09h35 – Ouch!

Dor.

Segundo o Dicionário: Sensação desagradável ou penosa, causada por doença ou ferimento. Sofrimento físico ou moral. Pena, compaixão, dó. Remorso, arrependimento.

Em seu caso, sentia-se com os minutos contados. Crente de que realmente fosse morrer, procurou por papel e caneta a fim de escrever seu testamento. Sem resultados. A cabeça parecia querer explodir, impossibilitando sua busca resolveu parar e continuar deitado em sua cama, não se movia achando que assim sua ressaca fosse dissipar de uma hora para outra.

- A noite foi boa!

Pôde sentir a voz terrivelmente aguda de Grace criar ecos dentro de sua cabeça; naquele minuto desejou a morte com todas as suas forças!

-... Morte... Grace... Saia.

- Nã! Só vou te deixar em paz quando de me contar tudo que aconteceu! Os detalhes mais sórdidos e íntimos! Quero tudo! Vamos, Will, comece!

- Minha cabeça dói...

- Vou te pegar uma aspirina! Da última vez que a Karen veio aqui esqueceu duas caixinhas inteiras.

A ruiva deixou o quarto apressadamente para minutos mais tarde entrar com um copo d'água e três aspirinas em mão.

- Engole tudo de uma vez!

- Grace... Eu ainda não escrevi meu testamento... Se me matar vai arcar com o prejuízo.

Naquele mesmo instante ela retira dois dos comprimidos jogando-os em qualquer lugar e oferece o copo para o moreno.

- Eu jamais faria este tipo de coisa com você! Assim me ofende!

-... Desculpe.

- Quem cozinharia pra mim?!

- Isso não seria problema, Peggy Bundy (¹), você freqüentaria a Eucaristia pra comer de graça!

- Que absurdo! Eu já disse que aquilo foi desejo de grávida!

- Grace... Você discutiu com o padre porque ele não queria encher seu copo de vinho!... Pela segunda vez!

- Eu sou judia! Podemos tomar mais que um mísero copo de vinho!

- Que aspirina você me deu?

- Viagra.

- VIAGRA?! Pra dor de cabeça?!

- Resolveu não resolveu? Então não reclama.

- ...

10h25 – Idiota!

Na cozinha...

- Eu não acredito que você saiu correndo, Will!

- Não sai correndo! Apenas... Não aconteceu nada. Não daria em nada; foi tudo muito estranho.

- Idiota.

- O que?! Grace! Eu não sou um promiscuo! O que você queria que eu fizesse?

- Aproveitasse! Desse uns malhos! O agarrasse num beco sem saída!

- Escute...

- Will, francamente! Você é o gay mais hétero que eu conheço!

- Esqueça isso, certo?

-Ah...!Tudo bem.

- Obrigado.

- ...

- Então... Como vai a vida de casada? Tem assado muitos cookies?

- A vida de casada vai melhor do que eu esperava!...Mas... Will...

- O que?

- Eu ainda não acredito que você fez isso!

- Grace!

- Ok... ok... Leo é perfeito! Está cada vez mais atencioso e estamos felizes com as palavras que a Lilá tem soltado sem parar! Como: Papa... Bolo... Madonna.

- Ela tem dito Madonna?

- Eu comprei um DVD semana passada então...

14h12 – Algo chamado Destino.

Will acabara de desligar o celular e ajeitava o cabelo outra vez. Vendo seu reflexo pelo retrovisor checando se estava bem. Definido, saiu do automóvel e seguiu em passos calmos pela calçada até encontrar o que procurava. Já estivera ali muitas vezes e em todas as suas visitas trazia um pouco daquele amor pra dentro de si.

Única sensação que realmente poderia classificar deste modo.

A casa simples com cores leves e harmoniosas; de um pequeno jardim coberto por jasmins, gazânias de diversas tonalidades, cravina violetas e rosas... De diversas cores e formas.

Suspirou, procurando acalmar as palpitações que começara a sentir dentro do peito.

Fechando a cerca atrás de si passou a atravessar o jardim até chegar à entrada principal e ajeitando-se novamente, bateu a porta.

Quem o atendeu foi um moreno alto de olhos claros; levemente bronzeado carregando uma pequena criança em seus braços.

- Will!

- Como vai, Leo?

- Bem! Estamos bem! Entre! Só estávamos esperando por você.

- E Grace?

- Ela já começou a comer.

- Claro.

Após os cumprimentos iniciais seguindo de uma conversa casual, Will pega a pequena Lilá no colo e os três caminham até a sala de jantar para o almoço.

Ao se aproximarem ouviram sons de vozes e risadas – provavelmente vindas de Grace – pensou Will; e de outros que de imediato não conseguiu raciocinar.

Assim, até acontecer.

Questões de segundos entraram e finalmente pôde visualizar os novos convidados com quem teria que dividir sua tarde. Grace divertida sentada ao lado de uma psicologicamente-sarcástica Karen que jazia sentada em frente ao...

- Will! Que bom que chegou! Agora podemos comer!

A exclamação alegre de Grace mal passou por seus ouvidos. Somente quando seus olhos castanhos detiveram-se para encarar aquele homem sentado displicentemente na cadeira apenas para encará-lo de volta.

Novamente, sem deixar aquele sorriso faltar-lhe a face, agora ligeiramente rosada. Nada disse. E nada mais pareceu ouvir.


(¹) Mulher de Al Bundyno seriado humorístico Married with Children.