A fic começou angst, tá virando fluffy e logo fica angst de novo.


Um grito de horror.

Lestrade deu um passo pra trás, tropeçou numa lixeira e caiu. No chão, começou a se arrastar até uma parede, onde encontrou apoio para se levantar e forçar o corpo contra ela, como se quisesse fugir.

— Você está morto!

Sherlock piscou, entediado.

— Esta afirmação é claramente falsa.

— Eu fui no seu enterro!

Sherlock quase ignorou a fala. Demorou-se olhando a casa de Lestrade, onde nunca havia estado.

— Sinto muito pela sua esposa.

Lestrade engoliu seco. Seus braços pararam de tremer e ele finalmente conseguiu abandonar o susto.

— Prove que é você mesmo.

— Retratos dela – Sherlock ergueu uma foto sobre a cômoda. – Mas sem decoração feminina. O chão está riscado ao redor dos móveis, mostrando que eles foram arrastados recentemente, pois os sulcos ainda estão novos. Há dois círculos ao lado da cama de solteiro, distantes exatamente o que se esperaria do tamanho de uma cama de casados, o que prova que a antiga cama foi substituída pela atual. Você não se incomodaria em comprar uma cama menor se a outra não tivesse sido levada embora. Somado ao fato de que ainda mantém o porta-retratos, ela pediu o divórcio há… seis meses.

— Seu bastardo, como raios está vivo!?

Sherlock sorriu.

— Nunca foi minha intenção morrer.

— E quanto à Moriarty? E toda aquela história?

— Foi necessário. Moriarty tinha atiradores com você, John e a senhora Hudson na mira, e a condição para deixa-los vivos era que eu saltasse.

— Então você não é uma fraude?

— Dentre todas as pessoas que desconfiariam de mim, Lestrade, você seria o último que teria motivos para tal.

Lestrade sorriu. Então esboçou abraçar Sherlock, mas se conteve, ao lembrar-se da aversão a contato humano que o detetive possuía.

— Três anos, Sherlock! John já te viu?

— É sobre John que quero falar.

— Venha, sentemos na sala. E então você poderá me contar tudo.

Eles sentaram-se um de frente para o outro. Sherlock mal conseguindo ignorar o triunfante sorriso no rosto do investigador. As olheiras e a quantidade de papeis da Scotland Yard que havia pela casa deixavam claro que ele não tinha se virado muito bem nos últimos casos, e o leve tremor na mão direita demonstrava a inconsciente vontade de mostrar tudo para o detetive e ver se conseguia sair de todos os casos em que estava estancado. Sherlock, aliás, sorriu com a possibilidade. Uma maratona de todos os problemas insolucionáveis para Lestrade iria certamente lhe fazer bem após tanto tempo. Mas começou a falar antes que o inspetor pudesse começar a descarregar enigmas que ocupariam sua cabeça.

— Lestrade, preciso da sua ajuda – ele disse, sério, com as mãos juntas à frente do rosto.

— Claro, Sherlock. É só pedir.

— Mycroft deletou tudo que havia na cabeça de John sobre mim – foi direto ao ponto. – John não se lembra quem eu sou.

— Como raios ele faria isso?

— O método não é a questão. A questão é que eu fui falar com John. Apareci bem em frente a ele. Como esperaria que ele reagisse?

— Da última vez que o vi, ele teria te dado um soco por mentir e um beijo por voltar – brincou Lestrade.

— Bem, ele simplesmente me ignorou. Fui atrás dele. E ele simplesmente não me reconheceu. Nada. É como se eu nunca tivesse existido.

Lestrade entreabriu os lábios, chocado.

— Mycroft tem esse poder?

— Lestrade, foque-se. A questão não é meu irmão.

— Qual é a questão afinal?

Sherlock então semicerrou os olhos, franziu a testa, olhou-o com seu olhar mais sério e preocupado. Então, com uma voz absurdamente racional e fria, disse:

— Como se conquista alguém?

Lestrade precisou pensar três vezes naquela frase pra procurar qualquer tipo de significado diferente que fizesse algum sentido, tendo sido proferida por Sherlock Holmes.

— Como assim?

— John não se lembra de mim. Eu quero conquista-lo de novo.

— Você continua usando essa palavra e eu não acho que você saiba o que ela significa pras pessoas normais – brincou Lestrade.

— Eu uso palavras perfeitamente cabíveis – protestou Sherlock, sério.

— Você quer que ele seja seu amigo novamente.

— Eu quero que ele me ame novamente.

Lestrade o encarou alguns segundos.

— Também não sei se sabe o que essa palavra significa.

— Eu sei exatamente o que ela significa. Olhei no dicionário – alegou Sherlock.

,

sentimento de gostar muito de outra pessoa ou coisa, de forma a querer e fazer o bem para essa pessoa, ser vivente ou mesmo coisa

— Bem, John está casado agora – disse Lestrade.

— Oh, eu também. Sou casado com o meu trabalho.

— Então…?

— John se tornou parte do trabalho. Durante esse tempo fora, minhas habilidades têm sofrido severo dano. Algumas pessoas, sem possuir a genialidade em si, têm um notável poder de estimulá-la, e John é uma delas.

— É pelo trabalho, então – concluiu Lestrade.

— É fascinante como todas as pessoas imediatamente nos consideram um casal e quanto estou anunciando isso, de repente parece um absurdo.

— Então use palavras de gente normal! – protestou Lestrade.

— Eu quero que John volte a morar comigo. Não estou muito certo se essas palavras são o suficiente para gente normal.

— É o suficiente para mim. Mas como espera que eu o ajude? John está casado e pelo que vi no blog dele, vai ser pai. Não acha errado estragar isso?

— Vocês continuam me culpando por tentar ter de volta quem já estava comigo.

— É, até você se fingir de morto por três anos.

— Eu tive que fazer isso! – bradou Sherlock. – Eu jamais teria saltado de um prédio por diversão!

— Sherlock… - Lestrade pensou em como dizer aquilo. – Foi tempo demais. John… John está feliz.

— Mas eu não.

— Tenho cerca de vinte casos insolucionáveis que vão te alegrar.

Sherlock baixou a cabeça.

— Não, não vão.

E saiu, batendo a porta.