Aos Olhos do Mundo
Capítulo IV - Sobre o que não se quer falar
Saímos do restaurante e automaticamente eu coloco o óculos escuros na cara. A maître me alertou há pouco sobre alguns fotógrafos que se posicionaram do outro lado do restaurante. Saio, aceno, sorrio e meu carro me é entregue em segundos.
Já no meio do caminho, o assunto é mencionado.
- Roger nos contou sobre as suas dores, filha.
Minha mãe segura minha mão livre e vejo os olhos azuis me meu pai no retrovisor.
- São as mesmas dores, mãe. Nada de novo, nada que já não estivesse lá antes - e sorrio.
Eles têm um medo - e que nada envolve o fato de eu não poder mais jogar ou ter que me aposentar.
- E como assim "Roger nos contou"? - Indago depois de alguns segundos.
Roger me adotou no circuito profissional. Ele precisava fazer isso? Não. Mas quis. E convenhamos que ter o número um da época te guiando pelo tênis profissional não é bem uma desvantagem.
- Ele está igualmente preocupado - respondeu meu pai. - E pedimos a ele para que fique atento às suas necessidades.
- Ele tem família, tem esposa, tem duas crianças gêmeas - e estendi o máximo que pude aquele número, - instituições de caridade para sustentar... ele já tem que estar atento às muitas necessidades nesse mundo.
- E a você. - Pontuou papai. - Ele sempre faz isso por nós enquanto não podemos estar fisicamente presente.
Ter 26 anos, pagar suas próprias contas, ter sua casa e fazer sua comida realmente não diz respeito a absolutamente nada da sua independência. Não que me seja surpresa de que Roger é praticamente um espião MI-6 dos meus pais quanto a mim, e eu não estou realmente discutindo por causa disso. Na verdade, fico muito feliz em ver que eles estreitaram ainda mais suas relações - se é que isso seja possível.
Mas tem um motivo.
Um motivo que eu não posso falar agora.
Meus pais sentem-se confortáveis em casa ao ponto de não precisarem que eu faça cerimônias com eles. Eles chegam e eu garanto que suas coisas estarão em breve em casa com o pedido que faço para que Anne - via Whatsaap - dê um jeito na situação deles no hotel. Eles dirigem seus passos diretamente para a sala dos troféus - ainda que eu mesma não tenha dominado assim - e apreciam ao troféu do último Major e a medalha olímpica.
No ano em que o tênis se tornou parte das Olimpíadas, eu viajei para Pequim para cumprir o cronograma. Eu era nova e obviamente não subi ao pódio. Rafa subiu naquele ano e eu não podia ter maior orgulho por ele - ver seu melhor amigo, que leva consigo um orgulho pátrio admirável, ganhar o símbolo físico da excelência de um atleta foi uma das melhores sensações que eu já presenciei. Em Londres, Rafa me retribuiu o sentimento quando o hino brasileiro tocou no estádio.
O que aconteceu no Brasil, eu não sei explicar. Não era para eu ter ganho.
- Como está o Rafael? - Papai me pergunta assim em que estamos todos bem acomodados na sala de televisão para assistirmos a qualquer filme que os agrade.
- Ocupado - respondo enquanto tento aquecer minhas mãos na minha xícara de chá. - Parece então que organizar um casamento não é a coisa mais fácil ainda que você delegue todas as funções.
Mamãe ri com a perspectiva e a doce lembrança da festa do casamento deles inunda a ilustração do que se pode ser uma organização sem delegações. Coloco o nosso filme da tarde e pego o celular para olhar quem está me importunando na minha tarde de descanso.
"Ocupada?"
Daniel me envia uns dez "ocupada" para ter a minha atenção.
"Não, pode falar."
"Estarei em Londres a partir de amanhã. Vamos sair?"
"Vamos. Onde?"
- Daniel estará em Londres amanhã - anuncio para os meus pais.
- Mas ele já não é daqui? - Indaga papai.
- Ele tava no Estados Unidos por causa das filmagens de não sei qual filme.
- Ah, que bom para ele.
- Tem uma peça que é da companhia dele que está passando. Vocês gostariam de assistir? - E, diante da pergunta de papai, explico o enredo e já aviso que tenho convites.
À noite tenho que me apresentar para a festa de um patrocinador - que na verdade se mostra um evento beneficente.
- Não vá com o seu carro, Lilian. Vou te mandar um motorista que estará na sua porta às 19:30h em ponto - fala Anne do viva voz do celular enquanto eu tento escolher meus brincos. - E, por favor, simplesmente coloque os brincos que_
- Já coloquei. Patrocinador feliz e Lilian feliz.
- Sem chance de retirar os demais brincos?
- Nops - apenas faço com a boca. - Motorista me esperando?
- Sim. Já pode descer. - E ela fica em silêncio e eu não sei devo desligar. - Lilian?
- Sim, Anne. - Estou sentada na cadeira do closet para colocar as sandálias.
- Boa sorte.
Não entendo na hora e não entendo por um bom tempo.
- A senhorita sabe para qual fim é esse evento? - Mr Joffrey, o motorista que apesar de ser contrato de uma empresa particular é quem sempre me atende nessas ocasiões, me pergunta porque eu já comecei a reclamar um pouco antes.
- Sinceramente não. Eles colocam no convite, mas sempre acabam mudando de última hora.
- E a senhorita gosta de tais festas?
- Gosto. Algumas conversas se torna agradáveis, não preciso ficar até o final e ainda tenho a oportunidade de ajudar algumas pessoas.
Mr Joffrey me olha no retrovisor e abro um sorriso caricato para ele, que sorri para mim e torna os olhos para a avenida.
Chego ao local com a hora prevista, sem atrasos, e vários fotógrafos se colocam diante de mim enquanto Mr Joffrey abre a minha porta e me estende a mão para que eu possa sair do carro.
- Senhorita, aqui! - Ouço gritar de todos os lugares. A fita vermelha adiante separa alguns fãs que estão se apertando para ter um lugar privilegiado de nossa visão e eu caminho até eles.
Selfies e autógrafos e para algum ou outro fã de tênis, algumas respostas mais atenciosas.
Roger me recebe logo na entrada, me abraçando da forma como antes ele não ousava fazer.
- Minha querida - diz ainda abraçado em mim. - Anne me contou sobre a entrevista. Por que não me ligou?
- Foi uma entrevista, Roge. Se a entrevistadora era chata, a culpa é dela, e não minha.
E então ele nos desenlaça e coloca as duas mãos enormes no meus rosto e me encara.
- Mas deveria ter me ligado para soltar seus dragões.
Eu sorrio. Sua esposa se aproxima e ela é igualmente calorosa comigo e me promete mandar os novos vídeos dos gêmeos.
- Sentem a sua falta - e essas palavras me apertam o peito porque eles também fazem falta.
Sou apresentada a um o outro novo investidor, um ou outro novo empresário e um ou outro que conseguiu estar na festa diante de alguns contatos. Roger me leva para cima e para baixo enquanto eu tento me esquivar de alguma entrevista ou outra - ou todas.
- Aqui está mais tranquilo - ele diz quando nos aproximamos de uma das ilhas de bebidas. - Quer alguma coisa?
- Água - respondo e Mirna me entrega uma taça.
Ficamos ali até alguém me puxar pela mão e eu me viro para reclamar quando me deparo com os olhos azuis mais familiares para mim naquela Londres inteira: Daniel.
- Por favor, não bata em mim! Sou apenas um amigo louco pela sua atenção!
E ele me abraça enquanto nós dois damos risadas.
- Achei que só te veria amanhã, Dan!
- Eu sei. Quis te fazer uma surpresa. Aqui estão um dos investidores do teatro e eu tive que fazer presença para ele se lembrar de mim.
Roger e ele se cumprimentam e começam a falar sobre a peça que está em cartaz. Interajo no assunto e nos estendemos a alguns outros por vários instantes até que outros aderem ao nosso grupo até o ponto de eu não poder mais dar opiniões sinceras sobre alguns assuntos.
- Senhorita Lunière?
Marcus Leadhead. Um dos meus principais investidores, tanto no esporte, quanto nos negócios.
- Mr Leadhead! Que prazer em revê-lo - e nos cumprimentamos com as mãos estendidas.
- Um prazer ainda maior para mim. Feliz com esse final de ano?
- Sim, com certeza. Depois da doença, chegar às finais é realmente grandioso.
- Oh, querida - ele bate em meu ombro amigavelmente e eu endureço. - Sei que é importante os campeonatos e os louros da vitória, mas estava mesmo mais interessado é - e bateu com o dedo sob a minha clavícula esquerda - nesse coraçãozinho.
Uns com tanta formalidades, outros, nem tanto.
- Exercendo a função à qual ele foi programado , Mr Leadhead.
- Amando? - E ele me apresenta um sorrisinho quase simpático e uma piscadela.
- Bombeando sangue para o pulmão e corpo - digo, rápido - e simultaneamente.
- Em todo caso, gostaria de apresentá-la para uma pessoa, que em nada tem a ver com o seu coração, posso tranquiliza-la quanto a isso - e me toma pelo braço e desfila comigo pelo local. Alguns vem até nós para nos cumprimentar e outros acenam de longe. - Senhorita Alinière, meu caro amigo, Mr Benedict Cumberbatch.
Estou parada diante de um homem alto, muito alto, de aspecto magro, olhos extremamente azuis, um sorriso muito simpático e com um ótimo corte de terno azul marinho. Um tecido esplendoroso e brilhante e que me dá a sensação de ser macio. A vontade de esfregar minhas bochechas sobre a superfície é contida, devo acrescentar. Ao fundo, também, enxergo Andrew me olhando e leio em seus olhos "What the fuck" e eu apenas sorrio. Educada como me tornei, estendo minha mão e o Mr Cumberbatch a enlaça com sua tão maior que a minha.
Quase observo meus dedinhos de perderem naquele tanto de dedos,
- Muito prazer, Mr Cumberbacth - digo.
- O prazer é todo meu, Srta Lunière. - E ele para nosso cumprimento para beijar a minha mão em um leve toque.
- Mr Cumberbatch é um grande fã da senhorita - introduz Mr Leadhead. - E ele não pôde acreditar quando eu contei que eu a conhecia pessoalmente e poderia apresentá-la ainda essa noite.
- Felizmente, então, estamos os dois no mesmo evento.
- Sim, verdade. Ande, Benedict, conte a ela o que me disse hoje cedo.
Mr Cumberbatch cora diante da menção e leva as mãos ao bolsos da calça para então me olhar diretamente nos olhos.
- Hoje tive meu convite para um almoço declinado pela senhorita e disse ao Marcus que a primeira recusa muitas vezes significa muitos próximos encontros.
- Então nosso encontro hoje não é mera coincidência, mas é resultado direto de sua sentença matinal.
Sorrimos em concordância.
- Você vai à première dele, não vai? Com certeza irá. Vou garantir que seu nome seja confirmado e que possa se sentar num bom lugar para apreciar ao novo filme de Benedict.
- Oh! - O momento de embaraço começa. - Première?
- Sim. Estou em divulgação do novo filme da Marvel, Dr Strange.
- Ah, sim... é, sim, vou comparecer, se me for possível encontrar um acompanhante. - As palavras saem da minha boca quando a ideia de ver mais um filme da Marvel me consome a alma.
- Duvido que haja alguém não gostaria de acompanhar a senhorita_ - Mr Cumberbatch começa a dizer, sempre me olhando no fundo dos meus olhos e isso começa a me incomodar.
Galanteios gratuitos me incomodam.
- Se ninguém for, eu vou com você.
Desvio minha atenção para Mr Leadhead e ponho a me imaginar atravessando uma première com ele enlaçado ao meu braço e ouvindo sua voz fazendo comentários durante o filme e após.
Não quero responder. Não quero me comprometer. Eu posso ir sozinha, como sempre faço, só disse aquilo como forma de desculpa e agora a bola da sinuca está virada contra mim.
- Tenho certeza de que Roger não se importará.
O nome de Roger é mencionado por mim e a conversa traça um novo rumo, com os dois falando sobre as glórias e o estilo do jogo de Roger, o orgulho nacional. Ponto para minha habilidade de esquivar assuntos usufruindo do nome dele.
Sempre dá certo.
Andrew se aproxima ainda gesticulando a boca porém há algum tempo eu já não consigo mais fazer leitura labial porque ele está articulando a boca rápido demais. Peço licença para os dois cavalheiros e me direciono até Andrew.
- Benedict Cumberbatch! UAU! - Andrew me diz no ouvido ao me abraçar. - Você se apresentou ou ele?
- Isso faz diferença?
- Claro que faz. Eu te conheço bem o suficiente para saber que você fez amizade com a sua mãe por convívio forçado. Então, se você foi até ele se apresentar, ele é importante. Se foi arrastada até lá, não é importante.
Tento pronunciar algo inteligente, mas Andrew não permite.
- E a entrevistadora chata?
- Como é que você sabe disso?
- Anne.
- Preciso conversar com ela urgentemente.
- Você teve dengue, se torna campeã olímpica, ganha o US OPEN e a mulher tem coragem de debochar de você?
- Debochar?
- Foi o que ela me disse.
Tenho a sensação de que Anne conta os fatos com versões diferentes dependendo de seu público. Andrew é interessado na minha honra e está disposto a bater na porta do canal que enviou a mulher para falar algumas boas meias verdades para ela.
Roger está preocupado com a minha integridade psicológica e tenta a todo esforço me manter dentro da bolha do mundo bom.
- Enfim... acho melhor você voltar para o Mr Cumberbatch porque ele não para de olhar para cá.
Eu sinto os olhos dele sobre mim. Não preciso me virar para saber. E sinto quando ele se aproxima - até mesmo porque Andrew se despede de mim com um aceno de dedos e me deixa sozinha.
- Desculpe se interrompi a vocês dois - Mr Cumberbatch está diante de mim e me apresenta uma nova taça.
- Não interrompeu nada e, perdão, mas eu não bebo.
- Eu sei - e emenda rapidamente antes que essa frase fique estranha demais. - Marcus me contou.
Aceito a oferta e sorvo um pequeno gole.
- Seria um enorme prazer recebê-la na première, Srta Lunière. - Sua voz é grave e de timbre baixo e qualquer palavra que ele diga possui o tom da seriedade e importância digna.
- Será um prazer estar presente.
- Diga-me, hoje de manhã...
- O convite?
- Sim. Estava de fato ansioso para conhecê-la e quando me disseram que você estava treinando, apenas achei a oportunidade crível.
- Eu compreendo. Mas a recusa foi sincera. Meus pais estão em Londres e já tinha um almoço com eles.
- Compreendo.
- Eles não moram aqui - emendo por pura desnecessidade. Estou um pouco tensa. Geralmente, em festas assim, fico ao redor de Roger, Daniel, Andrew ou Rafael. Não vou muito longe para que eles não me percam de vista e a recíproca é verdade. Tê-los perto de mim a uma distância segura me acalma.
E agora não há ninguém no meu campo de vista.
- Então deve ser um prazer tê-los por perto. - E eu concordo, ainda perdida em meus devaneios, sem saber ao certo de quem ele fala. - Sente saudade?
Engulo em seco.
- Pergunta complexa. - Respondo.
Mr Cumberbacth franze o cenho e recupera a postura, dando um passo para traz e sorvendo de seu champagne.
- Desculpe. Achei que seria de reposta simples.
- Eu também achava.
Soo mais pensativa do que realmente sou e afim de evitar maiores tentativas de conseguir alinhar a coluna de meu novo conhecido, pergunto a ele sobre o filme e seu semblante rapidamente muda, entre entusiasmado e cansado, possivelmente por ter de decorrer sobre o assunto a muitos e já até tenha um discurso ensaiado para tais ocasiões.
