Sete, tontinha. – chiou, ternamente. Ela sorriu e se derreteu. O Arqueiro piscou e voltou o rosto para Goa. --- Eu trouxe um... – O Arqueiro ficou indeciso e então, deu de ombros. – Amigo. Senta aqui. Você alcança, certo?
O Jornalista sentiu o rosto corar, em grande parte, por causa da menina. Ela era algo lindo de se ver e estava rindo dele. Reuniu a compostura e sentou no banco vazio, entre o Arqueiro e a menina. Não dava a mínima que ela era uma garota de programa, sempre ficava apalermado perto de mulheres bonitas. Dos 8 aos 80.
Ela piscou para ele, empurrou uma cerveja. Ele recusou, educadamente.
--- Eu não bebo.
--- E o cheiro de bebida em você?
O Jornalista caprichou na lembrança e o Arqueiro riu, com uma boa dose de compaixão cintilando nos olhos. O garoto era astuto, usando suas antenas parabólicas ao próprio favor.
--- Foi mal. – o Arqueiro maneou a cabeça em silêncio. Já tinham feito isso com ele uma vez, era um jeitinho bem mal educado das gêmeas da Sete responder as negativas para uma noite alucinante.
Banho de vodka. E você tem que correr antes que elas ascendam o isqueiro.
Goa estudou o rapaz por alguns segundos e ofereceu a mão imensa num comprimento educado. Segurou o riso com a careta de dor do jovem após apertar os dedos entre os seus com a força que julgou suficiente.
--- Mellon-nin, hein? – assoviou, impressionado. – Não é para qualquer um. – desviou o rosto, cravando sua total atenção no garoto de programa. – E então, sua noite começou agitada, hein?
--- Pare de bancar a Lottie. – admoestou o Arqueiro. – Que mania de repetir as palavras!
--- OAH. – vociferou o Goa, rindo – Olha só quem fala: Tudo que você faz é repetir seu extenso vocabulário de palavrões!
--- Me.. merl-lon ní? – repetiu o jornalista e viu o Arqueiro fechar os olhos com um ar de lamúria. – O que é isso? – ele apertou os dedos, checando se os ossos ainda estavam intactos. "Talvez eu precise de uma tala, um anti-inflamtório", refletiu. O membro estava dormente e ele sacudiu no ar, arrancando uma risada alegre de Goa.
--- Na moral, se eu dependesse desse cara para abrir uma porta mágica, eu ia parar metade nos calabouços de Melkor e a outra parte, nos Pântanos Mortos. – a pergunta espocou com a força de um estilingue e o Arqueiro comprimiu as têmporas com os dedos. Ele quase riu do menino, mas o Jornalista andava se revelando uma peste. Rugiu, irado - Cale a boca, sim? Pare de fazer isso.
--- Eu não fiz nada – proferiu o Jornalista, com total inocência.
O Arqueiro voltou o rosto para ele, os lábios encrespados de fúria.
--- Não banque o espertinho, projeto de hobbit. – sua voz soou baixa e calma Indicou a têmpora esquerda, com o dedo indicador – Você gritou, de propósito.
O lábio superior do Jornalista puxou o inferior para um arremedo de sorriso no canto da boca.
--- Foi só um teste.
--- Você venceu, eu admito, mas não repita. – avisou o Arqueiro, sério. – Ou a entrevista acaba aqui. Meu humor está tão bom quanto o estado de espírito do Hitler, quando o bunker do filho da puta explodiu e o corpo dele voou em pedacinhos de merda!
--- Eu bebo a isso! – comemorou Goa, intrometendo-se na conversa.
O grande homem atrás do balcão riu a valer e esticou a mão, apertando a nuca do Arqueiro com força suficiente para quebrar os ossos do rapaz. Era o tipo de comprimento que os caras no corredor da morte recebiam antes de sentar na cadeirinha da Tia Foice.
--- Hei, tô sabendo da Dama! – Goa libertou o pescoço do Arqueiro. Encheu três canecas com cerveja até escorrer pela borda. – Eu daria o meu bar para ter visto a cena. – depôs uma caneca, empurrou na direção do Jornalista que não entendeu o recado. – E tira esse óculos e esse capuz. Mostre um pouco de respeito para um velho amigo, certo?
A menina recuou o rosto a tempo, antes de levar a cerveja na cara e o barulho do vidro explodindo no chão antecedeu o pedido de desculpas do Jornalista. Uma expressão de piedade deslizou pelo rosto barbado de Goa e ele empurrou a outra bebida para o Arqueiro.
Goa tomou um grande gole. – Vou fechar o bar mais cedo hoje. – arrotou alto e secou a barba com o punho. – Fica longe da Sete hoje, laddie.
O Arqueiro respirou fundo tentando ventilar os pulmões com algo que não fosse cerveja destilada em bílis do Goa. Puxou o capuz do colete para trás e prendeu o cabelo dourado com o elástico, recendo um olhar agradecido do Goa.
--- Eu não tenho plano. E porra, eu queria que parasse de falar da Dama o tempo inteiro.
--- É o assunto do momento, é o que eu digo. – outro gole, outro arroto. – Bom, era...até o show particular do Homem.
O Goa sempre chamava o Ilusionista de o homem. Parecia adequado. Ele apanhou um pano que esfregara muitas superfícies na vida e limpou o balcão com movimentos vigorosos. Seu corpo era musculoso, o cabelo espetado, uma mistura de castanho e ruivo. Uma barba espessa, com fios ruivos se sobressaindo. O melhor de Goa eram seus olhos. Castanho, quente e convidativo. Era um porto seguro singrando mares violentos de tempestade na Sete.
O Arqueiro sempre procurava Goa no começo e no final da noite. Andavam juntos para fora do Beco conversando sobre um pouco de tudo. Às vezes, subiam a Sete procurando encrenca ou arrancando algum garoto enrascado numa festa de grupo. Ou salvando uma garota novata de um brutamontes sem alma. Goa simplesmente queria uma desculpa para usar o machado, em nome dos bons e velhos tempos, quando seu nome era Gimli e Aulë ainda não tinha esticado sua altura para as missões do mundo.
Ele era tão feroz e alegre, falante e expansivo que poucas pessoas ali resistiam ao gigante ruivo. Também era o único lugar que se podia comer decentemente, sem ter uma bela GECA depois. Embora, Goa gostasse de fingir que o estabelecimento minúsculo não tinha nada de bom, exceto o machado atrás do balcão e bebida.
Que Gimli consumia madrugada adentro...
Coisa que começava a preocupar Éomer. Na desculpa de uma batida do Comissário, o rohirrim dava um jeito de enfiar Goa na viatura, antes que alguém o levasse para o hospital da Sete.
--- Estou com fome. – replicou o Arqueiro, apoiando os braços no balcão. Parecia que não ia se livrar do cheiro da cerveja. – O que tem para comer?
--- Além de você e da menina? – Goa riu quando o Arqueiro fuzilou-o com o olhar. – Vamos lá, me dê à chance de implicar um pouco. Eu estou numa posição privilegiada que não ocupo há séculos.
--- Desde a terceira, você quer dizer. – corrigiu o Arqueiro, satisfeito. – Espere, eu me lembro: você nunca ficou numa posição privilegiada.
Goa apontou o indicador para o convidado do Arqueiro.
--- Não deixe que ele implique contigo pela altura. – falou, com grande conhecimento de causa. – Não é ruim, sabe. Ser baixinho. – Goa jogou o trapo num canto qualquer e bateu na madeira com os nós dos dedos. – Basta ter atitude. E coragem.
O jornalista tentou expulsar a expressão de paisagem do rosto sem sucesso. Goa era tão alto quanto o arqueiro e botava medo em qualquer um. Baixinho? Bem, talvez no ventre da mãe.
--- E você tem uma grande atitude, Goa! – festejou a menina, rindo entre um gole e outro. O barman piscou em resposta, muito orgulhoso.
O Arqueiro revirou os olhos. Ele não tinha jeito. Sempre batizando seu machado em qualquer tronco com saia.
--- Ela tem idade para ser sua filha. – protestou o Arqueiro, surpreendendo o Jornalista, arrancando riso da menina e uma expressão solene de Goa. – Os caras podem não gostar disso...
--- O que você vai comer? – Goa fez um gesto amplo com a mão. Ignorou o conselho. Ele cuidava de todos e era uma maneira de demonstrar carinho. Não ofendia ninguém. – Não é sempre que o prato principal quer degustar algo... Então, vai tirar esse espelho sem graça da cara ou o quê?
--- Porra, essas suas piadinhas infames não tem um caralho de graça, Goa. – o Arqueiro retirou os óculos e depositou no balcão com elegância. – O que você tem aí?
O ar conspiratório de Goa atraiu a imediata atenção do Arqueiro. A essas alturas, o Jornalista estava contabilizando quantas horas e noites no Beco seriam necessárias para retirar algo do garoto de programa que não fosse o menu da noite na Sete.
--- Remessa do bom e velho Rada!
--- Ilúvatar, eu quero tudo que ele trouxe!
--- Que fome, hein? Nem ralou o couro direito e está querendo fechar o meu bar – resmungou Goa. – Bem, bem...sei o que vai te agradar, loirinho. Deixa comigo. – e desapareceu atrás das prateleiras de bebida.
O Arqueiro fechou os olhos rapidamente.
--- Não me chama de loirinho, porra!
--- Tenha paciência com o anão aqui, laddie – protestou Goa, rindo. – Que tal uma salada para fazer as pazes?
--- O que é Ilúvatar? – perguntou o Jornalista, anotando mentalmente a influência de Goa sobre o Arqueiro. Havia recolhido depoimentos da ira do garoto horas antes, tudo só porque alguns caras haviam chamado de loirinho.
--- Você é intragável, comedor de rochas. – retrucou o Arqueiro, feliz com a presença de Goa. Sua pele pareceu recolher a luz do Goa Yeins e reluziu um pouco, bem como os olhos muito azuis. – Uma salada, hein?
--- Ahã. Conta comigo nessa, orelha pontuda. – Goa deu as costas enumerando os itens necessários. – Eu ainda estou na sua frente, a propósito!
--- Ilúvatar... É o Deus do Arqueiro. – respondeu a menina apoiando a cabeça no braço dobrado sobre o bar. Ela bocejou. – Pena que ele não existe.
--- Ele existe tanto quanto eu. – o Arqueiro bateu a mão no estômago que roncou alto – Não tenho condições de filosofia hoje, Sabita. Por que não vai para casa? Meus contatos me dizem que a noite vai ser foda. Aplicou o indicador em riste, num aviso para as costas de Goa. – Você só está na minha frente fisicamente, baixotinho. Meu placar está em quarenta milhões, duzentos e cinqüenta e sete mil e oitocentos e noventa e nove!
--- Vocês... paridos de árvore. – resfolegou Goa. – Na verdade, eu acho que já perdi a conta. – virou-se, com um sorrisinho atrevido antes que o triunfo se espalhasse no rosto do amigo. – Perdi as contas lá pelos quarenta milhões e quinhentos. E pára de brilhar no bar, vaga-lume da floresta, vai espantar os clientes. Olha que eu pego o Bay-Goa. De Baygon, entendeu? – riu alto, achando engraçadissima a alusão ao spray mata insetos. Deu um soco na madeira. – Já volto.
O Arqueiro apoiou a face na palma da mão, franziu o cenho, inconformado.
--- Num pode ser... – murmurou – quinhentos?
Goa voltou carregando uma porção de sacos hermeticamente fechados, pratos e talheres. Uma garrafinha de água dourada equilibrada num monte de verduras. Ele dispôs tudo sobre o balcão e deu um tapa na mão do Arqueiro, que subitamente, fechara os olhos e aspirava aquele aroma com grande prazer no rosto.
--- Oh, grande, grande Rada! – festejou, abrindo os olhos de safira para aquela porção de alimentos. – Eu quero um pouco de tudo, Goa.
--- Eu também quero. – replicou a menina, despertando dos seus devaneios de sono.
--- Tudo bem, mas vai para casa depois. - Goa piscou para Sabita, ela concordou e voltou a deitar no balcão. Irritou-se com o olhar do Arqueiro. – Dormir! Lá é seguro. Ah, parece que não me conhece! - O barman separou os alimentos por cores. Estendeu a garrafinha de água dourada e abriu a tampa. – Com os comprimentos do Lorde.
Os olhos do Arqueiro se reviraram de prazer. Ele estendeu a mão e a expressão de doce antecipação se congelou quando Goa afastou a garrafinha.
--- Ah, não. O que?
--- Vem com uma mensagem, você sabe. – Goa brincou com a tampinha entre os dedos, sacudiu o líquido dourado dentro do invólucro transparente. – Hum...agora, qual é o capítulo?
O Arqueiro meteu o cotovelo no balcão e engoliu a ansiedade. Apanhou um talo de cebolinha e mordiscou a ponta, torcendo os músculos do rosto quando o gosto ardido invadiu a sua boca.
--- Porra, você tá parecendo o Carrapicho, Goa. – reclamou o Arqueiro, mais um naco de cebolinha. Que diabos, ele apanhou uma punhado de castanhas e jogou na boca também. Uma puta fome mastigando suas entranhas. Mastigou solene e fuçou nos pacotes menores. Queijo, ele adorava aqueles pedacinhos sólidos que se derretiam com o calor. Jogou mais dois na boca. Falou, a bochecha se movimentando com a atividade frenética. – Eu sei o Manual de cor. Desembucha.
Goa bateu a garrafinha na cabeça. O Jornalista estava curioso, esqueceu da entrevista. A menina do seu lado misturava um ronco baixo com um ronronado, embalada num sono ferrado de dar inveja.
--- Sabe, para uma criaturinha delicada você tem uma puta bocarra – observou Goa. – Isso é nojento, sua mãe não ensinou que não se pode falar de boca cheia? Teu pai ia te confinar naquele lugarzinho escuro se o visse se comportando assim, erin.
--- O que é erin? – intrometeu-se o jornalista.
--- Cale a boca. – respondeu o Arqueiro, o talo de cebolinha quase no fim entre os dedos. – Não chame meu berço, minha bela terra natal, incomparável e soberba de lugarzinho. – Goa começou a rir, o Arqueiro não resistiu e sorriu também. - E deixa meu pai fora desta, certo? Ou vai dar um role nos Corredores e se cagar todo quando topar com ele. – o Arqueiro gostou do ar alarmado na face de Goa. É, ninguém suportava, de verdade, encarar o seu velho. O Rei ainda abalava as estruturas da Terra. Ele era Foda. Replicou, inocentemente - E então, eu estou com sede. – mais dois gomos de queijo. Pedaço de cebolinha. A comida foi empurrada em loucos loopings dentro da boca do elfo e ele replicou, impaciente. – Anda, anda, anda...
Goa sacudiu o líquido mais uma vez. Não tinha aroma, mas fez o Jornalista pensar em mel. E água, e sol.
--- Você me faz pensar como a vida era mais fácil antes... – filosofou o gigante, curtindo a expectativa do loiro mastigando vigorosamente a sua frente. – Tudo que a gente tinha que fazer era segurar as pontas até o baixinho encontrar a Fenda da Perdição!
O jornalista engasgou com a cerveja. O Arqueiro apertou os punhos quando Goa começou a rir alto, sacudindo o bar.
--- Fenda do quê?
--- Perdição, gatinho. – falou a moça, a voz enrolada de sono. Ela foi tão rápida que o Jornalista não teve tempo de adivinhar. Pegou a mão dele e mostrou o espaço em que as pernas se uniam.
Goa riu mais alto. O Arqueiro sucumbiu e parou de mastigar. O Jornalista sentiu o rosto ardendo e puxou a mão o mais delicadamente o que pôde.
Bang. A menina já estava dormindo.
--- Qual o problema dela?
--- Narcolepsia. – explicou Goa, com um suspiro pesaroso.
--- Hum.. – sorriso amarelo do Jornalista. Ele ajeitou a menina que caíra de cara na madeira. Virou seu rosto sobre a dobra do braço delgado e lamentou o destino conturbado da bela criatura. Ele fixou os olhos esverdeados nos dois homens. Não era tão fácil assim distraí-lo. Tentou formular a pergunta sem sorrir - O que é a Fenda da Perdição?
--- Cale a boca – rosnou Goa. --- Viu? – estendeu a garrafinha num gesto de paz. – Todo mundo entende essa, burrinho.
--- Não me chame de burrinho, shrek! – ele foi mais rápido e apanhou a garrafa. Ficou estudando-a com um olhar encantado, a boca vermelha entreaberta em expectativa. Falou, hipnotizado. – O que vai fazer para eu comer, Goa?
--- Nada, estou fechando. – a expressão de tristeza do Arqueiro arrancou outra risada de Goa e ele levantou uma parte móvel do balcão. – Você mesmo vai fazer. Pula pra cá, Arqueirinho de merda.
--- Ah, pára tudo. – falou o Arqueiro, todo satisfeito. Os dedos longos brincando com o gargalo da garrafa. – Eu preciso curtir esse momento...
--- Bem, bem...esqueceu do capítulo? – lembrou Goa, astutamente.
--- Ah, fala aí. – o Arqueiro aspirou o gargalo, encostou o bocal no lábio inferior, sua mão levantou a base da garrafa. O líquido dourado escorregou milimetricamente pelo vidro polido, cintilando como poeira cósmica a caminho da boca do Arqueiro.
--- O capítulo IV. – as palavras saíram lentas, degustadas no capricho.
O Arqueiro hesitou, o líquido ficou tremeluzindo entre a alcova vermelha e o fundo transparente. Ele afastou devagar, com um suspiro pesaroso.
--- O IV?
Goa lançou um olhar cúmplice, superior.
--- O IV.
--- O que é o capítulo IV? – perguntou o Jornalista. – Quem é o lorde?
--- Cale a boca. – falou o Arqueiro e Goa, em uníssono.
--- Isso é uma entrevista ou não? – o Jornalista se cansou. Levantou rápido, contornou as banquetas e levantou a tampa de madeira. Antes que alguém protestasse, o Jornalista entrou no cubículo e colocou as mãos no balcão. – Ótimo. Se você gostar do que vou fazer, eu fico sabendo o que é o capítulo IV, fechado?
--- Esperto o rapaz. – Goa prestou atenção no menino que invadira seu domínio. Estudou o perfil, apertou um olho. Cuspiu a constatação. – Você parece com alguém, sabe...
O Arqueiro olhou os itens que se transformavam rapidamente em ingredientes. Voltou a fitar a garrafinha com cobiça e estalou os dentes no céu da boca. A receita estava fluindo da cabeça do rapaz como a imagem de um programa de culinária.
É, ele sabia o que estava fazendo.
--- Fechado.
--- Você tem molho shoyo? – perguntou o Jornalista, voltando o rosto para Goa.
--- E cebolas? – intrometeu-se o Arqueiro, esperançoso.
--- Sim, eu sei do que você está falando. – falou Goa e deu um tapa poderoso no ombro do Jornalista. O corpo arqueou para frente e o nariz do Jornalista foi derrapar perto de um monte de cebolinhas. --- Esse sabe do negócio. – Goa resgatou o rapaz de morrer afogado, enquanto Arqueiro jogava o item no lixo. – É, saindo um especial, sem ranho. – riu quando o Jornalista esfregou o nariz e virou o rosto para espirrar. Piscou para o Arqueiro. – Ele parece aquele ator do último filme...
--- Quem? – nada de sinos, o Arqueiro deu de ombros.
--- Aquele, poxa, você sabe. Do carinha que a gente conheceu em Cuba... 26 de julho, sangue, tiros? – fechou o punho, uniu as grossas sobrancelhas ruivas, com uma expressão concentrada – Viva la Revolucion!
As sobrancelhas escuras do Arqueiro se levantaram com certa incredulidade.
--- O Che?
--- É, o Che. – bateu no ombro do rapaz, ainda com acesso de espirros. - Eu sinto orgulho de muitas coisas na vida, magrelo, mas se tem algo que me estufa o peito, foi o pontapé que sentei na bunda do Fideldido quando o Che num tava olhando.
--- Fidel. – corrigiu o Arqueiro. – O fodido. – os dois riram e o Arqueiro fitou o corpo encurvado do jornalista, ele já tinha lágrimas nos olhos de tanto espirrar – Porra, acho que sobraram muitos poucos para contarem a história! Hei, Che, Você tá bem?
O Jornalista estava sufocado de tanto espirrar, não agüentava mais a agonia. Os dois estavam entretidos naquela conversa maluca. Ele não suportou, arrebatou a garrafinha da mão do Arqueiro e verteu o tal líquido na boca.
--- Puta que o pariu!!! – gritou o Arqueiro, tentando capturar a garrafa de volta. Sua mão abarcou o vidro e ele puxou o precioso objeto de volta. Seu rosto se converteu em pura tristeza ao balançar o líquido enroscado na base da garrafa. – Acabou.
Goa se inclinou, examinou o vidro.
--- Tem..bem...uns... – apiedado, Goa sentenciou. – Dois goles?
O Arqueiro apanhou a garrafinha com cuidado, voltou à tampa para o bocal e suspirou, ao colocá-la sobre o balcão.
--- Salve o melhor para o último. – citou, entristecido.
O Jornalista se sentiu incomodado, em partes. Aquele líquido era puro, como água fresca e tinha espalhado um cheiro de primavera. Um gosto de perfeição.
--- Eu vou caprichar para compensá-lo.
--- É o mínimo que você faz, Che. – concordou Goa, servindo-se de outra caneca de cerveja.
O Jornalista maneou a cabeça, um pouco irritado. Adorava o Che Guevara – quem não gostava? - mas não gostava muito daquela comparação – quem gostaria?. Goa ingeriu um grande gole, expeliu um pouco mais de gás mortífero nos dois e separou os itens que o rapaz precisava usar.
--- Por que não posso escolher meu codinome? – ele apanhou a tabua de madeira, escolheu uma cebola, colocou sobre a superfície e girou a faca afiada na mão, habilmente. A lâmina desceu numa estocada objetiva. Subiu e no segundo ataque, o rapaz iniciou uma seqüência de cortes longitudinais, precisos e mínimos. – E o que isso significa, esse codinome? Eu não vou trabalhar no Beco.
O Arqueiro parecia muito satisfeito com a agilidade do jornalista. A refeição poderia desculpá-lo no final das contas. Lançou um olhar cobiçoso para o líquido no fundo da garrafa e conteve a vontade de lamber a tampinha de vidro.
--- Bom, não é você quem escolhe um codinome, Che. É quem te... hum...apadrinha. – apanhou o vidro, girou nas mãos, retirou a tampinha. – O Goa é seu padrinho, eu sou seu treinador. – estendeu a mão – Não, não, não me chama de senhor. O senhor está no céu, como queira, fodendo a minha vida e estou rindo a beça com isso. – levou a tampinha até o nariz, aspirou. Flores douradas, verdes, uma festa. Cachos de Éowyn fazendo cócegas de manhã. – Ninguém pode saber o seu nome. Nem eu sei, na verdade.
O Jornalista silenciou. Era um fato. Nem o Ilusionista havia perguntado seu nome. Talvez porque por mais insanos e controversos que fossem os tais personagens, eles tinham educação. Até o boca suja do Arqueiro. E um nome declinado, é outro nome correspondido.
Jogou as cebolinhas na frigideira devidamente aquecida pelas mãos de Goa. Virou o tubo de molho shoyo e usou a espátula para evitar que a refeição do Arqueiro se transformasse em uma goma carbonizada.
--- Já sei como vamos começar. – replicou o Arqueiro. – Você vai num programa comigo, baixotinho.
--- EU O QUÊ? – vociferou o Jornalista, voltando-se completamente aturdido.
O Arqueiro deu um sorrisinho irônico. Azul sobre azul em seus olhos cintilando com planos misteriosos. Goa riu alto com o pânico do amigo Che. Nenhum deles prestou atenção à figura que se aproximou num salto.
Antes que o Arqueiro pudesse registrar os passos e os aromas, a mente explodindo com mil pensamentos desconexos do Jornalista, a mulher bateu em seu braço, vociferando com fúria.
--- O QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO? – indignada, sequer deu conta do acidente causado – NÃO SE DEIXA UMA DAMA PARADA NAQUELA PORCARIA DE BECO! MEU MARIDO ESTÁ TENDO UM INFARTO POR SUA CAUSA!
A gritaria, o empurrão, o tapa, a garrafa.
Espatifada no chão. Com a última gota.
O Arqueiro respirou profundamente em um lamento.
---Eu só levo no Toba...
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Glossário.
Música no capítulo – Hero, Nickleback.
Mae Govannen – saudação de boas vindas, em sindarin.
Hannon-le – obrigada, sindarin.
Mellon-nin - amigo, sindarin.
Erin – príncipe, sindarin.
Nienna – Valië da piedade e compaixão. Olórin (Gandalf) é seu servo e com ela aprendeu a compaixão com os seres de Arda.
Che Guevara - Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido por Che Guevara ou El Che, nascido em Rosário, Argentina, 14 de junho de 1928. Formado em medicina em 1953 e reconhecido pela sua atividade política. Sofria de asma desde a infância e por isso foi rejeitado do Serviço Militar. Era um leitor ávido e aos 13 anos contava com uma biblioteca de três mil volumes da sua família. Leu Julio Verne, Alexandre Dumas, Freud e Baudelaire, entre outros antes de completar 15 anos. Suas andanças pela América latina, sua formação médica e a visão da pobreza e suas misérias constituíram grande base para seu desejo de mudar o estado injusto das coisas. Só deixa a maleta de médico para ganhar as armas em 1954, na Guatemala, participando do movimento guerrilheiro M26, liderado por Fidel Castro. Após a vitória dos revolucionários em 1959, o regime comunista se instala em Cuba, Guevara se torna o braço direito de Fidel Castro e percorre o mundo para propagar os idéias da revolução cubana. É capturado e executado em 9 de outubro de 1967. Seu corpo, porém, só é recuperado em 1997. Seus restos mortais permanecem em Cuba, onde existe uma estátua do líder. Seus ideais e sua imagem ainda alimentam a imaginação de todos, bem como o seu espírito incansável em luta por aquilo que acreditava.
Adolf Hitler. – Puta merda, quem não conhece esse filho de uma puta?!. Não vou gastar mais nada com ele, a historiadora que me perdoe. (Explicação do Arqueiro).
Bunker – abrigo militar de defesa durante a guerra, são casamatas com paredes espessas de concreto ou madeira (2ªguerra) possibilitando uma localização estratégica para contra atacar em segurança.
GECA – gastroenterite aguda. Um tipo de infecção intestinal pelo consumo de alimentos pouco recomendáveis ou recorrente de uma virose típica do verão. Seus sintomas são vômito, diarréia intensa e prolongada, febre e mal-estar.
Toba – gíria para ânus.
Laddie – menino, em inglês. Forma familiar afetiva para se designar uma criança do sexo masculino.
