Capítulo IV – Segunda Prova – Jared avança para a segunda base


Não é preciso dizer o estado de indignação de Jared ao ver a foto do amigo e da roteirista na Internet. Na sala, com o notebook no colo, ele olhava da foto para um Jensen sorridente e largado de qualquer jeito sobre o sofá.

- Vai me explicar isso, não vai?

- O que tem para explicar, Jay?

- Vocês ficaram? Ontem vocês dois ficaram diante de um mercado inteiro?

- Não! Nós flertamos, foi só isso. Por que está tão zangado? Só porque passei a sua frente na aposta?

- Não tem nada a ver com a aposta, Jen! – o moreno falou, batendo a tampa do notebook com bem menos cuidado do que costumava ter.

Jensen encarou o amigo, parecendo estar vendo um Jared totalmente novo diante de si. Jamais o havia visto tão nervoso. De olhos fechados, Jared balançava a cabeça e respirava fundo.

Ele não havia gostado de ver a proximidade dos dois. Preferia imensamente quando Jensen achava que Mandy era apenas mais uma fangirl. Agora que ela ganhava algum espaço na vida do loiro, mesmo que por causa da aposta, Jared sentia-se incomodado. Era como se estivesse perdendo Jen para ela. Sentia ciúmes.

Não podia admitir isso. Era ridículo! Ele não tinha ciúmes de Daneel, quando eles ainda eram noivos. Ele não teve ciúmes de nenhuma das namoradas de Jensen até então. Mas Mandy, ela era diferente.

- Jay, você é mesmo muito estranho! Você aceitou a aposta, e antes disso já estava flertando com ela! Então qual é o problema?

Jared o encarou tentando esconder a mágoa no olhar, mas desviou o rosto ao notar que Jensen já fazia seu biquinho emburrado que ele achava que era... bom, no mínimo interessante, para não dizer sexy.

- Ah meu Deus! – Jensen exclamou e por um instante Jared sentiu as bochechas corarem, imaginando ter pensado alto sobre a boca do outro – Não vá me dizer que você está interessado nela de verdade?

Não, estou interessado em você! Ele ouviu o próprio cérebro responder à pergunta, mas apertou os lábios impedindo que as palavras saíssem da sua boca.

- Eu... eu não sei o que responder, Jen! Acho que preciso dormir... Estou cansado. O Kripke ficou aqui até as 5 da manhã e...

- Você não precisa de desculpas, Jay. Quer ficar sozinho? Tudo bem, vou dar uma volta! - Ele se levantou, alcançou a porta da rua e saiu.

Sentado, sozinho na sala, com o rosto enfiado entre as mãos, Jared pensou pela primeira vez que fazer aquela aposta tinha sido a pior idéia da sua vida!

*****

Jensen voltou para casa pelo menos umas duas horas depois. Não falou a Jared onde foi e o moreno também não perguntou. Só voltaram a se falar no dia seguinte, já no estúdio, para gravar as cenas do centésimo episódio da trama.

No intervalo do almoço, Jensen mastigava sem convicção ou apetite um sanduíche que Misha havia levado para ele. O episódio em questão girava todo em torno de Dean e de sua relação com o Arcanjo Miguel. Era um episódio escrito por Kripke desde o início da primeira temporada e ele foi lapidando aos poucos, até chegar ao roteiro que gravavam naquele dia.

Todos os fãs de Supernatural esperavam ansiosamente o episodio e Jensen estava se esforçando para que sua atuação ficasse impecável. Mas isso tinha um preço: o desgaste em cima do loiro era evidente e ele era forçado a parar pelo menos 15 minutos após cada seqüência.

Agora estava em seu trailler para uma pausa maior. Passava os olhos pelo script, mas não lia de verdade. Sua mente estava longe dali, no modo como Jared o olhou na noite anterior.

Ele conhecia o amigo demasiadamente bem para ter entendido que aquele brilho no olhar era ciúme. E sempre que a imagem daquele olhar aparecia diante de si, sua garganta ameaçava fechar de agonia.

Quem merda estava acontecendo? Por que ele estava se sentindo tão mal com a idéia de ver Jay interessado por alguém? E embora as perguntas ainda pairassem na sua mente e se repetissem nas mais diversas variações, a resposta ele sabia faz tempo. A resposta era exatamente a que ele havia negado a Tom Welling no banheiro do bar, no dia em que aceitara a aposta.

Quando disse que a aposta era interessante, só pensava em dar um jeito de afastar Jared de Mandy. Jamais pensou na possibilidade de estar empurrando seu amigo ainda mais para cima da jovem. Largou o sanduíche sobre a mesa e se pôs de pé.

- Isso está errado! – murmurava com raiva de si mesmo e com os olhos marejados.

A porta do trailler se abriu e Jared entrou sem se anunciar, pedir licença ou qualquer coisa do tipo. Mas estancou vendo o estado em que Jensen estava. O loiro não se mexia, estava de pé, a meio caminho da porta e amassava o script com força, enquanto procurava dentro de si mesmo alguma coisa que o fizesse se acalmar.

Ainda não havia notado que tinha companhia, até que se sentiu puxado para um abraço apertado. Um típico abraço de urso dado por Jared. A princípio quis se desvencilhar, mas sentindo o perfume amadeirado do amigo, acabou se deixando abraçar e soluçou.

Quanto tempo ficaram assim, abraçados no meio do trailler, nenhum dos dois saberia dizer. Jared não falou nada, apenas alisava as costas do mais velho, num gesto que ele achava seria capaz de transmitir a idéia ao outro de que ele estava ali, com ele, para o que precisasse.

E mesmo depois que os soluços do intérprete de Dean cessaram, eles ainda continuaram abraçados. Uma cena que era até comum quando o trabalho exigia demais das emoções deles. Um sempre estava pronto para ficar ao lado do outro e o ajudar a recompor-se.

Separaram-se apenas quando alguém bateu à porta, dizendo que Kripke os esperava. Jensen ainda tinha os olhos levemente vermelhos, mas sabia que ninguém ali faria perguntas. Ele sempre se envolvia demais com os sentimentos de Dean e chorar ao fim de uma cena difícil não era incomum para ele.

Quando se preparava para abrir a porta, sentiu a mão de Jared puxar a sua e apertar, olhando-o uma última vez dentro dos olhos.

Pronto! Estavam bem novamente. Nada de mágoas, rancor ou ciúmes. Ali eram somente os dois velhos amigos de sempre.

- Ok! – dizia Kripke quando viu que as últimas pessoas da equipe se aproximavam – Eu estive conversando com a Sera e nós dois decidimos fazer uma coisa diferente na série. Como todos sabem, logo teremos que filmar o episódio em que o Sam diz "sim" Lúcifer.

O estúdio inteiro fervilhou com burburinhos. Aquela cena seria a mais marcante da temporada e o assunto era, até então, tratado a sete chaves pela "Santíssima Trindade" como eram chamados Bob, Kripke e Sera.

- O que nós optamos por fazer vai requerer dedicação triplicada de todos vocês. E quando eu digo triplicada, estou usando o sentido literal. – Kripke dizia sem se exaltar, examinando as reações de sua equipe – A partir de hoje, cada roteirista terá uma semana para escrever uma cena convincente para este trecho da trama. E nós vamos filmar as três cenas escritas. Depois, vamos escolher qual irá ao ar. Ou então, jogaremos as três cenas na internet como um falso spoiler e gravaremos uma quarta opção que já está escrita pela Sera e por mim. Vocês concordam?

Ninguém se atreveu a responder. O rosto intrigado e os sorrisos enigmáticos de cada um dos três roteiristas Carver, Edlund e Carlton, já eram resposta mais que suficiente para Kripke. Mas faltava saber do elenco.

- Padaleck. O que me diz?

- Sim! Sim! E sim mais uma vez! – ele afirmou dando um sorriso confiante.

Sabia que ia se desgastar, mas seria incrível viver tantas possibilidades sobre uma mesma situação.

Já no fim da tarde, Jared e Jensen voltavam para casa juntos. Já falavam sobre amenidades e sobre o que aquela idéia maluca de Kripke podia significar para eles. Mas como todas as idéias malucas de Eric sempre deram certo, não teria como ser diferente desta vez.

Ambos faziam especulações sobre o que cada roteirista ia escrever e as opções ficavam cada vez mais absurdas o que fazia os dois rirem até sentir as bochechas formigarem.

O celular de Jared tocou e ele atendeu, ainda sem ar.

- Jay! O Jen ta com você?

Era Tom Welling falando, num tom de voz visivelmente agitado.

- Ta sim. Estamos indo pra casa.

- Beleza. Coloca no viva-voz.

Quando Jared fez o que foi pedido, ainda com uma expressão aturdida nos olhos, Jensen cumprimentou o amigo e eles ouviram:

- Acabei de pensar na segunda prova. Um encontro. Mas não pensem que vai ser fácil, pois quem vai ter que convidar é a Mandy e não vocês. Ou seja, quem ela chamar primeiro pra sair, mesmo que seja pra comer cachorro-quente na carrocinha em frente ao estúdio, leva 60 pontos.

******

Tom Welling era mesmo um idiota filho da puta na opinião dos amigos. Como convencer uma pessoa a lhe convidar pra sair sem parecer forçado ou patético? Esta era a questão que tirou o sono dos J's durante toda a semana.

Cada um a seu modo tentava se insinuar para Mandy que fugia dos dois sempre parecendo não perceber o que ambos estavam fazendo. E o melhor, não deixando mais ninguém da equipe perceber também.

Quando faziam algum gracejo mais ousado, ela retribui a logo começava a gargalhar, dando a entender a qualquer um que ali só se tratava de uma diversão entre amigos.

O prazo para a entrega das cenas chegou e, como numa peça de teatro, a equipe se reuniu para ouvir a leitura. Mas desta vez, os atores foram poupados. Eles seriam expectadores e nada mais que isso. Nem palpite poderiam dar.

Eric havia pedido apenas a cena do "sim" e nada mais. eles não desenvolveram o roteiro inteiro, de modo que apenas a explicação de como chegaram até ali era suficiente.

Edlund apresentou primeiro, e a cena dele se resumia a um Sam nervoso, em conflito, que aceitava Lúcifer após uma briga com Dean. Uma cena que ele acreditava ser a mais óbvia, tendo em vista que isto já havia sido insinuado em episódios anteriores. Apesar de obvia, a narrativa de Edlund era envolvente e todos ficaram satisfeitos com o trabalho.

Carver optou por uma situação mais intrigante e fez o mais novo dos Winchester cair numa armadilha, fazendo com que no instante em que Lúcifer começasse a assumir seu novo receptáculo, a idéia de ter sido manipulado novamente por um demônio consumisse sua última centelha de consciência. Jared se remexeu na cadeira, imaginando o esforço que isso exigiria dele como ator.

Quando chegou a vez de Carlton apresentar, a jovem roteirista ficou levemente intimidada. Ela pensava diferente. Ela enxergava diferente tudo o que acontecera até então e sua explicação prévia da cena foi a maior dos três. Mesmo assim ela não foi interrompida e quando ela terminou a leitura da cena em que Sam arma em seu próprio corpo uma armadilha para Lúcifer, com o único objetivo de salvar o irmão, muitos ali tinham um nó na garganta que estava difícil segurar.

- Bem, acho que temos nossa Drama Queen – disse Misha Collins para quebrar o clima que havia se formado ali.

- É isso então! Já sabem com o que terão que trabalhar meninos. Amanhã vocês vão receber uma cópia das três cenas. Depois que elas forem gravadas, nós damos um jeito no resto da história.

Não havia clima para mais nada depois daquilo e cada um foi para sua casa esperando que o ritmo das gravações ditasse as vidas deles dali para frente. Na manhã seguinte, quando Jared abriu o envelope com os três roteiros, sentiu-se perdido.

Como faria para representar três cenas tão distintas que exigiam nuances e facetas diferentes de seu personagem? O café esfriava na xícara à sua frente e ele não reparou quando Jensen entrou na cozinha. Parou a poucos centímetros dele e o ficou observando.

O intérprete de Sam vestia uma calça de malha azul marinho e uma regata cinza clara, dando a entender que ele havia levantado horas antes e já havia feito sua corrida matinal. Seus músculos pareciam brilhar levemente com o suor que ainda restava sobre ele e Jensen sorriu, ao ver Jared levar a mão esquerda à própria nuca e apertar. Ele só fazia isso quando estava muito preocupado.

- Jay? – chamou baixinho para não assustar o moreno, mas praguejou mentalmente quando notou que sua voz saiu mais rouca que o usual.

Jared o olhou com um rápido sobressalto e sorriu cansado, respondendo ao cumprimento.

- Ta tudo bem? – ele se aproximou por trás, parando com uma das mãos no ombro do outro e apertando de leve, enquanto lia sobre o ombro dele os papéis espalhados pela mesa. – Você recebeu os roteiros! E aí? O que me diz?

- Sinistro. – ele riu – Não vai ser tão fácil... Cada um quer uma coisa e eu sei que eu aceitei o desafio, mas estou começando a me apavorar com tudo isso.

- Tem alguma cena preferida?

- Tenho, quer dizer, tem uma que mexe mais comigo... – a voz sumiu na sua garganta.

- Nem precisa dizer que é a da Mandy – Jensen verbalizou o que Jared não tinha coragem – Isso não é favoritismo, é?

- Não! – ele afirmou rápido e indignado – A cena dela é mesmo a melhor e é mais forte, além de que... Deixa quieto!

- Deixa quieto, o quê? Deixou nada. Começou agora termina.

- É bobagem, Jen!

- Você ta fazendo de propósito! Sabe que eu odeio quando faz isso... Anda Jay, termina o que você ia dizer. Eu prometo que não vou zoar você, pelo menos não na frente dos outros, ok?

Jared ainda o encarou com um misto de dúvida no olhar. Fechou os olhos, balançou a cabeça e decidiu dizer. Mais cedo ou mais tarde acabaria falando mesmo, então abaixou os olhos e soltou tudo de uma vez:

- A cena da Mandy é a única em que você também aparece. E é besteira minha, mas se eu for fazer algo tão forte assim, prefiro que você também esteja lá. Eu não quero ter que passar tudo isso sozinho, como naquelas cenas da desintoxicação.

Jensen podia jurar que seu coração havia parado de bater. Ele não se sentia respirar. Apenas sabia que encarava Jared e suas mãos, estrategicamente colocadas dentro dos bolsos do jeans, tremiam. Ele sabia como havia sido difícil para Jared gravar aquelas cenas.

Eles fizeram workshop num centro de reabilitação de dependentes químicos e Jared se sentiu muito incomodado em ver como os viciados em crack reagiam quando privados da substância. Ele assistiu as crises de muitos durante horas e quando chegou sua vez de interpretar, quase adoeceu tamanho esforço que fez.

Com um sorriso acolhedor, Jensen colocou agora as duas mãos sobre o ombro do amigo, virando-o de frente para si. Olhou diretamente nos olhos dele e disse:

- Você vai dar conta, Jay! Independente de qual roteiro seja escolhido, você vai se sair tão bem quanto sempre saiu. E mesmo que eu não esteja em cena com você, vou estar te esperando nos bastidores. Se precisar de mim é so olhar para o lado que eu vou estar lá, por você. Como sempre estive.

O mais novo respirou fundo e sorriu. Um sorriso sincero e agradecido, fazendo aquelas covinhas afundarem ainda mais e por um momento Jensen podia jurar que viu o moreno encarar seus lábios. Mas ele não se achava tão sortudo a esse ponto. Afinal, quais as chances de você se descobrir gay depois de 30 anos de heterossexualidade, apaixonado pelo seu melhor amigo também hétero até então e ainda ser correspondido?

- E qualquer dúvida, os roteiristas estão aí para nos ajudarem. – ele assomou, procurando quebrar aquele clima estranho que pairava na cozinha.

******

Eles começariam as gravações do "sim" em duas semanas, quando o episódio 100 estivesse devidamente pronto. Jared tinha poucas cenas naquele episódio e foi assistindo a gravação de uma das cenas de Jensen que ele teve a sua "grande idéia".

Chegou perto de onde Mandy estava, anotando alguns comentários no roteiro original para mostrar a Kripke. Sentou ao lado dela e permaneceu em silêncio. Depois começou a se remexer inquieto e tornou a se levantar.

Ela não falou nada e continuou seu trabalho. Mas notou que Jared a rodeava como uma mosca em volta de uma lâmpada. Quando a gravação estava quase no fim e Misha Collins já havia terminado sua parte, Jared achou que aquela seria a melhor hora.

O intérprete de Castiel sempre falava com Mandy ao final do serviço e o mais alto pensou que seria bom ter uma testemunha do que ele pretendia fazer.

Antes que o "anjo" se aproximasse, ele voltou a se sentar ao lado da jovem, que agora não mais escrevia. Ela conferia seus e-maisl e twitter e sorriu para Jared estendendo um pacote bem grande de M&M's.

- Tem certeza que vai me oferecer isso? – ele perguntou enquanto pegava o pacote das mãos dela.

- Eu sei dos riscos que estou correndo. E não se preocupe, já comi minha cota de doces do dia. Não posso abusar!

Ele colocou uma quantidade dos confeitos de chocolate na boca e seus olhos brilharam. Mandy chegou a achar que o perfil do Trickster, um ser brincalhão e viciado em doces, foi inspirado em Jared. Ela sorriu e já ia fechando o notebook quando o ator ao seu lado notou o papel de parede na tela.

- Wow, você tem um homem semi-nu no seu computador. O Skarsgard. Mandy, como pode me trair assim? – ele ria e tirava o notebook das mãos dela.

- Jay, me devolve isso aqui! Qual o problema de ter o Skarsgard no meu note? E eu tinha um papel de parede bem pior de você e do Jen, mas não ia pegar bem se eu viesse trabalhar com esse papel de parede, não acha?

- Ah, mas eu vou ter que contar isso pro Collins!

- O Collins já sabe! E ele também já viu o papel de parede q eu tenho de vocês. Agora para com isso e fala logo o que você quer, porque eu acho que você não esteve me rodeando este tempo todo por causa dos M&M's. Ow, vai me dizer que tudo isso foi pra ver o Eric Northman sem camisa? Ah, Jay, se o Jensen souber ele pede o divórcio.

Ela gargalhou da cara que ele fez antes de enfiar uma quantidade ainda maior de confeitos na própria boca e não ter o que responder. Depois de engolir, olhou para os lados e vendo que Misha já se aproximava, ele falou:

- Mandy, o que eu queria era saber se você pode me ajudar com o seu roteiro. Eu não sei se vou conseguir dar a carga emocional que ele exige.

- Você está inseguro com a cena? Porque eu posso mudar, se você quiser.

- Não! Não quero que mude. A cena está perfeita, mas não sei se vou conseguir...

- Ok, Jay! Eu entendo. Faz assim, vamos estudar o roteiro juntos, o que acha? Se eu explicar a você tudo o que eu enxergo na série, acho que você vai dar conta tranqüilo.

- Ah, obrigado! Então, onde...?

- Na minha casa, pode ser? Eu estou esperando uma entrega de uns produtos que eu comprei e os entregadores da loja disseram que só poderiam ir a noite.

- Bom, não... não tem problema. A que horas?

Misha chegou até os dois, cumprimentou a roteirista com um beijo no rosto, coisa comum entre os dois que haviam se tornado grandes amigos.

- Ás 8, Jay! Você leva um vinho e eu cozinho pra gente! E não se atrase, eu odeio ficar esperando! – ela disse anotando o seu endereço num pedaço de papel e colocando no bolso da camisa de Jared.

O "anjo" do estúdio ergueu uma sobrancelha encarando os dois. Aquela conversa havia mesmo acontecido? Ele deu de ombros e observou Jared se afastar, com um andar confiante para o trailler. Jensen ia ter uma surpresa bastante desagradável.

******

Às 19h30min, Jared acabava de passar perfume. Ajeitou mais uma vez os cabelos, conferiu a roupa e sorriu satisfeito com o visual. Ele não se empolgava com um encontro assim há muito tempo. Mas não era exatamente a idéia do encontro em si que o deixava ansioso.

Se Mandy se interessasse por ele, então ela não mais olharia Jensen daquele jeito que ele viu na foto que circulou em todos os blogs sobre Supernatural. Quando desceu as escadas, trazendo a garrafa de vinho numa das mãos, Jensen entrava em casa com uma sacola de compras. Trazia batatas fritas, cervejas e um filme da locadora.

- Tudo isso é pra ver O Poderoso Chefão comigo? Fico lisonjeado! – brincou colocando as sacolas sobre a mesa de centro.

Jay parou no meio do caminho. Havia se esquecido completamente de que nas quintas eles sempre assistiam um filme em casa. Era um momento deles que, até aquele dia, era sagrado. Ninguém faltava: Jen, ele, Tom e Michael. Quando não viam filmes, jogavam Play2 ou ouviam Jensen tocar violão e falavam mal sobre os times de basquete da temporada.

Jensen havia deixado a porta aberta e logo Tom e Michael entraram na casa, cada um trazendo seu próprio "jantar". Pararam de súbito notando o clima estranho entre os J's.

- Desculpa, Jen. – ele disse, visivelmente desconcertado – Não vou poder ficar.

O loiro olhou do rosto de Jay até a mão que segurava a garrafa. Abriu a boca, fechou novamente, molhou os lábios com a ponta da língua e olhou para os amigos que permaneciam em silêncio.

- Qual a ocasião especial? Se é que eu posso saber.

Jared odiava quando Jensen fazia seu ar de "garoto ofendido". Ele não havia feito nada de propósito. Aliás, foi o próprio Jensen quem lhe deu a idéia de pedir ajuda à Mandy com o roteiro.

- A Mandy me chamou para jantar na casa dela. Vamos trabalhar no roteiro que ela escreveu. - Os dois se encararam por um minuto – Se quiser, pode perguntar pro Misha, ele viu a hora que ela me convidou.

- E você sabe onde ela mora?

- Ela me deu o endereço – ele respondeu, cada vez mais embaraçado, mostrando o pedaço de papel com a letra floreada da roteirista.

- Ok, 60 pontos pro JT. – falou Tom Welling quebrando o constrangimento e permitindo que Jared alcançasse a porta.

******

Quando Mandy abriu a porta para Jared ficou realmente impressionada. O ator estava lindo, sem nenhum exagero. E bastante perfumado, ela notou com um sorriso. Fez sinal para que ele entrasse e pegou o vinho, colocando-o para gelar um pouco antes de servir o jantar.

Na sala, o notebook dela já estava ligado e muitas pilhas e pilhas de papel estavam sobre a mesa de centro. As caixas com as encomendas que os entregadores da Potery & Barns haviam acabado de deixar estavam ainda fechadas a um canto afastado, perto da janela.

- O que é tudo isso? – ele perguntou sentando no sofá macio e puxando uma almofada sobre o colo.

- Nosso material de trabalho. Aqui tem tudo que eu pesquisei sobre a série durante todas as temporadas, minhas anotações pessoais estão no notebook e aqui – ela apontou para uma espécie de baú – estão os meus livros de RPG.

- RPG? Você joga...?

- Claro! De onde acha que sai tanta idéia? Jogo isso desde os meus 12 anos. Aqui tem muito material mitológico que vai nos permitir entender melhor a essência do Sam. Porque acredite, a essência dele é bem diferente do que você tem mostrado até agora.

- Do que você ta falando? – ele estava sinceramente curioso.

- Se eu pudesse lhe dizer o que descobri na ultima reunião da Santíssima Trindade... Você ficaria de cabelo em pé. Vai por mim, o Sam ainda vai surpreender muita gente.

Pelos cinqüenta minutos seguintes eles discutiram realmente o roteiro. Jared ficava cada vez mais intrigado com o modo como Mandy trabalhava, usando sempre o notebook, a internet e mais cinco livros de referencia sem se perder ou se confundir.

Eles só pararam de trabalhar quando um pequeno despertador soou na cozinha atrás deles. Mandy deu um salto do chão, onde estava sentada para fica numa altura cômoda com a mesa de centro, alongou as pernas e falou animada:

- Nossa comida está pronta! Eu não descobri nenhuma restrição alimentar sua, então fiz a especialidade da minha família. Espero que você goste!

A mesa na cozinha estava posta com cuidado, mas sem nenhum tipo de romantismo. Ela tirou a garrafa de vinho da geladeira e passou ao ator para que ele a abrisse, enquanto ela pegava o prato principal e único da noite.

- Olha, quando fazemos isso, não costumamos servir com mais nada. Mas se você não gostar, a gente pode pedir uma pizza, ok?

- Pelo cheiro que eu estou sentindo daqui, você pode me internar se eu não gostar.

Ela acabou de abrir o forno, calçou as luvas e tirou uma grande assadeira de vidro que borbulhava uma mistura de queijo e molho de tomate. Colocou na mesa, sobre o descanso de panelas, tirou as luvas e fez um gesto teatral dizendo:

- Voilá! Minha obra prima: lasanha de berinjela e frango!

Ela pegou o prato e serviu uma porção pequena para que Jared apenas provasse. E esperou antes de servir a si mesma. O moreno não conseguiu evitar uma expressão de medo ao levar uma garfada até a boca, mastigando o alimento devagar.

Mas logo sua expressão mudou e ele perguntou sem cerimônias:

- Você fez só essa assadeira? Porque eu acho que o que tem aí não vai ser suficiente pra nós dois. Mandy, isso é uma delícia!

Ela serviu o prato dele novamente, desta vez com uma porção bem generosa e colocou um pouco de comida para si mesma. Durante o jantar, beberam um pouco do vinho, mas a garrafa ainda parecia pela metade quando voltaram para a sala.

Mais uns vinte minutos de trabalho e vinho e foi Mandy que disse não agüentar mais.

- Juro, podia fazer isso mais tempo, mas esse vinho ta deixando meu raciocínio meio lento.

- Isso é uma indireta pra eu ir embora?

- Não, pode ficar o quanto quiser, mas eu não agüento mais pensar no capítulo. Se você ainda se sentir inseguro, a gente pode fazer isso num outro momento.

- Ainda bem que não me expulsou. Não tava mesmo a fim de ir pra casa agora.

- Por quê? Jen levou alguma garota para lá e você tem medo de chegar e encontrar uma verdadeira orgia na sala? – ela realmente não devia estar raciocinando, pensou Jay ouvindo o comentário dela.

- Olha, se ele estiver fazendo uma orgia, eu deveria ir pra lá e fotografar pra chantagear depois, porque as únicas "garotas" que estão com ele são o Tom e o Michael.

Ela gargalhou, sentada ao lado dele no sofá. Continuaram a beber o vinho até que não restasse nada na garrafa. Eles ficaram em silêncio por um instante até que ela se levantou e foi até a geladeira.

- Nem deu tempo de preparar sobremesa, mas eu tenho um pote de Hagen-Daz aqui e é de chocolate. Você aceita?

- Essa pergunta é retórica, né? Tem calda de caramelo?

- Acho que tem, mas tenho que procurar. Só um minuto, ok?

- Sem problemas. Ei, posso olhar meus e-mails enquanto você arruma isso ou precisa de ajuda?

- Fique a vontade, eu me viro bem por aqui.

Ele ouvia os barulhos dela mexendo nos utensílios de cozinha enquanto procurava no notebook o ícone do navegador de Internet. Mas antes de achá-lo, uma pasta com o nome SPN Secret o chamou a atenção.

Sem conter a curiosidade, ele deu um duplo click na pasta e logo uma lista imensa de arquivos de texto e fotos apareceu. Os nomes deixavam claro que se tratavam de fanfics, mas as fotos... eram novidade para ele. Sem resistir mais uma vez, ele acabou abrindo uma imagem intitulada SamDeanHot e congelou.

Ali, ocupando quase toda a tela do computador uma fotomontagem em que ele, Jared, pegava Jensen por trás, mordendo sua orelha e apertando o músculo do peitoral do loiro com muita força, o deixava desconfortável. Mas ao mesmo tempo ele não conseguia desviar o olhar ou sequer fechar a imagem.

E assim, ele não notou que os barulhos na cozinha haviam cessado e que Mandy estava parada, ao lado dele, com uma taça de sorvete na mão e um pote de calda na outra.

Como ele não fazia nada, Mandy, retirou o notebook do colo de Jared, entregou-lhe a sobremesa e sentou, diante dele, mais precisamente entre suas pernas e o encarou com tranqüilidade:

- Quer falar sobre isso ou vai sair correndo daqui?

- Você... assim... quer di... o que diabos é aquilo?

- Uma montagem, que eu achei bonita. Só isso!

- Como só isso?

- Jay, ali não são você e o Jen. São o Sam e o Dean. As fãs os acham tão bons juntos que não conseguem imaginar nenhum deles com outra pessoa. E como a maioria acha que é impossível viver sem uma relação conjugal, porque não passar por cima de um tabu e aceitar que os dois fiquem juntos?

- Um tabu não, dois você quer dizer!

- A parte do homossexualismo pra mim não conta como tabu. Tenho amigos gays que são incríveis!

Ele parecia embaraçado e pensativo. Mandy colocou as mãos sobre os joelhos do ator e ficou esperando. Como ele não dizia nada, ela completou:

- E mesmo se fossem você e o Jen, bem, os fãs só querem ver seus ídolos felizes. E a maioria de nós acha que vocês são felizes quando estão pertos um do outro.

Havia uma sinceridade e uma pureza tão grande no tom de voz que ela usava que Jared sentiu seu coração ficar reduzido a metade. Se os fãs pensavam aquilo mesmo, se via o quanto eram felizes dividindo não só as cenas, mas as coisas do dia a dia, quem sabe houvesse uma chance de Jen enxergar que tudo aquilo não era maluquice da cabeça dele.

Ele teria que fazer Jensen enxergar e conseguiria isso assim que ganhasse a aposta. Se o vencedor pudesse ter o que quisesse do adversário, então ele teria. E sem pensar em mais nada, apenas no quanto Mandy era especial por conseguir fazer ele enxergar suas verdades mais ocultas, ele segurou o rosto dela logo a sua frente e lhe roubou um beijo.

O susto que ela levou permitiu que do simples selinho, Jared invadisse sua boca com a língua e aprofundasse suas carícias, envolvendo seus dedos longos nos cabelos macios e levemente ondulados da roteirista.

Embalados pelo vinho que corria em suas veias deixando os corpos mais e mais quentes, eles se beijavam sem parar para respirar. Cada um a seu modo sabiam que assim que parassem um segundo, não teriam mais coragem de continuar. E nesse ritmo, as mãos fortes de Jared puxaram Mandy para ele, deitando-se com ela no sofá.

As mãos dela agora passeavam sobre o peito definido do ator e suas unhas longas arranhavam sua pele discretamente, fazendo cada parte de seu corpo se arrepiar. Ele desceu as mãos do cabelo, passando pelos braços e alcançando a cintura dela.

Com a ponta dos dedos, levantou a blusa apenas o suficiente para sentir a pele dela queimando sob o tecido. O volume em sua calça agora era mais que perceptível e ele puxou uma das pernas dela para o lado, fazendo com que ela enlaçasse sua cintura e sentou no sofá com a jovem a seu colo.

Deslizou os lábios pelo queixo dela, mordendo de leve o pescoço, enquanto sua mão direita subia abrindo caminho pela camisa de malha e alcançava sem relutância o mamilo já duro de tesão da moça. A mão esquerda já se preparava para abrir o botão da calça de brim que ela usava quando o celular dela tocou.

O som do aparelho meio que despertou os dois e eles ficaram terrivelmente sem graça. Ela murmurou um "só um segundo" enquanto saía para o banheiro com o celular na mão.

Era Michael Rosenbaum que, atendendo a um pedido de Jensen, ligava para ela para saber se eles já tinha terminado e se queriam ir pra lá jogar golf no Nintendo Wii dele.

- Eu... eu agradeço, Mike. Mas acho que... fica pra outra vez. Vou falar pro Jared ir, ta bem?

- Mandy, o que foi? Sua voz ta estranha... você parece sem fôlego.

Na cabeça de Rosenbaum um milhão de idéias surgiram e ele não gostou de nenhuma delas. Mas no fim, ele conseguiu captar um certo cansaço triste no modo como ela falou o nome do ator e ele achou melhor deixar quieto. Não iria pressionar a roteirista. Jensen e Jared já faziam isso constantemente.

Quando desligou o celular, ela abriu a porta do banheiro imaginando que a essa altura Jared já estaria no carro, a caminho de casa. Mas o moreno continuava ali, em pé, em frente ao sofá onde eles haviam se atracado minutos antes.

- Jay... – ela começou, mas não sabia o que dizer.

- É. Eu sei! – ele disse com um sorriso tímido.

- Acho melhor você ir, ta? Os meninos estão esperando por você, o Mike acabou de ligar.

Ele queria perguntar o que ela tinha com Rosenbaum, mas achou que o momento não seria adequado. Apenas assentiu com a cabeça e pegou sua jaqueta e as chaves do carro. Foi até a porta e esperou que ela abrisse para ele sair.

Ela encostou-se ao batente e disse "tchau". Ele murmurou um "até amanhã" e deu um selinho rápido nela, antes de chegar às escadas. E quando ela fechou a porta atrás de si pensou que por pouco, muito pouco não tinha colocado tudo a perder.