IV
- Salve, crônida que agita a Terra.
Kanon estava diante do Deus, ajoelhado em uma mesura que vira Saga fazer um dia. Não usava suas roupas habituais do Santuário nem roupas civis, mas sim uma túnica brocada, longa e formal, que recebera nos aposentos onde esperou para ser recebido pelo Deus dos Mares. Nada parecido com as roupas que Julian Solo usava, ou que ele mesmo usaria – o que apenas aumentava sua sensação de apreensão pela estranheza que depreendia de tudo a seu redor.
O olimpiano olhava-o de alto a baixo; os olhos dourados ininteligíveis até para quem se julgava um expert em antecipar as jogadas de seus adversários. Sim, fora-lhe fácil encará-lo e enganá-lo quando o Deus despertava de seu sono de séculos porque ele o acordara fora de hora. Ridiculamente fácil; daí a crise de riso que teve quando se viu coberto pela escama do Dragão.
Mas ali? Diante do Deus desperto, em seu corpo mítico e no auge de seu poder?
O cosmo do Rei dos Mares abrumava seus sentidos, e ele não conseguia evitar a sensação de ter um buraco no lugar do estômago. Medo, ele sabia que era medo, por mais irônico que o sentimento fosse vindo de um homem que recebera uma nova vida dos deuses para dedicá-la a remediar seus débitos.
- Salve, Segunda Estrela de Gêmeos. – A voz de Poseidon continuava tão gutural como da primeira vez que a ouviu.
O desconforto que sentia aumentou, era-lhe difícil ouvir na voz do Deus a quem enganou o título que não era digno de ostentar. Por mais que estivesse em seu destino e de seu irmão, Saga era Gêmeos, não ele. Ele só usou a armadura a pedido da Deusa. Por ela, e por Saga. Pela dívida que tinha com os dois.
Jamais voltaria a usá-la enquanto Saga fosse vivo.
- O que deseja de mim, alteza? – Sua voz saiu seca, e ele tentou compensá-la com um meneio.
- Levanta-te. – A voz do olimpiano, apesar do timbre grave, denotava um tom divertido. – Põe-te cômodo.
Kanon se levantou, mas mantinha ainda os olhos baixos.
- Olha para mim. – A voz dele ainda estava suave, mas lhe era claro que aquela era uma ordem. Levantou a cabeça devagar, reprimindo a inquietação ao olhar, pela primeira vez, nos olhos dourados do deus dos mares. Que lhe deu um sorriso leve, mas seus olhos não sorriam.
Kanon não sabia o que via nos olhos de Poseidon.
- Interessante. – O deus disse, seus dedos brincavam de leve com sua barba. – Não entendo como não te reconheci quando me despertaste de meu sono.
Pelo visto, imolar-se para derrotar Radamanthys não fora o suficiente para pagar seus pecados. Talvez com Atena, sim. Mas ainda tinha contas a acertar com Poseidon, não tinha? E Poseidon não era Atena. Não se contentaria com sua ajuda na luta que ainda se desenrolava no Inframundo, não se contentaria com sua morte como um guerreiro honrado.
Ele sabia disso, anteviu isso quando se viu acordado, as feridas de sua batalha com Radamanthys apagadas. Mas não conseguia evitar o medo.
Kanon baixou os olhos, já com o coração aos pulos no peito.
- Olha para mim. – O deus repetiu pausadamente cada palavra.
- As... circunstâncias me ajudaram, alteza. – Kanon conseguiu arrancar as palavras de sua boca num murmúrio.
- E, pelas circunstâncias, então a Segunda Estrela de Gêmeos tomou posse de uma das escamas de meus generais. – Agora a voz do deus parecia claramente divertida. – Te apoderastes de Dragão Marinho.
- Eu sinto muito, alteza. – Kanon lutou contra o instinto de novamente baixar os olhos. - Esse título também não me pertence...
- Quem lhe disse que não? – Os olhos dourados do deus fulguraram por menos de um segundo. – A escama te aceitou como portador.
- Eu não sou Dragão Marinho, alteza. – Kanon lutava para que sua voz não ficasse presa na garganta. – Eu... roubei esse título, bem como a escama, porque-
- Porque querias usar o poder dos mares para conquistar o mundo, vingar-te do Santuário de Atena. Não necessariamente nessa ordem. Não é verdade?
- Sim.
- E o que te faz pensar que esses objetivos também não eram meus?
Os olhos dourados do deus prendiam os seus, a força de seu cosmo o deixava tonto. E essa, talvez, seria a mais difícil das confissões que ele teria de fazer ali, justamente pelo poder que o olimpiano depreendia. Um poder que, em seus arroubos de megalomania, ele pensou que poderia controlar.
- Eu não pretendia que... sua alteza acordasse de seu sono.
- O que pretendias tu, então, era controlar-me. - Poseidon mantinha os olhos cravados em si, os dedos ainda brincando com a barba farta.
- Sim. – Kanon assentiu, e não conseguiu sustentar o olhar do Deus dos Mares.
Um sorriso ladeado apareceu nos lábios do olimpiano, e logo evoluiu para uma risada grave, anasalada. Como se ele tivesse ouvido algo tão absurdo, tão descabido, que chegava a ser puerilmente engraçado.
- No uso de minha escama, esperaste treze anos para articular tua conquista. – Poseidon voltou a falar. - Usaste os asgardianos para derreter o gelo de que necessitaria para encher os mares e provocar as enchentes que castigaram a terra. Os asgardianos atraíram Atena, logo depois de uma luta fratricida onde quase metade dos teus companheiros de armas, os cavaleiros de Ouro, foram dizimados. E aproveitaste o momento para atacar o Santuário. – Os dedos do olimpiano agora se pousaram no cabo de seu tridente, o sorriso ainda dançava em seus lábios. – Teu único erro, o único, foi subestimar os cavaleiros de Bronze. Um erro que, admito, também foi meu.
- Atena era a deusa que eu devia proteger e servir, e eu a traí. – Kanon disse num tom grave, pois ele não entendia como um deus pudesse achar engraçado que um humano, por cavaleiro que fosse, conspirasse e se utilizasse de seu poder e seus súditos para seu próprio benefício. – Tudo o que eu fiz, alteza, foi para servir meus interesses.
Poseidon se levantou de seu trono, e em cada detalhe de sua figura era evidente a distância que separava os deuses dos reles mortais: Os cabelos longos, anelados, descendo pelos ombros numa cascata prata-azulada; o rosto de traços simétricos coberto pela barba fechada da cor exata dos cabelos. O olimpiano aproximou-se lentamente, o rosto agora sem nenhuma sombra do sorriso de outrora.
Seu tridente ficou encostado no trono, tudo o que ele tinha era uma pequena joia nas mãos.
- E tu me trairias assim que surgisse a chance. Disto eu sei. – Poseidon agora estava diante de Kanon, e apesar de sua maior altura ele o olhava diretamente nos olhos. – Mas, até então, servir-me foi exatamente o que fizeste. Teus interesses te guiaram pelo caminho cujas circunstâncias me favoreciam ao máximo. Foste uma peça valiosa neste eterno jogo de forças entre deuses e heróis.
- Mas eu não sou um peão. – Kanon não pôde evitar que as palavras saíssem de sua boca, nem o tom raivoso do sussurro que as carregou. Arrependeu-se, claro, mas menos do que imaginava.
Poseidon estava brincando com ele. Fazendo pouco de seus atos, de sua manipulação sobre ele. Logo, se era assim tão esperto, que mostrasse logo a que veio e parasse com os rodeios.
- Um peão, tu? Não. Em tua alusão ao xadrez, um peão não te faz justiça. Servindo teus interesses e pronto para me trair à primeira oportunidade, ainda assim foste minha Rainha. A mais poderosa das minhas peças neste tabuleiro, forte e influente. Mas me traíste, não tenhas dúvida; só que o fizeste quando me preteriste para salvar tua Deusa. Por isso pergunto-me, do que serias capaz se fosses sempre fiel a teu rei?
A mão esquerda do olimpiano tocou seu antebraço, e então deslizou até que os dedos dele se detivessem na altura de seu punho.
- Tu, Segunda Estrela de Gêmeos, manipulaste e mentiste em meu nome, tomaste minha propriedade e tramaste contra mim. Apesar disso, teus objetivos serviram aos meus com mais competência do que aqueles que me professavam lealdade incondicional. Foste o meu mais capaz servidor na luta contra minha sobrinha, a que se intitula Deusa da Justiça. Por isso, tenho em alta conta teus bons serviços e te pouparei a vida. Mais: reclamo-te como meu General do Atlântico Norte, portador legítimo de minha Escama de Dragão Marinho. Tu, a Segunda Estrela de Gêmeos, agora és consagrado a mim.
Os dedos do deus retiveram seu punho no momento que tentou livrá-lo do toque incômodo.
- Mas pagarás um preço pela tua ousadia. Pequeno, hás de convir; minúsculo perto da honra que te concedo...
Os olhos de Kanon foram então até a joia que a mão direita do deus dos mares segurava, e ele sentiu seu sangue gelar assim que a reconheceu. Por menos que Kanon quisesse, havia medo e súplica em seus olhos quando olhou para os de Poseidon. A inclemência que encontrou apenas alimentava seu sentimento de desespero.
- ...E pela dívida que tens comigo usarás esse anel em minha homenagem, um singelo símbolo da dedicação que de hoje em diante espero de ti.
O toque do Rei dos Mares se converteu em um agarre forte ao mínimo sinal de que ele retrairia novamente sua mão, os dedos formigando não pelo agarre, mas pelo medo que percorria seu corpo em descargas de adrenalina. A mão direita do olimpiano segurava o anel na altura de seus olhos para que ele o pudesse ver.
Para que não restasse dúvida.
- Eu não a atacarei. – Kanon sibilou, sua voz embargada em um sussurro que traía o desespero de saber-se num beco sem saída. – Por tudo que considero mais sagrado, eu nunca mais a atacarei!
Poseidon sorriu, vitorioso.
Kanon prendeu a respiração quando sentiu o anel tocar seu dedo anelar esquerdo, deslizando por suas falanges até seu destino final.
O metal frio do anel de Nibelungo.
O formigamento generalizado de seu corpo, junto com o enegrecimento de sua visão, foi a última coisa que sentiu antes de perder a consciência.
OOO
O mortal em seus braços lhe parecia mais pesado do que pensava que seria. Nada insuportável ou incômodo, mas Poseidon não podia deixar de perceber.
Observação interessante para ele, que usava agora o corpo imortal onde seu poder alcançava o máximo. Por mais perigoso que fosse adotar seu corpo original, havia a vantagem de desfrutar e manipular a totalidade de seu poder; algo não recomendável ao se usar um avatar humano. Ou, pelo menos, um que se queira que não morra aplastado pelo poder do deus que abriga.
Reluziu seu cosmo de leve, mas a sensação persistiu. 'Falta de costume', pensou enquanto ajeitava o jovem mortal largado em seus braços como uma boneca de trapo.
Não mentiu quando lhe disse que não o reconhecera, talvez o embotamento do sono de centenas de anos lhe obnubilara a percepção de que estava diante da alma do Segundo dos Dióscuros.
Conhecia essas almas desde o Mito. Sabia também que ambas eram metade humanas e metade divinas, ao contrário do que dizia a lenda de que Póllux era o filho de Zeus e Cástor o filho de Tíndaro.
Uma argúcia de seu irmão Zeus para ocultar o fato de que a semente de Tíndaro criara apenas os corpos que acolheram a alma partida em duas instilada em Leda por sua semente. Alma essa que tinha sido criada em Métis, junto com Atena, pouco antes de Zeus a ter devorado para impedir o nascimento de um filho destinado a tomar o trono do Portador do Raio caso se viesse a nascer de sua deusa-mãe.
Zeus protegeu à Atena, que nasceu de sua fronte com a alma intocada e um corpo gerado pelo seu próprio poder porque as profecias não a consideravam uma ameaça presente ou futura ao seu trono. Por isso a salvou; mas deixou a outra alma, do seu filho, abandonada à própria sorte durante a desintegração da Deusa que deveria lhes gerar um corpo divino. Não conseguiu destruir essa alma como deve ter sido sua intenção inicial, mas ao menos logrou privá-la da totalidade de sua natureza divina quando a destruição do corpo da Mãe partiu essa alma em duas.
Uma alma dividida em duas metades, irrevogavelmente maculadas pela imperfeição dos mortais para que pudesse se encaixar em um invólucro humano - que também se dividiu em dois.
Cástor e Póllux, as Estrelas de Gêmeos.
O Destino, caprichoso como sempre, fez com que ambos se unissem à que deveria ser sua irmã assim que completassem a idade para serem guerreiros; e eventualmente a guerra lhes ceifou a vida apesar da imortalidade que suas metades divinas deveriam proporcionar a um e ao outro, um por vez. Ao contrário do que dizia o Mito, após suas mortes elas não se revezavam no Elísio, nem compartilhavam a divindade de sua origem. Foram enviadas ao Ciclo das Reencarnações onde, através das eras e encarnação após encarnação, as almas dos Dióscuros voltavam para integrar a Ordem de Atena como os Santos de Gêmeos. E fatalmente terminavam atentando contra o Olimpo, cegos pelo poder descomunal que carregavam em si.
Um poder igualmente destinado à luz e à sombra, à glória e à morte.
Sorriu para si, olhando o rosto atraente da Segunda Estrela de Gêmeos. Humano, sim, mas com a grandeza do que poderia ter sido presente em cada detalhe de seu corpo e de seu cosmo.
Era apenas natural que se vissem como deuses no meio de homens, lutando vida após vida para tomar entre os deuses um lugar que eles julgavam lhes ser de direito. Natural, porque de certa forma não deixava de ser uma parte da verdade.
'As circunstâncias me ajudaram', um sorriso o relembrou da fala de seu recém-empossado Dragão Marinho enquanto o colocava no leito da área habitável do Pilar do Atlântico Norte. Não interpretava sua inconsciência como fraqueza, muito pelo contrário: Era um sinal de que ele ainda era capaz de resistir.
Uma alma poderosa, sem dúvida alguma, mas que ainda assim não era páreo para a força do Anel que o sujeitaria a seu comando.
Tocou a mão esquerda dele, o anel cintilou levemente ao contato de seu senhor. A joia lhe mostrava como se agitava a alma do mortal, esgotando todos os recursos de que dispunha para encerrar-se dentro do próprio corpo e impedir que o anel controlasse suas ações.
Poseidon rolou os olhos.
- Está bem, está bem. Eu te juro pelas águas do Estige que não ordenarei que a ataques. Todas as minhas outras ordens tu cumprirás, mas Atena jamais será atacada por ti sob a minha influência. Está bem assim?
O anel cintilou em resposta às resistências que vencia.
- Bom menino. – O olimpiano se levantou do leito do Dragão Marinho e caminhou até a porta.
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