Capítulo Quatro – A Ilusão de Coragem
"O sofrimento humano é algo que não faz sentido – e a realidade implacável da morte é algo que não possui sentido algum."
- Martin Vasques da Cunha
Snape chegou aos terrenos de Hogwarts de uma maneira quase desesperada. Tracey desaparatara ao seu lado, sem conseguir decidir se atacaria o próprio professor ou agradeceria por ele ter-lhe salvado a vida. Em meio ao choque, sentiu seu braço ser puxado e andou cegamente em direção ao castelo.
Ao alcançarem o cais onde os barcos dos calouros aportavam no início de cada ano letivo, Snape largou o braço da aluna – ignorando o fato de ela ter, com esse gesto, ido ao chão – e desapareceu escada acima. Seus passos eram apressados, corridos, e sua respiração estava rasa no momento em que ele bateu a porta, cerrando a escuridão do quarto.
Como acontecera com a aluna momentos antes, ele caiu no chão, sentindo como se estivesse prestes a sangrar a dor que o prendia. Ignorou a própria respiração, tensionando fortemente os músculos na vã esperança de extinguir aquele sentimento.
Aos poucos, percebera o que fizera com a respiração e, acreditando insanamente que seus pulmões não receberiam ar caso não forçasse sua entrada, passou a inspirar de forma maníaca e sem conseguir expirar o suficiente.
A superoxigenação de suas células tornou dormente até mesmo a sua pele, algo que o fez cravar com força as unhas no rosto, tendo a impressão de que se a arrancasse, terminaria com aquela horrível situação. A loucura estava terrivelmente presente e, o tempo todo, o pensamento que percorria sua mente era a consciência de que lhe era impossível chorar.
Ele vira aquele horror, permitira que se repetisse, e, no entanto, continuava ali, impune. Seria esse o castigo? Não, não poderia ser, porque ele tinha plena consciência qual castigo lhe era destinado. Não deveria ter fugido, merecia passar mais uma vez por aquele tormento, merecia assistir – e ser vítima.
Em sua confusão, demorou para começar a perceber a mudança da situação. Não sentia necessidade de contrair mais os músculos, alguém lhe poupara esse trabalho; havia braços o envolvendo em um apertado abraço e, antes que pudesse adicionar este aos motivos de seu pânico, percebeu que uma voz suave falava continuamente, quase em um sussurro.
– Acalme-se, garoto, está tudo bem...
Segurou-se com força nos braços que procuravam confortá-lo, esperando que as memórias daquela – e de tantas outras noites – fossem apagadas, implorando para que tais lembranças deixassem de aterrorizar sua mente.
Extremamente confuso à realidade sem dor em que subitamente passou a se encontrar, Snape notou que o ritmo da própria respiração aproximara-se bastante do normal e que, aos poucos, os braços que o seguravam com tanta determinação passaram a soltá-lo.
Foi quando abriu os olhos e encarou o teto, escuro como um final, dando a impressão de que tudo acabara. Sua boca estava seca ao extremo, mas a consciência que lhe retornava não deu importância, assim como o fez com a ilusória impressão que tivera de haver perdido a sanidade.
A borda de um recipiente de vidro encostou em seus lábios, e água fresca molhou sua garganta sedenta. Enquanto bebia, fechou os olhos como gesto máximo de agradecimento. O que importava se ele era o velho e nojento professor de poções sendo ajudado por alguém ainda mais velho? A verdade é que naquele momento ele cogitou algo que nunca admitira na vida: precisava muito de um amigo.
Sentado na cama, junto à parede, encarou Dumbledore, que gentilmente o ajudara a se acalmar – como um amigo o faria. O Diretor igualmente se levantou e, puxando a cadeira da escrivaninha, sentou-se próximo o bastante para que pudesse falar em tom mais baixo que o normal e distante o suficiente para que Snape não ficasse desconfortável.
O professor de poções confiava nele, mas não o suficiente para que sentisse proximidade. Demorara anos para que desenvolvesse essa segurança e isso lhe custara momentos terríveis que continuavam a marcar sua memória. Ou talvez tenha sido a fragilidade originada nesses momentos que o tornara tão inseguro quanto às pessoas.
Sim, aquelas memórias... ele as vivera por tanto tempo, por tantos anos. Quando jovem, o tempo que passava na escola – a maior boa parte do ano – não amenizava o sofrimento à que era submetido durante os dois meses de férias, até porque também guardava lembranças ruins de sua época como estudante de Hogwarts.
Aproximara-se de pessoas que praticavam Artes das Trevas, pelo simples fato de que ninguém mais lhe dera oportunidade de fazê-lo. Alguns o julgavam somente pelo fato do Chapéu Seletor tê-lo colocado na Sonserina; outros, porque ele era introvertido demais, e muitos simplesmente porque não o consideravam como alguém que inspirasse à simpatia.
No final, com todos comentários, humilhações e provações, não lhe restara muita opção a não ser buscar aceitação dos outros, fazendo o que fosse necessário.
O Lord das Trevas lhe oferecera isso. Começara apenas com uma conversa educada, tão diferente das palavras que Severo normalmente ouvia lhe serem dirigidas. Ele não seria um Comensal qualquer; Voldemort o valorizava exatamente pelo que seu pai tanto o desprezava e maltratava: o sangue da mãe.
Ele começara a praticar magia – a verdadeira magia, como eram consideradas, as Artes das Trevas, por seus seguidores. Até mesmo contra estudantes ele a utilizara; fazia parte do treinamento, alegavam os outros Comensais. Dumbledore muitas vezes quase o surpreendera, e tentara interferir ao perceber com que – e com quem – Severo estava se envolvendo, só que o jovem não confiara nele o suficiente na época para se deixar ser ajudado.
Um erro que acobertava outros ainda maiores. De qualquer forma, era relativamente tarde, e Severo já era quase um adulto, seus piores momentos já haviam sido vividos quase em totalidade.
Quase.
Havia algo pior, que estava prestes a acontecer... o anúncio daquela tragédia Severo percebera desde a mais tenra idade e nunca encontrara justificativas para a surpresa que se abateu sobre ele por causa daquela noite.
Faltava apenas mais um ano para se formasse em Hogwarts e aquelas férias deveriam ser as últimas que passaria em casa – atingiria a maioridade dentro de poucas semanas. Chegara na noite anterior e a cada segundo rezava silenciosamente para que dali pudesse desaparecer.
Eileen Prince estava cada vez mais abatida e submissa, sua atitude incitando no filho um ódio que deveria ser por ele desconhecido. Aos dezesseis anos, o aluno Severo Snape se tornara praticamente independente, uma atitude muito mal-recebida por aqueles que não conseguiam entender suas reais motivações. Ao voltar para casa, ousara enfrentar o pai pela primeira vez depois de tantos anos e, por brevíssimos minutos, teve a esperança de que isso o impedisse de continuar com os horríveis crimes que contra o filho cometia.
Por brevíssimos minutos, que foram sucedidos por horas de pânico, temor e medo, mais do que o suficiente para lembrar Severo o porque ficara calado durante tantos anos e para justificar as atitudes de Eileen. Àquela lembrança seria a pior de sua vida, se não tivesse se seguido a horror ainda maior.
A primeira discussão – se é que assim poderiam ser chamados aqueles minutos de contestação – encerrara-se diante das palavras frias que Tobias Snape pronunciara mandando Severo se levantar. A violência que ele inflingiria mais uma vez ao filho seria pior do que qualquer outra que já tivesse perpetrado, tamanhas cicatrizes – físicas e psicológicas – que deixaria.
Ainda assim, a atitude fora eficiente em seus objetivos. Nenhuma vez mais Tobias viu seu filho o contestar. Severo calara-se novamente, recolhendo-se às sombras de seu quarto à primeira oportunidade.
Desejava sair de casa, mas não poderia – não queria – deixar a mãe. Guardava por ela enorme carinho e evitava culpá-la pelas faltas do pai; a via apenas como uma vítima, tão diferente da opinião que tinha de si mesmo... ele merecia os castigos que recebia. Merecia por ser tão errado, por não ajudar o suficiente a família, por não amar o pai tanto quanto deveria... Admitia isso, porque assim se justificava, assim conseguia aceitar, e aceitar calado.
A prática de magia negra lhe trouxera um pouco de auto-confiança, algo que ele começara a perder no momento em que desembarcara do trem e voltara a ser Severo, filho de Eileen.
E foi justamente ele que encontrou o corpo de Eileen na manhã seguinte. Não fora o único a sofrer por ter desafiado o pai. Horrorizado, fugiu imediatamente daquela sala, arrependendo-se terrivelmente por ter saído do quarto e para ele voltando em busca de refúgio.
Estava dominado pelo medo, sem saber como reagir. Deveria acusar o pai, sendo que eram inimagináveis as conseqüências dessa ação? Como avisar o Ministério que sua mãe fora morta por um trouxa? Era hora de finalmente recorrer a Dumbledore?
Recusara-se a qualquer atitude e permanecera no quarto, isolado por vontade própria, por alguns dias, mal dormindo e sequer comendo. Chegara ao ponto de não ter forças para se levantar e de não ver motivos para tentar fazê-lo. Demorou cinco dias para que alguém adentrasse seu quarto, trazendo ainda mais temor ao garoto.
Não era seu pai. Severo deveria sentir-se aliviado e, no entanto, aquela presença que se aproximava de uma forma que lhe parecia extremamente ameaçadora o obrigou a cerrar os olhos. Seu subconsciente voltava ao trauma revivido naquela semana e o deixava completamente alerta, preparado para passar por experiência semelhante no instante seguinte.
Sua reação fora violenta ao toque que sentira no ombro. Todo o ar que havia em seus pulmões desapareceu de repente, e ele sentiu como se estivesse prestes a ser atingido com toda a força, obrigando-se a recuar e encolher-se junto à parede.
O aperto em seu ombro continuou firme, mesmo que ele tivesse tentado se desvencilhar. A pessoa ao seu lado então falou, com uma voz grave que denotava preocupação:
– Severo, calma. Não precisa ter medo...
O garoto indubitavelmente estava entrando em pânico. A respiração errática e a agitação convulsiva de seus músculos só serviam para aumentar as preocupações do avô. Removendo finalmente a mão parada sobre o ombro do neto, começou a acariciar os cabelos negros com uma delicadeza pouco característica.
– Me ouça, por favor – Claudius pediu em voz baixa, falando ao pé do ouvido do neto –, seu pai foi embora, Severo, você está seguro agora.
E continuou tocando apenas os cabelos negros, mantendo a calma e pacientemente esperando. Aos poucos, os tremores no corpo do garoto cessaram, e a respiração perdeu o senso de urgência. Com a mão somente sobre a cabeça, era incapaz de dizer se a tensão do garoto diminuíra; o olhar dele buscando algo freneticamente explicitava o medo ainda presente.
– Não o deixarei voltar, não se preocupe – complementou ele, seguindo com o tom de voz e demonstrando um pouco de cumplicidade. – É melhor sairmos daqui. Não quer visitar sua avó, Severo? Ela espera ansiosamente para vê-lo.
Finalmente, os olhos assustados fixaram-se em alguma coisa. A parede vazia à sua frente deu espaço para os pensamentos que começavam a delinear-se conscientemente e ele pôde acalmar-se de fato. Respirou fundo e permitiu que a sugestão do avô fosse assimilada. Depois de um tempo, para alívio desse, assentiu com a cabeça.
– Vamos sair daqui, não se preocupe, cuidarei de você – assegurou Claudius, antes de tirá-lo da casa evitando passar pela sala.
