Desconfiança

- Quatro semanas depois –

Ginny mantinha a sua rotina como uma escrava digna e obediente. Todos os dias se levantava cedo, comia o que lhe era servido, sem rejeitar nada do prato, e ia diretamente para o armário de vassouras, pegando todas ali, que eram de diversos tamanhos, e caminhando para o primeiro andar para começar a limpar o chão, varrendo-o e passando um pano úmido para tirar o pó.

Como o chão era de mármore, assim como o chão do segundo e do terceiro andar, era fácil de limpar. O que ela tinha dificuldade era em lavar as escadas de pedra do castelo, que pareciam odiá-la, decidindo sujarem-se todos os dias para que ela voltasse a limpar.

Ela dedicava três dias de sua semana para os jardins, que estavam começando a aceitar a cor verde. Ela havia plantado rosas ali, e as sementes haviam começado a brotar na semana passada.

Nos finais do dia, ajudava na cozinha e esperava os elfos arrumarem o jantar de Greyback. Ela o servia, esperava alguns minutos para que ele a dispensasse, e subia finalmente para o quarto, comendo o seu próprio jantar e caindo na cama. Ela dormia imediatamente depois do dia tenso e cansativo que normalmente tinha.

No momento, Ginny terminava de limpar o chão do primeiro andar. Ao puxar a vassoura de encontro ao seu corpo, sentiu uma forte fisgada na costela. Quase gritou de dor, mas controlou-se e apenas gemeu, apoiando a vassoura na parede e colocando a mão ao lado do corpo.

- O que foi?

Um elfo que estava ao lado dela perguntou, visivelmente preocupado. Ela fez uma pequena careta.

- Eu não sei... sinto essa dor há quatro semanas.

- Você devia ter comunicado isso ao mestre.

Ginny soltou uma risada irônica de descrença e voltou a varrer o chão.

- Ele não se preocuparia comigo a esse ponto.

O elfo não respondeu, parecia achar muito absurdo o que ela havia lhe falado, como se a ideia de seu mestre não se preocupar com uma senhora fosse inconcebível. Ela quase sorriu ao perceber o vinco na testa do elfo, mas logo depois parou de varrer o chão.

- Terminei, vou cuidar dos jardins.

O elfo assentiu e Ginny recolheu as vassouras, assim como o pano de chão e balde, equilibrando tudo ao lado do corpo e andando calmamente até o armário de vassouras para guardar tudo. A dor ainda estava presente, mas tinha diminuído um pouco. Mas ela sabia que era questão de tempo para que a dor voltasse.

Ela abriu o armário de vassouras e guardou organizadamente as vassouras ali, começando a separar o material de jardinagem. Ginny daria tudo por uma varinha naquele momento. Facilitaria a sua vida, e ela não precisaria perder a manhã inteira varrendo o chão do andar imenso do castelo. Se ela tivesse uma varinha, o seu esforço seria bem menor, e talvez a dor em sua costela parasse definitivamente. Mas ela sabia que Greyback nunca lhe daria uma varinha.

Fechou o armário e andou até a porta principal do castelo, saindo no jardim. O sol a saudou, esquentando a sua pele. Ela fechou os olhos, permitindo-se curtir aquela sensação. Quando cuidava dos jardins, era o único momento em que sentia os raios de sol na pele e o vento fresco nos cabelos. O cheiro de terra e grama era bom demais comparado ao cheiro de pedra e madeira do castelo.

Ao chegar ao jardim, Ginny colocou o material de jardinagem ao lado e ajoelhou-se na terra fofa, cutucando levemente os montinhos. Algumas plantas começavam a despontar da terra, e as plantas que já existiam ali, e que estavam amareladas, ela conseguira recuperar, fazendo-as ficar com uma cor esverdeada bonita.

Ao começar a podar as folhas mortas, Ginny permitiu-se sorrir. Era o único momento do dia que apreciava gratuitamente. De qualquer maneira, ela arriscava-se a dizer que o jardim era o único legal que realmente tinha vida naquele castelo. Ela adorava mexer nas plantas, sentir a terra entre seus dedos, regá-las e observá-las crescer. Mesmo se possuísse uma varinha, não a usaria naquele momento. Adorava fazer aquilo manualmente, como se fosse seus dedos que estivessem dando vida àquilo tudo.

Como todas as vezes em que estava só, seus pensamentos começaram a tomar rumos próprios. Naquele dia, eles decidiram fazer com que Ginny pensasse nos seus colegas de Hogwarts. Como estariam Luna e Cho Chang? Ela lembrou-se vagamente de Luna saindo de seu campo de visão quando foi comercializada, assim como Cho Chang. Ela lembrou-se de Neville e seu peito se apertou.

De repente percebeu que não poderia deixar de esquecer-se de ninguém lá fora. De qualquer maneira, eram as pessoas que Ginny amava, e saber que eles ainda estavam vivos lhe deixava em paz, e lhe dava forças para querer viver também.

Ela agradeceu mentalmente por estar ali, apenas varrendo o chão, cuidando da cozinha e dos jardins. Sabia que os colegas não deviam ter a mesma sorte. Bellatrix devia estar fazendo da vida de Neville um inferno.

O rosto dela foi percorrido pela fisionomia da tristeza.

De uma janela distante, no terceiro andar da parte leste do castelo, Fenrir observava com atenção a garota mexer nas plantas. Ele sabia que ela nem desconfiaria de que ele às vezes dedicava seu tempo a observando. Ele nunca aparecia para ninguém na parte do dia, e ele tinha quase certeza de que ela achava que ele só estava no castelo na parte da noite.

Estava mais que claro que a garota se sentia mais à vontade ali, em meio às plantas do jardim. Ela estava sorrindo levemente minutos atrás, mas naquele momento ela ficara triste. Fenrir não sabia o porquê, mas ficou um pouco curioso para saber o motivo do sorriso.

Ela debruçou-se para pegar uma pequena tesoura e Fenrir percebeu que as roupas que ele lhe dera estavam começando a ficar mais justas ao corpo. Naquela tarde ela usava um conjunto claro de roupas de algodão, e a blusa já mostrava a curva delicada da cintura dela. Ela não estava tão magra igual estava quando ele a escolheu e a trancou ali, e ele a preferia assim. Sabia pelo relatório dos elfos que ela agora não recusava nenhuma comida.

Os cabelos também haviam mudado muito. Quatro semanas atrás, os fios estavam opacos e estranhos. Naquele momento não. O sol batia nela e deixava os cabelos ainda mais vermelhos do que eram, mostrando o brilho que possuíam. Os fios caíam como cascata pelos ombros dela, fazendo um contraste inquietante com o verde das plantas.

Mas ela ainda estava pálida. Não aquela palidez de um londrino comum, mas a palidez de alguém doente e cansado. Fenrir sabia que a beleza da garota nunca voltaria completamente. Ele já estava se acostumando com essa ideia. Felizmente o seu aroma estava ficando cada dia mais doce. Ele não sabia o motivo, mas podia arriscar-se a dizer que era por causa da recuperação física dela. Fenrir conseguia sentir o aroma dela cada vez mais. Quando ela se aproximava para colocar a bandeja a sua frente na hora do jantar, o cheiro delicioso invadia as narinas dele e o deixava com água na boca, dando-lhe ainda mais fome.

No entanto, ele tinha plena consciência de que não poderia encostar nenhum dente nela. Mas estava mais que claro que ele daria tudo para sentir uma gota do sangue dela em seu paladar, ou até mesmo lambê-la para ver se o gosto dela era compatível com seu aroma.

De repente a garota parou de mexer nas plantas, colocando os instrumentos de lado e pousando a mão pequena ao lado do corpo. Ela fez uma careta e levantou a blusa. Fenrir pôde observar ali uma grande mancha escura. Ela tocou a mancha com os dedos, estremecendo levemente.

Ele franziu o cenho quando viu aquilo. Ela estava machucada, isso estava mais do que claro. Mas ela não dissera nada para ele. Logo, ele podia concluir que o machucado não era tão sério. Mulheres normalmente não aguentavam muito a dor física, e ele sabia que ela aguentaria muito menos por estar frágil fisicamente. Se a dor não era o suficiente para ela lhe chamar, então ele não se preocuparia com aquilo.

Ela parou de tocar no próprio corpo e colocou a blusa novamente no lugar, voltando a trabalhar. Fenrir respirou fundo, enfiando as mãos enormes dentro dos bolsos da calça e continuando a observá-la.

De repente ele percebeu algo. Um leigo não iria perceber, mas ele era atento demais para que não notasse os olhos claros dela desviarem para a grade que ficava atrás de uma árvore. Ela parecia temer que alguém a visse, então não fitava a grade por mais de dois segundos, mas Fenrir a pegou olhando aquele lugar mais de três vezes enquanto mexia no jardim. Ele semicerrou os olhos.

Depois de alguns minutos, ela parou de trabalhar no jardim, organizou todos os instrumentos em uma grande cesta e limpou as mãos na calça de algodão, levantando-se. Fenrir esperava que a garota pegasse a cesta e fosse embora, mas ela demorou-se ali por alguns segundos.

Ela olhou discretamente de um lado para o outro e andou calmamente até a árvore, mexendo ali com falso desinteresse. Ela deslocou algumas folhas grandes do lugar e logo depois se afastou, pegando a cesta e andando diretamente até o castelo.

Fenrir semicerrou os olhos e virou-se, indo em direção à porta do cômodo em que estava.


A noite já havia caído. Ginny tinha acabado de colocar a bandeja diante de Greyback e agora se afastava para esperar o lobisomem começar a comer e dispensá-la. O corpo dela estava levemente dolorido e ela sentia a dor na costela ainda mais evidente. Desejava a todo custo tomar um banho e cair na cama.

Mas Fenrir Greyback parecia querê-la ali, pois ainda não a dispensara com o seu gesto costumeiro, e ela não ousou sair por conta própria.

Ele partiu o bife com apenas um movimento de talheres e pegou um pedaço com a mão. Havia mais sangue no prato naquela noite, ela percebeu. Depois, observando melhor, percebeu também que a carne que ele comia estava ficando cada dia mais sangrenta e crua, e perguntou-se o motivo disso. Independente do motivo, aquilo não era bom. Ginny teve um péssimo pressentimento naquele momento.

Ela estremeceu levemente. Fenrir não deixou isso passar despercebido. Algo nos estremecimentos dela o fazia se regozijar. Adorava sentir o medo dela. Conseguia até mesmo farejá-lo.

- E então, garota, no seu tempo em Hogwarts, você era de qual casa?

Ele perguntou, visivelmente interessado e curioso. O coração dela deu um salto. Ele nunca conversava com ela, e sempre quando lhe dirigia a palavra era para dar uma ordem. E só. Iniciar uma possível conversa com aquele monstro era praticamente inimaginável. O que ele queria com aquilo? De qualquer maneira, ela sabia que teria que responder, ou senão ele a ordenaria a isso.

- Grifinória.

A voz soou um pouco trêmula e fraca, e Ginny odiou-se por isso. Um sorriso malicioso percorreu levemente o rosto de Fenrir e ele enfiou mais um pedaço de carne na boca, mastigando-o rapidamente e engolindo. Observou-a por alguns segundos antes de fazer a segunda pergunta.

- Entendi... então me diga, você ainda possui a coragem que todo grifinório julga e se vangloria ter?

Ele estava a provocando, mas ela não iria entrar naquele jogo dele. Dessa vez ela permaneceu calada, desviando os olhos claros daquele homem imenso e focando-os no chão de mármore escuro.

- Pelo visto não possui.

O movimento da cabeça dela foi tão forte que ela sentiu seu pescoço se estalar. Ela o olhou em fúria, observando um sorriso vitorioso percorrer o rosto dele. Ela queria amaldiçoá-lo, respondê-lo ou até mesmo voar nele e socar aquele lobisomem imbecil. Mas sabia que respondê-lo seria ainda pior, e fazer as outras coisas, bom... seria suicídio.

- Pode ir, garota. Mas quando estiver deitada em sua cama, lembre-se, se tentar algo imprudente aqui dentro, pagará pela ousadia.

Ele a dispensou com seu gesto costumeiro. Ginny demorou a entender o que ele lhe falara, mas mesmo assim deu as costas àquele homem e andou com passos lentos para fora da sala de jantar. Depois de alguns segundos, percebeu que suas pernas estavam tremendo.

Por que ele falara aquilo? Seria por causa de algo em relação aos jardins? Mas como ele saberia daquilo, se quando ela mexia ali os elfos estavam trabalhando em seus afazeres e ele não estava no castelo?

Ela não sabia responder aquelas perguntas.

O péssimo pressentimento voltou ao seu corpo, dessa vez de forma mais forte.


Nota da Autora: bom, eu sei que todas estão ansiosas por mais ação, mas eu preciso colocar algumas coisas em pauta primeiro, como costumo fazer. No próximo capítulo as coisas vão realmente começar a andar! Prometo! Até lá!