Hinata olhava para o pulso enfaixado com gaze e filme plástico. Minha nossa, tinha doído mesmo. E aquele rapaz, Deidara, era forte mesmo.

Cruzou as pernas, apoiando as costas no encosto do banco. Aquele parque vazio, com um grande nevoeiro formando-se a distância era um dos poucos lugares da cidade que ainda não tinham sido assolados pela chuva. Porém, ao fitar as árvores aqui e ali, as folhas balançando serenamente ao gosto do vento pluvial, ela quase conseguiu se esquecer do cuidado que teria que tomar dali em diante...

"Não quero nem ver quando chegar em casa... Se descobrirem..." Murmurou para si mesma. Teria que usar roupas com mangas compridas todos os dias, mesmo que a temperatura mínima fosse 27 graus. Graças a Deus pensara nesse detalhe, lembrando-se de que usava mangas compridas quase todos os dias, mesmo. Neji não repararia. Nem seu pai. Hanabi... Melhor evitá-la, pelo menos até que os leves choques de dor parassem.

Tocou os lábios, como se sentisse o gosto fresco das palavras que proferira ainda há pouco.

"Ah, você veio mesmo!" Ele parecia muito animado ao saudá-la, mas Hinata recusava-se a aceitar a hipótese de que estivesse feliz em vê-la. "Eu ia te ligar agora mesmo, mas você é bem intuitiva, não?"

"Ah... S-Sim..." Ela correu os olhos pelo estúdio.

"Ah, o Kiba foi almoçar, un." O louro disse, limpando uma bandeja metálica suja de tinta com um pano manchado. Ela sobressaltou-se e ruborizou, com uma desagradável sensação de que ele podia ler seus pensamentos. "E aquele filh... aquele preguiçoso do Sasori ainda não chegou. Depois diz que não gosta de esperar, un..." Pareceu sussurrar a última frase mais para si mesmo. "Para completar, o Neji não veio hoje, como eu te disse. Estou completamente 'Stand Alone'. Venha, vamos ver o que quer tatuar!" Convidou gentilmente, estendendo a mão.

Sentindo-se estranhamente culpada por aceitar segurar a mão dele, mas com a atormentadora lembrança de que apenas encarara a mão do tatuador de antes (Kiba, correto?), Hinata desceu cautelosamente os pequenos degraus no centro do cômodo.

"Tem a imagem aí?"

"S-Sim..." Tentando não parecer desesperada, ela vasculhou a bolsa atrás do papel dobrado, meio louca para encontrá-lo e meio desejando tê-lo perdido: na privacidade de seu quarto, estivera tão segura, mas agora a imagem parecia tão ridícula e impensada!

"Ora..." Ele sorriu ao segurar o já aberto papel, tremulamente oferecido, revelando a borboleta com pétalas de lírios no lugar de asas. "Muito romântico, senhorita." Distraído, ele passou os braços pelos ombros de Hinata e apertou-a contra si, em um gesto amigável que a fez corar. Ainda admirando a imagem, falou. "Como esperado da prima do nosso Neji, un!" Ela não pode deixar de notar o quão alto ele era, quando teve a cabeça afagada.

"Hum... O-Obrigada..."

"Bem, bem!" Tão rápido que ela nem percebeu e subitamente enérgico, ele afastou-se e tirou uma caixa com diversos tubos de tinta de uma estante. "Já nos cumprimentamos, conversamos minimamente, já tivemos um bom contato físico, acho que é hora de nos apresentarmos formalmente, un. Deidara, prazer em conhecê-la." De repente, a mão dele estava novamente suspensa à frente dela.

"Hinata... M-Muito prazer..." Ela gaguejou confusamente, apertando-lhe a mão.

"Que nome bonito." Deidara comentou, curvando o canto esquerdo dos lábios. "Hinata, o lugar ensolarado. Bem, querida ensolarada, sente-se e me diga aonde vai querer!"

'Eu pedi para ele porque ele é forte para caramba e ficou segurando meu braço enquanto tatuava, porque essa é uma região sensível e que dói bastante.' Ecoou na mente dela.

"N-Na parte interna do p-pulso direito, por favor."

"Oh, no pulso? É muito corajosa, dói bastante. Que bom que a tatuagem é pequena, pois seus pulsos são finos, un!" Ele falava rápido demais, o suficiente para deixá-la ligeiramente confusa. De repente, ele tinha desaparecido, após mencionar algo como 'estêncil'.

Nervosa, ela remexeu-se na cadeira, ajeitando e alisando as roupas por pura paranóia. Não conseguia acreditar que realmente tinha decidido fazer aquilo.

"Não se preocupe." A voz de Deidara disse, assustando-a. "O Kiba não demora muito, e o Sasori-danna também não. Se o Neji aparecer do nada, a gente segura ele, un."

"Obrigada..." Hinata agradeceu, pasmada.

"Aqui, dê-me seu pulso." Ele apertou o papel vegetal contra a pele dela, retirando-o com cuidado depois. "Sou gentil com garotas, ainda mais com damas educadas como você. Vou tentar evitar dor desnecessária." Ao receber a piscadela dele, a hipótese de estar sendo cortejada passou pela mente de Hinata.

"Obrigada..." Repetiu, enquanto ele calçava um par de luvas e organizava tintas e um aparelho absurdamente grande e cheio de fios, que ela rezava para não ser a agulha, em cima da bandeja.

"Vai ter que ficar quietinha agora, un." Ele brincou, e para o pavor dela, apertou algum botão que fez a estranha ferramenta zumbir. "Tem certeza de que quer fazer isso, né?"

Hinata engoliu em seco, balançando a cabeça em negativa. "Desculpe, só um minuto." Pediu fracamente. Imediatamente, o zumbido parou, a agulha foi esquecida na mesinha e Deidara apoiou os braços nos joelhos, encarando-a.

"Que coisa ruim, você não tinha certeza." Ele sussurrou, mas em tom gentil. "E se eu não tivesse perguntado, o que teria feito?" Indagou, levantando o queixo dela com a mão enluvada.

"N-Não s-sei..." Hinata articulou, sentindo que lágrimas inundavam seus olhos. Por algum motivo, os olhos azul-acinzentados dele faziam-na querer chorar.

"Não foi uma boa resposta. Teria puxado o braço?" Ele sugeriu, ainda gentil.

"A-Acho que si-im..."

"Puxar o braço não é uma boa idéia." Novamente, Deidara afagou a cabeça dela, do jeito que se faria com uma criança. "Essa borboleta não representa algo importante para você?"

"Sim! Representa!" Ela afirmou. Era o símbolo da sua coragem, a coragem que usara para contrariar Neji e tomar suas próprias decisões.

"Importante o suficiente para querer tê-la para sempre marcada no seu corpo?"

"Sim..." Foi a resposta, mas Hinata não estava mais tão segura.

"Sabe, sempre me pedem para tatuar imagens que signifiquem coisas importantes. Para todos os outros tatuadores também." Deidara voltou a apoiar as duas mãos nos joelhos. "Imagens em homenagem a amigos, familiares, pessoas que já morreram. Não acredito que alguém importante para você tenha morrido, caso contrário você estaria em casa, se afogando em lágrimas, e não aqui. Podem me chamar de preconceituoso, mas a verdade é que várias pessoas, principalmente garotas como você, agem assim."

Hinata sentiu que deveria balançar a cabeça, concordando. E de fato concordava.

"Eu acredito que a verdadeira beleza está nas coisas efêmeras. E agora vem a pergunta: se eu penso assim, por que é que eu faço tatuagens, que são eternas... Ou quase eternas?" Ele sorriu, cruzando os braços. "Quem me arrastou para esse negócio foi o Sasori-danna. Nossas opiniões são divergentes, e ele acha que a beleza está na eternidade; portanto, esse é o trabalho perfeito para ele. Por algum motivo, eu aceitei vir para essa cidade e ser um tatuador também, mas decidi tatuar algo muito importante para mim. Se há algo que realmente quero que fique marcado no meu corpo, é isso." Para o constrangimento escandalizado de Hinata, ele despiu a camiseta, expondo peito, braços e ombros cobertos de tatuagens coloridas. "As outras tatuagens que tenho não são e nunca serão tão importantes quanto essa." Deidara virou-se para ela e apontou para a omoplata, para uma imagem de algo que parecia um pequeno pássaro de argila branca explodindo. "Isso representa a explosão. Não há nada mais breve, e portanto mais belo, do que uma explosão, do meu ponto de vista. Algumas pessoas acham ridículo e sem-sentido, dizem que é absurdo eu ter uma coisa dessas marcada na carne, mas eu não me importo! É algo importante para mim, e carregarei essa imagem com orgulho pelo resto da vida." Ele vestiu novamente a camiseta, encontrou os olhos dela e alargou o sorriso. "Querida ensolarada, essa borboleta é tão importante para você quanto esse pássaro explodindo é para mim?"

Hinata apertou os lábios, com a sensação de que estava tomando a decisão mais complicada da sua vida.

"Sim." Disse por fim, fazendo-o sorrir.


É. Mais um capítulo. No mesmo dia. Na mesma meia hora. Na verdade, nos mesmo cinco minutos.

Eu não podia ter deixado tão pouca coisa para vocês lerem depois de uma semana sem postar. XD"

E sim, o Deidara não usou 'un' na última parte. Sei lá, ia acabar com o ritmo dessas frases tão profundas. Que seja.

YKT