QUINTA, 14 DE MARÇO DE 2013, 21:05 hrs.
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Quanto tempo fazia que não ficavam assim, frente a frente. Sakura tentava parecer o mais natural possível, mas não era lá muito fácil. Ergueu seus olhos para vê-lo escorado na parede atrás do sofá (a única coisa que os separavam fora o abismo de mil coisas não ditas). Os olhos escuros dele se reservavam na janela.
— Eu te trouxe essa torta de nozes, chocolate e morango... Você gostava quando eu fazia aqui pra você. — a força na voz dela o pegou de guarda baixo. Finalmente a encarou de volta, sem saber bem o que dizer.
Maneou positivamente a cabeça em um agradecimento silencioso e tentou – só tentou – sorrir.
— Posso te perguntar uma coisa? — ela continuava encarando-o initerruptamente.
— Outra. Pode. — mas não havia hostilidade ou receio nisso que ele disse.
— Você sente falta da nossa época de escola como eu sinto?
— Eu não sei como você sente.
— Sinto muito.
Sasuke deu de ombros, mas não falou nada. Com isso, ela soube... Que sim. Ele sentia.
Convivera com aquele homem tempo demais de sua vida para conhecê-lo como a palma de sua mão. Divórcio algum poderia mudar aquilo. Isso não parecia mais tão pesado de carregar. Nem aquele segredo. E era engraçado pensar que foi o próprio Kakashi quem dissera a ela para abanar a bandeirinha branca.
— A gente pode ter de volta... Eu voltei a falar com a Ino.
— Não dá pra ter de volta. A gente se amava naquela época... Eu e você. — assim que ele terminou de falar, Sakura ouviu um estalo em sua cabeça. Ficou imóvel, de olhos arregalados e boca aberta — Mas... Se esse é o seu jeito de oferecer paz...
Ah.
— Talvez dê pra construir algo até melhor por cima dos escombros do que passou. — ele completou.
Sakura sorriu. Lentamente.
E para a surpresa dela, claramente não a primeira, Sasuke se desencostou da parede, deu a volta no sofá e parou diante dela. Levou uma de suas mãos para a lateral do pescoço dela e a puxou para perto.
— S-Sasuke...
Ele não disse uma palavra. Só inclinou o rosto e encostou seu nariz na lateral do dela, aspirando o cheiro delicado de sua pele. Os lábios dos dois estavam bastante próximos, mas Sasuke parecia totalmente alheio a tal. Deslizou seu nariz para o lado, aplicando um delicado beijo na bochecha de Sakura.
Ela ficou parada, com a torta em ambas as mãos, assustada e extasiada ao mesmo tempo.
— Passou da hora da gente deixar ir, Sakura.
Foi prova o suficiente para que os dois soubessem que não havia restado nada. Nada do amor, mas também nada do rancor e da dor e do sofrimento.
Era uma página em branco.
SÁBADO, 16 DE MARÇO DE 2013, 01:30 hrs.
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Ele nunca tinha experimentado a sensação do mundo todo parar. Tudo parou. Por isso ele teve tempo o suficiente para processar o sentimento estranho que subia por sua garganta diante daquela cena.
Naruto. De. Joelhos. Chupando. O. Sai.
Sasuke sabia que não era da sua conta. Não mesmo. Mas ele não 'tava com a Sakura? Filho da puta. E esse Naruto não perdia tempo também. Deviam estar se fodendo durante ambos os namoros.
Bich...
Riu de si mesmo ao perceber o que estava fazendo.
— Experimenta magoar qualquer um dos dois pra ver se não te arrebento, seu folgado. — sussurrou no ouvido de Sai quando o pegou sozinho. Logo em seguida, sumiu na multidão. A última coisa que precisaria era Naruto especulando os motivos de ele estar em uma boate gay.
Pegou o caminho de casa.
SÁBADO, 16 DE MARÇO DE 2013, 01:35 hrs.
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— Sasuke!
Continue andando.
— Sasuke!
Girou nos calcanhares e encontrou ninguém mais ninguém menos que Naruto, suado e com as bochechas coradas. Os olhos azuis dele estavam enormes e a respiração até meio ofegante.
— Desde quando?
— Desde quando o que? Que eu arrombo caras? — Sai linguarudo.
O Uzumaki piscou confuso.
— Bom saber que você não mudou 'ttebayo. Disfarçou tão bem que eu nem percebi.
— Ótimo. Continue fingindo que não sabe. — não estava com humor praquelas merdas agora. Continuou andando.
— Mas, Sasuke...
Ele parou, mas não se virou novamente.
— Não é porque somos ambos bichas agora que precisamos fazer programinhas juntos. Eu não tenho a mínima intenção de fazer desse um estilo de vida público, faço porque agora caras são a única coisa que me excitam. Eu não vou nem falar sobre isso com você, Naruto.
— A Sakura não estava com Sai. Nem eu com a Hinata. — depois de todo esse tempo, Naruto sabia muito bem o que descartar das coisas cruéis que Sasuke falava — Foi mentira... A gente 'tava só se ajudando pra Hinata ficar com o Neji e você superar a Sakura, já que ela 'tava com outra pessoa. Eu e o Sai 'tamo ficando há...
— Eu acabei de dizer que não quero falar sobre isso com você e não tenho o mínimo interesse nas putarias suas e da Sakura e do Sai e da Hinata e muito menos do Neji. A quantidade absurda de porra que você engoliu te deixou surdo, por acaso?
Naruto rangeu os dentes de raiva. Com Sasuke era sempre assim: um passo à frente, dez pra trás. Ele sempre se sentiu mal por não poder contar as coisas para seu melhor amigo, sobre sua sexualidade e coisa e tal, não poder conversar com ele sobre a forma como se sentia a respeito de Sai... E agora que ele conseguiu ver uma luzinha de nada no fim do túnel, Sasuke estava se portando daquela forma, e era tão frustrante.
— Seu desgraçado.
— Vê se cresce, Naruto.
DOMINGO, 17 DE MARÇO DE 2013, 09:00 hrs.
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— Eu fui no seu apartamento, mas você não 'tava lá.
— O que você quer?
Sai ficou parado no meio da oficina, olhando para o carro debaixo do qual Sasuke trabalhava. Toda aquela graxa o fez pensar em sua tinta nanquim, e evocava o pensamento que sempre teve sobre toda aquela sujeira combinar muito com Sasuke que também era imundo.
— Sabe, Sasuke, eu costumava achar que éramos iguais. Eu e você. Dois cretinos que mantém distância de qualquer intimidade pessoal porque simplesmente é mais cômodo. Mas ontem... Ontem eu vi que você é pior. Você tem medo.
Sasuke deu uma risadinha debochada que durou apenas um segundo.
— Você devia é estar feliz, seu idiota, porque mantive minhas garras longe do seu namoradinho.
— Feliz? — Sai saboreou a palavra — Eu não posso ser feliz. Não posso fazer ninguém feliz. Não quero nenhum dos dois. Mas você faz as pessoas felizes só de estar perto delas... Eu posso ver isso. Depois que a Sakura resolveu as coisas com você, ela mudou. Ela tem esperanças. E o Naruto é louco com você. — pausa — Durante muito tempo eu não soube o que, diabos, eles viam em um cara que nem você. Agora eu sei... É porque eles te amam. O seu filho te amaria também, apesar de que você seria um lixo de pai. Um lixo.
A prancha na qual Sasuke estava deitado deslizou para que ele saísse de debaixo do carro. Mas ele não se levantou, tampouco se sentou. Só ficou olhando Sai com aqueles olhos cor de piche ilegíveis.
— Quando eu vi você no beco pela primeira vez, senti uma vontade louca de te foder. Agora passou. Sabe? Não quero ser mais um preso na sua teia de pura merda.
Os olhos de Sasuke assumiram um ar mais obscuro.
— "Experimenta magoar qualquer um dos dois pra ver se não te arrebento, seu folgado." Foi o que você me disse ontem. — argh. Ali estava aquele sorriso que fazia Sasuke ter arrepios de raiva — Eu não posso fazê-los felizes e por isso ninguém bota expectativas em mim. Pode dizer o mesmo de você?
DOMINGO, 17 DE MARÇO DE 2013, 23:00 hrs.
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Naruto estava já no décimo quinto sono quando alguém bateu à porta. Ele tinha certeza que era aquele tarado do Sai... Quem mais?
Levantou-se, pelado mesmo, e foi até a porta da frente. Nem olhou no olho mágico, de tanta certeza que tinha. Abriu a porta completamente, e quando seus olhos azuis se acostumaram com a luz...
— Eu vou te contar tudo só pra você me tirar dessa porra desse pedestal, pelo amor de qualquer coisa que você ache preciosa. — Sasuke sóbrio e chorando?! — Eu 'to sufocado.
