WONDERFUL LIFE
Cap. 4 – O Lado Negro
Kai fica ali, parado, sem nada dizer, mesmo sendo o líder da banda e geralmente sendo a voz da razão nestes momentos de crise. Apesar de ser alguém que estoura quando nervoso, o lado racional do baterista sempre fala mais alto quando os membros se desentendem. Mas nesse momento ele fica calado, a cabeça baixa, concentrado mais na baqueta que segura do que na discussão entre os amigos.
- Yutaka... – Uruha se volta para ele, soltando-se da mão de Aoi que segura seu braço com força.
- Uru-chan... Eu te entendo, mas... – Não sabe o que dizer, pois mesmo que não concorde com o método de Ruki para resolver isso, não tira a razão dele. – Nós não queremos...
- Ah... Você também... – Sua voz sai magoada, uma sensação de traição preenchendo seu coração já bastante ferido. – É bom saber o que os amigos pensam de mim!
Uruha e Angel caminham em meio à neve que cai insistente, parando diante de um pequeno restaurante. O guitarrista já conclui que Uke deve estar trabalhando ali, pois na verdade o baterista trabalhava nesse ramo enquanto batalhava a carreira. E... Ele sempre disse que seria um cozinheiro se não fosse músico.
- Se ele estiver fazendo algo que gosta... – O loiro já tenta justificar para si mesmo se o encontrar longe do mundo musical. - Bom... Já é quase ano novo!
- Gosto dessa necessidade que vocês têm de comemorar a esperança de dias melhores. – Angel parece encantado com a atmosfera dominada pelo frio, flocos de neve cobrindo seus cabelos e fogos de artifício explodindo no céu de nuvens pesadas. – Gelo e fogo... As contradições humanas me encantam.
- Para de falar da gente como se fôssemos ratos de laboratório em um experimento divino! – Aquele papo todo apenas aumenta a tensão de Kouyou, que não tem idéia do que vai encontrar. – Eu sonhava tanta coisa pra esse novo ano... Talvez morar com o Aoi... Eu ficaria feliz em apenas estar sempre com ele... Mas eu acho que ele não...
- Vamos entrar! – O aprendiz de anjo o puxa pelo braço. – Estou faminto.
- E isso é hora de ficar pensando no seu estômago? – Essa necessidade do garoto experimentar tudo do mundo humano começa a tirá-lo do sério.
- Você vai encontrar o seu amigo... – Para ele isso é mais do que óbvio. – Por que eu preciso ficar passando fome enquanto vocês dois conversam?
- Ok, ok... O dinheiro é seu mesmo! – Prefere não discutir com o adolescente rebelde que enviaram para atender o seu pedido. – Tem balcão de reclamações lá no... Hum... Sei lá de onde você vem!
- Não tem. – Nem dá muita atenção à verdadeira intenção dessa pergunta, vai se sentando e pegando ansioso o cardápio. – Nem sei o que comer!
O maître se aproxima apressado, apesar do restaurante estar praticamente vazio. Uruha ainda está entretido com o adolescente que vasculha o menu em busca de algo que sacie sua vontade de experimentar de tudo.
- Boa noite. – Aquela voz calma, soa conhecida demais, fazendo o loiro erguer os olhos e encarar o rosto bonito de Uke Yutaka. – Vão pedir o que?
- Kai... – Vê-lo trabalhando ali é mais difícil do que pensava.
- Você sabe meu nome artístico... Já me viu tocar? – Uke diz isso sem emoção, apenas por curiosidade. – Apesar de estar parado há muito tempo.
- Sim... – Uma dor muito grande aperta seu peito, pois percebe naquele olhar frio e na falta de um sorriso que ele não está feliz. – Vi você tocando na Mareydi... Se eu não me engano.
- Minha última tentativa de dar certo nesse meio... – Aquela voz sem energia e fé não parece com a do Kai que o loiro conheceu. – Mas... Desculpa... O que vão querer?
- Alguma sugestão? – Angel se apressa em falar, antes que Uruha o interrompa.
Yutaka assume aquela postura de garçom, deixando as lembranças do que sua vida poderia ter sido para trás.
- Como hoje é noite de ano novo... Preparamos um cardápio para trazer sorte e prosperidade. – Ele mesmo o elaborou, mesmo que nem isso o empolgue mais. – Vocês poderiam começar com uma sopa... Escolhemos a Toshikoshi Soba, pois os noodles longos expressam o desejo de uma vida longa e feliz. Um cozido Oden pode completar, pois é bem quente e traz prosperidade. Como sobremesa... Estamos servindo Uguisu Mochi, que traz bons fluidos e prenuncia a primavera.
- Uau! – Os olhinhos avelã de Angel brilham de satisfação e prazer ao ver uma apresentação tão caprichada, suas papilas gustativas enlouquecendo ao pensar no sabor que toda essa boa sorte pode ter. – Adorei isso. Pode trazer pra dois... Junto com uma garrafa de saquê.
Um sorrisinho malicioso surge no rosto sério do ex-baterista, fazendo Uruha recordar em como as covinhas de Kai sempre se iluminavam trazendo paz ao grupo, mesmo quando alguma crise ameaçava surgir entre eles.
- Pra você vou trazer um suco, ok? – Esse não é o primeiro adolescente que tenta esse truquezinho no seu restaurante.
- Que droga! Eu sou bem mais velho do que aparento. – Percebe que experimentar beber algo alcoólico vai ser mais difícil do que pensava.
- Quando puder provar isso... Avise-me. – Uke leva o pedido até a cozinha, sob o olhar atento do loiro.
O guitarrista não tem como explicar para si mesmo a profunda tristeza que sente... Como isso pode ter acontecido apenas por não tê-lo conhecido? Kai tinha uma carreira antes do GazettE e imaginava que ele poderia ter conseguido sucesso, mesmo sem eles.
- A banda dele acabou há uns anos... Depois de conhecer vocês o Kai se tornou um cara muito diferente do Uke... Mais seguro, que diz o que pensa... E... – O jovem anjo continua observando o homem fechado e sisudo que apressa a cozinha para atender ao pedido. – Ele se esforçou muito pra ser um baterista melhor... Só pra provar pra vocês que era bom o suficiente pra tocar na banda.
- E muitas vezes a gente brincou... Que o Yune era melhor. – Sente uma pontada de arrependimento ao lembrar que também fez isso, mesmo que não soubesse na época como isso o afetava. – Ele lutou muito pra ser melhor e conquistar nossa confiança.
Não tinha como negar que ter conhecido a banda em um dos clubes em que tocavam e depois ter ido ao aniversário do Ruki... Foi o nascimento do Kai, que se tornou o líder em pouco tempo. O Yutaka era muito diferente, sempre aceitando as coisas, calado e preso dentro do casulo que construíra para evitar que seu 'lado negro' surgisse. Já vira Uke realmente bravo e ele podia ser perigoso quando tinha raiva.
- Mas... Aqueles olhos... – Não sabe dizer o que, mas algo neles lhe transmitiu um vazio imenso. – Como eu posso ter modificado o cara alegre e sorridente que Kai sempre foi?
- Quem disse que ele foi sempre assim? – Angel não esconde que está ansioso pela comida, olhando a todo instante na direção da porta da cozinha. – Seu amigo tinha o potencial para ser esse cara sisudo e fechado que está vendo agora... Mas o contato com a banda... A amizade... As noites que vocês passaram o tempo juntos jogando videogame... Ali ele aprendeu a ser um cara sorridente.
Ambos se calam com a aproximação do objeto de sua conversa, os olhos do aprendiz de anjo brilhando ao ver aqueles pratos de aparência e aroma deliciosos sendo depositados sobre a mesa.
- Gostaria de sair... Comigo essa noite? – A pergunta de Kai os pega de surpresa, os olhos dos dois se erguendo para observar o bonito moreno. – Podíamos beber algo e... Conversar.
- Claro. – Kouyou aceita, mas não consegue entrever em sua expressão a verdadeira intenção desse convite.
- Conversei com o gerente... Está vazio... – Não há nervosismo na voz dele, talvez apenas receio da reação do loiro diante de um convite tão atrevido. – Saio mais cedo e podemos... Comemorar o ano novo... Juntos.
- Sim... – Angel até para de comer e observa como essa conversa deixa o guitarrista nervoso.
Yutaka sai ainda incrédulo que o maravilhoso loiro aceitou seu convite, deixando para trás um Uruha ainda boquiaberto e um adolescente dividido entre o prazer de comer e a vontade de rir.
- Ele... Me convidou pra um... Encontro? – Takashima ainda teme pensar nessa possibilidade, pois para ele Kai é um grande amigo... Apenas isso. – Não que ele não seja... Lindo... Mas... Seria como sair com um irmão!
- Cuidado com ele... – Uma voz conhecida surge, vindo de trás do loiro, que se volta para ver um Yune mais velho, debruçado no espaldar de sua cadeira. – O Yutaka coleciona conquistas.
- O quê? – Fica até feliz ao ver o ex-companheiro do início do GazettE, que não encontrava há muito tempo.
- Como eu vi que você não parece ter entendido muito bem o convite dele... Resolvi avisar. – Parece realmente preocupado. – Conheço o Uke a mais tempo do que consigo lembrar, mas... Ele afoga a solidão assim... Está viciado nisso e... Um dia vai se ferir de verdade.
- Yune... – Tem tanta vontade de falar com o homem que trilhou algumas das estradas de espinhos com eles, pois nem imaginava encontrá-lo ali.
Yune sai de perto rapidinho, temendo que o amigo perceba o que fez e fique bravo. Mas não pode mais vê-lo se destruindo dessa forma, correndo o risco de pegar uma doença ou... Topando com algum maníaco que possa machucá-lo.
Mesmo ainda pensativo sobre o real destino de Yune, Uruha não pode negar que o rumo desse encontro começa a assustá-lo, uma faceta que não imagina encontrar em Kai o deixando encurralado, preso a esse pesadelo que não quer terminar.
- O que eu faço? – Uruha fica temeroso agora, sem saber como agir diante de tudo isso.
- Você não quer saber como seria a vida dele sem ter te conhecido? – Há uma triste ironia em suas palavras. – Agora vai saber toda a dimensão do estrago.
- Mas... Eu estou com medo. – Quantas vezes pensou em como seria não estar ali, levando a vida dura que levavam... Sem descanso, sem família, muitas vezes tão solitários, mesmo cercados por tantas pessoas? Só que experimentar isso dessa forma é mais amedrontador do que esperava.
- Come alguma coisa... Isso está uma delícia! – O garoto devora tudo misturado, provando da sopa, do cozido e da sobremesa sem qualquer ordem, alternando os pratos e voltando ao anterior para saborear algo que ainda não experimentou. – Você não se alimenta faz tempo.
Nesse ponto o aprendiz de anjo tem razão, pois o guitarrista loiro nem se lembra quando foi a última vez que colocou algo de comer na boca. E olha que andou bebendo em todos os encontros e... Aoi teria pegado no seu pé. Pensar nele o faz voltar os olhos para um falsamente ocupado Kai, que arruma algumas mesas a esmo, mas não tira os olhos dele.
- Cara... Como isso é estranho! – Uma sensação esquisita mexe com seu estômago, fazendo-o começar a comer. – Se eu contasse essa situação pro 'Kai real'... Ele ia rir muito. Mas... Que seja! Vamos ver onde vai chegar.
ooOoo
- Eu devia ter dito não. – Uruha se volta para Angel, sentado a sua frente. – Agora o Kai está achando que estou afim dele.
- Você ter insistido em me trazer já deveria ser uma super indireta... Ou direta, dependendo do ponto de vista. – O garoto está de mau humor, depois de o garçom ter lhe trazido mais um refrigerante ao invés do saquê que pediu. – Tenta conversar... Quem sabe ele tira essa idéia de te levar pra cama da cabeça.
- Por quê? – Os olhos chocolate se arregalam ao ouvir tal possibilidade. – É isso que ele está pensando? Me conta tudo anjo dos infernos... Não me sonegue informações.
- Só se você... – Aponta o copo com o líquido transparente e perfumado à frente do loiro. – Trocar comigo.
- Toma! – Passa impaciente o copo para ele. - Mas não vai ficar bêbado, nem vomitar em ninguém.
- Ele... Vai te convidar pra dançar e... – Sorve o líquido de um gole, sentindo-o esquentar tudo em seu corpo e correndo rápido para sua corrente sanguínea, a essência pura do seu corpo angelical reagindo imediatamente ao álcool. – Uhmmm... Haha... Isso é... Bommmm... Agora falta fazer... Simmmm... Eu vou querer...
- Ahm? Não! Nada de ficar bêbado e esquecer o que ia me dizer. – Takashima chacoalha o aprendiz de anjo, porém é tarde demais, a cabeça do adolescente tomba sobre a mesa, já inconsciente. – Maldito anjo que não sabe beber! Foi de grande ajuda.
Não pode deixar de ficar nervoso com essa situação. A música alta e o ambiente agitado do night club apenas contribuindo para isso. Kai não gostou quando veio chamá-lo e insistiu em trazer Angel. A presença de um adolescente estava fora dos planos de Yutaka, que disfarçou bem o incômodo. Vieram no carro dele, um grande silêncio se instalando, pois Uruha não sabia o que dizer.
O baterista havia se tornado um amigo muito próximo dele depois do incidente do beijo que dera em Aoi... Muito antes que o guitarrista moreno tivesse admitido para si mesmo que sentia o mesmo. A reação dele foi muito negativa e Uke foi o grande amigo que ouviu o loiro nos momentos em que não sabia mais o que pensar ou sentir. Agora... Vê-lo assim diferente... Nada do sorriso contagiante... Nada do jeitinho tímido, mas de personalidade decidida e liderança firme. Kai se tornou depressa a 'mãe' do grupo, mesmo que ficasse absolutamente sem graça quando lhe diziam isso.
Agora Kouyou deseja o máximo possível evitá-lo, como se não tivesse forças para repeli-lo simplesmente. Depois de ver o estado em que os outros estavam e como o Kai que conheceu está tão diferente... O que poderia acontecer se apenas o rejeitasse? Portanto é preciso ser cuidadoso, tentando evitar qualquer estrago ainda maior na vida do Yutaka.
- Caramba! – A voz de Kai soa divertida, aproximando-se dele por trás e sentando ao lado do anjinho desacordado. – O que aconteceu com seu amigo?
- Ele queria experimentar saquê... Não agüentou. – Quer demais conversar, a fim de fugir, mas não encontra as palavras certas. – Talvez eu devesse ir pra casa...
- Ahhhh... – Yutaka ajeita o adolescente no sofá macio, se levanta e fica ao lado dele, a respiração levemente ofegante, o olhar fixo no loiro. – Vamos dançar... Logo vai dar meia noite e... Não queria estar sozinho nesse momento.
Os olhos chocolate se erguem a procura dos dele, buscando se isso é verdade ou apenas um truque para que se apiede e fique. Mas... Por mais que conheça Kai, percebe que o Uke sem 'ele' não é a mesma pessoa, falta o equilíbrio que ambos unidos conseguem. Seja ou não um artifício de conquista... Não pode dizer 'não' depois de ouvir aquelas palavras tão solitárias...
- Tudo bem... – Sabe que vai se arrepender, mas não pode evitar. – Mas vou dar uma de 'cinderela'... Meia noite é o meu limite.
- Ok... – Não sente muita sinceridade na voz do baterista, que pega sua mão e o puxa na direção da pista de dança.
Ambos caminham em silêncio, com Kai na frente, sempre segurando firme a mão do loiro. Há uma tensão cortante enquanto atravessam a pista cheia, os rostos das pessoas se tornando meros borrões aos olhos de Uruha, que pensa apenas em como era bom dançar bem coladinho ao corpo do seu moreno. Quando se dá conta estão do outro lado da pista, Uke se voltando e ficando diante dele, o olhar cheio de um fogo que nunca vira antes. O corpo menor se aproxima do seu, a mão forte segurando firme sua cintura e a outra se colocando sobre sua espádua. Os rostos estão próximos demais, a respiração quente do baterista vindo de encontro ao seu corpo e causando arrepios.
- Kai... Na verdade... Eu queria muito... – Pretende dizer que deseja apenas conversar, mas o movimento do outro o interrompe, logo sentindo o frio da parede contra o tecido fino de sua camisa.
- Eu sabia que também estava se sentindo assim. – A excitação do Yutaka é tão evidente que o loiro engole em seco. – No instante em que te vi no restaurante... Desejei você.
- Uke... Por favor... – E mais uma vez a ação dele o interrompe, a boca do moreno tomando a sua de assalto, com tanto ardor que chega a perder o fôlego. – Eu quero...
Mais uma investida, as mãos ousadas passando por baixo de sua camisa, acariciando seu abdômen e brincando com o cós da sua calça jeans. A perna esquerda de Kai se coloca entre as dele, esfregando-se em seu pênis, fazendo um leve gemido escapar da boca cativa de mais um beijo ardente.
Uruha não pode negar que ao ver Kai 'vestido para matar' vindo na sua direção no restaurante, sabia que estava enrascado, pois sentiu certo arrepio excitado. Também... O baterista era um homem inegavelmente bonito, ainda mais com essa aura de 'bad boy', em uma calça de couro preto que não deixava muito à imaginação. Agora... Aqueles beijos sedutores, o perfume envolvente e as mãos travessas provocando sua libido... Tocando-o com luxúria... Os corpos grudados, as ereções roçando uma na outra, enquanto se vê preso contra a parede que já não está mais fria.
Momentos depois se dá conta de que está correspondendo, beijando o moreno com tanta ânsia quanto ele, puxando a camisa de seda negra e abrindo os botões em frenesi, descendo a mão e apalpando-lhe de leve o membro teso... Gemidos mais intensos deixam as bocas ocupadas, Kai abrindo-lhe o zíper e retribuindo a carícia de forma mais efetiva.
Sente-se novamente frágil e carente... Como no dia em que... Não! Sentia-se assim no dia em que acabou com o namoro que completava sua vida... Aoi... Ele o decepcionou... Mas... Não pode mentir para si mesmo e dizer que não o ama mais.
- Não! Pára! – Empurra Kai, virando o rosto para que ele não possa beijá-lo novamente.
- Mas por quê? – Há confusão no rosto bonito, mas sob uma aura negra e negativa que não combina com o líder do GazettE. – Eu sei que você também estava...
- Kai! Eu amo alguém... E não vou traí-lo. – Tenta pensar bem no que dizer, pois não deseja magoá-lo. – Por mais que estar com você tenha sido... Excitante.
- Então por que... Aceitou meu convite? – Há raiva naqueles olhos.
Uruha tenta tocar no braço dele, porém o moreno se esquiva, claramente ressentido com a rejeição.
- Eu queria conversar... – Não sabe como dizer o quanto Kai é importante para ele. - Saber como você está.
- Pra quê? – A expressão dele vai se fechando ainda mais. – Você nem me conhece... Me viu tocando numa banda que foi pro ralo... Quer saber como é ter que desistir de um sonho porque está cansado de lutar em vão?
- Não fala assim. Foi muito bom te ver tocar naquela noite... – Recorda claramente dela, mas também de todas as noites em que o baterista deu o melhor de si sobre o palco. – Ver o seu entusiasmo... Sua garra... Tudo aquilo me inspirou e ainda me inspira até hoje.
O olhar de Yutaka se torna desconfiado, encarando o loiro, um sorrisinho irônico se abrindo, deixando Uruha ainda mais preocupado com o estado de espírito dele.
- Esse foi o 'fora' mais original que já ouvi. – O sarcasmo escorre por suas palavras. – Mas não se preocupe... É só estalar os dedos e saio daqui acompanhado.
- Não faz isso, Kai-chan. – Aquelas palavras são como facas em seu peito. – Você não percebe que isso é uma fuga? Sente-se frustrado e solitário, então se reafirma usando e descartando pessoas. Mas não adianta... O vazio só aumenta.
- Cala a boca! Você não me conhece... Não vem com esse papinho sentimental. – Percebe uma raiva genuína vinda dele. – Não te interessa o que faço da minha vida!
O irritado Uke Yutaka atravessa a pista com um andar sedutor, roçando e se esfregando em corpos pelo caminho, sempre com os olhos sobre o loiro, que permanece parado no mesmo lugar. Pára junto de um rapaz de cabelos castanhos e compridos, que acompanha o ritmo do corpo do baterista, passando as mãos por seus braços e se fixando nos quadris, esfregando-o contra o seu. Em instantes os dois deixam o night club, o jovem quase arrastando Kai para fora, a excitação nítida em seu rosto.
- Que droga! – Uruha volta para a mesa, encontrando Angel ainda desmaiado, cercado por um par de sujeitos que não conhece, mas que estão se aproveitando do adolescente inconsciente. – Ei! Fora daqui antes que eu quebre a cara dos dois.
Uruha está furioso com a incapacidade de ajudar seu amigo e ainda ter que ficar de babá para um anjinho rebelde e adolescente.
- Duvido que você vá ganhar suas asas... Só se tiver algum parente importante por lá. – Passa o braço do ruivinho por cima de seus ombros e o segura firme pela cintura. – Se Deus é justo... Vai te fazer acordar com a maior ressaca que já existiu.
Caminha equilibrando o corpo menor, quase o arrastando pelo lugar, ainda triste com a realidade que encarou... Reita... Ruki... Kai... Nenhum deles é feliz sem o GazettE e... Pelo que pode perceber... O GazettE não existe sem ele. Como uma única pessoa pode mudar tanto o destino dos demais? Não que isso o faça sentir-se mais importante ou afaste aquela vontade de sumir que se apossara dele sobre aquela ponte. A sua falta, na verdade, talvez não seja emocional. Quem sabe apenas os destinos das pessoas estejam tão interligados que uma peça fora do jogo muda o resultado. Não consegue acreditar que os sentimentos entre eles que mudou tudo, apenas sua ausência física... Nada mais.
"Emocionalmente não faço diferença..." - Conclui teimosamente.
Depois de vestir o seu casaco e o de Angel, ambos saem pela porta, entretanto algo o faz paralisar. Para onde iriam hoje se não tem mais nada, não existe e seu apartamento está apenas na outra realidade. Até então o anjinho arranjou tudo, conseguindo hospedagem e comida nos dias que têm passado juntos. Mas agora... O que vai fazer em Tóquio com um adolescente desmaiado e bêbado? Faz sinal para um táxi parar, pois este pode ser o último por estas redondezas nesse horário, mas ao entrar fica olhando fixo para o motorista que insiste em perguntar para onde vão.
- Bom... Pode nos levar para um hotel? – Teme que o homem interprete mal suas intenções, já que tem um garoto desmaiado em seus braços. – Chegamos hoje na cidade e ainda não encontramos onde ficar.
- Tem idéia da categoria do hotel? – O homem não tem muita paciência com algo tão vago. – Tem de todo tipo na cidade... Depende do uso que quer fazer dele e o tempo.
- Não... Não é o que está pensando! – O que temia é exatamente o que o homem pensa. – Queremos um bom hotel, talvez quatro estrelas e com bons quartos... Com duas camas de solteiro.
- Ah bom... Tenho um em que os clientes sempre vão. – O motorista arranca atento à rua, mas também aos movimentos dos dois no banco de trás.
Uruha se fecha dentro de sua tristeza, deixando que o homem defina o lugar, pois o dinheiro sabe que está na carteira do garoto. No momento isso nem é o maior de seus problemas. Sente um vazio imenso dentro de si, pois ver os amigos assim não ajudou em nada a se sentir menos impotente e inútil para o mundo. Apenas evidenciou que o 'Uruha' ajudou a criar o GazettE, que mudou a vida deles, mas... O Kouyou faz falta como pessoa?
- Ele precisa... – A voz enrolada de Angel sai baixa, quase inaudível. – Da nossa... Ajuda...
- Ajuda? – Algo dentro dele se contrai, pressentindo que algo ruim está acontecendo. – De quem você está falando? Acorda garoto.
Chacoalha o anjo, mas só consegue ouvir uns murmúrios sem nexo, o que não resolve em nada o seu problema. Provavelmente Kai está em apuros, mas não tem idéia onde ele pode estar. Somente esse aprendiz desastrado e pé-de-cana pode ajudar e... Está imprestável no momento.
- Senhor... Preciso acabar com essa bebedeira do garoto... – Como sempre era ele que bebia muito, nem imagina como os amigos o tiravam dessa, e percebe como alguém bêbado pode ser inconveniente. – Pode me levar a algum lugar e me ajudar?
- Lidar com bêbado? – O homem faz uma manobra radical com o carro, mudando de direção e acelerando. – Minha especialidade!
Uruha ainda não reparara no sujeito acima do peso, careca, cerca de 45 anos... Não seria o tipo de cara que o atrairia, mas no momento simpatiza demais com ele. Depois da desconfiança inicial de ambos, o homem agora parece com aqueles tios que tiram a gente de encrenca e acobertam nossas escapadas.
- Como é o seu nome? – O loiro diz, enquanto tenta se equilibrar dentro do táxi sacolejante. - Vai nos ajudar e... Pega mal ficar te chamando de 'Sr. Taxista'.
- Masao Teraguchi... Mas me chamam de Masa. – As manobras do homem vão os levando para um bairro residencial de Tóquio que o guitarrista não conhece. – Vocês são daqui?
- Sou de Kanagawa... Meu amigo é... – Ele parece ocidental, mas como definir de onde? - Vem do Paraíso... Uma ilha do Pacífico... Perto da Austrália.
Kouyou não está acostumado a usar esse pensamento rápido e... Gosta disso! Mentir até tem um gosto bom, mesmo que seja uma meia mentira, pois essa praguinha veio mesmo de um lugar com esse nome.
- Adolescentes... Eles são assim mesmo. – O carro vai estacionando diante de uma casa simples, mas com um lindo jardim na frente. – Toda noite tenho que limpar o carro porque algum novatinho vomitou nele.
Masa sai do carro e abre a porta, ajudando Takashima a sair com o garoto no colo. Entram na casa, bem simples e arrumadinha, denunciando que o homem deve ter uma esposa caprichosa.
- Sua mulher não vai se incomodar? – Sua preocupação com Kai vai ficando cada vez mais intensa.
- Não tenho uma. – Indica para que Kouyou deposite sua carga sobre o sofá. – Bom... Eu tinha... Mas ela se foi há muito tempo. Não agüentou a minha rotina de trabalho.
Por mais que nunca tenha tido uma esposa, Uruha o entende muito bem, pois nenhum namorado duraria com o ritmo de seu trabalho, ainda mais somando com as infindáveis horas em que se sentava para compor. Por isso sua relação com Aoi era perfeita... Ambos tinham seus momentos de introspecção, quando se deixavam envolver pela 'musa'... Mas sempre depois desses momentos podiam estar nos braços um do outro... O trabalho os unia ainda mais, ao invés de separá-los. Mas... O que adianta tudo isso? No instante em que Yuu devia ter tomado seu partido e o defendido... Preferiu ficar calado... Apenas segurou seu braço quando tencionava 'quebrar a cara' do chibi. Bela ajuda! E depois... A briga no apartamento... Isso não vai sair da sua mente jamais...
- Vamos fazer a criança acordar? – Masa diz já pegando o garoto no colo. – Primeiro passo... Um banho gelado.
Os dois sobem as escadas e entram no banheiro. O taxista fica meio sem graça de tirar a roupa de Angel, então Uruha o despe, deixando apenas de cueca. Colocam ele dentro do box, regulando o chuveiro para 'frio'.
- Prepare-se, pois isso deve estar extremamente gelado. – O homem fala com certo tom de maldade. – O pequeno vai se debater e gritar. Precisamos segurá-lo o tempo suficiente pra despertar.
- Ok... – Takashima tira o próprio casaco e arregaça as mangas da camisa, segurando-o de pé com firmeza.
Assim que a água enregelada toca a pele desnuda de Angel, os olhos cor de avelã se arregalam, o corpo se debatendo, tentando sair, os gritos ecoando pela casa inteira como se fosse um animal ferido. Masao se aproxima com um cobertor de lã fino em suas mãos, aguardando o momento certo para acabar com a tortura.
- Fecha a água e puxa ele pra fora. – Quando o corpo trêmulo deixa o box, Masa o envolve com o cobertor, segurando-o no colo. – Precisamos aquecê-lo ou pode ter uma pneumonia.
- Vocês... Eu... Odeio... – A voz do anjo sai entrecortada e ofegante, não controlando seus maxilares, que batem um contra o outro. – Por quê?
- Precisava de você acordado pra encontrar o Kai. – Acompanha o homem que carrega o garoto ainda enrolado até a cozinha, onde o senta em uma das bonitas cadeiras de estofado bordado.
O taxista se aproxima da pia e prepara a cafeteira para fazer um café bem forte, o segundo passo para manter o garoto acordado. Enquanto isso, o loiro senta-se ao lado do aprendiz de anjo até compadecido dele, pois imagina que fica assim também toda vez que perde o controle e bebe demais.
- Você sabe onde ele está? – Não consegue disfarçar sua aflição.
- Devo saber, mas... – Não consegue se concentrar direito. – No momento só sinto a maior dor de cabeça... Nunca senti isso e... Prefiro não repetir a dose.
Um sorrisinho sarcástico surge nos lábios de Kouyou, pois um instintivo 'Deus é justo' surge na sua mente, por mais que queira ser solidário. Precisa se focar em salvar o Uke... Nem que seja apenas dele mesmo e sua teimosia.
- Toma isso, amiguinho. – Masa deposita a sua frente uma xícara de um líquido muito escuro, fumegante e de cheiro agradável. – Vai despertar sua mente e... Aquecer o corpo.
- E a dor de cabeça? – Essa sensação humana não atrai nem um pouco o jovem anjo, que toma um grande gole do café e faz uma expressão terrível ao constatar que não tem nada de açúcar. – Tem algo pra acabar com essa coisa infernal?
- Vou te dar um analgésico forte, mas... – O homem não consegue conter uma risadinha irônica. – Como é produto de... Saquê e falta de juízo... Talvez não funcione.
- Oh meu Deus! – A possibilidade de não livrar-se disso faz seu estômago revirar... Ou seria outra reação adversa da bebida? – Preciso... UHM... Pensar onde está o Yutaka...
Mas não tem tempo de se concentrar, pois se livra correndo do cobertor e corre de cuecas molhadas até o banheiro, ajoelhando e abraçando o vaso sanitário como se fosse seu melhor amigo. O vômito vem depressa, sem controle, os olhinhos do anjo embaçados ao experimentar uma coisa MUITO pior do que dor de cabeça.
- Isso... É... Horrível... – Diz quando percebe um preocupado Kouyou sentado no chão ao lado dele. – Juro que vou lembrar do...
- Agora estou preocupado com você. – Passa a mão pelos cabelos vermelhos. – Põe o que está te fazendo mal pra fora e depois pensamos no Kai... Ok?
Passados alguns minutos de agonia junto ao vaso, Angel volta amparado por Uruha, sentando mais uma vez na cadeira da cozinha. Percebe real preocupação no rosto dos dois homens que o ajudam e se sente comovido por ter sido ele a ser salvo, não o contrário... Mais uma vez.
- Fiz um suco de tomate... Alivia o mal-estar. – Masao senta ao lado dele. – Mas amanhã você deve comer algo leve... Seu estômago vai ficar sensível.
- Obrigada. – Toma o suco sem muita vontade, o gosto não sendo dos melhores, junto com o analgésico. – Essa foi a primeira vez e... Garanto que será a última! Não gostei do resultado.
- Angel... – Takashima também se senta e segura em sua mão sobre a mesa. – Onde está o Kai?
O garoto se concentra firme, focando no baterista e na desventura que está atravessando. Sabe onde é apenas precisa pensar com clareza. Aos poucos a dor de cabeça vai passando e os neurônios começam a funcionar, definindo em sua mente o lugar onde o amigo de Uruha está.
- É o apartamento de um amigo dele que está viajando... O Yutaka está sublocando. – Escreve o endereço em um papel. – Precisamos ir logo.
- Nos leva até lá, Masa? – Pergunta ao homem de olhos gentis, não querendo em absoluto abusar ainda mais de sua bondade. – Esse nosso amigo anda meio perdido e precisa da nossa ajuda. Mas...
- Claro! – Ele sorri compreensivo. – Não me divirto assim desde... Ah... Nem me lembro!
ooOoo
- Kai... – A voz de Uruha soa preocupada, agachado ao lado do amigo que está no chão da sala, recostado ao sofá. – Tudo bem?
Ele e seu jovem companheiro de aventura haviam se despedido de Masao, temerosos do que podiam encontrar e se depararam com a porta do apartamento aberta e a visão de um Yutaka semi-acordado e ferido caído no centro da sala. Kouyou respirou fundo completamente perdido, sentindo um aperto no peito ao perceber como aquilo tudo era previsível... Sentira que o caminho trilhado por Kai nessa realidade daria nisso.
- Fala comigo... – Tenta passar a segurança e o conforto que acredita que Uke precisa nesse momento. - Você está consciente?
- O que você... Quer? – Há um misto de vergonha e revolta. – Não basta o que já fez?
- Me conta... – Diz, sentando-se ao lado dele e observando o mesmo ponto indefinido no vazio. – Estou aqui como... Seu amigo.
- Eu... Confesso que ando precisando de um... – Leva a mão à cabeça, ainda zonzo, voltando-se para encará-lo. – Mas... Por que você se importa comigo?
Continua...
ooOoo
Como prometido aqui está o cap 4, como deveria ser. Minha beta maravilhosa se esforçou pra me entregar essa fic hoje e eu para entregá-la a vcs.
Relembro mais uma vez que esta fic é um presente especial para a minha amiga do coração Schei-chan... Te amo!
Agradeço a ajuda das minhas amigas, Yume Vy, Eri-chan, Schei-chan, Litha, Tomoe Shinozaki e Samantha Tiger... Vocês são sempre cobaias maravilhosas.
Nesse cap havia uma pressão em especial, pois o Kai é um dos membros mais amados do Gazette e tem um 'lado negro', que ele mesmo cita por diversas vezes. Era cuidado duplo... Pra não apanhar das amigas que o adoram e pensar no que poderia ter surgido se o Yutaka não encontrasse os demais gazeboys. E as entrevistas foram básicas para conhecê-lo um pouco melhor.
Agradeço de coração a todos os leitores que se interessaram pela história. Às queridas leitoras Schei-chan (a presenteada), Desiree Hasting... Dedico a vocês um agradecimento em especial por tirarem alguns minutos do seu tempo escasso para deixarem um review.
Espero que gostem e COMENTEM!
03 de Junho de 2010
11:33 PM
Lady Anúbis
