Cap. 3: Romeo por Teobaldo
Misha's POV
Ele estava me esperando quando sai do colégio, sabia que ele ia ficar afastado por uma semana, sabia também que ele não faria mais parte da turma de teatro, mas não era por isso que eu estava triste, não era por isso que estava evitando-o.
'... pra todo mundo ver que eu não sou bicha!' – a voz dele ecoava em minha cabeça, mas fala sério! Homem que gosta ou está se envolvendo com outro homem é o que?! Tudo bem que esse termo (bicha e qualquer um outro com igual significado) é ofensivo e eu também sei que Mark não devia ter feito o que fez, mas Jensen me decepcionou retrucando daquela forma.
Jensen me machucou respondendo Mark daquele jeito e batendo nele por causa daquilo, me deu a impressão de que ele podia me beijar e me foder, mas que ninguém no mundo poderia desconfiar ou ficar sabendo disso.
Ele olhava para todos os lados me procurando, via seus olhos verdes percorrendo toda a área do pátio, mas me escondi, Jensen não me viu e depois de todos deixarem o colégio ele ainda ficou mais alguns minutos, só então desistiu, abaixou a cabeça e subiu no skate.
Eu não queria falar com ele, eu sabia o que ele ia dizer. Que sentia muito, que eu era especial para ele, que não quis dizer aquilo, que não quer me perder, que quer que a gente fique bem, que sente muito... Mas não é o que eu quero ouvir, eu quero ouvir a verdade, mesmo que machuque.
A verdade é que ele nunca, em momento algum vai assumir alguma coisa por mim, mesmo que sinta, porque eu sei que ele sente algo, algo tão forte quanto eu sinto, a diferença entre nós dois... É a covardia dele.
Cheguei em casa cansado, tinha vindo pelo caminho mais longo, porque não queria encontrá-lo por acaso. Minha mãe estava de folga, mesmo sendo segunda-feira, ela ficou preocupada quando me viu, mas eu a acalmei, disse que não tinha acontecido nada, dei uma desculpa qualquer sobre estar com os olhos vermelhos, mas só porque não queria que ela soubesse que estive chorando, eu sei como ela se sente quando fico mal, porque é a mesma coisa que eu sinto quando ela está assim.
Disse que ia ficar no meu quarto estudando, menti dizendo que tinha que decorar as falas da peça, eu não tinha mais nada para decorar, sabia a peça de cor, sempre fui apaixonado por literatura e o clássico Romeo e Julieta, era sem dúvida nenhuma, o meu preferido.
Eu não sabia quem ficaria no lugar de Jensen agora, todos já estavam com seus papéis, estava tudo pronto para encenarmos a peça no fim do mês... Só faltava o Romeu.
Pensar sobre a peça me fez pensar que o pior de tudo é que eu vou sentir falta, eu vou ficar com saudade do cheiro dele, do modo como o beijo dele faz meu corpo se aquecer, vou sentir falta do modo como a mão dele segurava a minha.
O cansaço deve ter feito com que eu caísse no sono, mas quando levantei eram 21:00hrs, a casa estava silenciosa e escura, minha mãe dormia cedo, eu sabia disso, mas o sono tinha me abandonado então desci até a cozinha, peguei um copo de leite e voltei para o quarto.
Peguei um dos muitos livros que eu tinha, era praticamente um vício e comecei a ler, quando estava na melhor parte ouvi alguns estalos, não me importei muito no começo, mas eles simplesmente não paravam.
Cheguei perto da janela e uma coisa bateu nela, fazendo aquele barulho que tinha me desconcentrado. Afastei a cortina e abri a janela, cocei um dos olhos, o sono voltando depois de ler quase metade do livro.
Jensen estava parado lá, em pé no meu jardim jogando pedrinhas na janela e o pior de tudo é que o maldito estava sorrindo, aquele sorriso que faz as minhas pernas tremerem e o meu coração palpitar.
_O que você está fazendo aqui? – sussurrei e ele colocou a mão no ouvido, fazendo sinal de que não tinha me ouvido. – O que está fazendo aqui? – disse mais uma vez, um pouco mais alto, mas novamente ele repetiu o gesto.
Rolei os olhos e ele deu uma risada gostosa, o que me fez rir minimamente, mesmo me odiando por dentro, porque eu estava bravo com ele e isso significava que eu não deveria sorrir por qualquer gracinha que ele faça. Ele se aproximou, subiu na grade ao lado da minha casa e sorriu grande quando eu arregalei os olhos ao vê-lo ali, na minha frente, tão perto que sentia a respiração dele em meu rosto.
_O que você disse? – perguntou ele, as mãos segurando na grade para que não caísse, os pés, eu sabia, estavam em uma muretinha.
_Perguntei o que está fazendo aqui?
Ele encolhei os ombros, como se fosse obvio a sua intenção, mas eu não negaria que foi uma pergunta boba, estava claro o motivo dele ter vindo ali.
_Eu só... Estava passando por aqui. – respondeu por fim e eu ergui as sobrancelhas.
_Sério? Você não devia estar dormindo? Já são... – e virei a cabeça para olhar o relógio do rádio. – São duas da madrugada.
_Você também deveria estar dormindo. – ele disse.
_Bem, alguém estava jogando pedras na minha janela. – retruquei.
Jensen me encarou, os olhos dele brilhavam e sua boca se curvou num lindo sorriso, mas de uma maneira diferente, não era aquele sorriso gigante que ele dava pra todo mundo. Esse sorriso dele parecia alcançar os olhos, fazendo-os brilhar, as bochechas estavam coradas e ele se impulsionou pra frente.
Me beijou.
Arregalei os olhos, não esperava por isso, mas ele não se abalou, eu vi seus olhos fechados e então cedi, fechei os meus e senti a boca macia dele encostando-se à minha, nenhum de nós dois movimentava os lábios ou tentava começar um beijo real, apenas sentíamos como era ficar ali, as bocas juntas e eu sei que eu poderia ficar assim com ele pela eternidade, porque aquilo era bom demais.
Ouvi passos, mas antes que pudesse me afastar de Jensen a porta do meu quarto se abriu de repente, minha mãe estava de camisola, os cabelos negros emaranhados e o rosto inchado.
_Misha! – ela disse preocupada. – Eu ouvi vozes.
Jensen que até então se segurava na beirada da grade, se assustou e soltou dali, caindo no gramado. Minha mãe arregalou os olhos e veio para perto de mim, enfiando a cabeça pela janela e olhando para baixo, encarando com horror Jensen caído lá embaixo.
_Oh meu Deus! Misha um ladrão, ligue pra policia! – ela disse sem tomar fôlego.
_Não, mãe... Mãe... Tudo bem... Ele é meu amigo, é o Jensen. – eu falei mordendo os lábios que a pouco estavam colados no do loiro.
_O que?
Ela pediu milhões de desculpas, pediu para Jensen entrar e ficar a vontade, perguntou se ele tinha se machucado, olhava para ele com um semblante culpado, ofereceu água, suco, refrigerante, tentando ser gentil, alegando que quase tinha matado ele.
Jensen sorriu agradecendo, acenou que não, dizendo que a queda da janela era pequena demais para matar alguém, e então olhou para mim, seus olhos me prometiam o céu e o paraíso, mas eu sabia que precisávamos conversar, não podia continuar como estava.
É claro que eu não queria pressioná-lo, não, mas eu precisava de alguém que ficasse do meu lado, Jensen não tinha coragem suficiente para fazer isso, porque ele tinha uma reputação.
Minha pediu perdão mais algumas vezes antes de dizer que ia dormir porque precisava trabalhar no outro dia, nos desejou boa noite e beijou o topo da minha cabeça, fazendo minhas bochechas avermelhar. Eu olhei para Jensen e ele apenas sorriu.
_Nós precisamos conversar. – ele disse e eu gelei.
_Sim. – respondi, depois de um tempo. – Precisamos.
Jensen é especial pra mim, e eu sei que ele também sente algo, mas isso não quer dizer que vamos deixar tudo de lado e chegar ao colégio de mãos dadas, eu entendo o lado dele, mas também existe o meu.
_Primeiro... – ele encarava as próprias mãos. – Eu quero te pedir desculpas pelo que eu fiz, eu não tive intenção de te ofender de alguma forma enquanto me defendia de Mark, – olhou pra mim e mordeu os lábios. – eu sinto muito.
_Eu sei, eu entendo você. – porque eu realmente entendia.
_Tudo isso é muito novo pra mim, eu não sei se é pra você, mas eu estou confuso, eu estou... Puxa! Sabe o que é você pensar que gosta de garotas a vida inteira e então um dia você esbarra em um... – ele sorriu pra mim. – Em um lindo garoto de olhos azuis e então você pensa: 'Cara, ele foi feito pra mim' e eu não quero mais ninguém, danem-se as garotas?
_Isso não aconteceu comigo, eu sempre fui muito consciente de quem eu era, do que eu gostava e de quem gostava.
Jensen pareceu ficar desconfortável porque ele se remexeu no sofá e não olhou mais me meus olhos.
_Tudo bem, agora eu sei que isso não é novo pra você. – disse simplesmente, mas eu notei que ele parecia meio... Desapontado.
Eu sorri, achando que tudo aquilo soava até mesmo infantil, considerando a idade que temos.
_Sabia que estudávamos juntos em Boston? – comentei e vi que ele franziu o cenho, voltando a olhar pra mim. – Eu era da sua turma, até a sétima série. Você era capitão do time de Futebol lá, eu era o nerd apaixonado por você... Então minha mãe resolveu se mudar, ela recebeu uma proposta de emprego aqui... Eu chorei, implorei pra ela não aceitar, para que eu não precisasse mudar de escola, pra que eu não precisasse ficar sem te ver.
Jensen me encarava meio espantado, como se não acreditasse no que eu estava lhe contando.
_Tá brincando comigo?
_Não, não estou. - fiz uma pausa, sem acabar com o contato visual que se estabelecera entre nós. – Você não faz idéia do quanto eu quis beijar você, tocar em você, sentir seu cheiro... Ouvir sua voz... Só pra mim.
Ele mordeu os lábios e veio sentar do meu lado, segurou minha mão com as dele e eu fechei os olhos, sentindo o calor delas. Senti ele chegar mais perto, o nariz dele passou pela minha bochechas e então seu lábios encontraram os meus, mais uma vez aquela noite.
_Eu quero ficar com você... – ele sussurrou depois de nos separarmos, eu continuava com os olhos fechados. – Como vamos fazer isso? – e suspirou, acariciando minha mão.
Senti meus olhos arderem.
_Eu não sei. – respondi, porque eu não tinha essa resposta, não era tão fácil, como parecia.
Ele foi embora depois de alguns minutos, dizendo que pensaria em algo, que não me deixaria escapar mais uma vez, eu retruquei dizendo que não tínhamos ficado separados nem mesmo um dia e ele me olhou fundo nos olhos.
'Exatamente, já pensou o que aconteceria comigo se esse tempo fosse maior? Eu já quase morri só por ter visto aquele seu olhar, o que acha que me acontece se ficarmos separados?' – foi isso o que ele me disse, e eu não tive resposta para isso.
Eu deitei na cama e encarei o teto escuro.
Sei que ele tem medo e isso me faz pensar se também estou pronto para ficar com um ex-capitão do time de basquete, porque eu sei se a gente ficar junto, tudo vai se transformar em um inferno.
Além das brincadeiras, que já são constantes, eu sei que praticamente a escola inteira vai, de alguma forma, nos reprovar e isso, eu bem sei, é capaz de levar a expulsão, e o pior, pode levar a nossa separação.
Eu levanto cedo no outro dia, vou pra escola no horário de sempre, e eu sei que ele não vai estar, mas ainda assim eu o procuro, imaginando que de repente ele vai aparecer e isso soa tão ridículo que eu rio sozinho de mim mesmo.
Quando eu saio do colégio, vejo ele encostado no carro que ganhou de presente, é um Impala 67, ele tem paixão pelos clássicos e isso e uma coisa que eu sei porque eu ficava investigando a vida dele no colégio antigo.
Eu não tenho certeza se posso ir falar com ele, então apenas continuo meu caminho, mas então Jensen me chama e no momento em que meu nome soa naquela voz tão perfeita eu sorrio e me viro para ele.
Jensen abre a porta do carro e faz uma leve inclinação, perguntando se eu não quero uma carona. Eu aceito e eu já posso notar alguns olhares sobre nós, porque aquilo nunca seria o normal de Jensen, e todo mundo sabe disso.
Ele estaciona na frente da minha casa ao mesmo tempo em que minha mãe está chegando para o almoço. Ela acena para ele e pergunta se ele não se machucou quando caiu e ele responde que esta bem. Minha mãe convida-o para almoçar conosco, mas ele recusa, diz que precisa cuidar de alguns assuntos, mas que um outro dia ele virá, ela diz que vai cobrar e eu sei que vai, porque ela é minha mãe.
Eu agradeço a carona e sorrio para Jensen, ele coloca uma das mãos no meu pescoço, me puxa para ele e me beija demoradamente, entrelaçando sua língua com a minha e eu sei que mais um pouco disso e meu fôlego vai faltar.
_Eu estou cuidando de tudo. – ele diz depois que nos despedimos e eu fico pensando sobre o que ele está falando, mas não dá tempo de perguntar, o carro dele já está dobrando a esquina.
Entro em casa e minha mãe está rindo, e por alguma razão eu tenho certeza de que ela estava espiando, ela confirma minha suspeitas quando diz, de modo totalmente desinteressado, que gosta dele, que Jensen é um bom garoto, eu apenas balanço a cabeça, envergonhado demais para dizer qualquer coisa.
Tomo um banho rápido e desce novamente, a comida já esta na mesa e eu me sento em frente a minha mãe, ela parece mais feliz hoje e eu tenho medo de perguntar o motivo, mas ainda assim as palavras parecem pular de minha boca.
_Aconteceu algo especial hoje?
_Não, querido, nada especial. – ela diz, mas sei que ela quer que eu insista.
_Mãe?
_Sim?
_Não vai mesmo me contar?
_Eu só estava pensando.
_Em que? – perguntei, colocando um pouco de comida no prato.
_Em você.
_...?
_Sabe, já está na hora de você arrumar alguém... Namorar, o Jensen me parece bem legal. – eu engasgo e ela se levanta rápido, vindo bater em minhas costas.
_Mãe! Eu... – sinto minhas bochechas pegarem fogo, mas ela apenas continua com aquele sorriso no rosto. – Talvez não dê certo entre a gente, ele... É de um mundo completamente diferente do meu... – a vejo levantar as sobrancelhas bem desenhadas e balançar a cabeça.
_Isso é porque você não pode ver. – retrucou de forma misteriosa.
_Como assim? Do que está falando?
_Romeo e Julieta, vocês estão interpretando esse ano, certo? – perguntou e eu não entendi o que aquilo tinha a ver com a peça do colégio.
_É sim.
_Hm... Não é muito diferente, acredite. – eu suspirei, ela teria que falar mais claramente se queria que eu entendesse. – Pense assim, meu bem, – começou ela, colocando um pouco mais de brócolis no meu prato. – Jensen é um garoto forte, inteligente, ex-capitão do time de... Basquete não é mesmo? – perguntou meio incerta e eu assenti positivamente, tínhamos conversado sobre ele de manhã. – Já você, – ela apontou para mim. – não é forte, mas é inteligente, é sensível e... Me desculpe por isso, querido, talvez não soe como um bom adjetivo, mas você é... Feminino.
Eu torci os lábios e ela riu dos meus modos. Tudo bem, eu sabia de tudo isso, só não entendia na onde ela pretendia chegar com aquilo.
_Tá, mas o que tem a ver?
Ela sorriu enigmática, mas por fim respondeu, vendo que eu não conseguiria encontrar a resposta sozinho.
_Meu filho você são como Romeo e Julieta. – ela disse.
_O que? – e tomei um pouco de suco.
_Sim, isso mesmo. – ela disse, brincando com o garfo na comida. – Jensen, o forte e corajoso Romeo, você é a frágil e sensível Julieta, podemos colocar o ambiente em que se encontraram, que foi o colégio, como o lugar em que aconteceu o conto e as duas famílias, são os seus amigos, porque nem todos eles vão compreender, vocês estão preparados para isso? Pelo pouco que conheço dos jovens de hoje, de modo algum aceitariam que vocês fiquem juntos.
Eu refleti sobre isso e sim, aquilo fazia todo o sentido.
_A pergunta é... – ela continuou. – Romeo e Julieta acharam um meio de ficarem juntos, e você e Jensen? Também encontrarão o caminho para a felicidade, um com o outro?
Baixei os olhos, não sabia, Jensen disse que estava cuidando de tudo, mas o que isso queria dizer? Que ele ia continuar comigo, mas que ninguém ficaria sabendo? Eu não agüentaria um relacionamento assim.
Ela se despediu e disse pra eu não me preocupar, que tudo, de um jeito ou de outro, acaba se encaixando. Passei a tarde inteira pensando sobre as palavras da minha mãe.
Eu não vi o Jensen pelo resto do dia e nem mesmo na manhã seguinte no colégio. Estávamos todos no salão de teatro, Danneel e Vicky me ajudavam a escolher outro possível Romeo, sem sucesso algum, sempre acabávamos comparando os candidatos com Jensen, o que era frustrante porque Jensen era maravilhoso interpretando aquele papel.
Estava a ponto de dizer para encerrar-mos quando o diretor entrou no salão, Jensen logo atrás dele.
_Olá. – ele disse, passando pela porta. – O Romeo chegou. – e meu coração só faltou pular para fora do peito.
Ele me procurou com os olhos e então sorriu para mim.
N/a: O próximo é a apresentação da peça, espero que estejam gostando, porque está acabando =/
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