Capítulo 3

Ele podia senti-la fraquejar em seus braços. Ela andava cambaleando, totalmente tonta pela perda de sangue que sofrera. Resolveu segura-la mais forte; tão forte que achou estar sentindo seu coração bater acelerado. Mesmo naquela situação de extremo perigo, ele sentiu um conforto divino ao tê-la nos braços. Ela tinha uma cintura fina, o que o ajudava a envolvê-la mais; ele podia sentir o calor que emanava dela para ele, em um fluxo. Não pode se deter de, discretamente, passar as pontas dos dedos na pequena parte de pele exposta dela. Era estranho, mais a cada toque ele se sentia melhor. Muito melhor.

A sirene parecia ter cessado. Talvez eles tivessem desistido. Mas assim que achassem o carro, iriam procurá-los por todos os cantos da cidade. Por isso ele o abandonou em uma distância razoável de sua casa.

Quando se afastaram um pouco mais no beco, ele resolveu que tinham que parar um pouco. Ela ainda se sentia muito tonta, e ele temeu, a seu despeito, que ela estivesse gravemente ferida. Quando encontraram uma rua escura e deserta, ele a colocou encostada em na parede e a fez sentar devagar, para ver como ela estava.

- Você... você está bem?

- Um pouco tonta ainda, mas vai passar. Não foi um corte tão grande.

- Diabos, como você fez isso?

- Você dirigindo feito louco e eu deitada em baixo dos bancos não poderia ter dado em outra coisa. Eu devo ter batido naqueles ferros que ficam debaixo...

- Ferros? Eles estavam... bem...- ele a fitou com preocupação.

- Não, eu não pegarei tétano.

- Ótimo, um problema a menos.

Ele se arrependeu no tom em que falou isso. Agora foi ela quem fitou bem fundo nos olhos dele; profundos olhos azuis, tão profundos quanto o oceano. Ela pode notar uma angústia por detrás daquele olhar, mas não foi pretensiosa em achar que era só por sua causa. Era uma angústia a muito enrustida naquele olhar, de alguém que já sofrera muito e estava fugindo desesperadamente desse sofrimento. Naquele exato momento, ela entendeu que era a mesma coisa que ela sentia bem fundo em seu coração. Eles tinham o mesmo instinto selvagem de sobrevivência.

- De quem era o carro?

- Como assim?

- De quem você roubou o carro?

- Eu não roubei o carro.

- Ah claro, e eu deveria presumir que todo aquele pavor da polícia foi só por minha causa. – ele a olhou, vencido. Não respondeu.

- Você nem precisava ter fugido pra eu saber que era roubado.

- Ah não? E como a senhorita sabichona descobriu?

- Fácil. O carro tava muito limpo. Cheirava bem até. Tinha um lenço cor-de-rosa no banco detrás, o retrovisor é maior do que o comum, e no porta-luvas tinha dois batons pela metade, uma fita da Patsy Cline e um óculos, feminino. Você não me parece do tipo casado ou gay, então esse carro não pode ser seu. – ele a fitou sarcástico.

- Elementar, minha cara...

E de repente se lembrou que não sabia o nome dela. Fez um olhar de interrogação, e ela compreendeu.

- Kate. Meu nome é Kate.

- Muito prazer, senhorita Kate. O meu é Sawyer. – ele disse, em um tom exageradamente polido.

- Bom, eu acho que eu vou indo. Você já me tirou do parque, acho que preciso ir andando.

- Você esqueceu o favor que me deve?

- Ah... claro. Deixa-me ver quanto eu tenho.

Ela tirou um maço de dinheiro amassado do bolso. Tinha pouco mais de 300 dólares.

- É essa a fortuna que você tem?

- É sim. Não posso fazer nada.

- Então eu acho que você vai me ser útil de uma outra forma – ele disse, sorrindo.

- Nem pense nisso.

- Calma sweetheart. Não é nada que você não adoraria fazer.

- Eu tenho certeza que não adoraria fazer o que você tá pensando em fazer.

- Não é nada disso. É uma maneira fácil de ganhar dinheiro. E pelo jeito você vai precisar de bastante. Você faz isso pra mim, a gente divide o dinheiro, e você pode ir. Prometo não te atacar no meio da noite.

- Você ta me propondo... parceria?

- De certa forma, acho que já somos isso.

Ele levantou da posição que estava e estendeu a mão para ajudá-la a se levantar. Ele pegou firme em sua mão, e ela subiu rápido. Quando ficou de pé, eles estavam perigosamente próximos, narizes a poucos centímetros. Kate sentiu-se tonta novamente, mas desta vez tinha certeza que não era pelo ferimento que sofrera. A proximidade com Sawyer fez suas pernas ficarem moles, e seu coração estava novamente batendo rápido. Ele a olhava profundamente, deliciando a situação de extrema proximidade dos corpos. Percebeu que ela fraquejou novamente, e, lentamente, envolveu sua cintura com um dos braços. Ambos agora estavam com uma respiração difícil, sentindo que o sangue corria mais rápido nas veias. Ela deu dois passos para trás, a mente tentando evitar a situação inevitável, mas seu corpo já respondia por si mesmo. Ela encostou-se à parede, e ele a envolveu ainda mais com os braços; ela podia senti-lo por completo, todo o corpo dele estava em contato com o seu. Sentia que já não podia mais resistir, ele era lindo, um herói grego da antiguidade, com uma presença marcante. Ela passou lentamente as mãos por seu peito, sentido por debaixo do tecido fino da camisa músculos fortes e rijos. Fechou os olhos e levou as mãos para o pescoço dele. Ele subiu uma das mãos que estavam na cintura em direção ao pescoço, a enlaçando ainda mais. Agora poucos milímetros separavam os lábios; ambos já podiam sentir a respiração um do outro, quente e entrecortada. Ele deu um pequeno passo a frente, a pressionando ainda mais na parede, de forma que ela pode senti-lo mais ainda, mais profundamente. Ele roçou de leve seus lábios no dela, um leve arrepio subindo pela espinha. Ele fechou seus olhos e cobriu a boca dela, e o mero contato das línguas o fez estremecer. O beijo começou devagar, mas logo a ferocidade tomou conta dos dois, e as mãos exploravam o corpo um do outro. De assalto o desejo os arremeteu, e os dois mal podiam entender como tudo aquilo começara. Conheciam-se fazia pouco tempo, mas no momento em que eles se olharam nos olhos, houve um entendimento aquém de qualquer entendimento humano. Como se pudessem ter olhado um na alma do outro, e visto o quanto eram parecidos.

O beijo foi bruscamente interrompido pela sirene tocando estridente novamente. Eles se afastaram, se olhando assustados. A surpresa não era única e exclusiva do barulho que teimava ressoar em seus ouvidos; era também de entender onde começava um e terminava o outro, de que maneira estranha eles tinham se encaixado e como, por Deus, eles não tinham se encontrado antes.

Depois de sair do transe que eles estavam imersos, começaram a correr. Sawyer foi à frente, dando a direção. Olhavam constantemente para os lados, para não serem pegos de surpresa. Iam pelas ruas mais escuras e desertas, correndo feito loucos, como se seus pulmões fossem saltar pela boca. Para o alívio de Sawyer, ele tomara a direção certa, e estava a poucos metros do seu apartamento. Decidiu ir pelos fundos, e subir pela saída de emergência, para não serem vistos na recepção. Ele alcançou a escada pulando, e ajudou Kate a subir, e foi logo em seguida. Seu apartamento ficava no segundo andar, e duas escadas à frente, ele estariam seguros. Kate continuou a subir, mas Sawyer lhe chamou a atenção, dizendo que era ali que eles iriam parar. Ele tentou abrir a janela por fora, em vão. Tirou a camisa, a enrolou no braço, e quebrou o vidro da janela. Estendeu a camisa por cima dos cacos de vidro que sobraram na janela, para não se cortarem a hora que entrassem. Deu o sinal para Kate ir primeiro. Ela entrou, relutante. Ele foi logo em seguida.

- Esse apartamento é seu? – disse Kate, ofegante.

- É sim. Vamos ficar seguros aqui por um tempo.

- Você tem água aí?

- Devo ter alguma coisa na geladeira. Vai lá. – ele desmontou no sofá, ainda ofegante.

- Por quê?

- Oras, porque eu estou um tanto cansado dessa correria toda, se você não se importa de ir com as próprias pernas...

- Não é isso. Por que você ta me ajudando?? – ele se sentou no sofá para encará-la.

- Eu não estou te ajudando, estou me ajudando. Primeiro, se eles me pegarem com você, estou frito. Segundo que eu vou precisar dos seus serviços, já te disse.

- Você poderia simplesmente me deixar em qualquer lugar, não precisa fugir comigo. E depois, o que é que eu tenho de tão especial que você precisa?

- Você está louca pra fugir, dar um fora daqui o quanto antes, mudar de cidade, de nome, de país, de vida. Você quer isso mais que qualquer coisa no mundo, eu vi nos seus olhos. E eu vou utilizar essa vontade ao meu favor, benzinho. Só isso. Não pense que eu sou bom, por que eu não sou.

Ela o fitou por um momento a mais, e segui para a cozinha, a fim de tomar um pouco de água. Eles eram mais parecidos que ela imaginava que fossem.