"Mais testes?" A Aria pergunta olhando para mim e para o médico.

"Testes para as alergias." Digo.

"Tem alguma alergia que saiba senhora?" O médico pergunta-lhe.

"Não." Ela diz.

"Não é algo urgente, podemos marcar outro dia?" O médico pergunta.

"Sim doutor, traga também as pílulas anticoncepcionais como falámos."

O médico concordou, despediu-se e saiu.

"Porque tenho de fazer tantos testes? E o que são essas pílulas? Pensei que estava bem." A Aria pergunta.

"Tu estás bem. Essas pílulas servem para não engravidares e os testes são apenas para não termos surpresas."

Ela sentou-se direita por referir uma gravidez. Eu podia imaginar o que estava a passar pela cabeça dela. Talvez pense que a nossa conexão será puramente sexual depois de tomar essa pílula.

Eu peguei num livro e entreguei-lhe.

Ela passou a mão pela encadernação antiga. "Devo ler?"

"Se quiseres, mas o livro não será para isso. Coloca-o na cabeça e caminha." Eu sentei-me no cadeirão próximo da janela e olhei para ela. "Vais aprender a caminhar assim, calça os sapatos, livro na cabeça, costas direitas e olhar no horizonte."

"E se eu cair?" Ela pergunta.

"Levantaste e continuas."

Relutante ela faz como lhe mandei, o livro caiu várias vezes antes mesmo dela começar a andar. Eu podia ver a frustração dela na sua expressão, ela não parecia querer desistir, mas estava nitidamente chateada com o insucesso. Ela mal deu um passo sem o livro quase cair. Ela suspirou. "Acho que seria mais fácil dedicar-me à leitura." Ela diz.

"Que graça tem a vida se vivermos da forma mais fácil?"

Ela olhou para mim. "A vida nunca foi fácil para mim." Ela deixou o livro sobre a secretária e saiu da sala. Ela parecia muito chateada, eu não tentei insinuar nada, foi apenas uma simples frase.

"Aria!" Eu corri para fora do escritório e vi-a no corredor. Ela parou e olhou para mim. "Eu não queria ferir os teus sentimentos."

Ela deu-me um pequeno sorriso antes de falar. "Eu estou chateada por não conseguir… eu só saí porque tenho de ir à casa de banho. Ou tenho de pedir para ir à casa de banho?"

"Claro que não." Ela voltou-se para continuar a andar. "Aria…" Ela olhou para mim novamente. "Eu não te quero pressionar. Não tens de aprender tudo hoje, teremos outros dias e se tiveres alguma dúvida podes me perguntar sempre. Quero ser teu amigo e que confies em mim. Nunca farei algo que não queiras."

Ela voltou-se totalmente para mim. "Tu disseste que querias afecto, tempo e companheirismo sem um compromisso."

"Eu sei o que disse."

"Uma verdadeira amizade é um compromisso."

"Eu queria dizer num sentido romântico."

Ela posicionou-se. "Eu não sei se posso ser tua amiga quando sinto que não será recíproco. Ir para a cama com uma pessoa não é apenas uma amizade. Querer tudo de uma pessoa quando tu queres não é uma amizade. É o meu trabalho agora. E no fim, eu não vou importar e vou desaparecer."

"Eu vou provar que não será assim."

"O tempo vai mostrar-me." Ela diz antes de continuar pelo corredor para a casa de banho. Eu fiquei ali parado apenas a vê-la ir. Um pouco atordoado com as palavras dela, nunca nenhuma mulher me afrontou ou questionou. As pessoas não recusam a generosidade de um duque, apenas agradecem e pedem por mais. Ela é diferente e gosta de se fazer difícil, mas eu vou quebrar essa defesa e deixá-la facilmente na palma da minha mão.


"O senhor chamou?" A empregada que estava encarregue de ambientar a Aria entrou na sala.

"Chamei. Como a Aria se sente?" Eu pergunto-lhe.

"A senhora parece bem, ficou encantada com a televisão e telemóveis. Os sapatos fizeram-lhe feridas nos pés."

"Feridas?"

"Sim, a senhora tem pés muito delicados. Tive de tratá-los com álcool para não infectar."

"Não pode ser assim tão mau, mal a vi andar e durante a tarde esteve no quarto dela."

"A senhora esteve muito tempo no quarto a andar com um livro na cabeça. Pareceu falar sozinha enquanto estava no espelho e fez algumas vénias e ficou muito tempo a ver o reflexo."

Eu achei curioso ela fazer isso. Mostrava um lado tão rebelde e por trás treinava o que eu lhe ensinava. É bom pelo menos saber que ela está a levar tudo a sério, mas ao ponto de se magoar era exagerado.

"Ela já está na cama?"

"Estava a preparar-se senhor."

"Eu vou vê-la."

Saí do meu quarto e bati na porta dela. "Sim?" A voz dela era quase uma melodia.

Ao abrir a porta vi-a a pentear-se sentada na sua penteadeira. Ela olhou para trás ao ver-me no reflexo do espelho de vaidade. "Ezra?" Ela ficou de pé.

"A empregada disse-me que te magoaste."

"Não é nada, eu estou bem."

"Eu duvido que não seja nada." Aproximei-me dela. O rosto dela estava limpo, o cabelo tinha sido cortado um pouco, mas só notei agora porque estava solto. "Eu gosto do teu cabelo assim, mas gostava de te ver com ele um pouco mais longo no futuro. O teu cabelo é lindo quando está solto."

"É tudo?" Ela parecia um pouco corada e desconfortável.

"Estavas linda hoje. Estás sempre linda, mas… tinhas um brilho especial."

"Deve ter sido a maquilhagem." Ela diz.

"Não foi isso… a riqueza assenta-te bem Aria. Aceita-a." Passei a mão pelo seu rosto. "É hora de descansar. Bons sonhos!"

"Igualmente." Ela diz.

Eu sorri. "Se for contigo será muito bom." Saí do quarto.


Ela entrou na sala para tomar o pequeno-almoço comigo. Trazia hoje um vestido azul claro, com flores no peito e alguns detalhes nas mangas transparentes e na saia delicada e rodada. Mais uma vez o vestido era longo como comummente as damas usam na corte. O cabelo foi preso e tinha uma flor idêntica às do vestido. Ela está linda, com uma aparência mais pura e delicada do que ontem.

"Bom dia Aria, estás muito encantadora esta manhã." Digo.

Ela sorri. "Obrigado. Bom dia para ti também Ezra."

Eu levantei-me quando ela se aproximou da mesa e voltei a sentar-me com ela. É uma atitude cordial com todas as mulheres. Eu irei seguir à risca com ela, farei tudo para a conquistar… mesmo não necessitando disso. Será muito mais divertido vê-la implorar e querer estar comigo do que o contrário.

"Hoje vou levar-te lá fora. Creio que ainda não te mostrei a estufa e parte do jardim. Não é muito grande, mas podes lá ir sempre que quiseres."

Ela terminou de beber o seu café. "Não sabia que tinha um jardim." Ela comenta.

"É interno. A janela do teu quarto e de algumas outras divisões dão para o exterior e outras para a parte interna do jardim. Na parte inferior tem os quartos dos empregados, estábulos, garagem, adega, cozinha e o jardim no meio. A parte que te mostrei é a parte habitável, com todas as salas e quartos."

Ela concordou. "É uma casa muito grande."

"Eu vou arranjar uma maior fora da corte e levar-te para lá."

"Porquê?"

"Porque a corte tem muitas riquezas, mas também muitas mentiras, calunias, escândalos… não te quero no meio de nada disso."

"Então porque tenho de aprender a comportar-me como uma dama?"

"Porque enquanto aqui estivermos serei convidado para alguns jantares e almoços importas e tens de ir comigo." Eu expliquei.

"E se eu não estivesse aqui? Quem levavas?"

"Eu tinha uma acompanhante, mas ela não pode voltar a acompanhar-me." Eu respondi claramente, eu não queria mais perguntas como essa… ela irá sem me questionar.

"Porque não?" Ela pergunta, parecia casual de mais para um assunto tão sério para mim.

Eu estava a começar a sentir uma pontada de raiva com a perguntas rebeldes dela. "Porque ela está morta. Não quero mais perguntas sobre isso."

Ela olhou para mim atentamente. "Eu peço desculpa."

"Eu voltei há pouco tempo e preciso de uma companhia a tempo inteiro… está claro?"

"Sim senhor." O ambiente ficou tenso, o silêncio mortal. "O que disse aos meus pais é verdade?" Ela perguntou.

"Sim, eu fui psicologicamente afectado por algo do meu passado."

"Foi ela? A mulher que o acompanhava?"

Eu bati na mesa. Os vidros tilintaram e ela olhou assustada sabendo que colocou o pé em terreno perigoso. Ela baixou a cabeça esperando o sermão. "Vai para o teu quarto." Ela olhou para mim novamente. "Só sais quando eu te chamar… percebes?"

"Estou de castigo?" Ela pergunta.

"Estás… e vais estar até aprenderes a seguir uma ordem minha. Eu disse para não perguntares."

O rosto dela ficou com uma expressão indecifrável. Levantou-se sem pedir licença e saiu da sala numa pequena corrida.


Eu não acredito que ele pôde ser tão cruel… fechada no meu quarto à chave. A empregada não atendia o meu chamamento, ninguém veio me buscar ou levar o almoço e já era meio da tarde. O meu estômago doía imenso… mal o café tinha bebido ao pequeno-almoço.

Cansada deitei-me na cama, tentando acalmar o estômago furioso. Não tinha outra alternativa senão esperar. Eu não sabia usar correctamente a televisão então nem tentei. Ao mesmo tempo arrependi-me. Arrependi-me de aceitar o trabalho. Ele estava a fazer-me de prisioneira e nem me trata assim tão bem. Eu sinto falta dos meus pais. Muita falta deles…

Eu senti a tristeza avassaladora. O estranho vazio no peito começou a crescer e as lágrimas formaram-se rapidamente. Apenas será pior. Hoje tranca-me e deixa-me sem comida. Amanhã leva-me para longe da corte. Talvez para tão longe que nunca mais volte. Ele fará tudo o que quiser… ele castigar-me-á até ter o que quer de mim. Sexo. Esse deve ser o verdadeiro interesse. Sexo sem perguntas ou compromissos. Ainda diz que quer ser meu amigo. Eu bufei com desdém. Palavras… tudo palavra sem sentido.

Ouvi o trinco da porta. Petrifiquei. Será ele? O andar pesado parecia dele. Fechei os olhos. Tranquila. O meu coração começou a acalmar.

"Aria?" A voz dele parecia muito suave quando sussurrou o meu nome. O peso dele fez a cama afundar um pouco. Mais suave foi o seu toque inesperado no meu braço e depois o beijo na minha testa. Aquilo arrepiou-me. Ele é um monstro, mas não parece… "Aria?" Eu abri os olhos lentamente fingindo acordar. "É tarde… já estás a dormir há muito tempo?" Ele pergunta.

Eu sabia a resposta, mas ainda assim olhei para o relógio. "Não muito tempo." Digo tentado parecer tranquila.

Ele olhou para a empregada que estava à porta. "Traga chá e aquele bolo de manteiga para nós dois." O Ezra pediu. A mulher saiu e ele voltou a olhar para mim. "Peço imensa desculpa Aria, eu não queria te ter deixado tanto tempo aqui fechada."

"Mas deixaste. Desculpas não vão mudar isso." Eu não olhei para ele quando disse aquilo.

"Por favor Aria, não sejas assim e aceita as minhas desculpas."

Eu não disse nada, nem olhei para ele. Nem percebi porque ele queria o meu perdão. Não sejas assim…? TU ÉS UM IDIOTA!

"O rei chamou-me e a outros duques e condes também. A mensagem chegou depois de te mandar para o quarto, ainda era cedo e não deixei nenhum recado aos empregados para te deixarem o almoço… eu não sabia que ia levar tanto tempo." Ele diz.

Eu mordi o lábio. "O que levou tanto tempo?" Eu olhei-o de esguelha.

"Assuntos de estado, segurança… essas coisas. Vão fazer alguns convívios em breve e festas todos os sábados." Ele acrescentou como se me estivesse a dizer o que vou ter de lidar mais tarde.

Eu olhei para ele. Havia alguma tensão no ar, podia sentir a ligeira atracção por ele. "Perdoa-me Aria. Não fiz por mal." Ele diz como se fosse a pessoa mais fofa do mundo.

"Não…" Disse como se fosse uma menina mimada negado algo que eu sabia que tinha de abdicar.

Ele aproximou-se de mim. "Perdoa-me…"

"Não…" Eu não me afastei dele.

"Perdoa-me." Ele sussurrou perto do meu rosto, tão perto que senti o calor da respiração dele.

Os nossos olhos estavam um no outro, a tensão ficou tão forte como um íman e eu fui atraída por ele. Ele é o meu íman… Isso assustou-me e excitou-me ao mesmo tempo. Eu sabia que ele me ia beijar quando o contacto visual foi brevemente quebrado para ele olhar os meus lábios e fez a proximidade.

Então ele parou e sussurrou mais uma vez. "Perdoa-me…" Antes de me beijar. Os lábios dele eram macios, o beijo foi suave. As mãos dele acariciaram o meu rosto e a minha cintura. Ele querer-me… eu sei… e eu também quero. Mas em vez de pressionar também os lábios nos dele afastei-me.

Ele olhou para mim confuso e um pouco chocado por ter avançado sobre mim… o meu coração estava ao rubro, mas eu não estava chateada nem queria gritar mais com ele. "Eu…" Ele parecia procurar uma explicação. "Eu sabia que me irias perdoar." Ele desviou a conversa.

"Aqui está senhor." A voz da empregada anunciou a sua entrada e nós afastamo-nos, mas não totalmente ele manteve-me abraçada a ele enquanto as suas mãos repousavam no fundo das minhas costas. Eu não sabia bem o que pensar disso, ele estava a avançar sobre mim? Ele queria fazê-lo agora?

"Deixe em cima da cama, sirva e deixe-nos." O Ezra diz.

Ele fez-me aproximar a cabeça no peito dele. O queixo dele apoiou-se na minha cabeça. Parece algo tão natural que não queria deixar ir o momento nunca. Como é que podia passar de ódio a isto? E… o que é isto? Eu não o amo… eu não estou apaixonada, mas a atracção está lá. Gosto dele… sem dúvida.

"Com licença." A empregada sai.

O Ezra soltou-me para puxar o tabuleiro até nós. Ele olhou para mim depois e sorriu. "Estás corada." Eu fiquei um pouco perplexa. Ele beijou a minha testa. "Não tem mal, eu acho adorável." Ele diz partindo um pouco do bolo. A minha barriga começou a roncar alto novamente e eu mordi o lábio. "Eu não queria mesmo que ficasses sem comer… eu corri para aqui assim que consegui. Deves pensar que sou um monstro, mas juro que não era isto que eu queria. Eu arrependi-me assim que te mandei embora."

"Eu acredito em ti." Digo. "Eu acho que merecia… a curiosidade matou o gato, não é?" Eu acrescento.

"Vem aqui." Eu aproximei-me novamente, tudo o que eu queria era não o enfortecer novamente. Ele ficou atrás de mim e abraçou-me por trás. "Eu gosto de estar bem contigo. Se fizeres o que te peço não vou ter de te castigar." Ele beijou o meu pescoço. Eu inspirei abruptamente. "Eu apenas te quero manter segura." Outro beijo. "Tens de saber os limites, não achas?" Ele beija a pele do meu pescoço atrás da orelha. Eu arrepiei-me todinha.

"Sim Ezra." Eu consegui dizer.

Ele pegou então o bocado de bolo que cortou e deu-mo à boca. Os dedos dele roçaram no meu lábio subtilmente e o gesto repetiu-se. Ele alimentou-me e eu descansei contra ele. Ele beijou a minha cabeça ocasionalmente, mas nada de mais. Este é um tratamento que não esperava… principalmente não tão cedo, mas o Ezra sabe-se redimir. Será que agora que quebramos o gelo será sempre assim?

Eu mordi o dedo dele de leve e soltei-o por brincadeira. "És uma safada. As meninas más são castigadas, mas não agora… primeiro quero que comas."

Ele deu-me mais um pouco até recusar. "Estou bem, já não tenho mais fome." Bebi um pouco do meu chá.

Ele tirou um pouco mais para ele e bebeu um pouco do seu chá. Então sem aviso ele começou um ataque de cocegas.


Os vestidos e alguns detalhes vão aparecer no tumblr que divulgo no meu perfil.