Capítulo 4.

Nós caminhamos de volta para o trem em silêncio. No corredor fora da minha porta, Haymitch dá um tapinha no meu ombro e diz "Você poderia fazer muito pior, você sabe."

— Nada é tão ruim que não possa ser piorado — disse Jake.

Ele se dirige para seu compartimento, levando o cheiro de vinho com ele.

No meu aposento, eu removo meus chinelos encharcados, meu roupão úmido e o pijama. Tem mais nas gavetas, mas eu só rastejo entre as cobertas da minha cama em minhas roupas íntimas. Eu olho para a escuridão, pensando em minha conversa com Haymitch. Tudo o que ele disse era verdade sobre as expectativas do Capitol, meu futuro com Peeta, até seu último comentário. É claro, eu poderia fazer muito pior que Peeta.

— Mas se ele não sabe, poderá fazer pior sem nem mesmo perceber — disse Íris.

— Como se não bastasse controlar a própria língua teria que controlar a dele também, mas sem que ele percebesse — disse Jake.

Isso não é realmente o ponto, porém, não é? Uma das poucas liberdades que temos no Distrito 12 é o direito de casar com quem queremos, ou não casar afinal.

— Nos outros distritos é diferente? — perguntou Íris.

— As famílias ricas dos distritos 1, por exemplo, podem fazer casamentos arranjados por interesse — disse Jake.

E agora, até isso tem sido tirado de mim. Eu me pergunto se o presidente Snow insistirá em termos filhos.

— Provavelmente — disse Jake.

— Diga que é estéril — disse Íris, dando de ombros.

Jake ficou olhando fixamente para o rosto de Íris, sem falar nada.

Se tivermos, eles terão de enfrentar a colheita a cada ano. E não seria incrível ver o filho de não apenas um, mas de dois vencedores escolhido para a arena?

— Uma forma de se vingar deles sem ninguém perceber — disse Jake, ainda olhando para Íris.

— O que você está olhando? — perguntou Íris.

— É costume olhar para quem está falando — retrucou Jake.

Filhos de vencedores estiveram na arena antes. Isso sempre provoca muita emoção e gera discussão sobre como as probabilidades não estão a favor daquela família. Mas isso acontece com muita freqüência para ser apenas sobre probabilidades. Gale está convencido de que o Capitol faz isso de propósito, manipula os sorteios para adicionar drama extra.

— Não duvido nada disso — disse Íris.

— Eles já tem papéis suficientes para poder manipular mais ainda — disse Jake.

— Prim só tinha um papel e foi sorteada — retrucou Íris.

Tendo em conta todos os problemas que eu causei, eu provavelmente garantiria a qualquer filho meu um lugar nos Games.

"Eles não a deixariam viver o suficiente para ter filhos" pensou Jake.

Penso em Haymitch, solteiro, sem família, apagando o mundo com a bebida. Ele poderia ter tido sua escolha com qualquer mulher no distrito. E ele escolheu a solidão.

"Ou o Capitol matou a mulher que ele escolheu" pensou Jake.

Ainda nos tempos atuais, não comentavam muito sobre cada um dos jogos, mas Jake sabia que Haymitch tinha cometido um erro na arena.

Não é solidão—que parece muito tranquilo. Mais como confinamento solitário. Isso foi porque, tendo estado na arena, ele sabia que era melhor do que arriscar a alternativa?

— Pode ser — concordou Íris, mas Jake não disse nada.

Eu tive uma prova dessa alternativa quando eles chamaram o nome de Prim no dia da colheita e eu a assisti caminhar para o palco para sua morte. Mas como sua irmã eu pude tomar o lugar dela, uma opção proibida para a nossa mãe.

— Porque ela era mais velha, mas e se engravidasse cedo? — perguntou Íris.

— Íris, você só pode ser escolhido a partir dos 12 anos. Em que idade a mulher engravidaria para não chegar aos 18? — disse Jake.

Minha mente procura desesperadamente por uma saída. Eu não posso deixar o Presidente Snow condenar-me para isto. Mesmo que isso signifique tirar minha própria vida. Antes disso, porém, eu tentaria fugir. O que fariam se eu simplesmente desaparecesse? Desaparecesse na floresta e nunca mais saísse? Poderia eu ainda conseguir levar todos que eu amo comigo, começar uma nova vida no profundo do selvagem?

"Se andar bastante" pensou Jake.

— Ela já pensou essa possibilidade no ano passado. Prim não conseguiria viver na floresta — disse Íris.

— Mas a situação é pior agora — disse Jake.

Altamente improvável, mas não impossível.

Eu balanço a cabeça para limpá-la. Este não é o momento de fazer planos de fuga selvagem. Devo concentrar-me no Tour da Vitória. O destino de muitas pessoas depende de eu fazer um bom espetáculo.

"Inclusive do Distrito 12" pensou Jake, mas achou melhor não falar em voz alta.

O amanhecer vem antes do sono, e lá está Effie batendo na minha porta.

— Um pouco difícil dormir nesse tipo de situação — disse Íris.

Eu puxo qualquer roupa que está na parte superior da gaveta e me arrasto até o vagão-restaurante.

— Desvantagens de dormir de roupa íntima — murmurou Íris.

— Não sei nem porque você fica tão envergonhada. Não tem quase nada — provocou Jake.

Íris deixou o livro na cama, corada e foi na direção de Jake, batendo nele com força. Quando se deu por satisfeita, pegou o livro de novo.

Não vejo que diferença faz quando me levanto, uma vez que este é um dia de viagem, mas depois descubro que a maquiagem de ontem era apenas para me levar para a estação de trem.

— Agora começa os exageros do Capitol — disse Íris, revirando os olhos.

Hoje vai começar os trabalhos da minha equipe de preparação.

"Por quê? Está frio demais para qualquer coisa para mostrar", eu resmungo.

"Não no Distrito Onze", diz Effie.

Distrito 11. Nossa primeira parada. Eu preferia começar em qualquer outro distrito, uma vez que este era o lar de Rue. Mas não é assim que o Tour da Vitória funciona. Geralmente começa no 12 e depois vai em ordem decrescente de distrito para o 1, seguido pelo Capitol.

— Estranho. Então se você mora no distrito 3 tem que voltar toda essa volta — disse Íris.

— É porque vai de caminho até o Capitol. É mais perto do distrito 1 — explicou Jake — E também porque vai dos distritos mais pobres até os mais ricos.

O distrito do vencedor é pulado e salvo para último. Uma vez que o 12 assume a celebração menos fabulosa - geralmente apenas um jantar para os tributos e um comício da vitória na praça, onde ninguém parece estar tendo alguma diversão - é provavelmente melhor nos tirar do caminho o mais depressa possível. Este ano, pela primeira vez desde que Haymitch venceu, a última parada da turnê será o 12, e o Capitol pulará para as festividades.

— Mas eles moram lá — disse Íris, confusa — Para que comemorar a vitória do próprio vitorioso?

Jake deu de ombros.

Tento aproveitar a comida como Hazelle disse. A equipe da cozinha claramente quer me agradar. Eles já prepararam o meu favorito, ensopado de cordeiro com ameixas secas, dentre outras iguarias. Suco de laranja e um bule de chocolate quente esperam em meu lugar à mesa.

— Pelo menos não economizam — comentou Íris.

— Ou te fazem ficar em dieta — disse Jake.

Então eu como muito, e a refeição é irrepreensível, mas eu não posso dizer que estou gostando. Também estou chateada que ninguém, além de Effie e eu, tenha aparecido.

— O que? — perguntaram Íris e Jake.

— Querem afastá-los para ter saudade no encontro ou o que? — perguntou Jake.

"Onde está todo mundo?" Eu pergunto.

"Oh, quem sabe onde Haymitch está", disse Effie. Eu realmente não esperava Haymitch, porque ele provavelmente acabou de ir para a cama.

— Assim como você se Effie não tivesse lhe chamado — observou Jake.

"Cinna ficou até tarde trabalhando na organização de seu vagão de roupas. Ele deve ter mais de uma centena de roupas para você. Suas roupas de noite são excelentes. E a equipe de Peeta provavelmente ainda está dormindo."

— Ela não vai usar todas essas roupas em tão pouco tempo — disse Íris.

"Ele não precisa se preparar?" Eu pergunto.

"Não do jeito que você precisa", Effie responde.

O que isso significa? Significa que eu sou obrigada a passar a manhã tendo o cabelo arrancado do meu corpo enquanto Peeta dorme.

— Ele é homem — disse Jake, como se fosse óbvio.

Eu não tinha pensado muito sobre isso, mas na arena pelo menos alguns dos meninos têm que manter o pêlo do corpo enquanto que nenhuma das meninas tinha. Lembro-me de Peeta agora, enquanto eu o lavava no riacho. Muito loiro à luz do sol, uma vez que a lama e o sangue tinham sido lavados. Apenas o rosto ficou completamente liso. Nenhum dos rapazes deixou a barba crescer, e muitos tinham idade suficiente para deixar. Eu me pergunto o que fizeram com eles.

Se eu me sinto em pedaços, minha equipe de preparação parece estar em pior condição, recusando o café e partilhando pequenas pílulas coloridas.

— Remédio ou Tic Tac? — perguntou Íris.

— Acho que não existia Tic Tac naquela época — disse Jake.

— Vai saber!

Tanto quanto eu posso dizer, eles nunca se levantaram antes do meio dia a menos que haja algum tipo de emergência nacional, como os meus pêlos nas pernas. Fiquei tão feliz quando eles cresceram de novo, também.

Íris olhou para o livro perguntando-se qual era o problema da mãe.

Como se fosse um sinal de que as coisas poderiam estar voltando ao normal. Eu corro meus dedos ao longo do crespo suave para baixo em minhas pernas e me entrego para a equipe. Nenhum deles está entusiasmado para sua conversa habitual,

— Isso se chama sono — disse Íris.

— Você só fica com sono no 1º tempo de aula, depois vira a matraca de sempre — provocou Jake, desviando de uma almofada lançada.

então eu posso ouvir cada filamento sendo arrancado de seu folículo. Tenho que mergulhar em uma banheira cheia de uma solução espessa com cheiro desagradável, enquanto meu rosto e cabelo são emplastados com cremes. Mais dois banhos seguiram em outra, menos repugnante, mistura. Sou depenada e lavada e massageada e ungida até que eu esteja esfolada.

Flavius inclina meu queixo e suspira. "É uma pena que Cinna disse sem alterações em você."

"Sim, nós poderíamos realmente torná-la algo especial", disse Octavia.

— Ela é bonita naturalmente — Íris defendeu sua mãe.

"Quando ela for mais velha", diz Venia quase sombria. "Então ela vai ter que deixar-nos."

— Fiquei com medo agora — murmurou Íris.

Fazer o quê? Aumentar meus lábios como o do Presidente Snow? Tatuar meus seios? Tingir minha pele de magenta e implantar jóias nela?

— O que? Piercing? — perguntou Íris.

Entalhar padrões decorativos no meu rosto? Dar-me garras curvas? Ou bigodes de gato?

— Fala sério... — disse Jake.

Vi todas essas coisas e muito mais nas pessoas no Capitol. Será que eles realmente não têm idéia do quão bizarro parecem para o resto de nós?

O pensamento de ser deixada aos caprichos da moda de minha equipe de preparação só contribui para as misérias competindo pela minha atenção—meu corpo abusado,

Íris revirou os olhos para o drama dela.

minha falta de sono, meu casamento obrigatório, e o terror de ser incapaz de satisfazer as demandas do Presidente Snow. Até o momento em que eu chego ao almoço, que Effie, Cinna, Portia, Haymitch e Peeta começaram sem mim, eu estou muito desanimada para falar. Eles estão excitados com a comida e como eles dormem bem em trens.

— Deve ser um inferno. Ficar balançando durante todo o trajeto — disse Jake.

Todo mundo está cheio de empolgação com o Tour. Bem, todo mundo menos Haymitch. Ele está cuidando de uma ressaca e se esforçando com um bolinho. Eu não estou realmente com fome, tampouco, talvez porque eu carreguei muito material valioso esta manhã ou talvez porque eu esteja tão infeliz. Eu brinco com uma tigela de caldo de carne, comendo apenas uma colher ou duas. Eu não posso nem olhar para Peeta — o meu futuro marido designado — embora eu saiba que nada disso é culpa dele.

— Na verdade, foi ele quem começou dizendo que estava apaixonado por ela nas entrevistas — disse Jake.

As pessoas percebem, tentam me trazer para a conversa, mas eu apenas os ignoro. Em algum momento, o trem para. Nosso servo informa

— Pensei que só avox serviam — disse Íris.

— Quem dirige o trem precisa saber falar para informar caso ocorra algum acidente — disse Jake.

que não será apenas uma parada para reabastecimento — uma parte não está funcionando e deve ser substituída. Isso irá requerer pelo menos uma hora. Isso causa em Effie uma agitação. Ela pega sua agenda e começa a reclamar como o atraso terá impacto sobre todos os eventos para o resto de nossas vidas.

Íris e Jake reviraram os olhos.

— No máximo modificarão um mês, mas o resto das vidas já é demais — disse Íris.

Finalmente, eu não aguento mais ouvi-la.

"Ninguém se importa, Effie!" Eu estouro. Todos na mesa olham para mim, mesmo Haymitch, quem você pensaria que estaria do meu lado nesta questão já que Effie o leva à loucura. Eu imediatamente me coloco na defensiva. "Bem, ninguém se importa!"

"Íris é tão parecida com a mamãe nesse sentido" pensou Jake.

— Talvez os moradores do Capitol se importem — sugeriu Íris.

Eu digo, e me levanto e deixo o carro de jantar.

O trem de repente parece sufocante e eu definitivamente estou enjoada agora. Acho a porta de saída, forço-a para abrir - provocando algum tipo de alarme, que eu ignoro - e salto para o chão, esperando aterrissar na neve.

— Claro que ia disparar o alarme — disse Jake — Para evitar fugas.

— Deve ser sufocante. Você não fica só nem por um segundo — disse Íris.

Mas o ar é quente e perfumado sobre a minha pele. As árvores ainda mostram folhas verdes. A que distância do sul chegamos em um dia?

— Devem ter construído os distritos com grande distância entre eles para evitar o deslocamento — observou Jake.

Eu ando ao longo da via ferroviária, com os olhos semicerrados contra o brilho dos raios do sol, já lamentando as minhas palavras para Effie. Ela dificilmente tem culpa pela minha situação atual.

— Isso se ela tem noção do que está acontecendo — disse Íris.

Eu deveria voltar e pedir desculpas. Meu desabafo foi o auge dos maus modos, e modos importam profundamente para ela.

Jake revirou os olhos para isso.

Mas meus pés continuam ao longo da via ferroviária, passam o final do trem, deixando-o para trás. Um atraso de uma hora. Eu posso andar pelo menos vinte minutos em uma direção e fazê-la de volta com tempo de sobra disponível. Em vez disso, depois de algumas centenas de metros, me afundo no chão e fico ali, olhando para o espaço. Se eu tivesse um arco e flechas, eu iria apenas continuar?

Depois de um tempo eu ouço passos atrás de mim. Será Haymitch, vindo para me dar uma bronca. Não é que eu não mereça isso, mas ainda não quero ouvi-la.

— Como se ele tivesse muita moral para bronquear — disse Íris — Ele agia igual com a Effie.

"Eu não estou no clima para um sermão," advirto a moita de ervas daninhas próxima aos meus sapatos.

— Os pais dificilmente percebem isso quando vão nos dar bronca — disse Íris.

"Vou tentar ser breve." Peeta ocupa um lugar ao meu lado.

"Eu pensei que você fosse Haymitch", digo.

— Essa frase se aplica aos dois — murmurou Íris.

"Não, ele ainda está se esforçando com aquele bolinho". Eu observo enquanto Peeta ajeita sua perna artificial. "Mau dia, hein?"

"Não é nada", digo.

— Imagina se fosse — ironizou Íris.

Ele respira fundo. "Olha, Katniss, eu estava querendo falar com você sobre a forma como agi no trem. Quero dizer, o último trem. O que nos trouxe para casa. Eu sabia que você tinha alguma coisa com Gale. Eu estava com ciúmes dele antes mesmo de te conhecer oficialmente. E não era justo prendê-la a tudo o que aconteceu nos Games. Sinto muito."

"Quem devia pedir desculpas era ela" pensou Jake "Ele tinha motivos para ficar chateado".

Seu pedido de desculpas me pegou de surpresa. É verdade que Peeta me deu um gelo depois que eu confessei que meu amor por ele durante os Games era algo fingido. Mas eu não tenho rancor dele por isso. Na arena, eu desempenhei esse ponto de vista do romance por tudo o que valia a pena. Houve momentos em que eu honestamente não sei como eu me sentia a respeito dele. Eu ainda não sei, realmente.

"Lamento, também," eu digo. Não tenho certeza pelo que exatamente.

Jake bufou.

Talvez porque há uma possibilidade real de que estou prestes a destruí-lo.

"Não há nada para você se desculpar. Você estava apenas mantendo-nos vivos. Mas não quero que a gente continue assim, ignorando um ao outro na vida real e caindo na neve toda vez que houver uma câmera por perto.

— Até porque nem sempre as câmeras vão avisar quando aparecerem — disse Íris.

Então eu pensei que se eu parasse de ser tão, você sabe, magoado, poderíamos tentar apenas ser amigos", diz ele.

Todos os meus amigos provavelmente vão acabar mortos, mas rejeitar Peeta não vai mantê-lo seguro.

— Pelo menos acaba com esse clima ruim — disse Íris.

"Ok", eu digo. Sua oferta me faz sentir melhor. Menos duplicidade de alguma forma. Seria bom se ele viesse a mim com isso mais cedo, antes de eu saber que o Presidente Snow tinha outros planos e apenas sermos amigos não era mais uma opção para nós. Mas de qualquer forma, estou feliz por estarmos nos falando de novo.

"Então, o que há de errado?" ele me pergunta. Eu não posso dizer-lhe.

— Esse é o problema. Ela não confia cem por cento nele — reclamou Jake.

— Ela se sente culpada por tudo o que está acontecendo — disse Íris.

Jake poderia dizer que qualquer pessoa faria o mesmo, mas isso não seria verdade. Ninguém tinha feito. Quando chegava próximo ao final dos jogos, todos se afastavam.

Eu remexo na moita de ervas daninhas.

"Vamos começar com algo mais básico. Não é estranho que eu sei que você arriscaria sua vida para salvar a minha... mas não sei qual é sua cor favorita?" diz ele.

Um sorriso desliza em meus lábios. "Verde. Qual é a sua?"

— Não sei porque não me surpreendo — disse Íris.

"Laranja," ele diz.

"Laranja? Como o cabelo de Effie?" Eu pergunto.

"Um pouco mais moderado", diz ele. "Mais como... pôr do sol."

Pôr do sol. Eu posso vê-lo imediatamente, o aro do sol descendo, o céu riscado com tons suaves de laranja. Lindo. Lembro-me do belo lírio de tigre e, agora que Peeta está falando comigo de novo, é tudo que eu posso fazer para não contar toda a história sobre o Presidente Snow. Mas eu sei que Haymitch não ia querer.

— É óbvio — disse Jake.

É melhor eu ficar de conversa fiada.

"Você sabe, todo mundo sempre fala com entusiasmo sobre suas pinturas. Sinto-me mal de não tê-las visto", eu digo.

"Bem, eu tenho um vagão de trem inteiro cheio." Ele levanta-se e oferece-me a mão.

— Acho que esses vagões estão sendo um pouco desperdiçados — disse Íris — Tem pelo menos dois vagões só para as roupas.

"Vamos."

É bom sentir seus dedos entrelaçados com os meus novamente, não para mostrar, mas por amizade real. Nós andamos de volta para o trem de mãos dadas. Na porta, eu me lembro. "Eu tenho que pedir desculpas a Effie primeiro."

"Não tenha medo de se impor rudemente", Peeta me diz.

Então quando voltamos para o vagão-restaurante, onde os outros ainda estão na hora do almoço, dou a Effie um pedido de desculpas que eu acho que é um exagero,

— Só diga "desculpe" — sugeriu Íris.

— Com Effie nunca é tão simples assim — disse Jake.

mas em sua mente provavelmente consegue apenas compensar a minha falha de etiqueta. Para seu mérito, Effie aceita graciosamente. Ela diz que é claro que estou sob muita pressão. E seus comentários sobre a necessidade de alguém dar atenção à programação só dura cerca de cinco minutos. Na verdade, eu fui absolvida com facilidade.

— Provavelmente Haymitch disse para ela pegar leve ou ela percebeu a situação — disse Jake.

Quando Effie termina, Peeta me leva alguns carros para baixo para ver suas pinturas. Eu não sei o que eu esperava. Versões maiores da bela flor, talvez. Mas isso é algo totalmente diferente. Peeta pintou os Games.

Alguns que você não iria compreender de imediato, se você mesmo não tivesse estado com ele na arena. Água escorrendo pelas rachaduras na nossa caverna. O leito seco da lagoa. Um par de mãos, suas próprias, escavando por raízes. Outras que qualquer espectador reconheceria. O chifre dourado chamado de Cornucópia. Clove organizando as facas dentro de sua jaqueta. Uma dos vira-latas, sem possibilidade de erro a loira de olhos verdes, chamada Glimmer, rosnando enquanto fazia seu caminho em direção a nós. E eu. Eu estou em todo lugar.

— Não seria diferente — disse Íris.

— O pessoal da Capitol vai adorar isso... Não creio que tenham pintado os jogos antes — disse Jake.

— E se pintaram não tinham participado eles mesmos — disse Íris — É diferente ver de viver.

No alto de uma árvore. Batendo uma camisa contra as pedras no riacho. Deitada inconsciente numa poça de sangue. E uma que eu não consigo reconhecer - talvez esta seja como eu parecia quando sua febre estava alta – emergindo de uma névoa cinza prata que corresponde exatamente aos meus olhos.

"O que você acha?" ele me pergunta.

"Eu as odeio", eu digo. Eu quase posso sentir o cheiro do sangue, a sujeira, a respiração anormal da vira-lata. "Tudo que eu faço é sair por aí tentando esquecer a arena e você a trouxe de volta à vida.

Jake deu uma risada abafada. Isso não era exatamente um elogio...

Como você lembra dessas coisas tão claramente?"

"Eu as vejo todas as noites", diz ele.

O semblante de Íris ficou mais rígido ao se lembrar das vezes que sua mãe acordava gritando e seu pai lhe dizia que estava tudo bem.

Eu sei o que ele quer dizer. Pesadelos - para quem eu não era uma estranha antes dos Games

— Talvez antes da morte do vovô ela não os tivesse — disse Íris.

- agora me atormentam sempre que eu durmo. Mas o velho estado de prontidão, do meu pai sendo explodido em pedaços nas minas, é raro. Em vez disso eu revivo versões do que aconteceu na arena. Minha tentativa inútil de salvar Rue. Peeta sangrando até a morte. O corpo inchado de Glimmer se desintegrando em minhas mãos. O final horrível de Cato com as mutações. Estes são os visitantes mais freqüentes. "Eu também. Isso ajuda? Pintá-los?"

— Tanto como escrever — disse Jake.

— É por isso que a mamãe escreveu isto? — perguntou Íris.

"Ela se lembra de cada detalhe" pensou.

"Eu não sei. Acho que estou com um pouco menos de medo de ir dormir à noite, ou eu digo a mim mesmo que estou", diz ele. "Mas eles não têm ido a lugar algum."

"Talvez eles não irão. Os de Haymitch não foram." Haymitch não diz, mas tenho certeza que é por isso que ele não gosta de dormir no escuro.

— É só acender um abajur — sugeriu Íris.

"Não. Mas para mim, é melhor acordar com um pincel do que com uma faca na minha mão", diz ele. "Então você realmente as odeia?"

"Sim. Mas elas são extraordinárias. De verdade," eu digo. E elas são. Mas eu não quero mais olhar para elas. "Quer ver meu talento? Cinna fez um grande trabalho com ele."

Íris e Jake riram.

Peeta ri. "Mais tarde". O trem se move abruptamente para frente, e eu posso ver a terra passando por nós através da janela. "Venha, estamos quase no Distrito Onze. Vamos dar uma olhada nele."

— Então poderiam ter ido a pé enquanto consertavam — disse Jake.

— Cadê o luxo nisso? — perguntou Íris — E um minuto de carro é diferente de um minuto a pé.

Deslocamo-nos para o último carro do trem. Há cadeiras e sofás para sentar, mas o que é maravilhoso é que as janelas traseiras recolhem para o teto, então você está andando na parte de fora, ao ar livre, e você pode ver uma ampla extensão da paisagem. Grandes áreas abertas com rebanhos de gado leiteiro pastando neles. Tão diferente do nosso próprio lar densamente arborizado.

— Estranho — disse Íris — É o distrito dos grãos e não do gado.

Nós reduzimos a velocidade levemente e eu acho que poderíamos estar chegando à outra parada, quando uma barreira se ergue diante de nós. Elevando-se pelo menos a trinta e cinco metros no ar e coberto com cruéis bobinas de arame farpado, faz a nossa cerca no Distrito 12 parecer infantil.

Meus olhos rapidamente inspecionam a base, que é alinhada com enormes placas de metal. Não deve ter nenhuma toca debaixo delas, nenhum meio de fuga para a caça.

— Não deve nem ter caça — disse Jake.

Então vejo as guaritas, arranjadas uniformemente separadas, lotadas com guardas armados, tão fora de lugar entre os campos de flores silvestres em torno deles.

"Isso é algo diferente", diz Peeta.

Rue me deu a impressão de que as regras no Distrito 11 eram mais severamente aplicadas. Mas eu nunca imaginei algo assim.

— Imagino que o Capitol não gostou da troca de informações entre elas na arena — disse Jake.

— Então que não juntassem 12 distritos em um lugar fechado para se matarem — retrucou Íris.

Agora começam as colheitas, estendidas tanto quanto os olhos podem ver. Homens, mulheres e crianças vestindo chapéus de palha para evitar o sol endireitam-se, viram-se para nosso caminho, levam um momento para esticar as costas enquanto vêem o trem passar.

— Um absurdo. Uma criança trabalhando em vez de estar estudando — murmurou Íris.

— É que colher frutos não é um trabalho tão perigoso quanto as minas de carvão — disse Jake.

Eu posso ver pomares à distância, e me pergunto se esse é o lugar onde Rue teria trabalhado, recolhendo o fruto dos galhos mais finos no topo das árvores.

— Nada perigoso se desequilibrar-se — ironizou Íris.

Pequenas comunidades de barracos - em comparação, as casas nas Minas são mais sofisticadas - brotam aqui e ali, mas estão todas abandonadas. Toda mão deve ser necessária para a colheita.

E assim vai. Eu não posso acreditar no tamanho do Distrito 11. "Quantas pessoas você acha que mora aqui?" Peeta pergunta. Eu balanço a cabeça. Na escola, eles se referem a ele como um grande distrito, isso é tudo.

— Tem que ser grande para ter todos esses pomares — disse Jake.

— É impressão minha ou os capítulos estão maiores? — perguntou Íris.

— É a sua preguiça em ler — retrucou Jake.

Não há números reais sobre a população.

— Nunca falam — disse Jake.

Mas essas crianças que vemos na câmera esperando pela colheita de cada ano, não podem ser apenas uma amostra dos que realmente vivem aqui. O que eles fazem? Tem sorteios preliminares? Escolhem os vencedores antes da hora e certificam-se de que eles estejam no meio da multidão?

— Isso nunca acontece — garantiu Jake — É tudo na hora.

Como exatamente Rue acabou no palco com nada além do vento oferecendo para tomar seu lugar?

— Porque para eles não significaria uma perda tão significativa. Uma pessoa entre várias — disse Jake.

Eu começo a cansar da vastidão, da imensidão deste lugar. Quando Effie vem dizer para nos vestir, não me oponho.

Eu vou para o meu compartimento e deixo a equipe de preparação fazer meu cabelo e maquiagem. Cinna entra com um bonito vestido laranja estampado com folhas de outono. Eu penso no quanto Peeta vai gostar da cor.

Íris e Jake começaram a rir.

Effie juntou Peeta e eu e passou a programação do dia uma última vez. Em alguns distritos, os vencedores passeiam pela cidade enquanto os moradores aplaudem. Mas no 11 - talvez porque não há muito de uma cidade para começar, as coisas estando tão espalhadas, ou talvez porque eles não querem desperdiçar tantas pessoas enquanto a colheita está acontecendo - a aparição pública se limita à praça.

— Por causa da colheita, é mais provável — disse Jake.

Ocorre diante de seu Edifício da Justiça, uma enorme estrutura de mármore. Antigamente, ele deve ter sido um artigo de beleza, mas o tempo tem cobrado seu preço. Mesmo na televisão você pode ver hera ultrapassando a fachada em ruínas, a inclinação do telhado. A praça em si é rodeada de fachadas de lojas em condições precárias, a maioria das quais estão abandonadas.

— Ninguém pode ser vendedor, então — disse Íris — Todos tem que trabalhar na colheita.

— Até podem, mas na época da colheita todos tem que ir para os pomares — disse Jake.

Onde quer que os afortunados vivam no Distrito 11, não é aqui.

— Deve ser bem afastado — disse Íris.

Nossa performance pública inteira será realizada ao ar livre, no que Effie se refere como a varanda, a extensão de azulejos entre as portas dianteiras e as escadas que está protegida por uma cobertura sustentada por colunas. Peeta e eu vamos ser introduzidos, o prefeito do 11 vai ler um discurso em nossa honra, e nós vamos responder com um roteiro de agradecimento fornecido pelo Capitol.

Se um vencedor tinha algum aliado especial entre os tributos mortos, é considerado de bom tom acrescentar alguns comentários pessoais. Eu deveria dizer algo sobre Rue, e Thresh, também, é verdade, mas cada vez que eu tentei escrever em casa, acabei ficando com um papel em branco olhando-me no rosto: é difícil para mim falar sobre eles sem ficar emocionada.

— Fale na hora — sugeriu Jake.

Felizmente, Peeta tem alguma coisa desenvolvida, e com algumas ligeiras modificações, pode servir para nós dois.

— Ia ficar óbvio demais — disse Íris.

— Até porque Peeta não foi tão próximo de Rue — disse Jake.

— Mas viu o sofrimento dela.

E no final da cerimônia, vamos ser presenteados com algum tipo de placa,

— Placa? — perguntaram Íris e Jake.

e então podemos retirar-nos para o Edifício da Justiça, onde um jantar especial será servido.

Enquanto o trem está chegando à estação do Distrito 11, Cinna faz os últimos retoques em minha roupa, trocando minha tiara laranja por uma de ouro metálico e fixando o broche de mockingjay que eu usava na arena em meu vestido. Não há boas-vindas, comitê na plataforma, apenas uma equipe de oito Peacemakers que nos orientam para a parte de trás de um caminhão blindado. Effie torce o nariz quando a porta fecha fazendo barulho atrás de nós. "Realmente, você pensaria que todos nós seriamos criminosos", diz ela.

— É para a segurança deles — disse Jake.

— Nessa altura do campeonato, não dá para saber — disse Íris.

Nem todos nós, Effie. Só eu, eu acho.

O caminhão nos deixa na parte de trás do Edifício da Justiça. Somos apressados para dentro. Eu posso sentir o cheiro de uma refeição excelente sendo preparada, mas não bloqueia os odores de mofo e podridão. Eles nos deixaram sem tempo para olhar ao redor.

— Propositalmente — afirmou Íris.

Como nós fazemos um caminho mais curto para a entrada da frente, eu posso ouvir o hino iniciando lá fora na praça. Alguém prende um microfone em mim. Peeta pega a minha mão esquerda. O prefeito está nos apresentando quando as portas maciças abrem com um gemido.

— Nossa! Tudo apressado, não lhes dão tempo nem de parar para respirar... — reclamou Íris.

"Grandes sorrisos!" Effie diz, e nos dá uma cutucada. Nossos pés começam a avançar.

É isso. Aqui é onde eu tenho que convencer a todos o quanto estou apaixonada por Peeta, eu acho.

— Não só aí — disse Jake.

A cerimônia solene está muito bem planejada, então eu não tenho certeza de como fazê-lo. Não é uma hora para beijar, mas talvez eu possa inserir um.

— Um selinho rápido — concordou Íris.

Há muitos aplausos, mas nenhuma das outras reações que temos no Capitol, os encorajamentos e gritos e assobios.

— Se não aplaude é castigado? — perguntou Íris.

— Ninguém quer pagar pra ver.

Nós andamos através de toda a varanda sombreada até que o telhado termina e estamos de pé no topo de um grande lance de escadaria em mármore no sol resplandecente. Quando meus olhos se ajustam, vejo que os prédios da praça foram decorados com bandeiras que ajudam a encobrir o seu estado negligenciado.

— Mais por causa da câmera que pelos vitoriosos — disse Jake.

— Tem que consertar isso — comentou Íris — É vergonhoso mesmo para os moradores.

Está repleto de pessoas, mas novamente, apenas uma fração do número de pessoas que vivem aqui.

— Como eles fazem? Sorteiam quem vai ter um descanso? — perguntou Íris, retoricamente.

Como de costume, um palco especial foi construído no fundo do palco para as famílias dos tributos mortos. Do lado de Thresh, há apenas uma mulher velha com uma corcunda e uma menina alta musculosa que eu suponho que é sua irmã. No de Rue... Não estou preparada para a família de Rue. Seus pais, cujos rostos ainda estão frescos com tristeza.

— Eles sempre estarão tristes — disse Íris.

Seus cinco irmãos mais novos, que se assemelham a ela tão intensamente. A figura delicada, os olhos castanhos luminosos. Eles formam um bando de pássaros escuros pequenos.

Os aplausos cessam e o prefeito faz o discurso em nossa honra. Duas meninas vêm com buquês de flores enormes.

— Isso deve ser sorteio — afirmou Íris.

— Ou filhas do prefeito — disse Jake.

— Vem cá... Como é escolhido o prefeito? — perguntou Íris.

— Provavelmente o Capitol quem escolhe — disse Jake.

Peeta fala a sua parte da resposta escrita e então eu noto meus lábios se movendo para concluir. Felizmente a minha mãe e Prim me treinaram para que eu possa fazê-lo com tranqüilidade.

— Deve ter demorado para conseguir — murmurou Íris.

Peeta tinha seus comentários pessoais escrito em um cartão, mas ele não o pega. Em vez disso, fala em seu estilo vitorioso e simples sobre Thresh e Rue chegando aos oito finalistas, sobre a forma como ambos me mantiveram viva — e desse modo mantendo-o vivo

— Pior que é verdade... — murmurou Jake.

e sobre como esta é uma dívida que jamais poderemos restituir. E então, ele hesita antes de adicionar algo que não estava escrito no cartão. Talvez porque ele pensou que Effie poderia fazê-lo remover.

— Tenho um mal pressentimento quanto a isso — disse Jake.

— Se Effie iria remover, é porque não é algo bom — disse Íris.

"Isso não pode, de nenhum modo substituir suas perdas, mas como um símbolo de nosso agradecimento nós gostaríamos que cada uma das famílias dos tributos do Distrito Onze recebesse um mês de nossos lucros todos os anos durante o período de nossas vidas."

A multidão não pode evitar senão responder com suspiros e murmúrios. Não há nenhum precedente para o que Peeta fez. Eu nem mesmo sei se é legal.

— Não é como se alguém do Capitol pensasse que alguém pudesse fazer isso — disse Íris.

Ele provavelmente não sabe, também, então ele não pediu no caso de não ser. Quanto às famílias, eles apenas olharam para nós em estado de choque. Suas vidas foram mudadas para sempre quando Thresh e Rue foram perdidos, mas este presente irá mudá-los novamente. Um mês de ganhos de tributo pode facilmente abastecer uma família por um ano. Enquanto vivemos, eles não vão passar fome.

Eu olho para Peeta e ele me dá um sorriso triste. Eu ouço a voz de Haymitch. "Você poderia fazer muito pior."

— Só que Peeta não é a cabeça da revolução — murmurou Jake.

Neste momento, é impossível imaginar como eu poderia fazer melhor. O presente... é perfeito. Então quando me levanto na ponta dos pés para beijá-lo, não parece forçado afinal.

O prefeito caminha à frente e nos presenteia cada um com uma placa que é tão grande que eu tenho que largar o meu buquê para segurá-la. A cerimônia está prestes a terminar quando noto uma das irmãs de Rue olhando para mim. Ela deve ter cerca de nove anos e é quase uma réplica exata de Rue, até a forma como ela fica com os braços ligeiramente abertos. Apesar da boa notícia sobre o prêmio, ela não está feliz. Na verdade, seu olhar é de reprovação. Será que é porque eu não salvei Rue?

— Não era culpa dela — disse Íris.

Não. É porque eu ainda não a agradeci, eu acho.

Uma onda de vergonha corre através de mim. A menina tem razão. Como eu posso ficar aqui, passiva e muda, deixando todas as palavras para Peeta? Se ela tivesse ganhado, Rue nunca teria deixado a minha morte ser desprezada. Lembro-me de como eu cuidei na arena para cobri-la com flores, para garantir que sua perda não passaria despercebida. Mas esse gesto não vai significar nada se eu não apoiá-lo agora.

— Eu tenho a impressão de que essa faísca vai se acender... — murmurou Jake.

"Espere!" Eu tropeço para frente, pressionando a placa em meu peito. Meu tempo reservado para falar veio e se foi, mas devo dizer alguma coisa. Eu devo muito. E mesmo que eu tivesse prometido todos os meus ganhos para as famílias, não perdoaria o meu silêncio hoje.

— Na verdade, foi Peeta quem prometeu — observou Jake.

— Mas ela vai colaborar.

"Espere, por favor." Eu não sei como começar, mas uma vez que o faço, as palavras saem dos meus lábios como se tivessem se formando no fundo da minha mente há muito tempo.

"Eu quero oferecer os meus agradecimentos aos tributos do Distrito Onze", eu digo. Eu olho para o par de mulheres do lado de Thresh. "Eu só falei com Thresh uma vez. Apenas o suficiente para ele poupar a minha vida. Eu não o conhecia, mas sempre o respeitei. Por sua força. Por sua recusa a jogar os Games nos termos de qualquer pessoa exceto o seu próprio. Os Profissionais queriam que ele fizesse equipe com eles desde o início, mas ele não faria isso. Eu o respeitava por isso."

Pela primeira vez, a velha corcunda - ela é a avó do Thresh?

— Provavelmente — disse Íris.

— Pessoas mais velhas tem filhos às vezes, sabe.

— Mas seria estranho!

- levanta a cabeça e o traço de um sorriso toca em seus lábios.

A multidão caiu em silêncio agora, tão silenciosa que eu me pergunto como conseguem. Todos eles devem estar segurando a respiração.

— É porque estão distantes de você — disse Jake.

Viro-me para a família de Rue. "Mas eu sinto como se eu conhecesse Rue, e ela sempre estará comigo. Tudo que é admirável me lembra dela. Eu a vejo nas flores amarelas que crescem no prado próximo a minha casa. Vejo-a nas mockingjays que cantam nas árvores.

Íris sorriu tristemente à menção do mockingjay. Não era esse o nome do terceiro livro? Ela não tinha notado nele até esse momento.

Mas acima de tudo, eu a vejo na minha irmã, Prim." Minha voz está sem confiança, mas eu estou quase terminando. "Obrigada por seus filhos." Eu levanto o meu queixo para falar à multidão. "E obrigado a todos pelo pão."

Eu fico lá, sentindo-me estilhaçada e pequena, milhares de olhos mirados em mim. Há uma longa pausa. Então, em algum lugar no meio da multidão, alguém assobia a melodia mockingjay de quatro notas de Rue.

— Não estou gostando disso... — murmurou Jake.

Aquela que sinalizava o fim do dia de trabalho nos pomares. Aquela que significava segurança na arena. Ao final da canção, eu encontro a pessoa que assobiava, um homem velho encarquilhado com uma camisa vermelha desbotada e macacões. Seus olhos encontram os meus.

O que acontece em seguida não é uma coincidência. É muito bem executado para ser espontâneo,

— Talvez sim, talvez não — disse Jake, diante do olhar de Íris.

porque acontece em uníssono completo. Cada pessoa na multidão pressiona os três dedos médios de sua mão esquerda contra os seus lábios e os estendem para mim. É o nosso sinal do Distrito 12, o último adeus que eu dei a Rue na arena.

Se eu não tivesse falado com o Presidente Snow, este gesto poderia levar-me às lágrimas. Mas, com suas ordens recentes para acalmar os distritos, frescas em meus ouvidos, isso me enche de pavor. O que ele vai pensar desta saudação muito pública para a menina que desafiou o Capitol?

"Ele teria desistido de fazer o que fez no Quarter Quel se as revoltas tivessem acalmado?" pensou Jake.

O total impacto do que eu fiz me golpeia. Não foi intencional — eu só queria expressar os meus agradecimentos — mas eu provoquei algo perigoso. Um ato de discordância do povo do Distrito 11. Este é exatamente o tipo de coisa que eu deveria estar desarmando!

— Ela apenas agradeceu — disse Íris — E, como disse antes, provavelmente já tinham combinado esse gesto.

Eu tento pensar em algo para dizer para minar o que acaba de acontecer, para negá-lo, mas eu posso ouvir a leve ruptura da estática, indicando que o meu microfone foi cortado e o prefeito assumiu.

— É melhor não falar nada... — murmurou Jake — Ou acabará sendo odiada não só pelo Capitol.

— Deveriam ter cortado o microfone antes se queriam evitar isso — disse Íris.

Peeta e eu agradecemos uma rodada final de aplausos. Ele me conduz de volta para a porta, sem saber que tudo deu errado.

Eu me sinto estranha e tenho que parar por um momento.

— Pressentimento... — murmurou Jake.

Pequenos fragmentos brilhantes de sol dançam diante dos meus olhos. "Você está bem?" Peeta pergunta.

"Só tonta. O sol estava muito forte," digo. Eu vejo seu buquê. "Esqueci minhas flores", murmuro.

"Tenho a sensação de que não vamos gostar do que ouviremos" pensou Jake.

"Eu vou buscá-las", diz ele.

"Eu posso," eu respondo.

— Vão os dois — disse Íris, impaciente.

Poderíamos estar seguros dentro do Edifício da Justiça a esta altura, se eu não tivesse parado, se eu não tivesse deixado as minhas flores. Em vez disso, do sombreamento da varanda, vemos a coisa toda.

Um par de Peacemakers arrastando o velho que assobiou para o topo da escadaria. Forçando-o de joelhos diante a multidão. E colocando uma bala em sua cabeça.

— Ai, meu Deus! — exclamou Íris, fechando o livro bruscamente — Tudo isso só porque ele assobiou? Isso é um absurdo!

— Talvez seja uma lei do distrito, não usar esse assobio. Tinha gente na colheita que poderiam ter interpretado errado — disse Jake.

— Que lei leva como punição a morte? — perguntou Íris.

— Já entendemos que o distrito 11 é bem rígido — retrucou Jake.

— Mas... Isso já é demais! — protestou Íris.

Ele se levantou e colocou as suas mãos nos ombros dela, forçando-a a olhar para ele.

— Íris, a vida não é justa — ele disse, duramente — E pensei que já tivesse entendido isso.

Íris empurrou o braço dele, afastando a mão de seu ombro.

— Isso foi só um aviso.

Eles olharam para a porta e viram a Katniss parada na soleira.

— O almoço já está pronto — ela tentou sorrir.