Fallin
Disclaimer: Os personagens e história aqui retratados não me pertencem. São de exclusividade da verdadeira assassina de Sirius Black.
Sinopse: Todos ignoraram os sintomas da depressão. Seria muito tarde para salvá-lo?
Nota: A depressão é uma doença séria e atinge hoje números escandalosos. Prevê-se que, em 2020, a depressão será a segunda maior causa de mortalidade - ao lado das doenças cardíacas. É geralmente associada a traumas psicológicos ou físicos muito graves.
"A felicidade é necessária para o corpo, mas só a dor enriquece o espírito."
(Proust)
-§-
Capítulo 3 – Outros sintomas
Harry olhou sem muito animo a carta do Ministério que tinha acabado de receber. Um minúsculo sorriso se formou no canto dos lábios dele, quando viu a assinatura de Kinglsey.
Era uma convocação. Ele havia sido chamado para receber as honrarias atribuídas ao herói que ele era.
"Você recebeu uma também?" – Ron entrou sorrindo no quarto de Harry.
Harry meramente levantou o envelope, mostrando ao amigo.
"Legal!" – Ron fitou a carta dele, sorrindo para ele mesmo, enquanto Harry largava o envelope dele de qualquer jeito em cima da cama.
"É, isso foi bem legal" – Harry comentou.
"Hermione também recebeu uma. Recebi uma coruja dela ainda agorinha. Ela vem para cá amanhã de tarde" – Ron largou a carta dele também, para estudar o amigo.
Harry abaixou a cabeça, sentindo as bochechas esquentarem um pouco pela vergonha. Fazia alguns dias que ele tinha gritado com a melhor amiga e ainda não tinha tido coragem de escrever para pedir desculpas.
"Ela está com raiva?" – ele perguntou baixinho.
Ron negou com a cabeça. "Ela ficou chateada e assustada com você. E está preocupada, mas você a conhece. Ela só está respeitando sua vontade de ficar isolado" – Harry pode sentir o tom de critica de Ron.
"Eu não quis fazer aquilo. Eu não sei o que tem de errado comigo, eu só...me sinto assim" – Harry confessou.
Ron assentiu. "Eu sei, cara. Mas você tem que se animar, sair desse quarto."
Harry suspirou. "Eu sei" – ele respondeu cansado. "A Ginny está em casa?" – ele perguntou de repente.
Ron respondeu que sim com a cabeça.
"Talvez eu deva conversar com ela" – Harry falou, mais para ele mesmo do que para Ron.
"Eu faria isso. Mas tenha cuidado de pegá-la com uma varinha...é capaz dela te azarar de surpresa!" – Ron riu e saiu do quarto.
Harry se levantou e foi até a janela, espiar o quintal. A Sra. Weasley alimentava as galinhas, desatenta. Por vezes, deixou cair tanto o cesto de vime que guardava os milhos e Harry pôde ouví-la resmungar um palavrão.
Sem saber exatamente o porquê, ele desceu as escadas e foi atrás dela.
"Oh, querido! Você me assustou" – ela sibilou quando ele tocou levemente o ombro dela, fazendo a mulher dar um salto.
"Me desculpe" – ele murmurou, sem graça.
"Não tem problema, querido. Você está bem? Precisa de alguma coisa?" – ela se apressou em perguntar, passando um dos braços pelos ombros de Harry.
Ele olhou para o semblante da mulher que considerava uma segunda mãe. Ela parecia ter envelhecido 10 anos nas últimas semanas.
"Sra. Weasley" – ele começou – "A sra. me diria se eu estivesse atrapalhando, não diria?"
Molly apertou os olhos e deu um passo para trás, largando os ombros de Harry. "Que tipo de pergunta é essa, Harry? É claro que você não nos atrapalha. De onde tirou isso?"
Harry olhou para baixo, envergonhado. Não queria parecer ingrato, mas sentia que a sua presença na casa dos Weasley era um incômodo.
"Sra. Weasley, me desculpe. Eu não quero parecer mal-agradecido, mas eu tenho pensado...eu não quero ser um peso para vocês agora. Eu mal saio do quarto..."
Molly suspirou pesadamente, largando no chão o cesto de vime e abraçando Harry. "Você nunca foi um peso, querido. Nós entendemos sua necessidade de ficar sozinho."
Harry sorriu com a declaração da mulher. Mas o sentimento de estar atrapalhando persistia.
"Eu sei que tenho sido um incômodo. Me desculpe. Eu só sinto tanto cansaço o tempo todo..." – ele tentou se justificar. Qualquer coisa que pudesse escusar o fato dele continuar trancado quase o tempo todo em seu quarto.
No fundo, Harry achava que isso acontecia pelo fato de ter passado quase um ano fugindo, se escondendo, acampando e correndo atrás das Horcruxes. Embora ele não conseguisse explicar o porquê de Ron e Hermione não participarem desse comportamento esquisito que ele vinha tendo.
"Você não precisa se desculpar, Harry. Eu posso muito bem cuidar de tudo isso, você sabe. Mas talvez devessemos veirifcar esse cansaço. Podemos passar no St. Mungus para ver isso depois, está bem?" - ela sorriu maternalmente e passou uma mão nos cabelos dele, assanhando-os mais ainda - "Agora, porque você não vai procurar o Ron, hein? Vão dar uma volta, quem sabe jogar um pouco? Ginny anda tão abatida nesses últimos dias também. Seria bom vocês fazerem alguma coisa, sim?" – ela abraçou Harry uma última vez antes de se abaixar para pegar o cesto e voltar a alimentar as galinhas.
Harry entrou em casa novamente, um pouco aliviado pela conversa. Mas ainda existiam assuntos a serem conversados com os Weasley. Ele só não sabia como abordá-los.
Um barulho vindo do primeiro andar chamou sua atenção. Ele soube que Ginny tinha acabado de abrir a porta do quarto. Correu até as escadas e subiu tão rápido quanto conseguiu.
A porta do quarto continuava aberta, mas ela não estava ali. Com passos incertos, ele entrou. As lembranças da última vez que esteve lá começaram a passar por seus olhos e ele quase pôde sentir o gosto de beijo que eles trocaram no aniversário de 17 anos dele.
"O que você quer?" – a voz raivosa de Ginny interrompeu as lembranças de Harry.
Ele se virou lentamente para a direção onde a voz tinha soado. Ginny estava parada no umbral da porta do quarto, as mãos pousadas perigosamente no quadril, os olhos arregalados e as bochechas coradas.
"Desculpe entrar aqui sem bater" – ele se aproximou dela, mas Ginny desviou rapidamente e foi em direção a cama.
"A porta estava aberta. Não precisa se desculpar" – ela sibilou irritada.
Harry abaixou a cabeça, procurando as palavras certas para remediar aquela situação. Mas a única coisa que conseguiu encontrar foram palavras honestas e sem qualquer emoção.
"Olhe, eu queria pedir desculpas, eu não sei o que eu tenho, Ginny. Eu realmente queria ser diferente nesse momento, mas eu não consigo. Eu acho que depois de tudo que aconteceu eu me tornei essa pessoa...essa pessoa..." – ele emudeceu, por falta de uma definição que pudesse alcançar a extensão do que sentia.
"Se você pedisse nossa ajuda, quem sabe você poderia voltar a ser o Harry que eu gostava." – Ginny respondeu, evidenciando toda a mágoa que sentia.
Harry não respondeu. Só de pensar que Ginny podia não gostar mais dele fez com que ele sentisse vontade de se esconder novamente do resto do mundo. Escondendo as mãos no bolso, ele deu uma última olhada para a menina que mantinha a cabeça abaixada e saiu do quarto.
Subiu as escadas e foi até o quarto de Ron. Ele entrou lentamente, surpreendendo o amigo escrevendo.
"É para a Hermione" – Ron se apressou em explicar ao olhar a cara surpresa de Harry – "Nós temos nos correspondido muito agora. Ela escreveu para você também. Pegue" – ele jogou um envelope para Harry e abaixou a cabeça, voltando a olhar para o pergaminho em que escrevia.
Sem se incomodar em sair, Harry se sentou na cama e pegou o envelope que a amiga tinha mandado. Não era uma carta para ele, como Harry tinha suposto que seria. Era um panfleto que falava sobre problemas emocionais. Harry passou os olhos rapidamente sobre o conteúdo, mas achou que a amiga tivesse se enganado ao mandar aquilo para ele e simplesmente jogou o panfleto no lixo.
"Eu vou deixar você terminar isso então" – ele disse de repente, sentindo-se deslocado e, sem esperar a resposta do amigo, correu até o quarto onde estava hospedado.
O corpo estava pesado, como se ele tivesse ficado horas e horas correndo de um lado para o outro. Se jogou na cama sem tirar os sapatos. Com a varinha, fechou as cortinas da janela e escureceu o ambiente. O colchão parecia servir de bálsamo para o corpo dele, era como se ele tivesse sentindo um alivio físico , o distanciando do peso do próprio corpo.
O corpo doía, a cabeça doía. Ele fechou os olhos, ignorando os pensamentos que voltavam a gritar em sal cabeça. Solidão, tanta solidão. Saudades, tantas saudades. E assim, ele adormeceu.
-§-
Ele estava feio.
Foi a primeira coisa que ele notou nele mesmo ao se encarar no reflexo do espelho do banheiro.
Ele nunca tinha se considerado bonito. Mas durante os anos escolares em Hogwarts, ele acabou se convencendo de que chamava a atenção de muitas meninas. Certamente, o fato de ser o menino-que-sobreviveu lhe garantia ser sempre um objeto de interesse. Mas muitas vezes ele percebeu que os olhares que atraia se deviam ao porte físico que tinha herdado dos pais: os cabelos negros e rebeldes completavam, com os olhos muito verdes, um rosto agradável .
Mas naquela manhã, Harry começou a se achar feio. Os olhos verdes pareciam ter perdido o brilho e estavam vazios e sombrios. Os cabelos estavam tão rebeldes como nunca e isso lhe dava uma aparência descuidada, como se ele tivesse sido feito ás pressas. Os óculos redondos e gastos escondiam um nariz imperfeito e lhe dava um ar esquisito. Ele tirou os óculos e os depositou sobre a pia.
Colocando um pouco de água nas mãos, ele tentou – em vão – ajeitas os fios bagunçados.
Uma, duas vezes ele tentou ajeitar o cabelo, que parecia se divertir em ficar bagunçado. Xingando o cabelo, ele alcançou a varinha no bolso detrás da calça jeans. Ele nunca tinha tentado usar aquele feitiço, talvez desse volta. Qualquer coisa que ajudasse a melhorar aquela aparência.
"Reducio" – ele murmurou apontando a varinha para a cabeça. Uma sensação quente e depois um formigamento percorreu o topo da cabeça. Quando se olhou no espelho, ele estranhou o que viu.
Os cabelos negros tinham sumido, deixando uma leve penugem negra no topo da cabeça. Era como se ele tivesse raspado os cabelos. Ele passou a mão por cima da penugem, sentindo a aspereza dos curtos fios.
Não que o resultado tivesse lhe satisfeito. Mas ele não se sentia mais tão desajeitado, pelo menos. E de qualquer forma, os cabelos iriam crescer no dia seguinte, não iam?
Depois, olhou para a cicatriz na testa. Ele era bizarro. É, ele era feio.
Resignado ele voltou a colocar os óculos e deixou o banheiro.
-§-
"O que aconteceu com o seu cabelo?" – um Ron chocado perguntou, quando Harry apareceu na sala. Ele tinha sido avisado que Hermione tinha chegado naquela tarde e ele resolveu que precisava tentar acertar as coisas com ela.
Harry deu de ombros, ignorando o choque nos rostos de Ginny e Ron e mirando Hermione. Ela o olhava curiosa e mantinha a boca aberta, como se uma pergunta tivesse morrido em sua boca.
Os três estavam sentados juntos no sofá da sala e Harry se sentou no sofá de frente para eles. Ninguém falou por muitos minutos, Ron, Ginny e Hermione apenas trocando olhares constrangidos e palavras silenciosas entre si.
Harry suspirou pesadamente, sentindo-se mal por estar ali. Como se ele estivesse sobrando, como sempre. Arrependeu-se no mesmo momento de ter saído do quarto para encontrar os amigos.
Ele estava quase se levantando para ir embora quando Ginny falou com ele.
"Você se sente melhor sem o cabelo?" – ele percebeu que a voz dela não estava raivosa como tinha estado no dia anterior. Era uma mistura de curiosidade e preocupação genuína.
"Para falar a verdade, não" – ele sorriu tristemente, passando a mão pela penugem e sentindo falta dos fios compridos e bagunçados. A mão dele estranhava essa ausência.
Ginny segurou um sorriso carinhoso e olhou prestativa para Hermione. A amiga lhe devolveu o olhar.
"Harry" – ela chamou - "Você está bem?"
Harry olhou para Hermione. Ele quase podia apostar que ela não estava mais brava. Apenas pelo fato de que ela havia feito aquela pergunta como tinha feito tantas milhares de outras vezes que ele nem mesmo podia contar.
Ele acenou com a cabeça e então percebeu que alguma conversa sobre ele tinha sido feita entre os três amigos que estavam sentados a sua frente no sofá, enquanto ele não tinha estado presente. Ele conhecia os olhares que Ron e Hermione trocavam quando estavam debatendo em silencio sobre ele.
A sensação de incômodo e deslocamento – que tinha abandonado seu corpo por alguns momentos – voltou.
Sem dizer nada, ele se levantou e subiu as escadas, ignorando Ron que havia gritado seu nome.
Ele entrou no quarto e bateu a porta com raiva. Aquele mar de sensações invadindo a mente dele novamente: tristeza, culpa, raiva, muita raiva, irritação, cansaço.
Harry queria gritar até que seus pulmões explodissem; queria quebrar as paredes do quarto, para que pudesse aliviar tudo aquilo que sentia de uma vez. Mas se controlou quando ouviu a porta do quarto se abrindo.
"Harry?" – a voz receosa de Hermione chamou.
Ele se virou, desolado, para encontrar a amiga o encarando com medo.
Suspirando, ele se encaminhou até a própria cama. Ela o seguiu.
"Me desculpe" – ele falou, brincando com a ponta da colcha.
"Está tudo bem, Harry. De verdade" – ela assegurou, colocando uma mão sobre o ombro dele.
Ele negou com a cabeça. "Não, não está tudo bem. Eu não sei o que tem de errado, mas sei que não está tudo bem. Eu estou afastando todos vocês."
Hermione não respondeu de imediato. Ela desconfiava que Harry não estava bem fazia um tempo. Mas ele nunca pedia ajuda, ele nunca falava o que ele sentia. E ela também sabia que ele tinha razão quanto ao que tinha dito: ele estava se isolando, se afastando de todos que o amavam. E de todos que ele amava também.
"Você leu o panfleto?" - ela se lembrou de repente.
"Não" – ele envergonhado olhou para amiga.
"Harry, talvez você precise de ajuda" – ela o olhou de volta, escolhendo as palavras com cuidado – "Talvez você precise falar com alguém."
Ele deu um pequeno sorriso. "Eu não tenho com quem falar."
"Você tem a nós, Harry. Já lhe dissemos isso tantas vezes, você não tem que estar sozinho" – ela se indignou.
Ele procurou a mão da amiga e apertou. A garganta dele comprimiu e ele sabia que poderia começar a chorar.
"Eu vou ficar bem" – ele disse, por fim. Hermione sabia que ele estava mentindo, mas também sabia que ainda não era hora de forçar Harry a aceitar ajuda.
Ela se levantou e o abraçou e ficou aliviada quando ele a abraçou de volta.
Harry também sentiu alivio com o abraço da amiga. Sabia que aquilo significava que eles tinham feito as pazes.
"Ron e Ginny estão nos esperando lá em baixo, Harry" – ela disse quando eles se soltaram.
"Certo" – ele ensaiou um sorriso e se levantou. Não teria coragem de dizer á amiga que gostaria de ficar sozinho naquele momento.
Eles desceram; Ron estava parado no pé da escada, parecendo apreensivo. Hermione sorriu para ele, respondendo o que ele queria saber e ele expirou aliviado, dando uma piscada para Harry. Imediatamente, Ron buscou a mão de Hermione e eles foram para o quintal.
Harry olhou os amigos saindo de mãos dadas e procurou os olhos de Ginny. Ela corou rapidamente, mas não fugiu do olhar dele.
No mesmo instante, ele começou a se perguntar se algum dia eles voltariam a ser um casal. Ele amava Ginny, isso era certo. Mas ele não tinha certeza se poderia ser um homem bom para ficar com ela. Ultimamente, Harry tinha concluído que ele só tinha sido bom em uma coisa e aquilo já tinha acabado. Assim, ele não prestava para mais nada.
Ginny pareceu ter lido os pensamentos dele. Ela se aproximou lentamente, olhando nos olhos de Harry.
"Você precisa parar de pensar essas coisas, Harry. Não vê o que isso está fazendo com você?" – ela perguntou em tom de súplica e depois seguiu o caminho do irmão para o quintal.
Harry suspirou, querendo desesperadamente sumir dali. Resignadamente, ele fez o mesmo caminho de Ginny. Ele precisava se esforçar para parecer bem e, quem sabe assim, conseguisse ficar bem de uma vez por todas.
Continua...
N/a: Desculpem a demora...não estou conseguindo arrumar muito tempo para escrever. Mas prometo que não vou deixar de escrever sempre que puder. Não vou abandonar a história, juro! E tenho em mente os próximos capítulos já...então, fica mais fácil.
Obrigada a quem me mandou reviews...prometo que, em tempo, eu respondo a cada um de vocês. Continuem lendo e comentando!!
Beijos a todos.
Annie.
