Demoraria ainda mais dois dias para que Rina e Yusuke voltassem a se encontrar. Dois longos dias, que o garoto gastou pressionando a mãe para revelar mais detalhes sobre a presença perturbadora daquela estranha na sala de estar. Atsuko, no entanto, não estava muito interessada em perder tempo falando da menina. A classificou como uma "piranha idiota que viera lhe torrar a paciência" e deu o assunto por encerrado.

Ao menos munido de nome e uma descrição física, ele poderia voltar a procurar pelos guetos da cidade.

Rina, no entanto, lhe poupou o trabalho.

Surgiu repentinamente às suas costas em uma das excursões de Yusuke em busca da garota. Perguntou se ele estava procurando por ela e esperou ele se virar abruptamente, defensivo. E lá estava ela. O mesmo cabelo rosa-pálido, as mesmas botas que chegavam quase até os joelhos, o mesmo olhar felino.

— O que você quer comigo? — ela perguntou.

— O que você estava fazendo lá em casa? — De todas as perguntas, essa foi a primeira que lhe ocorreu.

Rina continuou o olhando, agora o estudando de cima a baixo. Ela tinha o mesmo ar prepotente de antes, mas a energia tão avassaladora que ele havia conhecido tinha ido embora quase que totalmente. Se antes a energia vital da jovem parecia fora de controle, agora era quase como se estivesse em um cabresto, fazendo Yusuke quase duvidar do que tinha pressentido antes.

A única certeza que Yusuke tinha, no entanto, era que ela não era humana.

— Então é disso que isso se trata? — Rina perguntou — Atsuko enviou você atrás de mim?

— Não — ele admitiu — Mas quero saber por que uma youkai como você está metida com minha mãe.

Rina titubeou pela primeira vez. Franziu a testa e meneou ligeiramente a cabeça para o lado, comprimindo os olhos desconfiados que ainda estavam fixos nele.

— Do que você me chamou?

— Você não sabe? Você deve estar brincando.

Ela o segurou pela gola ao mesmo tempo em que o pressionava contra a parede. Yusuke, pego desprevenido, sentiu o sangue ferver.

— Eu pareço estar brincando?

— Olha aqui, garota, eu não sei quem você pensa que é, mas clã centenário ou não, eu não vou ter o menor problema em te estourar os miolos se você não me soltar!

Em parte, Yusuke blefava; mas parte dele vinha querendo arremessar aquela mulher para longe desde quando a viu na sua casa no outro dia — e a atitude arrogante dela não estava ajudando.

Rina o apertou ainda mais contra a parede, quase colando sua testa na dele. Seus dentes rangiam de raiva. E Yusuke pensou que ela não fosse se importar com aquela ameaça.

Mas por fim, ela o soltou. Contrariada, ele podia ver. Rina olhava de esguelha para o lado, como se subitamente tivesse se lembrado que estavam no meio da rua. Algumas pessoas que passavam por perto olhavam de volta, desviando o rosto assustados logo em seguida.

— Vamos embora daqui — ela falou entre os dentes.

E Yusuke, por mais que quisesse, dessa vez não usou contrariar.

(...)

Hiei retornou à patrulha, obedecendo as ordens de Mukuro, mas deixando visível a sua irritação. Descontar sua raiva em demônios ordinários que vagavam pelas florestas do Makai nem mesmo o satisfazia mais. Passou a ocupar todo o tempo livre com treinos, quase abdicando das horas de sono, e chegou a quase assassinar um dos membros da guarda de Mukuro.

Ela, entretanto, nunca o chamou a atenção por causa disso. Estava cumprindo seu papel junto às rondas, era só com isso que ela se preocupava. Hiei achava que Mukuro não se importaria nem mesmo se ele aniquilasse seu exército inteiro — algo que ele cogitou seriamente em fazer.

"Desde quando ficou tão fraca?"

Fazia também algum tempo que Hiei não compartilhava a cama com a comandante. Mesmo a última vez já não havia sido a mesma coisa. Ela tinha gritado de prazer, claro, mas nem de longe com a sua selvageria habitual. Não o havia dominado, como fazia antigamente, ou arranhado suas costas. Não exigiu uma segunda rodada.

Naquela noite, a última juntos, Hiei deixou que ela adormecesse sozinha.

Na fortaleza, o comentário geral era de como ela havia ficado muito mais tranquila nos últimos meses, mas para Hiei aquilo não era tranquilidade. Mukuro havia desistido. E isso não era nada atraente.

Seu presente de aniversário ainda estava no quarto da comandante. O pai, eternamente preso à planta curativa de Kurama, permanecia vivo sofrendo as torturas de Mukuro¹. Hiei achou que isso a ajudaria a se libertar e descobrir seu verdadeiro potencial, mas o efeito tinha sido reverso. A cada corte no corpo do pai, Mukuro mergulhava ainda mais fundo dentro de si, às vezes passando dias sem sair de sua câmara. Vê-la treinar era cada vez mais raro.

Era irônico, mas era justamente a mente conflitante de Mukuro que a dava poder. Eram as algemas de metal nos pulsos, os pesadelos recorrentes da infância traumática. Sem isso, Mukuro não era... nada.

Fazia três dias que Hiei não a via quando decidiu abandonar a fortaleza de vez. Partiu sem se despedir ou oferecer alguma justificativa. Apenas saiu para mais uma ronda, se separou da equipe e nunca mais voltou.

(...)

— Por que você está atrás de mim?

Yusuke cruzou os braços e respirou fundo. Eles tinham caminhado até uma parte isolada da cidade, onde uma estação de trem abandonada era tudo o que tinham ao redor. A grama crescia sem ninguém para apará-la e um rastro de lixo — principalmente de latas, restos de cigarros e embalagens plásticas — seguia margeando os trilhos de trem parcialmente cobertos pelo mato alto. Ao longe um grupo de adolescentes conversava em uma roda.

— Eu preciso saber se você é quem eu acho que é — ele respondeu, tentando ser paciente.

— Quem você acha que eu sou?

— A única descendente de uma antiga família youkai.

Rina sentou na murada quase destruída da estação de trem. O salto fino não parecia atrapalhar em nada seus movimentos. Balançou a cabeça, olhando distraidamente para o grupo de adolescentes.

— Eu não sei do que está falando, mas não sou eu. Eu não tenho família.

— Todo mundo tem família, menina.

— Nem todo mundo.

Ela abriu a jaqueta e puxou um frasco de metal. Desenroscou a tampa e o encostou o pequeno gargalo nos lábios, jogando a cabeça para trás.

— Você não sabia mesmo que era uma youkai? — Yusuke perguntou.

— Por que você acha que eu sou uma?

— Pela sua energia. Todo mundo tem, mas a sua é muito diferente da energia espiritual humana comum. Você não é desse mundo. Pelo menos disso eu tenho certeza.

Rina ficou calada. Guardou o frasco de volta no bolso interno da jaqueta e manteve o olhar distante.

— Como você consegue controlar isso tão bem? — Yusuke perguntou — Foi por isso que eu nunca te achei antes. Você camufla sua aura, parece até que tem um botão de liga e desliga! Se você não estivesse na minha casa naquele dia, eu acho que nunca-

— Você ainda quer saber por que eu estava na sua casa? — ela o interrompeu. Se virou para Yusuke, que agora a olhava surpreso pela mudança de assunto.

— Claro!

— Está vendo aquele grupo ali? — e ela apontou para os adolescentes mais adiante — Moleques. O mais velho não tem mais do que 16 anos. Semana passada, a máfia matou um deles. Torturou e o espancou até a morte. Fui eu quem encontrou o corpo.

— E o que a minha mãe tem a ver com isso?

Rina fez uma pausa e suspirou, parecendo entediada.

— Esse moleque que morreu tentou paquerar Atsuko. Duas vezes. Eu falei pra ele não se meter com ela, disse que ia dar uma surra pra ele parar de ser idiota. Mas é claro que ele não me ouviu. Deu no que deu.

Fez uma pausa e encarou Yusuke. Ele a olhava confuso.

— Porra, preciso dizer que sua mãe só anda com o pessoal da Yakuza²? Achei que você soubesse disso.

— Espera aí, você acha que minha mãe mandou a máfia matar o pivete porque ele ficou de paquera? Ela nunca faria isso!

Rina deu de ombros.

— Eu não sei, mal conheço aquela vadia. Só sei que eu falei pra ele não se meter com alguém ligado à máfia e ele se meteu. Você não sabe a dor de cabeça que isso me deu. Tive que ir lá tirar satisfações. E que mulherzinha intragável...

A pele de Yusuke se inflamou, um vermelho intenso subindo pelo pescoço e pintando seu rosto de raiva. Em dois passos, foi até ela. Agarrou com as duas mãos a gola do casaco e a puxou para perto, sentindo o hálito forte do álcool.

— Do que diabos você chamou a minha mãe?

Rina nem piscou, apenas crispou os lábios em um sinal de total intolerância com aquele gesto brusco.

Foi quando Yusuke sentiu algo espetar sua barriga por cima da blusa. Desviou o olhar momentaneamente para baixo e viu a ponta de um punhal pressionar de leve seu estômago, os dedos firmes de Rina segurando a empunhadura. Voltou a encarar a raiva contida da garota, traduzida por seus olhos gelados.

— Se falar assim da minha mãe de novo ou se aparecer mais uma vez na minha casa, eu te mando direto para o inferno, ouviu bem?

Ele a soltou com um empurrão. Rina esperou um instante antes de guardar a faca.

— E se seu problema é com a máfia, vá resolver direto com eles. Ou tem medo de encará-los e por isso foi atrás da minha mãe, como uma covarde? — rosnou.

Ela se levantou com um pulo. Yusuke sentiu o peito palpitando. Sua mão coçava, e a vontade de atacá-la era enorme. Podia quase sentir o Leigan se formando na ponta do dedo.

— Por que você não some daqui? — ela falou, para espanto de Yusuke.

Ele esperava que ela o atacasse. Que talvez o tentasse intimidar novamente com a energia poderosa que sentira dois dias atrás, que talvez ele até mesmo fosse conhecer a força que ela escondia. Mas ela não fez nada disso. Possuia um auto-controle maior do que ele havia imaginado.

Yusuke vociferou um último xingamento e deu as costas para a mulher. Podia sentir que ela continuava o encarando por trás.

O garoto mal tinha andado alguns metros quando teve os passos interrompidos. O mesmo grupo de jovens que antes os fitava à distância agora vinham em sua direção. Eles o cercaram, tentando emular as poses hostis de Rina.

— O que você queria com Rina? — um deles perguntou.

— Isso é assunto meu e dela, pivete. Se manda!

O cerco se fechou.

— Você está se metendo com as pessoas erradas — o mesmo adolescente falou.

— Eu não estou com paciência, moleque. E só não arrebentei a cara daquela idiota porque não bato em mulheres, mas não vou ter a mesma piedade com vocês.

Um dos rapazes soltou uma risada.

— Você acha que pode com a Rina? — o mesmo jovem falou, com um sorriso largo e sarcástico estampado no rosto, seguido de outra gargalhada — Você não sabe nada sobre ela mesmo! Ela deu cabo dos próprios velhos só porque eles pegavam no pé dela. Acha que ela não acabaria com você, se não quisesse? É você que teve sorte!

Yusuke o encarou com um olhar de desdém.

— Eu não me interesso pelas histórinhas que ela inventa pra vocês — Ele deu um passo ameaçador em sua direção — E essa é a última vez em que vou pedir…

Mas eles não o obedeceram. Ao invés disso, sacaram suas armas — pequenas facas, canivetes, correntes, socos ingleses. Yusuke riu. Fazia tempo que não encarava uma luta.

— Deixem ele ir — Rina, surgindo atrás dele, ordenou — Vamos!

Todos se viraram para ela, surpresos. Nos olhares, uma certa indignação pueril, um protesto silencioso de quem não entendia toda aquela benevolência com a qual eles não estavam acostumados. Mas Rina não falou novamente, tampouco se intimidou, e os rapazes, hesitantes e contrariados, se dispersaram. Yusuke ficou.

— Então é isso que você é? Uma líder de gangue juvenil? Seus ancestrais youkais iriam te achar uma piada...

— É melhor você ir embora também — ela falou entre os dentes. Se virou na mesma hora, o deixando sozinho.

Yusuke ainda permaneceu um tempo a olhando se afastar. Tinha ido até ela com uma certeza que agora já não sabia se tinha. E toda aquela conversa parecia ter sido uma grande perda de tempo.

Irritado e frustrado, Yusuke a deixou.

(...)

No dia seguinte, o jornal noticiaria a execução de cinco homens de meia idade, potencialmente ligados à Yakuza. Os corpos haviam sido encontrados juntos, com centenas de cortes em áreas estratégicas como músculos e nervos, além de uma abertura horizontal na garganta, por onde, segundo os legistas, os homens sangraram até vir a óbito.

"Morte por mil cortes", a reporter anunciou³. Uma antiga prática de tortura, conhecida pelo método particularmente cruel e demorado de execução. A tática não era vista no oriente há mais de um século.

— Filha da puta... — Atsuko murmurou.

E Yusuke soube na hora de quem ela estava falando.


NOTAS DA AUTORA:

¹ - Referência ao mangá, quando Hiei descobre o passado de Mukuro e a presenteia com seu pai, preso por uma planta cedida por Kurama. A planta regenera automaticamente todas as feridas do corpo onde está ligada, permitindo que Mukuro o torture quanto desejar sem que ele morra.

² - Yakuza = máfia japonesa

³ - Morte por mil cortes, ou Lingchi. Antigo método de execução chinês.