Como trabalhar para um idiota
Dia 3
Ginny chegou ao trabalho cedo naquele terceiro dia de comando de Draco Malfoy no Profeta Diário. Precisava finalizar a lista de perguntas-base para as entrevistas que seriam realizadas no treino das Harpias, no dia seguinte, na companhia de seu chefe idiota e com intenções claras de que pretendia publicar uma reportagem totalmente parcial, ridicularizando o time com a assinatura de Ginevra Weasley.
Ainda sonolenta, deixou o café da manhã para lá e entrou na redação do jornal. Não havia ninguém, e o ambiente estava escuro. No entanto, uma luzinha fraca brilhava na sala dos fundos da redação.
Por Merlin, ele já chegou!
Draco estava sentado à mesa, e a porta entreaberta permitia que Ginny divisasse seu rosto. Ela estancou e aproveitou a penumbra para observá-lo. A testa estava franzida, enquanto os olhos cinza tempestade examinavam atentamente um pergaminho disposto sobre a mesa. Ele parecia interessado naquilo, embora Ginny não fizesse a menor ideia do que se tratava. De repente, ele passou a mão pelos cabelos num gesto nervoso, exatamente da mesma forma como Harry fazia quando estava diante de algum problema. Não se lembrava de ter visto Malfoy fazer aquilo enquanto estudavam em Hogwarts. Sem pensar, ela chegou a sorrir e, involuntariamente, caminhou até a sala do chefe.
- Caiu da cama, Weasley? – Ginny pulou quando ele falou de repente, sem sequer levantar a cabeça do pergaminho que estava examinando. O sorriso bobo morreu nos lábios da jovem.
- Tentei ser o mais silenciosa possível, mas vejo que não consegui – respondeu ela, áspera. – Posso saber o que você está fazendo tão cedo aqui? Chefes não costumam madrugar no serviço – disse Ginny, entrando na sala de Draco sem fazer cerimônia e sentando-se na cadeira defronte a ele com um ar de desdém estampado no rosto.
- Diferentemente de você, não vivo só de escrever – afirmou, tirando enfim os olhos do pergaminho e encarando os de Ginny. – Também sou responsável pela porcaria das contas desse jornal, e estou vendo agora porque o venderam para minha família. As finanças estão uma droga e há dívidas que somam mais de 100 mil galeões.
- Uou! – exclamou, interessada. – Não sabia que o Profeta estava tão ruim assim.
- É o preço de se manter isento – disse Draco, e seus olhos pareceram ligeiramente cansados por um momento.
- Isento? – Ginny riu sem pudor. – Achei que você não manteria esse diálogo em sua presidência.
- Há muito de mim que você desconhece, Weasley.
- E nem pretendo conhecer. Para mim, você continua sendo um Malfoy desprezível, mas preciso respeitá-lo porque é meu chefe.
Draco observou-a e, por um instante, ela se sentiu corar. Mesmo assim, sustentou o olhar que o encarava, e podia jurar que no rosto dele havia um misto de surpresa e admiração. Por fim, ele respondeu.
- Gosto de sua sinceridade. Deve servir bem para uma família tão numerosa em que é preciso chamar a atenção dos pais para conseguir alguma coisa. Agora, vá dar conta do seu trabalho, pois quero a lista de perguntas para as Harpias pronta ainda hoje.
Ginny fuzilou-o com o olhar e voltou para sua mesa a fim de elaborar o documento que esfregaria na cara de Malfoy assim que o terminasse.
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Eram quase 15 horas e Ginny suspirou aliviada quando finalmente concluiu as perguntas-base para a entrevista que seria realizada com as jogadoras de seu time do coração. Por um lado, sabia que a matéria exigida por Malfoy seria difícil de escrever. Por outro, tinha certeza sentiria prazer em acompanhar um treino e conversar com as atletas, mais como fã que como jornalista.
Ginny revisou a lista e imaginou que Malfoy fosse excluir a maioria das questões. Falavam sobre desafios do time, a força das Harpias para se reerguer no campeonato, ações táticas e o futuro da equipe no quadribol. Talvez devesse incluir algumas coisas negativas entre as perguntas apenas para que o chefe pudesse aprovar com mais facilidade. Porém, descartou a ideia logo que ela surgiu: simplesmente não tinha vontade de fazer o que quer que fosse para agradá-lo. Teria de conviver com ela daquela maneira se quisesse mantê-la na redação. E Ginny sabia que, no quadribol, era uma repórter imbatível. Ao menos até aquele momento.
Cansada de revisar as perguntas e achando que já tinha perdido tempo demais com aquilo, ou ao menos mais do que costumava perder, dirigiu-se à sala de Malfoy sem hesitação. Quando entrou, deparou-se com o bruxo debruçado em livros sobre jornalismo, estudando-os com aparente dedicação. Franziu o cenho antes que ele pudesse levantar os olhos e pedir que ela se sentasse.
- Interessado em jornalismo, Malfoy?
- Estou estudando a história do Profeta Diário, Weasley. É útil conhecer aquilo que se deve tomar conta, não é mesmo?
Ginny não iria confessar, mas estava intrigada com o interesse dele pelo jornal. No primeiro dia em que Malfoy apareceu na redação e se declarou dono do Profeta, ela poderia jurar que aquilo não passava de um capricho. No entanto, era obrigada a reconhecer, naquele terceiro dia de comando do ex-Sonserino, que ele parecia, ao menos, levemente interessado no que dirigia, o que a surpreendia positivamente. Afinal, lembrava-se de Malfoy apenas como o arrogante inimigo número um de Harry Potter em Hogwarts, e aquele que tinha tentado assassinar Dumbledore, embora sua covardia não tivesse permitido.
Deixando os pensamentos de lado, Ginny entregou a lista a Malfoy e já ia se retirar da sala quando ele falou:
- Fique, Weasley. Vamos analisar as perguntas juntos.
Seu rosto formou uma careta involuntária impossível de se fingir, e ela sabia que Malfoy havia percebido, embora não desse a entender. Batendo os pés com força no chão, Ginny sentou-se de qualquer jeito na cadeira e deixou cair alguns pergaminhos que estavam na ponta da mesa. Abaixou-se para recolher enquanto ele questionava a primeira pergunta:
- "Como está o plano de recuperação das Harpias no campeonato?". Não sei se é uma boa maneira de começar a entrevista. Talvez devêssemos abordar primeiro a situação do time, a explicação para as derrotas e então discutir o plano de recuperação. O que você acha?
Ginny não queria admitir, mas talvez ele tivesse razão nesse ponto. Focara-se demais na questão da recuperação e se esquecera que, como repórter, precisava ouvir todos os lados do drama para entender e poder escrever sobre a matéria. Nunca tivera tanta dificuldade com uma reportagem desde que iniciara na profissão, e sabia que era exatamente por conta da emoção que sentia em relação ao time. Sem vontade de responder, apenas acenou com a cabeça, para dar a entender que concordava com a colocação.
- Outro ponto importante é o jeito como você pretende conduzir a matéria. Quero que ela fale principalmente sobre a trajetória das Harpias nesse campeonato, especificamente, e explique o porquê das dificuldades enfrentadas pelo time. Só então, no pé da matéria, é que você virá com o plano de recuperação. Por isso, tire essas perguntas relativas à história de glórias e vamos direto ao ponto. Aborde os problemas, não elogie demais. "A força do passado fará com que as Harpias alcem voo novamente neste ano?". Pelo amor de Merlin, Weasley!
- Ok, Malfoy – Ginny respondeu, cerrando os dentes. - Mais alguma consideração?
Malfoy analisava a lista com os olhos cinza tempestade atentos, procurando algo mais para criticar. Ginny ficava cada vez mais irritada.
- Você não cita em nenhum momento que é a pior campanha das Harpias de Holyhead no campeonato. Sua entrevista precisa ser mais imparcial. Suas preferências pelo time ficam claras com essas perguntas, e você é jornalista, não pode demonstrar isso – disse ele, com ares de entendido. – Não estou impedindo você de torcer pela porcaria do time que quiser, veja bem, não posso mudar seus gostos esdrúxulos. Deve ser problema de família gostar de coisa ruim, mas quem sou eu para questionar?
O sangue subiu à cabeça de Ginny e ela sentiu seu rosto enrubescer de raiva. Levantou-se, tomou o pergaminho da mão de Draco, quase rasgando pelo meio o papel, e perguntou, com ar revoltado:
- Já terminou de insultar minha família? Posso me retirar?
Quando viu o sorriso cínico no rosto de Draco Malfoy, Ginny nem sequer esperou pela resposta. Saiu pisando duro e bateu a porta atrás de si, atraindo os olhares da redação inteira. Sem tentar esconder sua raiva, rumou para fora da redação a fim de esfriar a cabeça e comer alguma coisa.
Se continuasse daquele jeito, pediria demissão antes de completar uma semana. Era quase impossível trabalhar para um Malfoy, mesmo que se gostasse demais do emprego.
Tinha que decidir naquele momento: ou escrevia a maldita matéria, ou deixava tudo para lá, ou beijava Draco Malfoy até o ar faltar nos pulmões.
N/A: Olá, pessoal, tudo bem? Demorei muito pra postar? Não sei se estão gostando do rumo que a fanfic está tomando, estou insegura depois desse tempo que passei sem escrever. Mas enfim, acho que teremos boas risadas para dar com as atitudes de Draco até o fim da fic. Deu para perceber que ele é adulto agora, mas continua sentindo prazer em provocar Ginny por causa de sua família. Algumas coisas mudam, mas nem tudo pode ser diferente para um Malfoy, não é mesmo?
Astoria, obrigada pelos elogios, e nem demorou muito para sair o novo capítulo, vai? rsrsrsrs
Pagu, você por aqui! Que legal! Espero que esteja curtindo a história, e obrigada pelo comentário.
Bjos para todos que leem e, se passar por aqui, faça uma ficwritter feliz e comente, tá?
