~X~

Engraçado ser junho, Hermione pensou vagamente enquanto entrava na sala de Feitiços com Lenna. Ela saíra do futuro em outubro. Agora ela iria fazer aniversário de novo, divagou divertidamente.

Sentou-se com a ruiva em uma carteira tripla e observou a morena Gabrielle juntar-se a elas.

- Não pude me apresentar direito, já que Lenna não para de falar. – ela deu um sorriso que mostrou seus dentes perfeitos. – Sou Gabrielle Sanners.

- Hermione Houser. – forçou aquele sorriso. Gabrielle sentou-se sem dizer mais nada e Hermione virou-se para Lenna. – Quem é o professor de Feitiços?

- Flitwick. – ela disse sem dar muita atenção à castanha enquanto colocava seu material na mesa. Flitwick? Hermione pensou abismada. Quantos anos aquele professor dos anos 40 deveria ter? Ela esperou o professor baixinho entrar na sala de aula, com seus cabelos brancos e óculos, mas seus olhos se arregalaram ao ver um jovem moreno de pele clara, olhos castanhos e sorriso convencido no rosto caminhar até a mesa do professor com livros voando ao seu redor. – Todas são apaixonadas por ele, é claro. – Lenna completou, tombando o rosto nas mãos e o observando Flitwick com seus olhos verdes sonhadores.

Hermione mesma não conseguia parar de olhar o professor. Era tão contraditória a ideia de que algum dia ela fosse ver Flitwick cinquenta anos mais jovem, alto e parecendo dominar o mundo? Só a parte do "alto" estava deixando-a tonta. E ele parecia ter no máximo vinte anos.

- Bom dia. – ele disse com a voz rouca enquanto se postava em frente a sua mesa. Hermione amaldiçoou Lenna por sentar na primeira carteira assim que os olhos castanhos de Flitwick voaram para ela. Ele realmente era muito bonito, não tinha como negar, e sua mente entrava em combustão toda vez que ela tentava comparar o Flitwick do passado com o do futuro. Os cabelos de Flitwick iam até o ombro, em um penteado arrumado e havia uma ligeira barba no maxilar e no queixo, qual ele coçou quando a olhou. – Ah, você deve ser a Srta. Houser. Bem-vinda. – o moreno disse com um sorriso que Hermione só pode classificar como superior.

- Obrigada. – sorriu levemente ao professor.

Flitwick riu e voltou seus olhos para o resto da sala.

- Alguém sabe me dizer qual feitiço eu uso para...

E a aula continuou só com teorias e nada de praticidade. Hermione segurou a língua para não se sobressair logo de cara e o pensamento a fez rir. Desde quando ela não se importava em ser a primeira a responder, a irritante sabe-tudo, rata de biblioteca? Ron e Harry estariam aplaudindo de pé e a aconselharia fazer um ato rebelde logo em seguida.

Sua aula de Runas Antigas foi classificada como normal, a partir do momento em que nenhum conhecido estava à vista. Poucos alunos frequentavam a aula e como a introdução que o professor Turner deu ela já havia estudado, seus pensamentos voaram longe.

Desde que chegara a Hogwarts ela não conseguira pensar muito em tudo o que estava acontecendo. Primeiro, estar na Sonserina não era tão ruim quanto ela pensava. Por enquanto. Se ela ignorasse Gabrielle Sanners com aquele risinho odioso, Nathan-não-estou-nem-ai-pra-você e Tom Voldemort Riddle ela não teria nenhuma outra objeção contra a Casa em si. E então ela pensou em Malfoy. Abraxas Malfoy. Engraçado foi perceber que eles pareciam ter uma conexão automática, desde o dia em eu trombaram no Beco Diagonal. Naquele dia, ela havia acabado de chegar do futuro e seus pensamentos estavam longe. Mas hoje, sentando-se ao lado dele e vendo-o ficar tão próximo mexeu com algo dentro dela. Algo que Hermione ainda não definiu e não sabia se era certo ou não tentar descobrir, uma vez que agora ele a queria longe dele.

E de Tom Riddle.

Lembrar-se dele fez um arrepio correr sua espinha. Que loucura ela fizera?! Desafiara o futuro Lord das Trevas com um sorriso enquanto o impedia de ler seus pensamentos? Ela só podia estar cavando seu túmulo com direito a uma morte lenta e dolorosa pelas mãos de Riddle. Mas tirando o fato de que seu corpo lhe traíra naquele momento, saber que ela conseguiu impedi-lo de algo fez o orgulho dela palpitar. Ela sabia que logicamente ele não era tão forte quanto o Voldemort de cinquenta anos no futuro, mas agora ela tinha uma meta de medir a força dele. Testar pelas beiradas antes de dar um tiro no meio, ela pensou sombriamente enquanto Turner ensinava como ler feitiços em runas com desenhos no quadro.

Então talvez não tivesse sido uma boa ideia amolar Riddle logo em seu primeiro dia de aula, mas quem ele pensava que era para tentar ler seus pensamentos? Raiva não iria adiantar a lidar com Tom Riddle, ela pensou enquanto se acalmava. Será que Dumbledore estava ciente de que ela estaria muito apta a matar Lord Voldemort ao encontra-lo? Conhecendo o velho Diretor, ela diria que sim, mas novamente ela se lembrou de com quanto fervor ele lhe pedira para não o matar.

Hermione suspirou resignada, rabiscando algumas runas em seu pergaminho com a pena. Foi só quando a aula acabou que a castanha percebeu o que tinha rabiscado. Ela sorriu ao ler "Malfoy".

~x~

A aula de Trato das Criaturas Mágicas era dividida com Grifinória e Hermione aproveitou para observá-los. É claro que não havia uma única pessoa que ela conhecesse, mas ao prestar atenção, ela pode ter visto um Weasley, dado a cor fogosa dos cabelos e outro garoto que a lembrou de alguém, embora ela não pudesse dizer com certeza quem era. Ele tinha cabelo cor de areia e olhos castanhos. Não despregava os olhos de um livro que tinha mão e constantemente jogava os cachos rebeldes para trás quando estes atrapalhavam sua leitura.

Eles estavam na borda da Floresta Negra, de frente com o Castelo. A professora Dunnaway era miúda em comparação aos alunos e falava tão baixo que Hermione desistiu de escutá-la. Ao invés disso, seus olhos foram atraídos para outra pessoa. Riddle estava entre Malfoy e um moreno que ela não reconheceu. Sempre com algum capanga, ela pensou desgostosa, resolvendo que não queria mais olhá-lo. Mas assim que ia desviar o olhar, Riddle virou sua cabeça para mirá-la. Sua expressão era a mesma do café da manhã, vazia, mas ela novamente percebeu aquele brilho estranho nos olhos dele. Hermione não sabia se conseguir ler suas expressões era bom ou ruim.

Eles se olharam por segundos, mas pareceram horas para ela. Aquele brilho estava lá e ela segurou o olhar de Riddle com uma sensação estranha crescendo dentro dela. A vontade de causar dor a ele estava falando mais alto. Ele causara tanta dor e sofrimento no futuro e ela só queria que ele provasse um pouco do próprio veneno. As palavras de Dumbledore passaram por sua mente. Ela franziu o cenho sem perceber e resolveu que eles já tinham trocado olhares demais. Voltou a olhar a professora e ainda conseguiu sentir os olhos de Riddle perfurando sua nuca.

Por que ela não poderia simplesmente acabar com sua linhagem maligna aqui e agora? Dunnaway agora estava com uma caixa na mão e suspirando palavras e Hermione forçou sua atenção à professora. Tentou ver dentro da caixa, mas havia muitos Grifinórios na sua frente. Dunnaway passou as coisas que estavam na caixa para os alunos irem passando para os colegas e de repente havia algo gosmento na mão de Hermione. Ela ouviu exclamações surpresas, mas era só um Goblin. Havia vários, um em cada mão dos estudantes, desde escurinhos até pálidos, com grandes olhos pretos. Este não era maior que sua própria mão, mas Hermione preocupou-se com o que ele poderia fazer. Até onde sabia, Goblins se alimentavam de sentimentos e, do jeito que ela estava, era provável que o seu iria sair pulando na cara dos outros com ódio no olhar.

A professora sussurrou o que era a criatura e os alunos se surpreenderam, logo perguntando como fazer para o Goblin sentir seu sentimento. Hermione rolou os olhos. Não é sentir, é roubar, se alimentar. Seu Goblin branquinho logo enfiou os dentinhos na palma da mão dela e Hermione sentiu sua raiva se esvair enquanto o bichinho sugava seu sangue. Ele até poderia ser considerado bonitinho se não estivesse mordendo sua mão e chupando o seu sangue, ela pensou distraída.

Houve gritos de susto quando os Goblins seguiram o exemplo do outro e antes que Hermione pudesse se divertir com isso, seu Goblin pulou de sua mão, voando na cara do Grifinório que lembrava-lhe alguém conhecido. Ela arregalou os olhos quando o bichinho começou a morder e arranhar o rosto do louro e ela correu para ajuda-lo. Fez um aceno com a varinha o Goblin veio para o seu ombro flutuando. Ela sabia que eles não atacariam a fonte de alimentação.

Os ferimentos do louro eram apenas superficiais, Hermione percebeu aliviada. Estas criaturas podiam arrancar o olho de alguém!

- Me perdoe. – ela disse e o louro riu levemente.

- Tudo bem. – ele murmurou com um pequeno sorriso. – Você deve estar bastante irritada com alguém.

Hermione sorriu fracamente. Irritada era pouco, pois se ela pudesse, mataria.

- Sou Lex Lupin. – ofereceu sua mão livre de Goblin que Hermione aceitou depois de engasgar-se. – Você está bem?

Agora ela via claramente as semelhanças entre este garoto e seu ex-professor de DCAT. Soltou a mão dele e deu um sorriso grandioso.

- Sou Hermione. Houser. – ela quase disse Granger, mas ele pareceu não notar algo de estranho.

- É, eu sei. – ele parecia tímido, ela descobriu maravilhada. Querendo ou não, era praticamente um rosto familiar e ela estava alegre o suficiente com isso. – Hm. Você não liga?

- Huh? Liga para o que? – ela questionou desentendida com a pergunta. Lex olhou em volta.

- Quer dizer, eu sou da Grifinória e você da Sonserina...

- Ah, isso! – ela interrompeu com um sorriso. Este preconceito tinha que acabar mesmo. Sem raciocinar direito, seu pensamento voou para Draco Malfoy, mas ela tratou de espantá-lo. Ele não estava aqui, então não havia motivo para ficar pensando nele o tempo todo. – Não, não ligo para isso e... – ela se aproximou dele e sussurrou. – Para ser sincera, eu gostaria de estar na Grifinória.

Lex sorriu mais abertamente e assentiu. Como Lenna não estava nessa aula com ela, Hermione ficou com Lupin até o almoço, gostando da companhia.

Enquanto caminhavam para o Salão, ela quase se esqueceu de que não se se sentava à mesa da Grifinória mais. Despediu-se de Lex e procurou os cabelos ruivos de Lenna na mesa da Sonserina, localizando-a facilmente ao lado de Gabrielle. Hermione sentou-se de frente para elas, ao lado de Nathan. Este louro também não a agradava muito, mas percebeu que ele era bem musculoso e grande, o que tampou a visão que ela deveria ter de Tom Riddle.

E agora ela o estava evitando, pensou desgostosa enquanto servia-se das carnes que ela alcançava na mesa, depois de praticamente tê-lo desafiado.

Lenna não parava de falar sobre alguma coisa que havia acontecido durante sua aula de poções e Gabrielle e Nathan davam respostas curtas à ruiva. Essa amizade Hermione não entendia. Eles praticamente ignoravam Lenna e ela parecia não ligar. A castanha prometeu a si mesma que investigaria isso mais tarde.

Quando foi dar a primeira garfada no prato, uma sensação estranha tomou conta dela. Seu corpo se retesou sozinho e ela repeliu a sensação incomodadora. Ela ficou confusa com o que aconteceu, mas a sensação voltou mais forte quando alguém colocou a mão em seu ombro. Ela desvencilhou-se da mão desconhecida e olhou para trás, só para ter a sensação a cercando.

Enquanto olhava a face de Tom Riddle, ela percebeu que essa sensação deveria ser a magica dele, sua magia negra, tentando alcançá-la. Sem pensar no que estava fazendo, Hermione levantou-se para não ter que olha-lo de baixo. Mesmo assim, ele ainda era pelo menos uma cabeça mais alto que ela e ela odiou ter que levantar a cabeça para olhar seus olhos. Seus olhos; eles não eram negros como ela pensava, eram mais suaves que isso. Grafite talvez, mais claro. Algo cinza.

Havia um pequeno sorriso em seu rosto, mas ela viu o quanto aquilo era falso. Ele estava tão perto que ela começou a se sentir enjoada. Ela podia até sentir o cheiro dele, algo como hortelã misturada com grama recém-cortada. Tentou não franzir o nariz e esperou.

- Boa tarde, Srta. Houser. – ele disse suavemente, com um tom de voz meio rouco que arrepiou os pelos da nuca de Hermione.

- Boa tarde, Sr... – ela parou a frase antes que terminasse e se estapeou mentalmente. Isso, vai lá e mostra que conhece ele, mentecapta, pensou irritada. O bom é que esse refreio pode ser interpretado de outra maneira, dado ao fato de ele ter aumentado seu sorriso. Foi só aos olhos dela que pareceu quase cruel?

- Riddle. Tom Riddle. – ela surpreendeu-se quando ele esticou a mão para alcançar a dela e sua mente gritou em alerta, porem seu corpo não obedecia e Hermione só pode observar em choque. Riddle pegou sua mão direita com a dele. O toque causou uma série de arrepios que correram por todo o seu corpo e fizeram seu coração bater mais rápido. Este é o inimigo! Sua mente gritava. Ela já podia sentir o tremor chegar as suas mãos. Riddle a segurou firmemente, como se não tivesse percebido, e levou sua mão aos lábios, deixando um beijo suave nas costas da mesma.

Hermione encarou-o em choque sem conseguir conter a surpresa e agora até os seus lábios tremiam. Ela precisava urgentemente achar uma forma de liberar magia e estuporar Riddle estava virando o foco de sua mente.

Com o canto dos olhos, ela percebeu que as conversas da mesa da Sonserina morreram e eles deveriam estar encarando os dois. Ela engoliu em seco. O que estava fazendo, parecendo fraca desse jeito? Mas não pode evitar. Estar em contato pele a pele com Lord Voldemort estava fazendo seus nervos pirarem. Tratou logo de tirar sua mão de perto das mãos e lábios frios dele e tentou controlar a tremedeira que estava fazendo sua cabeça rodopiar. A magia fluía por ela e encontrava com a de Riddle no ar. Hermione estava muito nervosa. O moreno a sua frente, por outro lado, parecia muito calmo e controlado.

- O Diretor Dippet me pediu para dar-lhe as vestes da Sonserina. – ele finalmente disse, em um tom divertido. Ele estava adorando a situação, não estava? Ela franziu o cenho. Já queria estar à milhas de distancia dele. - Poderia me acompanhar até o Salão Comunal, por favor?

Não.

- Claro. – sua voz não estava trêmula, graças a Merlin. Este era Tom Riddle. Tudo nele gritava "FALSO!" para Hermione e ela nunca cairia em nenhuma fachada dele.

Ela poderia simplesmente transfigurar as roupas que estava usando para as vestes da Sonserina. Deveria ter pensado nisso antes, divagou, já imaginando a confusão em que iria se meter.

Ele lhe deu as costas facilmente e começou a caminhar para fora do Salão. Hermione não viu outra opção a não ser segui-lo.

O primeiro corredor vazio que encontrou e o coração de Hermione acelerou novamente. O pensamento de estar sozinha com aquele... Ele... Não lhe agradava em nenhum sentido. Agora seu fluxo de mágica estava normal, mas se Riddle inventasse de tocá-la de novo, quem sabe o que poderia acontecer? Talvez Hermione mesma saísse voando. Ela estremeceu ao repassar a cena enquanto observava as costas do moreno andando confiante pelos corredores. Ela imaginava que era "normal" aquele tipo de gesto entre homens e mulheres nesta época, mas depois do acontecimento de manhã ela esperava que ele se esquecesse dela por um tempo.

Mas claro, algo que Voldemort não tinha controle absoluto despertaria sua atenção. Mas Hermione simplesmente não poderia deixar suas memórias à mostra, para ninguém nesta época. Mexer com o tempo era perigoso ao extremo. Antes de oferecer a missão a Hermione, Dumbledore avisara as consequências: Sua existência ou de outros apagadas; ela ficar presa no passado para sempre ou desaparecer com o tempo; destruição do mundo...

E se ela conseguir voltar, como esperava que fosse, o futuro já teria sido alterado e ela provavelmente teria umas imagens de tudo que ela havia mudado. Provavelmente.

Ela balançou a cabeça. Foque em Riddle, pensou enquanto descia as escadas para as Masmorras com ele. As luzes diminuíram gradativamente e ficou mais frio. As paredes foram se tornando de pedra bruta que dava a aparência de estar adentrando uma caverna. Os degraus terminavam em um corredor mal iluminado e úmido. Hermione engoliu em seco.

Sua varinha ainda estava entre a saia e a blusa e Hermione refreou os dedos nervosos que voaram para o objeto. Riddle deu uma olhadela por sobre o ombro e ela contorceu os dedos na barra da saia com o susto. Será que ele a vira tentar pegar a varinha? O moreno voltou logo seus olhos para frente e a castanha mordeu o lábio. Ela não conseguia refrear o medo perto dele e isso era algo que tinha que mudar.

~X~