CAPÍTULO 4

Draco se virou com o pensamento de que a sensação de acordar era maravilhosa, em especial depois de um sono tão desejado como tivera sido esse. Porém a felicidade foi temporária, ele se deu conta de onde estava e do que estava acontecendo. Já era de manhã, os estudantes que dormiam no quarto já haviam acordado e andavam de um lado para o outro, fazendo barulho. Draco agradeceu pela cortina na cama de Harry. Harry esse que ainda dormia ao seu lado.

- Harry, vamos lá, você tá dormindo demais. Vai se atrasar! – Draco levou um susto com a voz que vinha do outro lado da cortina. Provavelmente era Ron Weasley quem falava.

Calmamente, Draco se remexeu e encarou Harry de perto, observando seus cílios se mexerem enquanto a respiração ia e vinha. Colocou a mão sobre a boca dele com delicadeza, quase dando um beijo em sua testa para acordá-lo, mas só balançou seu corpo. Quando Harry acordou, estava assustado. "O que está acontecendo?" – Era o que seus olhos diziam. Mas Draco fez um "shhhhh" e ele decidiu se acalmar.

- Eles estão acordados. – Sussurrou Draco. – Como é que eu vou sair daqui?

A pergunta não teve resposta e só então Draco percebeu que continuava com a mão sobre a boca de Harry.

- Eu vou dar um jeito. – Harry disse com voz sonolenta assim que se libertou.

Harry agiu rápido, jogou o lençol sobre a cabeça de Draco e posicionou metade do seu corpo sobre ele, bloqueando a visão de Ron no momento que ele abriu as cortinas da cama.

- Harry, que diabos? – Ron arrumava a gravata. – A Hermione já está gritando por mim. Você não vai pra aula hoje?

- Na verdade Ron, eu acho que não vou. – Harry disse o mais estranho que pôde. – Não estou me sentindo bem, sabe.

- Oh. – Ron pareceu compreensivo. – Quer que eu te leve pra Madame Pomfrey?

- Não! – Harry se remexeu. – Hm... Eu vou mais tarde, não precisa se preocupar.

- Tudo bem. – Harry fechou a cortina antes mesmo de Ron terminar a frase.

Saiu de cima de Draco e puxou o lençol, encarando-o meio constrangido. Draco ficou contente em poder respirar normalmente de novo.

- Desculpe por isso. – Harry sussurrou. – Foi estranho.

- Ah, não. Foi eficiente. – Draco sorriu.

- Tudo bem, então. Que pena que você vai perder sua aula hoje.

- Na verdade, eu tenho esse período livre.

- Isso é ótimo. – Harry conseguiu rir por cima do constrangimento.

Eles esperaram que todos saíssem, até o quarto ficar silencioso. Draco decidiu naquele momento que seu constrangimento não iria mais impedi-lo de fazer o que ele desejava. Mesmo se fosse um enorme constrangimento.

- Então a maldição é realmente essa. – Draco se sentou cruzando as pernas depois de espiar para fora da cama e ver que estavam mesmo sozinhos. – Nós só podemos dormir se estivermos juntos.

- Não é tão ruim como poderia ter sido. – Harry admitiu. – Talvez nós devêssemos tentar, hm... Nos conhecer melhor? Já que só podemos dormir juntos?

- Claro. – Draco sorriu de novo, grato por Harry ter aceitado a situação tão facilmente.

Harry se sentou também, imitando a posição de Draco.

- Eu nem sei por onde começar. – Ele disse e abriu as cortinas.

- Vamos começar pelas coisas constrangedoras. – Draco falou, como um bom Sonserino faria.

- Ok, mesmo assim não sei o que contar. – Harry ficou vermelho.

- Ah, qual é. Aposto que você tem um monte de podres. O menino que sobreviveu...

- Nem tanto... Bem, tem aquela coisa, mas acho que você já entendeu isso.

- O que?

- Sobre Voldemort. – Harry olhou para baixo, mudando de expressão. – Sobre como eu fiquei. Especialmente depois que ele morreu.

Draco sentiu um aperto no peito. Ele odiava como mesmo depois de morto, Voldemort ainda assombrava sua vida e a de outros bruxos e bruxas.

- Voldemort que se foda. – Draco colocou uma mão sobre o ombro de Harry. – Você nem deveria mais pensar nele. Só... Perceba quão melhor você e todo mundo está agora que ele se foi. Por isso você merece ser feliz.

- Certo. – Harry franziu as sobrancelhas, mas pareceu bem melhor do que antes. – Obrigado.

Tentando iluminar a conversa novamente, Draco mudou de assunto.

- Então acho que agora é minha vez de dizer algo constrangedor. Na verdade o seu não foi nada constrangedor, então eu vou falar algo bombástico.

Harry pareceu interessado.

- Ok, então... Eu soube disso nessa semana. Ninguém sabe, bem, uma pessoa sabe.

Draco então procedeu para falar para Harry sobre sua "grande descoberta" (que havia sido realizada com a ajuda de Blaise) e falou tão rápido que nem se deu conta quando tinha terminado. Harry ria.

- O que? Ah, qual é. – Draco se sentiu pequeno enquanto Harry ria dele, talvez tudo isso tivesse sido uma grande ideia ruim.

- Desculpe, é só que... Você ficou todo vermelho falando agora e eu nunca pensei que ouviria nada parecido com isso vindo da sua boca. Quer dizer, não pensei que você me contaria isso.

- Isso é... Verdade. Mas então quer dizer que está tudo bem por você?

- Porque você é bissexual? Você está brincando? – Harry parou de rir. – Oh, você não sabe.

- Não sei o que?

- Que eu sou tão, tão gay.

- Sério? – Uma pontada de esperança enfim.

- Sim. Como você pode não saber? Acho que todo mundo sabe.

- Eu achava que era só mais um boato. E quanto ás meninas que você namorou?

- Eu acho que você quer dizer a Cho, ela foi a única. Nada deu certo entre nós, ela é uma ótima pessoa, foi ai que eu percebi que talvez houvesse algo diferente em mim e então... Bem, eu percebi que gostava de garotos, simples assim.

- Ohhh.

- E como você descobriu? – Harry continuou interessado na história. – Deu um amasso em algum garoto bonitão?

- Não. Pelo menos não ainda, mas eu pretendo. – Draco não sabia bem o que dizer, ele estava mesmo feliz com a abertura de uma possibilidade, mas esperava não deixar transparecer.

Um momento se passou e Harry se levantou, deixando Draco sentado na cama.

- Eu só vou trocar de roupa, tudo bem?

- Todo bem. – Draco respondeu com o sangue gelando nas veias.

Draco escutou a roupa de Harry atingir o chão e não conseguiu evitar espiar. Ele estava virado para o outro lado, por isso (ainda bem!) não conseguia ver Draco. Harry já tinha vestido a calça, mas ainda estava procurando no armário por uma camisa.

Ele tinha a pele bronzeada, quase morena. Draco conseguia ver as curvas de seu corpo, os músculos nos lugares precisos. Não tinha como negar: Harry Potter era sexy.

- Você quer alguma roupa emprestada? – Harry gritou pra ele e Draco virou o rosto, fingindo que não estava olhando para ele apenas um segundo atrás. – Não vai ser legal pra você sair por ai vestindo pijamas.

- Claro, se não for muito incômodo. – Draco saiu da cama, agradecendo a Merlin por Harry ainda estar sem camisa para ele poder ter uma visão da parte da frente de seu corpo.

- Devo avisar que minhas roupas não são nada comparadas às suas. – Harry jogou uma camisa simples azul em Draco. – Acho que essa pode dar certo. Tente essas calças.

Draco pegou as roupas e foi para o outro lado da cama, envergonhado demais para se trocar na frente de Harry. Já foram emoções demais para um só dia.

- Deu certo? – Harry apareceu do nada ao lado de Draco completamente vestido.

- Sim, sim. Tudo certo. – Ele fechou o zíper da calça rapidamente.

- Então Malfoy, o que você vai fazer hoje? Eu não posso mais ir pra aula e... Se você quiser nós poderíamos fazer alguma coisa.

- Claro. Eu não sei o que vou fazer... – Pensa Draco, pensa. – Nós poderíamos pesquisar sobre essa maldição, quem sabe conseguimos algumas respostas.

- Essa é uma ótima ideia.

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Sair da sala comunal foi uma dificuldade. Muitos alunos estavam em aula, mas alguns poucos tinham o período livre ou simplesmente não se importavam o suficiente para ir para a aula. Draco não tinha ideia de como sair dali sem ser detectado. Fora Harry quem sugeriu que ele se escondesse sob a incrível capa de invisibilidade que ele possuía.

E assim eles foram: Draco encolhido sob a capa para não ser visto, Harry o acompanhando de perto para não se separarem. Draco só se viu livre depois de descerem vários lances de escada e estarem distantes da torre da Grifinória.

Decidiram que a biblioteca seria o melhor lugar para fazer sua busca sobre a maldição. Draco entrou carregando a capa e vestindo as roupas emprestadas de Harry. Ele desejou que nenhum Sonserino o visse: Ainda não estava pronto para esse conflito inevitável.

- Eu não sei por onde começar. – Harry disse quando eles seguiram para as prateleiras.

- Vamos ver a seção de maldições. – Era óbvio, mas hoje, só hoje, Draco não o insultaria.

Eles procuraram, mas não conseguiram encontrar alguma página que fosse sobre esse tipo de maldição. Draco sabia que se falasse com Blaise, tudo seria mais fácil, mas ele não queria fazer isso, não queria perder nenhum momento com Harry.

- Eu desisto. – Harry falou, batendo um livro verde e pesado sobre a mesa, as pessoas ao redor olharam com cara feia.

- Eu tenho certeza que vamos resolver isso... Nesse meio tempo, como você disse, não é uma maldição tão ruim. Pelo menos agora conseguimos dormir.

- Você tá certo. – Alguma coisa fez um barulho alto, como se borbulhasse.

- O que diabos foi isso? – Draco perguntou.

- Meu estômago. – Harry riu. – Estou morrendo de fome, já é hora do almoço.

Draco nem tinha se dado conta que eles tinham passado o dia sem comer nada. Ele também estava morrendo de fome.

- Vamos almoçar. – Draco disse e foi devolver os livros ás prateleiras.

Eles chegaram ao portão para o Grande Salão antes de Draco perceber. Ele olhou para Harry antes de abrir caminho.

- Nós vamos nos encontrar de novo? – Draco perguntou. – Eu quero dizer, essa noite, para dormir.

- Acho que sim, não temos outra escolha.

Draco gostaria de dizer que dormiria ao lado dele mesmo se tivesse escolha, mas invés disso só disse: - Onde?

- Você que sabe. Meu quarto de novo? Ou no seu?

- Os Sonserinos sempre ficam acordados até tarde, vai ser difícil te colocar pra dentro sem ninguém ver.

- Então você pode vim pra Grifinória, as pessoas não dormem tão cedo, mas se você vier um pouco tarde dá certo.

- Ok. Então... Até mais tarde, Potter. – Draco entrou no Grande Salão indo para a mesa da Sonserina.

- Ei Malfoy. – Harry chamou. – É Harry pra você.

- Draco. – Draco sorriu e eles apertaram as mãos, como estivessem acabando de se conhecer.

E acabaram mesmo. De verdade dessa vez.

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Foi difícil se concentrar na aula de poções, ainda mais com Harry tão próximo.

Draco novamente fazia dupla com Blaise, dessa vez ele mal fazia sua parte da poção. Slughorn passou por eles com um olhar de reprovação.

- Draco, que diabos! – Blaise o empurrou com o ombro para chamar sua atenção. – O que tá acontecendo?

- Desculpa. – Draco tentou se explicar. – Não é nada.

- Então me ajuda com a porcaria da poção.

- Tá certo, tá certo.

Draco tentou mesmo se concentrar, mas estava difícil. Ele era Draco Malfoy, caramba, queria tirar notas boas como sempre. Mas o fato de não ter certeza do que viria a seguir com ele e Harry o deixava inquieto.

Cogitou a possibilidade de falar com Blaise naquele momento sobre desfazer a maldição, mas ele deixou o egoísmo vencer. Só por essa noite, disse a si mesmo. Ele só desejava mais um dia com Harry para ver o que aconteceria.

Ele colocou apenas dois dos diversos ingredientes da poção e Blaise simplesmente revirou os olhos e terminou sozinho. Não terminaram cedo ou bem o suficiente para ganharem pontos, mas no final, pelo menos a poção estava correta.

- Você vai ter que me dizer o que está acontecendo. – Blaise disse enquanto eles se espremeram para fora da sala junto com o resto dos estudantes. – Isso é sobre o Potter?

- O que? Não... Cala a boca, tá certo? Depois eu falo com você. – Draco nem tinha escutado muito bem o que Blaise tinha dito, mas tinha ouvido o nome de Harry.

Harry estava se afastando ao lado (como sempre) de Ron e Hermione, mas o que fez Draco prestar atenção foi o fato de ele olhar pra trás. O Grifinório deixou os amigos continuarem a andar e ficou parado, dessa vez procurando o olhar de Draco.

Sem perder tempo, Draco foi até ele. Quem se importava se as pessoas estavam vendo?

- Aquilo é o Potter falando com Draco? – Pansy apareceu ao lado de Blaise. – Eu não acredito que todo nosso esforço foi em vão e Draco já está nessa de novo.

- Não foi em vão: Olhe. – Blaise apontou para os dois, eles não podiam escutar o que os garotos falavam, mas podiam ver.

- Pensei que estivesse doente. – Draco brincou quando chegou ao lado de Harry.

- Foi uma cura milagrosa. – Harry sorriu para ele. – Ótima aula de poções, hein?

- Claro, quem não ama a aula do Slughorn... – Draco respondeu sarcasticamente.

Hermione gritou por Harry longe no corredor.

- Então, eu passo lá depois das dez? Ou das onze talvez? – Draco perguntou antes que Harry fosse embora.

- Dez está bom. Eu te espero na sala comunal, caso alguém ainda esteja lá, te coloco sob minha capa, tudo bem?

- Certo, perfeito.

Hermione apareceu ao lado de Harry.

- Harry por que está parado aqui?

Ouve um pequeno momento constrangedor. Ele não tinha percebido que Draco estava ali.

- Oh, oi Malfoy. – Ela disse.

- Granger. – Draco cumprimentou e se afastou, voltando para o lado de Blaise que ainda observava a cena.

Pansy também estava lá e olhou para ele de forma estranha, era um olhar em que Draco não conseguia reconhecer a emoção.

- O que você está fazendo conversando com o Potter? Olha, se tiver alguma coisa acontecendo é melhor você me falar logo.

- Eu acho que eu gosto dele. – Draco deu de ombros quando falou, mas percebeu imediatamente o que tinha saído de sua boca e a cobriu desesperadamente.

- Você o que? – Pansy estava mais surpresa do que nunca. – Como você pode mudar de opinião assim? Por essa eu realmente não esperava.

- Você não está com raiva? – Draco repetiu a pergunta que tinha feito a Blaise quando o contou.

- Porque você gosta dele? Não mesmo. Eu nem tenho nada a ver com isso, de qualquer jeito. Você sabia disso, Blaise?

- Ele me contou na outra noite.

- Muito bem, seria até bom se você me contasse também Draco. Eu ainda sou sua amiga ou o que? De qualquer jeito só... Toma cuidado, tudo bem? Garotos são babacas, não importa quem sejam.

- Certo. – Draco sorriu.

Nunca pensou que ouviria conselhos de Pansy sobre garotos, mas aqui estavam eles e nem era assim tão ruim.

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Draco contou os minutos para subir as escadas até a sala comunal da Grifinória. Sair da Sonserina não havia sido fácil por todas as pessoas que estavam ali, mas depois de muito esforço ele conseguiu sair sem que ninguém o impedisse.

Chegando à porta da Grifinória, ele parou. Talvez ainda estivesse cedo demais, ele não queria estragar tudo. Por isso se sentou na escada, implorando para que ninguém tivesse o desejo de sair de lá no meio da noite.

Depois de poucos minutos, que pareceram uma eternidade para Draco, ele desistiu e se aproximou do retrato da mulher gorda. Dessa vez ele teve mais cuidado com a roupa que vestia, não que pensasse que Harry se importaria com isso. Usava um pijama de regata e calça brancas, confortáveis ao toque, seja pra quem usasse ou para que pegasse no tecido pelo lado de fora. Trazia na mão um embrulho com as roupas que ele necessitava usar no outro dia.

Ele esqueceu propositalmente a roupa que Harry tinha lhe emprestado. Havia alguma coisa sobre elas que lhe trazia conforto, provavelmente o cheiro. Ele havia passado o resto da tarde depois da aula sentado em sua cama, esperando a hora de dormir chegar e abraçado com a camisa azul de Harry. Imaginou em como seria agradável envolver e ser envolvido por aquele cheiro vindo diretamente de Harry. Uma essência quase como o cheiro de pergaminho novo, misturado a algo único, como se a pele de Harry produzisse seu próprio perfume.

Disse a senha ao retrato, que se abriu sem fazer um som. Draco fechou os olhos, apreensivo demais que ainda tivesse alguém na sala comum. Ele havia passado tempo suficiente com a camisa de Harry para reconhecer o cheiro e quando abriu os olhos encontrou apenas ele. Harry estava sentado numa das poltronas, sozinho na sala e com um meio sorriso no rosto.

- Bem na hora. – Harry se levantou e inesperadamente jogou a capa de invisibilidade sobre Draco. – Desculpe, acho que ainda tem alguém acordado no quarto.

Draco não se incomodou de caminhar em silêncio para o quarto, ainda mais porque ele teve a ideia de segurar no ombro de Harry para lhe assegurar de que ainda estava ali.

Ainda tinham duas pessoas acordadas: Dean Thomas e Neville Longbottom, mas eles já estavam deitados e só conversavam baixinho.

Harry abriu a cortina de sua cama, dando espaço para Draco entrar. Dessa vez foi mais estranho que a primeira, ele sabia que os outros não conseguiam vê-lo, mas o simples fato de estarem acordados próximos a ele deixava Draco desconfortável.

- Ei Harry, me dá uma ajuda aqui. – Longbottom falou da cama. – Eu e o Dean estamos numa discursão sobre quem vai vencer a copa de quadribol. Você aposta na Irlanda ou...?

- Me desculpem gente. Eu não estou no clima para conversas sobre quadribol, talvez amanhã. Estou caindo de sono. – E se encaixou ao lado de Draco, que já tinha tirado a capa.

- Muito bem, deixando seus amigos na mão. – Draco brincou, falando baixo para não chamar a atenção de ninguém.

- Eu não estava... Eu pensei...

- Relaxa Potter, foi uma brincadeira. Aprenda a reconhecê-las, eu faço muito isso.

- É 'Harry', você esqueceu?

- Certo: Harry. Soa bem melhor, na verdade.

Harry pôs o cobertor sobre ele e olhou para Draco, que fez um sinal de aprovação, então Harry o cobriu também.

- Eu ainda estou com sono. Ontem foi uma ótima noite, mas não recuperei todo esse sono perdido. – Harry disse, ainda olhando para Draco, mais próximo dessa vez. – Gostei do seu pijama. É macio.

- Obrigado. – Draco respondeu, quebrando a expectativa de que Harry não perceberia o que ele vestia. – Eu também continuo com sono. Mas é impressão minha ou ainda não estamos conseguindo dormir, mesmo juntos?

- Igual à ontem. Você acha que é preciso algum tempo antes de funcionar?

- Improvável. A maldição deveria reconhecer que estamos juntos. A não ser que...

- A não ser o que?

- Ontem eu só peguei no sono quando você... Quando nossos braços se tocaram. – Draco corou. – Acho que nós precisamos estar em contato direto, quem sabe?

- Vamos tentar. – Harry puxou o braço de baixo do cobertor e esticou a mão para ele.

Draco olhou do rosto de Harry para sua mão. Suspeitava de que aquela seria uma ótima noite de sono.

Ele aceitou a mão de Harry, cruzando seus dedos no meio dos dele. O contraste de suas peles era magnífico. O pálido dos dedos macios de Draco e o bronzeado dos de Harry. A mão de Harry era confortável de se segurar, não que fosse macia como a de Draco, mas era aconchegante, como se tivesse sido construída em especial para envolver a mão de Draco: elas se encaixavam.

- Isso está funcionando. – Harry sussurrou, quase sendo carregado pelo sono. – Você acha que quanto mais contato, melhor vai ser o sono?

E antes que Draco adormecesse por completo, ele sentiu um calor extra que nenhum cobertor do mundo seria capaz de fornecer. Harry o envolveu em seus braços. E seu aroma único o envolveu também.

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- Acorda. – Alguém o chamava, mas o sono era tão reconfortante, porque deixa-lo? – Draco, você tem que acordar.

Com algum esforço, ele abriu os olhos. Tinha alguma pessoa quase em cima dele, uma mancha de cabelos pretos e olhos verdes.

Harry deveria ter parado de tocá-lo, assim ele teria acordado mais fácil. Entretanto, suas mãos ainda estavam entrelaçadas e algumas pequenas superfícies de suas peles se tocavam.

- Eu realmente não queria te acordar, mas o Ron está me chamando faz tempo e não seria legal se ele entrasse aqui e visse isso...

- Não, você está certo. Me desculpe por não acordar. – Draco balançou a cabeça e se sentou rapidamente.

Era provável que novamente um deles se atrasasse ou nem fosse para a aula, dessa vez Draco imaginava que a vítima seria ele.

Harry soltou lentamente a mão de Draco, como se estivesse sendo obrigado contra a própria vontade a fazer aquilo. Draco sentiu como se um grande peso estivesse sendo colocado de volta sobre seus ombros.

- O que eu faço? Como eu vou sair daqui?

- Você fica aqui, eu vou dar um jeito. – Harry deslizava pra fora da cama, mas se atrasou um segundo para pôr uma mão sobre o ombro de Draco. – Não se preocupe, eu não vou te esquecer aqui.

- Eu estou muito atrasado? – Draco ouviu Harry dizer.

- Na verdade, sim, você está. – Ron respondeu. – Não sei o que está acontecendo com você, Harry. Está "doente" de novo?

Draco não resistiu e espiou para fora da cortina. Não havia vários estudantes, como ele pensava, o único que estava ali era Ron Weasley. O ruivo estava sentado em uma das camas, já completamente vestido com o uniforme. Harry estava em pé na frente dele, ainda de pijamas.

- Ron, você não precisa se preocupar...

- É claro que eu preciso me preocupar! – Weasley arfou. – Mione está preocupada. Eu estou preocupado. Harry, se alguma coisa estiver acontecendo, você precisa me contar.

- De onde você está tirando essa ideia? Eu estou completamente bem.

- Já chega dessas mentiras. – Ron se levantou, como ele era mais alto, agora olhava Harry de cima. – Eu não estou nem ai se vou me atrasar pra aula, só saio daqui quando entender o que está acontecendo. – E forçou Harry a se sentar na cama, voltando a sentar-se ao lado dele. Dessa vez a expressão era mais sombria.

- Eu não sei o que você quer que eu fale.

- Desde aquele incidente com o Malfoy você está estranho. Se você estiver voltando a se sentir como antes... Harry, precisa nos contar, nós queremos ajudar.

- Você está cada vez mais parecido com a Hermione falando. Tem que parar de se preocupar, eu estou bem.

- Vou tentar acreditar. Mas outra coisa: O que foi aquilo ontem com o Malfoy? Mione disse que estavam conversando. Conversando mesmo, sem atacarem um ao outro. O que foi aquilo?

- Bem... – Draco percebeu que Harry olhou para trás, para a própria cama onde ele estava. – Nós chegamos a um consenso e percebemos que aquilo tudo era muito infantil, não nos odiávamos de verdade.

- Isso quer dizer que não são mais super inimigos agora?

- Eu acho que nós nunca fomos. Foi bom esclarecer isso. Ele é um cara legal, eu gosto dele.

Por um momento Draco pensou que os batimentos do seu coração poderiam ser ouvidos em outra galáxia.

- Isso é... legal. – Ron disse, aparentando não saber bem o que falar em seguida.

- Não, Ron. – Harry voltou a olhar para a cama, Draco se encolheu de volta para dentro. – Eu gosto dele.

- Oh.

Draco se espremeu contra si mesmo, sem saber o que fazer. Será que isso significa o que eu acho que significa? O que devo fazer agora? Sem precedentes, no meio da confusão, ele jogou a capa de invisibilidade sobre si mesmo e deslizou em silêncio para fora da cama, assim ele poderia ver o rosto de Harry de perto enquanto ele dizia aquilo.

- Oh. – Repetiu Ron. – Tudo bem. Só... Toma cuidado, tá certo? Nós não podemos ter certeza do que ele é capaz.

- Ele não... – Mas ele não conseguiu terminar.

- Eu vou pra aula, já estou muito atrasado. Você deveria se apressar. Falo com você depois.

Draco se sentiu por um momento desrespeitado. Ele achou que aquela situação toda era injusta. Porque Harry faria algo assim? Porque diria como se sente para seu melhor amigo, sabendo que Draco estaria ali para ouvir tudo?

Depois que Ron bateu a porta atrás de si, Harry se levantou de um pulo e abriu abruptamente as cortinas de sua cama, só para descobrir que Draco não estava ali.

- Draco? – Ele chamou.

Draco deixou a capa de invisibilidade cair lentamente e encarou as costas de Harry por um momento.

- Como pôde? – Ele quase sussurrou e Harry se virou.

- Eu...

- Porque você fez isso? Na frente do Weasley. Você sabia que eu estava aqui. Não pensou nisso direito?

- Acho que não, mas... Por favor.

- Não. – Draco apanhou a capa do chão. – Não depois do que ele disse sobre mim. Eu... Eu tenho consciência das coisas que fiz, mas eu nunca faria nada daquilo com alguém com quem me importo. Como ele pode dizer isso? Como você pode concordar?

- Draco, por favor. Eu sei que eu não deveria ter...

- Poupe as palavras, Potter. E não me chame mais de Draco.

Ele jogou novamente a capa sobre a cabeça, sem se importar se não era sua ou se estava de pijamas e deixando muitas coisas, não só roupas, mas muitas coisas, para trás.

Simplesmente correu. Correu escada abaixo, desviando dos Grifinórios. Passou pelo retrato da mulher gorda e continuou correndo pela escadaria, sem olhar para trás. Ele nem imaginava como Harry tinha ficado depois que ele se foi.

Como ele pôde? Repetia pra si mesmo. Como ele pôde? Como pôde?

Atingiu a base das escadarias, mas também não queria voltar para a Sonserina, então continuou correndo. A capa quase escorregando para longe dele enquanto balançava com o impulso, dando vislumbres de vez em quando dos seus pés descalços.

Mal parou para abrir uma das portas que dava acesso ao pátio e saiu para o ar fresco. Correu mais rápido, agora os pés tocando a grama fria. Respirou fundo, apertando a capa contra o corpo para se proteger do frio.

Como ele pôde? Perguntou-se novamente, agora com o batimento mais calmo, o sangue mais frio. Como ele pôde fazer o que, exatamente? Sua consciência lhe respondeu. Não era exatamente isso que você desejava? Que Harry gostasse de você?

Ele parou abruptamente. Tirou a capa de cima dele, o cabelo sendo bagunçado pelo vento.

- Que merda eu estou fazendo? – Ele disse em voz alta, ninguém ao redor para escutar.

Deu meia volta, esquecendo a capa de invisibilidade no chão. Encarou novamente as portas da escola e correu para alcança-las. Mais rápido dessa vez. E mais rápido subiu as escadas, sentindo que seus pés descalços se machucavam com o atrito. Mais rápido ele alcançou o quadro da mulher gorda e praticamente gritou a senha. Mais rápido ele pouco se importou com o olhar espantado dos alunos enquanto ele, um Sonserino, entrava na torre da Grifinória. Mais rápido enquanto ele subia a escada que levava ao dormitório, já ofegante.

Devagar agora. Ele abriu a porta. Era só Harry que estava ali, sentado em uma das camas, com o rosto coberto pelas mãos. O cabelo despenteado e a mesma roupa que usava antes. Draco sentiu novamente seu cheiro e quase se chocou contra uma das camas pela distração.

Devagar. Ele se aproximou. Harry ainda sem perceber sua presença. Respirou fundo e se agachou para encarar Harry bem de frente. Ele puxou as mãos dele, revelando um olhar dolorido.

- Você... – Harry começou, mas Draco não queria que ele falasse, não agora.

Draco se levantou, ainda segurando nas mãos de Harry. Ele o puxou para cima. De tão perto assim, a pequena diferença de altura entre eles podia ser detectada. Os olhos de Harry estavam tão mais verdes, talvez porque eles brilhavam pelas lágrimas quase formadas.

Draco o envolveu com os braços, se aproximando mais e mais. Quase poderia se visualizar numa bolha de aroma perfumado que era o de Harry.

- Eu sinto muito... – Harry começou de novo e Draco decidiu que já chega.

- Cala essa maldita boca.

E o beijou.

FIM DO CAPÍTULO 4