Disclaimer - Saint Seiya pertence a Kurumada, Toei, etc...
Capítulo 4 – It's The End Of The World As We Know It
Essa é da série "Coisas Que A Gente Não Espera De Jeito Nenhum". Porque, como se sabe, existem aquelas coisas que você não exatamente espera, mas sabe que podem acontecer a qualquer momento.Algo tipo quebrar uma perna, achar dinheiro na rua ou, quem sabe, encontrar por aí o seu ex-namorado que se imaginava estar na adorável cidade francesa de Orléans. E então entram em campo aquelas coisas que você realmente não imagina que possam acontecer, como ver o crítico musical que você mais admira entrar em sua humilde loja de discos te ameaçando e ordenando que você mantenha distância do supra-citado ex-namorado, que atualmente é o namorado DELE!
Com a confusa explicação do parágrafo acima, dá para imaginar a cara aparvalhada que Milo ostentava naquele momento. O rapaz estava confuso de verdade. Afinal, quem diabos era aquele cara todo marrento que, do nada, apareceu em sua loja todo cheio de pose mandando ele ficar longe do Camus. Ok, Milo sabia quem era aquele cara, mas na verdade seu conhecimento sobre Saga sempre se restringira a ler os seus textos e, eventualmente, ver uma foto. Mas não poderia imaginar como o crítico poderia ter alguma relação com seu ex-namorado.
- Olha amigo, espera só um pouquinho. Acho que não entendi muito bem o que você quer. Não é melhor a gente conversar uma outra... – Milo tentava evitar um barraco, pois Mu vivia pedindo para pelo menos diminuir os índices de confusão naquele estabelecimento, mas foi bruscamente interrompido por Saga:
- Em primeiro lugar eu não sou seu amigo. Em segundo, você está entendendo tudo direitinho sim, porque por tudo que eu ouvi sobre você, eu jamais pensaria que se trata de um cara burro. E eu posso dizer o que vim falar aqui mesmo, só vai levar um minuto.
- 'Tô falando sério, eu não sei o que você quer comigo – o escorpiano estava exasperado. A situação era realmente incômoda pelo fato de algumas pessoas na loja estarem assistindo aquela conversa doida. O Mu ia ter um troço com certeza...
O outro homem estreitou os olhos com as palavras de Milo, o que fez este perceber que o crítico começava a perder a paciência. Saga então disse com uma voz um tanto ameaçadora:
- Bem, senhor Milo, meu recado é só esse: fique longe do Camus. Não o procure, não fale com ele, não olhe para ele. Aliás, não se atreva sequer a pensar nele. Ou eu vou ficar bem zangado, sabe, e pode apostar que você não vai gostar de me ver zangado.Passar bem.
Saga virou-se e foi embora sem ao menos dar tempo para que Milo respondesse qualquer coisa ou esboçasse alguma reação diante daquela...ameaça. Sim porque o fato de ser uma ameaça ficou bem claro para o escorpiano e para os xeretas que estavam ouvindo a conversa. O loiro ficou parado no balcão, com uma expressão confusa (e estúpida deve-se dizer), olhando para o vazio no lugar onde há pouco o homem de cabelos azuis estava.
Mu surgiu nesse momento, vindo dos fundos da loja, já que havia saído logo que Saga chegara, pois não imaginava o teor da conversa. Ao ver um Milo estático e as pessoas o encarando curiosas, deduziu o que havia acontecido por ali. Definitivamente, as encrencas amorosas de Milo e de Aioria eram grandes atrações para os clientes mais assíduos, que sempre pareciam se divertir especulando sobre "o último barraco".
O ariano cutucou o amigo, que finalmente saiu do estado de transe em que se encontrava. Mu então perguntou, paciente:
- Não que seja da minha conta, mas você se importaria de me contar o que foi que aconteceu aqui? – o tom de voz de Mu era baixo e calmo – Sabe, é meio desagradável isso, toda semana alguma confusão aqui na loja. Não que eu não esteja acostumado, mas é chato mesmo assim.
- Ah, Mu, é uma história comprida essa, esquece... – Milo disse desanimado.
- Me deixe adivinhar: você andou correndo atrás da namorada ou do namorado do cidadão ali, que, ofendido, veio tirar satisfações com você e te ameaçou com surra, tiros ou atropelamento. Acertei?
- Nem vem ta! – o loiro exclamou meio ofendido – Para começo de conversa, eu conheço o Camus faz muito tempo já, mais que o senhor crítico lá, com certeza! E foi tudo um mal entendido, eu nem fui atrás do Camus. Não ainda...
- Não ainda? – Mu encarou o amigo até que se lembrou – espera, então esse Camus é o daquela história de quando você foi...
- Mas até você que não fica cuidando da vida dos outros sabe disso? – Perguntou Milo um pouco irritado já. Realmente, a sua vida particular era de domínio público.
Pois, apesar de serem bons amigos e de terem até mesmo aberto um negócio juntos, Mu e Milo não eram de ter "aquele tipo" de conversa. O cabeça-roxa, como gostava de dizer para atormentar, era muito reservado nesses assuntos e preferia não comentar a vida pessoal alheia. Claro que Milo fazia brincadeiras com o ariano, mas a sério era difícil conversarem assim. Mesmo se conhecendo já a alguns anos Mu não sabia de algumas coisas sobre sua vida e vice-versa, o que o loiro achava bom por um lado, era um a menos para encher o saco e dar lição de moral.
- Bom, eu só sei por alto, o que o Aioria comentou – Mu explicou – se quiser conversar...
- Eu...é que... – Milo começou indeciso. O mundo parecia mesmo ter virado do avesso nesses últimos dias. Mas talvez fosse uma boa. Mu era um cara sensato e ponderado quando o assunto era sério. Talvez tivesse alguma boa idéia ou conselho, uma luz – acho que quero sim.
"Mal não vai fazer ouvir um conselho dele", pensou Milo. Talvez fosse bom para ajudar a resolver a sua vida que andava tão bagunçada. E olha que nem falara direito com Aioria ainda!
- E o tal de Saga, voltou a procurar o Milo? – Shaka perguntou ao Mu enquanto arrumavam a mesa para o jantar. Pouco mais de um mês havia se passado desde a cena na loja de discos. O ariano comentou o caso com o amigo e de vez em quando debatiam sobre o assunto, como acontecia agora.
- Lá na loja ele não foi mais, mas parece que o Milo o viu algumas vezes sim – Mu respondeu da cozinha enquanto procurava uma travessa - Acho que na verdade essa história ainda está longe de acabar, viu. Ainda deve vir muita dor de cabeça por aí.
- Você se preocupa demais com o Milo, não é? – o loiro perguntou quando Mu entrou na sala, olhando para o amigo com a testa meio franzida.
- Claro que sim, ele é meu amigo. Apesar de ser um safado. Só gente louca para sair com ele, francamente! E o pior é que quando ele tem alguma preocupação, por menor que seja, fica totalmente imprestável! Aí eu tenho que cuidar de quase tudo lá na loja: da contabilidade, do estoque, das encomendas, dos pedidos, separar brigas, tudo – explicou o ariano desolado.
- Ah ta, então é isso! – a expressão no rosto de Shaka suavizou-se.
- Por que, o que foi? – Um perguntou, estranhando a reação do outro.
- Ah...Não foi nada não – o loiro ficou meio sem graça e tentou mudar de assunto – e a sua mãe quer mesmo que a gente vá para a casa dela no final de semana?
- Não é que ela queira, ela exige. Acho que eu vou ter que ir mesmo, se você não quiser...Deve ter muita coisa para estudar, não é?
- Tudo bem, não tem problema. Não vai me atrapalhar, eu estou com a pesquisa bem adiantada. E eu tenho bastante ajuda, aquele assistente do meu orientador só falta me carregar no colo... Eu vou sim, eu gosto muito da sua mãe.
- Ah, ela também te adora – Mu deu uma risadinha – E vai me azucrinar o fim de semana inteiro, pode ter certeza.
- Mas por que? – Shaka perguntou.
- Bom, ela já adorava ficar me comparando com o meu irmão, sabe, e agora vai me comparar com você também, porque eu sou um irresponsável, que abandonou a possibilidade de uma carreira promissora e um futuro estável para ficar em uma loja com dois desocupados afundado naquela música estúpida...
- Não acredito que ela ainda fale assim! – o loiro disse incrédulo - Pensei que já tivesse passado dessa fase!
- Com certeza não passou – Mu sorria levemente - mas não há nada a se fazer a respeito e também não importa, eu já me acostumei. Deixa ela me achar um fracassado...
Shaka levantou-se da sua cadeira e parou em pé ao lado do amigo, que virou os olhos em sua direção, sem entender. O loiro sorriu e disse:
- Eu sei que isso te incomoda sim, mesmo que você negue. Eu te conheço. Mas não precisa se preocupar, não vou deixar ninguém te perturbar. Você vai ver.
Camus estava irritado. Possesso. Pê da vida. Ele não era disso, definitivamente. Não gostava de ter que brigar ou sair dando sermões nos outros. Mas quando era preciso, ninguém segurava!
Saga estava sentada no sofá do apartamento do namorado há quase uma hora, ouvindo o outro falar e falar e falar, sem ter uma chance de dizer nada, pois caso tentasse o outro logo interrompia e falava mais ainda:
- Que coisa Saga! Eu tinha conversado com você, eu pedi tanto! Se eu soubesse eu não tinha falado nada! Por que você tinha que procurar o Milo?
- É que... – o crítico tentou responder mas foi inútil, novamente foi interrompido:
- É que nada, Saga! Você não tinha nada que ir até lá, eu já disse!
- Mas...
- Se eu soubesse que ia ter tanta dor de cabeça! Eu já disse que isso é assunto meu e não seu!
- É assunto seu, mas você não resolve, inferno! – Saga perdeu a paciência com o francês – Olha aqui, Camus, eu só fiz o que eu achei que devia fazer. Eu não quero que aquele safado fique te atormentando e se precisar ele vai se ver comigo, pode ter certeza!
- Você não faria nada com ele – Camus disse meio cético.
- Duvida é?
- Mas por que isso agora – o ruivo sentou-se, sentindo-se cansado daquela história – Ciúme não é, você não é disso. Nem adianta me dizer que está apaixonado ou qualquer besteira assim porque eu sei que não está, eu te conheço. Então me explique, por favor, por que você está tentando assustar o Milo desse jeito? Você pode acabar tendo problemas por causa disso...
- Você não faz idéia mesmo? – perguntou o geminiano.
- Se eu soubesse não estaria perguntando, Saga.
"Como isso cansa", pensou o ruivo. Sabia que devia ter voltado para a França logo que reencontrou Milo. Aquele infeliz só lhe dava problemas, mesmo de longe.
- É muito simples, meu caro francês – Saga explicou – eu não quero que ele te magoe novamente. Antes de mais nada nós somos amigos. E eu detesto que os meus amigos sofram. Eu sei que você ainda gosta dele apesar de tudo, e, bom, ele parece estar interessado em você, foi o que deu para perceber a partir das nossas...conversas. Mas ele não parece ser uma pessoa confiável, então acho melhor você tentar se preservar e, para isso, eu decidi tentar deixa-lo afastado.
Camus processava o que tinha ouvido. Então Milo estava...interessado nele? De novo? Será então que o que a Marin havia dito...Não era possível. Aquele safado só devia estar querendo se aproveitar mais uma vez. Mas será? Tinha se passado um bom tempo já, talvez ele tenha mudado...
- Mas pelo visto não vai adiantar. Você já está todo balançado por ele de novo – Saga continuou – Se você não quer que eu me meta, ok, eu fico de fora e você decide o que faz, certo. A vida é sua. Mas eu acho que você deve tomar cuidado. Até hoje não cicatrizou direito, não é? E já faz tempo.Vai ser difícil de superar se acontecer de novo. Falo por experiência própria. E quando decidir o que fazer, me avise. Tenho que ir para a redação agora.
O crítico deu um beijo de leve no namorado e saiu. Camus ficou pensativo e confuso. Não sabia o que fazer. Não mesmo. Ficara irritado por Saga importunar Milo mas...pelo menos o namorado se importava com os sentimentos dele, ao contrário do outro. Mas segundo Marin, Milo disse que se arrependia e que ainda...Mas dava para acreditar?
Camus deu um longo suspiro, passando as mãos pelos cabelos.Achou melhor não pensar mais no assunto. Isso. Iria decidir o que fazer depois, de cabeça fria.
Apesar de ser um sábado, Mu decidiu confiar no seu sócio e deixou a loja aos cuidados dele enquanto visitava a sua mãe que morava em Dartford, não muito longe de Londres ("mas também não muito perto", penou Shaka durante a viagem). Não que estivesse muito animado para a viagem, mas sentia que era seu dever como filho. Ia dirigindo em silêncio, enquanto Shaka, sentado ao seu lado, o observava por trás de seus óculos escuros. Pode perceber que o amigo estava tenso. Será que a mãe de Mu estava tão impossível assim, pois o amigo era tão paciente...
- Está tudo bem com você? – o loiro perguntou enfim, preocupado com o outro.
- Que? Que foi? – Mu assustou-se quando o virginiano falou. Estava distraído mesmo.
- Eu perguntei se está tudo bem com você – Shaka tornou a dizer, tirando os óculos e encarando o amigo.
- Ah sim, eu estou legal sim. Não se preocupe...
- Está mais distraído que o normal. Sua mãe não pode estar tão intratável assim Mu, para te deixar a ponto de não querer ir visitá-la.
- Não é que eu não queira ir – o ariano explicou - Eu adoro a minha mãe mas, ela enche o saco toda vez que eu vou lá. Por isso eu meio que acabei me afastando.
- É tão ruim assim? – Shaka perguntou.
- Você vai ter a chance de tirar suas próprias conclusões.
Chegaram finalmente à casa da mãe de Mu. A mulher, Savitri, ao ouvir o barulho do carro estacionando no quintal saiu correndo para encontrar o filho.
- Meu querido que saudade – a mulher abraçou Mu e lhe deu um beijo no rosto – finalmente arranjou um tempo para a sua velha mãe infeliz. Imagino que seja difícil largar aqueles discos estúpidos de vez em quando só para ver uma...
- Mãe! Menos, por favor! Lembra do que eu tinha pedido? – o ariano disse com voz firme. Ia tentar adiar ao máximo a hora em que a sua mãe começaria a desfiar o rosário de críticas sobre o modo como conduzia sua vida. Principalmente porque Shaka estava ali também. Não sabia exatamente porque, mas não queria que o loiro tivesse uma impressão ruim sobre seu trabalho ou suas escolhas. Claro, o amigo já havia demonstrado que não se importava, mas com a influência das críticas de sua mãe...
Seus pensamentos foram interrompidos quando Savitri cumprimentou o indiano:
- E você, como cresceu! Parece até que foi outro dia que você e o Mu estavam brincando juntos e agora...Dois homens feitos! E ficou tão bonito...Já tem uma namorada, com certeza! Se não deixou uma na Índia já deve ter arrumado por aqui...
- Mãe! – Mu protestou novamente. A mãe não tinha nada que ficar se intrometendo na vida do amigo. Que coisa mais constrangedora! Além disso, aquilo tudo estava tomando um rumo desagradável, deixando-o mais perturbado do que deveria. Desde quando se importava tanto com a opinião de Shaka ou com a possibilidade dele ter uma namorada?
Shaka percebeu o desconforto do ariano com a situação. Ele mesmo estava envergonhado mas Mu parecia...perturbado. Seria por sua causa? Será que ele também...Decidiu pensar nisso em outra hora. Respondeu enfim:
- Não dona Savitri, eu não estou com ninguém não. Por enquanto aqui na Inglaterra só estudos mesmo.
- Por enquanto, né...Sei, sei... Mas vamos entrar, meninos. Daqui a pouco eu sirvo alguma coisa para vocês comerem.E vocês devem estar cansados também...
A mãe de Mu guiou os dois jovens até a sala, e foi terminar de preparar o almoço. Ao ver que estavam sozinhos, Shaka cochichou, divertido:
- Mas ela não mudou mesmo, hein?! Continua a mesma.
- Continua. Enxerida, resmungona, cheia de razão, enfim, a minha mãe – Mu respondeu mal humorado.
- Não devia se incomodar tanto com tão pouco.
- É que ela só está se aquecendo, espera para ver.
- Acho que é um pouco de paranóia sua...
Shaka pouco depois descobriria que não, não era paranóia do amigo, pelo menos em parte. Durante o dia vira a mãe do ariano fazer vários comentários sobre o fato de Mu ter largado a faculdade e aberto "aquela maldita loja inútil", sobre como os amigos dele eram todos umas péssimas influências ("Claro que isso não se aplica a você, querido!"), sobre como o rapaz nunca trouxe uma namorada em casa para que ela conhecesse (e nessa hora Mu ficou mais roxo que os seus cabelos, fazendo com que Shaka se lembrasse das brincadeiras dos caras da loja). Enfim, a mulher aporrinhou o filho até não poder mais. E a perspectiva era de uma grande piora, pois à noite alguns tios viriam jantar em casa.
E não deu outra. Após uma agradável conversa amena chegou aquele momento do serão onde os pais deveriam comentar o progresso das crianças, que não eram necessariamente crianças. Assim, todos os mais velhos comentaram sobre a excelência acadêmica, sobre os bons empregos conseguidos e sobre as famílias que seus filhos haviam constituído, até que o assunto se concentrou no "sobrinho irresponsável que abandonou os estudos":
- E você Mu, ainda com aquela teimosia de não voltar para a faculdade e manter aquela loja boba? – um dos tios perguntou.
- Aquela loja boba é o meu trabalho e vai muito bem, então eu não tenho motivo para voltar a fazer um curso do qual eu não gostava – o ariano respondeu visivelmente irritado. "tava demorando!", ele pensou
- Mas não é muito ajuizado da sua parte isso, você deveria estudar, porque caso tudo de errado então você terá uma outra opção.
- Bom tio, nós já conversamos sobre isso e eu já disse que não pretendo voltar pra a faculdade. Se "tudo der errado", o problema é meu!
- Filho, não precisa falar assim! –a mãe de Mu interveio - Se nós pegamos no seu pé é por que a gente se preocupa com você, com o seu futuro...
- Verdade, querido, você devia se espelhar no exemplo do seu amigo aqui. É mestrado que ele está fazendo não? – uma das tias perguntou.
Shaka já havia percebido que Mu ia ficando cada vez mais nervoso conforme a conversa se desenrolava e não gostou nem um pouco de ter seu nome enfiado na história assim. Certamente aquilo não ia acabar bem...
- Ah, mas a loja dele é muito boa, tem muitos clientes e é uma das melhores do gênero. É bastante comentada entre os fãs de rock, mesmo eu que cheguei há pouco tempo já percebi isso.
- Ah sim, querido mas é tudo uma gente desocupada. Um bando de drogados irresponsáveis e o Mu vai acabar sendo confundido com eles. Eu não gostaria que...
Essa ultima frase não foi terminada porque Mu se levantou irritadíssimo da mesa e saiu batendo a porta ruidosamente. Fez-se um silencio desagradável na mesa por um tempo, até que Shaka, constrangido, levantou-se também e saiu atrás do amigo.
Estava escuro e o indiano não conhecia o lugar, por isso demorou um pouco para encontrar Mu. O rapaz estava sentado na calçada, perto de um playground antigo. Shaka se aproximou e sentou-se ao lado do amigo sem dizer nada. Ficaram assim por um tempo até que Mu, sem olhar para o loiro quebrou o silêncio:
- Que saco! Minha vida parece uma música do Bruce Springsteen...Eu sempre disse para o Milo que The Boss tem todas as respostas para tudo o que importa - a voz do ariano soava amarga -E então, o que achou do debate da família sobre o jovem fracassado aqui?
- Acho que eles são uns idiotas por não perceberem o quanto você é esforçado e inteligente. Além de ter muita paciência, porque eu teria explodido há muito tempo – Shaka disse a última frase com um tom divertido.
- Quase seis anos – disse o ariano olhando para o céu.
- Quase seis anos o que?
- Que eu agüento essa ladainha toda vez que me encontro com a minha família. Até fiquei com medo que você pensasse como eles...
- Minha opinião importa tanto assim? – O loiro olhou para o amigo esperando uma resposta.
- Importa demais – Mu respondeu, agora olhando para o rosto do amigo.
- Pode ficar tranqüilo quanto a isso. Mesmo que eu não concordasse com o que você faz da sua vida eu ficaria ao seu lado sempre, nem que fosse só para dar apoio moral.
- Obrigada, Shaka – a voz de Mu saiu num sussurro quase inaudível.
A cabeça do ariano deitou sobre o ombro do amigo, que começou a acariciar levemente os cabelos de cor lilás. Quando eram crianças costumavam ficar daquele jeito sempre que estavam tristes. Mu deixou-se ficar naquela posição, fazia tempo que não tinha alguém com quem pudesse conversar assim. Sentiu o amigo beijar de leve sua cabeça e voltou os olhos verdes para encarar o outro.
Como se estivesse hipnotizado pelos olhos do amigo, Shaka não conseguiu se segurar. Aproximou lentamente seu rosto do de Mu. Seus lábios acabaram por se tocar. Apenas de leve no inicio, mas logo o ariano tomou a iniciativa e os dois se beijaram com mais intensidade. A língua do ariano explorava a boca do indiano sofregamente, enquanto o loiro acariciava suas costas com suas mãos finas. De repente perceberam o que estava acontecendo e se afastaram, encabulados e sem fôlego.
- Me desculpe, eu não devia ter... – Shaka tentou explicar, mas Mu cortou:
- Não, a culpa é minha, eu tenho me sentido tão estranho nesses últimos tempos, e acho que...
- Acha que...
- Nada não – o tibetano ficou vermelhíssimo nessa hora, o que foi percebido por Shaka, que decidiu desconversar por enquanto:
- Quer voltar agora? – o loiro perguntou.
- Eu não. Vou deixar todo mundo á vontade para me criticar bastante. Amanhã cedinho a gente volta para a nossa casa e... – Shaka começou a rir nessa hora.
- "Nossa casa"? – o loiro perguntou.
-É – Mu respondeu, sem entender qual era a graça – Eu e você moramos lá certo, então é nossa casa.
- È que ficou estranho com a ênfase que você ao "nossa" – Shaka explicou.
- Bom, eu não considero mais a casa da minha mãe como a "minha casa" desde que eu fui para Londres.
- Mesmo assim, do jeito que você falou ficou esquisito. Sei lá, parecia um recém-casado falando com a esposa sabe, aquelas coisas bem de filme brega.
- Ah – Mu ficou mais vermelho ainda, primeiro o beijo, agora aquilo. O que estava acontecendo ali afinal?– Desculpe, não foi intencional. Te incomodou?
- Nem um pouco! – Respondeu o loiro sorrindo abraçando o ariano que arregalou os olhos a princípio, mas depois se deixou abraçar satisfeito. Teriam muito que conversar depois que voltassem para a casa deles.
Final de tarde de sábado, a loja estava cheia. Milo contava somente com a ajuda de Aioria, já que Mu havia ido para a casa da Megera (era mútuo o ódio entre Milo e a mãe do sócio). Ainda bem que o emprego do leonino (que era responsável pela discotecagem em uma casa noturna de rock da região) oferecia uma certa flexibilidade de horários, senão Milo estaria ferrado naquele dia com tanto trabalho.
Na hora em que as coisas sossegaram um pouco, Milo começou a contar sobre os últimos incidentes com Saga:
- ...e aí teve um dia em que ele me encurralou com o carro em um beco dando a entender que ia me atropelar, e um dia em que ele tentou me atropelar de verdade, e um dia em que eu recebi um bonequinho sem cabeça com meu nome escrito...
-Nossa, cara! – Aioria impressionou-se – você devia ir até a polícia, dizer que ele anda te ameaçando e tal! Vai que uma hora dessas ele resolve te apagar de vez!
- Acho que não – Milo disse pensativo – acho que ele só quer me assustar, sabe, para que eu não tente me aproximar do Camus. Ele não iria fazer nada de sério contra mim. O Saga é um cara esperto, não iria querer se prejudicar assim...
- E você vai fazer o que sobre o Camus? A Marin te arrumou o telefone e endereço né?
- Já, mas quando eu liguei foi o Saga que atendeu, então eu desliguei na hora. E eu fico com medo de ir até a casa do Camus e dar de cara com aquele louco.
- E se a Marin tentasse marcar alguma coisa?
- Fora de cogitação, ela disse que o Camus anda desconfiado. Eu não sei mesmo o que fazer...
- Um Top 5 de melhores músicas do REM então! – disse Aioria tentando animar o amigo.
- Eu nem gosto muito de REM. O Mu é quem gosta mais, devia esperar ele voltar...
- Não, vamos lá, começa!
- 'Tá certo, então, em quinto tem hmmm..."Welcome To The Occupation", em quarto "Wolves, Lower"...
- Nenhum hit? Seu metido!
- Cala a boca, vai! Me deixa pensar... em terceiro... – o escorpiano arregalou os olhos ao olhar para a porta e ver quem vinha entrando – Pronto! Ferrou tudo agora!
- O que foi? – Aioria também olhou para a porta – É, ta lascado agora...
- É o fim do mundo... – Milo resmungou.
Camus vinha entrando pela loja, silenciosamente, com o olhar fixo em Milo. Chegou perto do balcão onde o loiro estava e disse, com uma voz que não deixava transparecer emoção alguma:
- Boa tarde Milo. Me desculpe a intromissão, mas nós temos um assunto sério para conversar.
Olá mais uma vez!
Obrigada por continuarem lendo essa história apesar de a autora ser uma criatura tão relapsa. Mais uma vez, me desculpem por eventuais erros. Eu queria ter elaborado mais (e melhor) algumas cenas especialmente a parte do Shaka e do Mu, mas não conseguia nem a pau, então decidi postar logo e talvez uma outra hora eu dê uma mexida nisso aqui. Se alguém encontrar algum erro muito grotesco, eu peço que me avise por favor.
Só para constar, as músicas citadas no capítulo são todas da banda REM. A do título e, Welcome To The Occupation são do álbum Document de 1988, Wolves, Lower saiu pela primeira vez no EP Chronic Town, de 1982. E "The Boss" é a forma como os fãs do Bruce Springsteen se referem a esse cantor. Mais sobre ele nos próximos capítulos XD.
Mais uma vez, obrigada a todos que estão lendo a história e agradeço imensamente pelas reviews tão gentis que me deixaram. Fiquei muito feliz mesmo.
Até o próximo capítulo!
