Capítulo Quatro – Junto da Loucura, Junto de Ti

Kai saiu do elevador a passos largos. Acordara com o mau humor do dia anterior duplicado.

-Tem calma, o pequeno-almoço não foge. – Torrie brincou.

-Quem quer fugir sou eu! Quero sair deste hotel e voltar para a minha casa por dois dias de descanso. – Kai resmungou.

-Ainda agora cá chegaste já queres fugir outra vez?

A morena suspirou e virou-se para a loura mesmo na porta de entrada do restaurante. Não tinha o direito de descarregar em Torrie as suas frustrações.

-Desculpa. É só que… voltar está a ser mais difícil do que julguei…

-Eu sei. Nem conseguiste dormir hoje. Mas não podes esperar que tudo volte a ser como era assim de repente.

-Nada vai voltar a ser como era. – Kai murmurou sentindo o seu coração fazer-se em pedaços. Tinha que meter aquilo na cabeça, tinha que esquecer Batista de qualquer maneira mas parecia que o seu coração teimava em não deixá-lo sair.

E como se o destino ouvisse os pensamentos dela, Batista saiu do elevador abraçado com Victoria. Pararam logo depois de saírem e beijaram-se apaixonadamente. Kai teve que se virar para não deixar que as lágrimas sequer chegassem aos seus olhos. Não lhes ia dar o gosto de vê-la sofrer, jamais!

Caminhou a passos largos e decididos até ao Buffet, com um sorriso na cara e cumprimentando as pessoas que conhecia pelo caminho. Serviu-se de ovos mexidos, bacon, uma chávena de café, duas torradas, uma maçã e um sumo natural de laranja. Torrie olhou para ela e depois para o prato com uma sobrancelha arqueada.

-O que foi? Tenho fome! – Kai disse encolhendo os ombros.

Torrie conhecia Kai. A havaiana não era do tipo de raparigas que se fechava em quartos a chorar, a se isolar do mundo e perder a fome. Pelo contrario, quando estava magoada, a morena comia como se não visse comida há vários dias e usava a dor como fonte de energia, descarregava aquele sentimento negativo nos treinos ou nos vários hobbies que tinha. Ela não se deixava abater por causa de outra pessoa, embora por dentro estivesse feita em pedaços. Kailani não iria deixar que ninguém soubesse que estava magoada mesmo que isso a magoasse ainda mais. Era demasiado orgulhosa.

Kai aproximou-se da mesa onde Carlitos e Chris Masters estavam sentados.

-Posso? – ela perguntou com um sorriso deslumbrante a que nenhum homem resistia e Torrie revirou os olhos. Ela estava a lançar o seu charme. Outra manobra defensiva da havaiana.

Chris levantou-se de imediato, derrubando a sua cadeira e afastando uma num gesto muito cavalheiro para Kai se sentar, a qual foi aceite pela diva com mais um sorriso. Kai era a novidade, a linda Diva recém-chegada que todos os wrestlers queriam conhecer. Alguns já a conheciam e sabiam que se meter com Kai era comprar uma guerra com Dave por isso não se aproximavam, mas como a relação entre o Animal e a havaiana era Tabu entre o staff os que não estavam na Smackdown há dois anos não sabiam disso. Pelos vistos era o caso de Chris que só faltou babar para a morena. Torrie puxou uma cadeira e juntou-se ao grupo. Pelo canto do olho viu Batista lançar um olhar furioso a Masters e quase partir o copo que tinha na mão. Victoria pareceu não reparar enquanto levava o seu sumo e a sua salada de fruta através das mesas.

Torrie e Victoria cruzaram o olhar e a mais velha lançou um sorriso arrogante antes de mudar de direcção e se dirigir á mesa onde estavam, mas antes que a loura conseguisse fazer alguma coisa para impedir o impacto, já Victoria tinha derramado o sumo todo em cima de Kai.

-Oh, desculpa! – Victoria disse ironicamente. – Não te vi.

Kai levantou-se lentamente respirando fundo e virou-se para a outra Diva.

-Acredito que não! – Kai sussurrou perigosamente calma. – E agora que aconteceria se eu também não te visse e… - a havaiana sorriu maliciosamente antes de erguer a mão e dar um murro na cara da sua rival, que deu dois paços, derrubou a salada, tropeçou numa cadeira e caiu redonda no chão. -… Decidisse apanhar moscas no ar. – Kai quase gritou esta parte e preparou-se para se atirar em cima de Victoria mas foi agarrada por Torrie e Chris antes que conseguisse dar um passo.

Victoria levantou-se e quase saltou para cima de Kai mas foi agarrada pelo namorado antes de conseguir chegar junto do seu alvo.

-Vê se controlas a tua namoradinha, Batista! – Kai disse após respirar fundo três vezes e forçar Torrie e Chris a libertarem-na. – Ela parece estar cada vez menos lúcida!

-Pelo que eu vi, quem agrediu primeiro foste tu! – ele disse friamente. – Afinal sempre gostaste de atacar.

Kai não conseguiu dizer nada, as palavras que ele dirigia estavam carregadas de segundos significados que só eles percebiam e ela odiou-se por ter a cabeça invadida por memórias de ambos entre lençóis. Como se atrevia ele a dizer aquilo, a fazer referência algo que eles faziam quando se amavam, a troçar de algo que fizera parte da intimidade de ambos. Aquelas palavras magoaram mais do que ela queria mostrar. Em vez disso lançou um olhar furioso a Victoria que era capaz de fazer muitos wrestlers na sala agradecerem aos céus por não serem o alvo daquele olhar e depois foi embora. Torrie seguiu-a.

A morena entrou no quarto como um furacão, quase atirando a porta na cara da amiga. Caminhou a passos rápidos até á casa de banho e fechou a porta com tanta força que foi milagre ela não ter quebrado.

Segundos depois os soluços de Kai encheram o quarto e Torrie foi até á porta.

-Kai…

-Deixa-me sozinha!

Kai jurara que não choraria mais mas aquela dor parecia apenas aumentar com as horas e estava a ser cada vez mais difícil fingir que já não amava Dave. Vê-lo com Victoria era como se enfiassem uma faca no coração. Ela simplesmente não conseguia vê-los sem ter vontade de fugir dali ou de ir até lá e separá-los e quebrar a cara a Victoria. Ela só queria poder chegar ao pé dele e abraçá-lo, ouvi-lo dizer que tudo ia ficar bem, ouvi-lo dizer que a amava e voltar a sentir aquela sensação de segurança, tranquilidade e equilíbrio que so encontrara nos braços dele. Ela queria poder voltar a sentir o sabor do beijo dele, adormecer com ele ao seu lado e a saudade naquele momento era tão grande que quase a sufocava. Mas depois as lembranças dele e de Victoria no balneário há dois anos caia sobre ela como um balde de água fria e pela milésima vez o seu coração era feito em bocados. Ela nem sabia como é que o seu coração ainda batia de tanto que já sofrera por causa de Batista.

Após quase meia hora fechada na casa de banho tentando se recompor, Kai saiu de lá como se nada se tivesse passado. Nem parecia ter chorado graças aos milagres da maquilhagem. Viu que Torrie já havia descido com as malas. Agarrou as suas e desceu também. Para sua grande satisfação nem Dave nem Victoria lá estavam.

-Como estás? – uma voz masculina disse atrás dela.

-Oh, estou bem, obrigada. –ela disse esboçando um sorriso a Chris. – Eu perco a cabeça de vez em quando mas passa.

-Só espero nunca te chatear. – ele brincou.

-Eu espero que não Sr. Masters ou terá que enfrentar o furacão havaiano. – ela retribuiu a brincadeira.

E foram conversando os dois até ao parque de estacionamento. Ela gostou de Chris, não só por ser muito atraente mas porque era divertido, nada comparado com a sua personagem na TV.

Depois de 12 longas horas a conduzir, Kai chegou á sua querida casa em Orlando, Florida. Estacionou o carro na garagem e subiu as escadas sem sequer tirar a mala de dentro. Quando chegou ao quarto jogou-se na cama. Estava exausta, o stress emocional começava-se a descarregar no seu corpo. Mal caiu na cama, adormeceu.

Os dias seguintes foram calmos. Kai aproveitou para nadar, por a sua leitura em dia e tocar um pouco de piano. A única pessoa que viu nesses dois dias foi Maria, a sua empregada, uma senhora de já cinquenta anos que Kai via quase como uma segunda mãe.

Quando chegou a hora de partir e voltar a reencontrar os seus colegas de trabalho para começar os treinos e ensaios para o espectáculo seguinte, começou a sentir um aperto na garganta e um nó no estômago.

A viagem de avião até Portland em Oregon demorou mais do que o normal e apesar de tentar dormir, foi-lhe impossível. Estava ansiosa e odiava essa sensação.

Quando finalmente chegou, viu o autocarro da WWE á espera das estrelas que estavam a chegar. O motorista ajudou-a com a mala e ela entrou. Encontrou Matt Hardy sentado e sentou-se ao lado dele.

-Vejam só quem ela é! – ele disse. Matt sempre tivera uma paixoneta por ela embora a relação deles fosse apenas de amizade.

-Olá Matt! Como vão as coisas?

-Ainda um pouco dorido do salto fabuloso que dei sábado do escadote para o ringue mas de resto, estou óptimo e pronto para outro. E tu que me contas? Que te deu na cabeça para desapareceres sem deixar rasto e agora voltares do nada?

Matt era assim, não tinha papas na língua, com ele não havia rodeios, o que ele queria dizer dizia e ela adorava a sua sinceridade.

-Digamos que as coisas aqui correram mal e depois fartei-me da TNA e decidi voltar.

-Saíste por causa do Dave, não foi? – e mais uma vez lá estava a sinceridade do wrestler.

-Talvez!

-Ok, já percebi que sim…

Esperaram o resto dos wrestlers enquanto conversavam de coisas banais. Quando todos os que vinham de avião tinham chegado, o autocarro partiu para o hotel.

Kai ficou sozinha num quarto. Queria poder ter partilhado um com Torrie mas a outra Diva só chegava no dois dias depois visto que não iria ter nenhum combate. Kai ia já combater, ou pelo menos interromper o combate de Maryse e Layla e aplicar os seus finishers a ambas: um atomic drop intitulado Pandemonium a Maryse e um airplane splin seguido de um brain buster chamado The Helm Of Darkness a Layla.

Era por isso que vinha mais cedo, apesar de já estar familiarizada com os ataques, afinal praticara-os durante muito tempo, era a primeira vez que ia aplica-los realmente como finishers.

Desarrumou as suas malas, colocou a roupa para treinar numa sacola e apressou-se a ir para o elevador. Este abriu-se e Kai viu a última pessoas que queria ver naquele momento. Parecia que o destino estava contra ela.

-Bom dia. – Dave disse num tom frio.

-Bom dia. –ela respondeu com um sorriso sarcástico nos lábios. Porque raios tinha ela que ter ficado no 10º andar do hotel? Isso implicava ter ainda pelo menos 9 andares com Batista ao seu lado.

O elevador desceu 3 andares e ninguém entrou, parecia até que aquela porcaria estava a andar mais devagar só para a torturar. Viu pela periferia dos seus olhos Dave estalar o pescoço. Conhecia aquele gesto, ele fazia aquilo quando ele estava pensando em algo que não queria. Amaldiçoou-se por se lembrar tão bem dos pequenos hábitos dele.

-Estás nervosa? – ele perguntou num tom indiferente.

-Não! – ela respondeu segura de si. Estava nervosa sim, na verdade estava em pânico. Estar perto dele despertava mil e uma sensações nela. O cheiro dele continuava igual só tinha vontade de poder acaricia-lo, saboreá-lo,… mas a sua cabeça gritava que não! Era uma batalha entre a sua razão e o seu coração e era agonizante. Tinha vontade de gritar de frustração e fugir dali.

-O teu corpo diz o contrário… - ele comentou com igual indiferença.

-Impressão tua! – ela teimou.

Viu Dave abrir um sorriso divertido.

-Não me enganas. Quando estás nervosa passas a mão direita pela nuca várias vezes, viras a cara para o lado esquerdo e mordes o lábio inferior.

Kailani retirou imediatamente mão da nuca como se tivesse apanhado um choque. Dave deu uma leve gargalhada mas ao contrário do que ela esperava não soou nada desdenhosa, ou sequer rancorosa. Ele não estava a gozar com ela. Então a morena atreveu-se a olhá-lo nos olhos. Reparou que ele a fixava intensamente e arrepiou-se.

-Porque estás assim? Pareces uma gatinha assustada, prestes a fugir mal eu dê um passo em frente.

-As gatinhas não são assim tão previsíveis, quando pensas que elas vão fugir elas podem te arranhar. – ela contra-atacou.

Dave deu um passo á frente e Kai deu dois atrás e colidiu com a parede do elevador. Com o coração a bater descompassadamente, olhou para o ecrã do elevador. Ainda estavam do 5º andar.

O wrestler aproximou-se dela calmamente. Todos os músculos da havaina pareciam ter congelado. A sua respiração tornou-se inconstante ao notar que ele estava apenas alguns centímetros dela, debruçando-se para que as suas caras estivessem ao mesmo nível. Conseguia sentir a respiração quente dele a roçar os seus lábios, os olhos dele fixos nos dela.

-Não me parece que vás atacar, gatinha! – ele disse com um sorriso arrogante muito pouco característico dele.

O cérebro de Kai gritava-lhe para responder, para o afastar mas parecia que o seu corpo não estava a ouvir. Odiava aquela sensação de impotência que ele desencadeava nela. Ela era sempre uma pessoa segura, gostava de estar no controlo de tudo na sua vida e odiava sentir-se fraca. E geralmente sucedia mas com Dave era diferente. Ele tinha o poder de fazer as pernas dela tremerem, conseguia fazê-la sentir-se vulnerável e parecia que todos os seus pensamentos ficavam incoerentes quando ele estava perto.

-Eu… - ela conseguiu balbuciar e estava certa de que conseguiria puxar do resto das suas forças para responde rá altura se ele não a tivesse beijado.

Dave agarrou a sua face com ambas as mãos e colou fortemente os seus lábios aos dela. Por segundos, Kai não soube como reagir mas aos poucos o beijo tornou-se mais terno e ela só conseguiu enrolar os braços á volta do pescoço do homem que amava para não cair ao chão pois o seu corpo tremia com todas as emoções que aquele beijo despertava dentro dela.

Dave mordiscou o lábio inferior dela e ela entreabriu os lábios para libertar um suspiro. Ele aproveitou e passou a língua entre eles, aprofundando o beijo. Qualquer pensamento que pudesse restar na cabeça da morena desapareceu. A única coisa que ela sabia era que estava nos braços que tanto sentira falta, e aquele beijo, aquele beijo que tantas vezes sonhara em receber de novo estava ali, tão real como antes e era tão excitante e avassalador como sempre. Foi como se aqueles dois anos não existissem, como se estivessem de volta aos tempos em que eram felizes e por momentos ela quase acreditou nisso. Até o elevador anunciar que estava a parar. Foi como se libertassem um balde de agua em cima dela e toda a realidade caísse na sua cabeça com uma crueldade que causava uma dor quase física. Ela empurrou-o e ele não resistiu.

-Nunca mais te atrevas a me beijar ou juro-te que a família Batista não terá mais gerações. – ela disse completamente furiosa, mais com ela do que com ele, antes da porta do elevador abrir e Chris Masters, Maryse e MArk Callaway entrarem.

Os recém-chegados cumprimentaram e Kai e Batista responderam de volta tentando fingir que estava tudo bem. Por momentos Kai julgou que ninguém tinha percebido nada mas quando olhou para Mark ele olhava-a fixamente com uma expressão inquisidora. Kai não foi capaz de aguentar o olhar, baixou a cabeça e os seus olhos desviaram-se para a direcção contrária. Em alguns segundos estavam no Rés-do-chão e junto com o resto dos wrestlers para se dirigirem ao ginásio para praticarem.

N/A: visto que estou completamente fora do mundo do wrestling nos últimos tempos, decidi que vou usar os wrestlers ao acaso, sejam eles do Smackdown, do RAW ou ECW. Perdoem-me por este pequeno defeito na fic, é porque com tanto trabalho já é sorte conseguir actualizar seja que fic for.