Esse cap vai especialmente para a linda J. M Oliver, que me mandou reviews maravilhosos! Obrigada, flor!

.

.

.


Cap IV – Malditos Otakus!


Olhando em volta, Naruto pensou que aquilo era totalmente inútil. Estava em uma das baladas GLTB mais conhecidas da cidade e a única coisa que sentia era tédio, além de um leve arrepio – que não tinha nada de prazeroso – quando era abordado por algum homem. A música alta e as luzes psicodélicas deixavam o ambiente quase surreal e, misturado com os vários copos de bebida alcoólica que havia ingerido, lhe davam a impressão de estar em um sonho bizarro.

Fixou os olhos no corpo de seu acompanhante, vendo-o no meio da pista de dança, retorcendo-se de um lado para o outro no meio de outros corpos suados, e lembrou-se vagamente de uma lagartixa agonizante. Não que fosse feio, mas era branco e magro demais, além de usar uma blusa curta que deixava seu abdômen liso à mostra. Perguntou-se pela milésima vez naquela noite o porquê de ter aceitado acompanhá-lo àquele lugar e a resposta foi a mesma das outras vezes, quando fitou seu rosto. Oriental. Olhos e cabelos negros. Rosto delicado.

— Merda! — Resmungou, mas devido à música alta sabia que não chamaria atenção. Pelo menos não até que sua mão, que segurava um copo de bebida pela metade, apertá-lo com força excessiva e espalhar o líquido por sua roupa e chão, molhando algumas pessoas que estavam em volta. Recebeu olhares recriminadores e saiu dali, decidido a ir ao banheiro se limpar e esfriar a cabeça.

Sua vida pessoal havia virado completamente de cabeça para baixo nos últimos seis meses. De um rapaz heterossexual e comum, se transformara em um bissexual frustrado que procurava em várias bocas e corpos algo que sabia que apenas uma pessoa lhe poderia dar. Uma pessoa que a essa altura deveria estar casado e feliz há mais de cinco meses. Sasuke.

— Merda! — Exclamou mais uma vez, em voz alta, enquanto entrava no banheiro unissex da boate. Havia adquirido também o péssimo hábito de falar sozinho, resmungando e praguejando, sempre que se pegava pensando no moreno que povoava seus sonhos mais quentes. O que, por vezes, era extremamente constrangedor. Principalmente quando andava de metrô. Fosse o horário que fosse, estivesse lotado ou vazio, entrar em uma estação já era o suficiente para deixá-lo melancólico, mas quando entrava no vagão em si, era ainda pior, coisa que o deixava irritado a ponto de blasfemar constantemente contra um determinado moreno de olhos negros. — Malditos olhos hipnotizantes, maldito cabelo sedoso, maldita pele macia e cheirosa!

Pegou um punhado de papel toalha no suporte ao lado da pia e começou a enxugar a blusa molhada, sob os olhares curiosos de outros frequentadores do local. Realmente precisava parar com essa mania, antes que fosse internado.

— Está tudo bem? — Uma voz suave perguntou ao seu lado.

Virou-se para o dono da voz e teve a visão de um rapaz que parecia um emo, grunge, ou algo do tipo, já que não tinha muita experiência e, sinceramente, nem curiosidade, sobre os hábitos dessas tribos urbanas. Vestia um casaco azul, o que combinava com o cabelo vermelho, e tinha olhos verdes fortemente delineados de preto. A pele branca destacava uma tatuagem em vermelho com o kanji "amor" do lado esquerdo da testa e suas sobrancelhas eram raspadas, o que estranhamente não o deixava feio.

— RGB... — Murmurou consigo mesmo, não conseguindo evitar um sorriso divertido.

— Desculpe? — Perguntou o estranho, franzindo o local das sobrancelhas inexistentes.

— E mais educado que a média... — Voltou a murmurar, logo percebendo que deveria estar parecendo um louco. Resolveu se explicar: — RGB é um modo de coloração utilizado para imagens digitais, baseado em vermelho, verde e azul. Por isso você me lembrou uma arte digital... — Sorriu sem-graça pela explicação esquisita. Ficou ainda mais constrangido quando a expressão do rapaz permaneceu séria e indagativa. — Deixa pra lá... Você queria alguma coisa?

— Perguntei se você está bem. Parecia bem transtornado quando entrou aqui... — Respondeu o rapaz, ainda sério. E estendeu a mão a Naruto. — Meu nome é Gaara.

— Prazer, Naruto. — Apertou a mão do rapaz, que lhe pareceu agradavelmente morna. — Gaara, hum? "Amante da morte"? Você não me parece violento...

Gaara deu um sorriso pequeno e respondeu com outra pergunta:

— Entende de japonês?

— Um pouco. Mas por que esse nome? Você também não me parece japonês...

— E não sou, mas uns amigos otakus me deram esse apelido há alguns anos, quando comecei a frequentar cemitérios à noite com um pessoal. Acabei aderindo.

— Entendo. Foi na mesma época em que fez essa tatuagem? — Perguntou Naruto, curioso, apontando para a testa do outro.

— Sim. Já superei essa fase, mas infelizmente não é fácil e nem barato tirar uma tatuagem.

A explicação não convenceu muito o loiro, que o olhou de cima abaixo. — "Superou essa fase, é? Sei..." — Pensou sarcástico, observando as botas de cano longo por cima da calça jeans escura e colada às pernas. — Então, Gaara... Assim como você não parece violento ou japonês, também não parece, bem...

— Gay?

— É... — Deu um leve sorriso torto e constrangido.

— Nem você, mas acredito que pelo menos a metade dos homens nessa boate não pareçam. — Gaara se encostou na parede e cruzou os braços e os tornozelos, analisando criticamente a figura do loiro. — Na verdade, pela sua atitude desde que chegou, eu diria que você parece muito mais um hétero que caiu de paraquedas aqui.

— Esteve me espionando? — Naruto levantou a sobrancelha, levemente indignado.

— Observando. — Corrigiu Gaara. — Você é bonito, tem um corpo que chama a atenção e parecia deslocado. Mesmo acompanhado por aquela lombriga esquálida...

Não conseguiu conter a risada ao ouvir como o outro se referia ao rapaz que o acompanhava.

— Essa foi ótima... — Respirou fundo para conter o ataque de riso. — Ele é realmente esquisito!

— Se acha isso, por que está com ele? — Gaara perguntou, genuinamente curioso.

A pergunta foi o suficiente para apagar qualquer vestígio de sorriso da face de Naruto.

— Eu não estou com ele, exatamente. — Respondeu sério. — Eu tentei no começo, mas não consegui me envolver, então nos tornamos amigos. É uma longa história.

— Temos a noite inteira, se você quiser...

Naruto encarou os olhos verdes sérios e foi envolvido por um sentimento de paz que há muito não sentia. Apesar da aparência agressiva, Gaara parecia uma pessoa tranquila e inteligente, que daria um bom amigo. Sentiu vontade de desabafar com ele, mesmo que fosse um total desconhecido. Ou, talvez, exatamente por isso.

— Certo. Se você quer mesmo saber, vamos! — Já começando a andar, o loiro segurou o braço de Gaara e se encaminhou de volta à área principal da boate. Passou no bar para pegar mais bebidas e se acomodou em um sofá, estrategicamente colocado a um canto, com o ruivo ao lado. Apoiou o copo na mesa em frente e só então virou-se para o outro. — Antes de te dizer qualquer coisa, Gaara, gostaria que você me respondesse: por que quer saber dos meus problemas?

— Não tenho certeza... — Permanecendo sério, encarou os olhos azuis de Naruto como se pudesse escanear sua alma. — Alguma coisa me faz sentir como se eu te conhecesse há muito tempo e pudesse te entender. Você está sofrendo.

A afirmação fez Naruto arregalar os olhos. Não era todo mundo que conseguia enxergar além da máscara despreocupada, e algumas vezes irritada, que usava ultimamente. Gaara era muito observador.

— Hum. — Resmungou, desviando os olhos para a pista de dança de maneira distraída.

— Então, me conte o que te leva a sair com a lombriga. — Gaara pediu, dando um gole em sua bebida.

— O nome é Sai e ele me lembra uma pessoa. — Disse por fim, com um suspiro resignado. — Não realmente, sabe, mas os dois são orientais, então o colorido é parecido. Quando o conheci fiquei olhando para ele como um idiota, o que o fez ficar curioso e tentar se aproximar mais de mim. Na época eu estava triste e sentimental, então acabei aceitando suas investidas. Ficamos juntos algumas vezes, mas nunca consegui chegar até o fim. Ele sempre acaba me arrastando para esses lugares para tentar me animar, mas...

— Entendi. — Disse o ruivo, quase indiferente, mas com a pergunta que fez a seguir, Naruto percebeu que ele prestou muita atenção ao que disse e foi direto ao ponto crítico de seu desabafo: — Se você estava carente por causa desse outro cara, por que não o procurou?

— Não dá... — Respondeu, com um sorriso melancólico. — Eu bem que tentei, apesar da resolução de esquecê-lo.

— Conte tudo, desde o início. — Gaara exigiu, apesar de manter sua face neutra.

E Naruto contou. Constrangedoramente, até os detalhes mais tórridos de sua relação relâmpago com Sasuke foram expostos como uma ferida aberta, mas principalmente a conversa entreouvida na manhã seguinte e como deixou-o sozinho e foi embora, magoado, triste, desesperado.

— Depois daquilo, eu tentei encontrá-lo, sabe? Mesmo sabendo que era errado e que não deveria, eu tentei. Procurei no Facebook e em todas as redes sociais menos usadas, mas parece que o nome dele é o mesmo de um maldito personagem de mangá! E como não sei seu sobrenome, tudo o que consegui foi a droga da imagem de um cara descabelado, de olhos grandes e vermelhos! Maldito Google! Malditos mangás! Malditos otakus! — Finalizou seu discurso irado passando as mãos nervosamente nos cabelos, o que fez aparecer um discreto sorriso no rosto de Gaara.

— Por tudo o que me contou, se você não estiver tentando se enganar, o que não me parece, pode ser que esse tal de Sasuke esteja na mesma situação que você. — Comentou, despreocupado. — Sabia que o seu nome também é o de um personagem de mangá?

— O que? — Naruto olhou para ele, nervoso. — 'Tá brincando, né?

— Não. Se ele tentou te encontrar, teve resultados muito parecidos com os seus, com a diferença de que a imagem teria cabelos cinzentos e olhos rosados.

Por um momento, Naruto amaldiçoou mentalmente todos os japoneses, mas ao se lembrar de sua mãe, refreou-se. Sua irritação crescente só deu lugar à tristeza quando lembrou-se de que Sasuke provavelmente estaria casado e nem pensaria mais nele.

— Bem, mas isso não importa, apesar de tudo. — Disse com melancolia. — O que preciso é encontrar um jeito de esquecê-lo. Nem eu estou me aguentando mais, com esse humor.

— Se você quer mesmo, eu posso ajudá-lo nisso...

— Ahn? — Naruto olhou rapidamente para Gaara. Apesar da frase insinuante, ele permanecia com a expressão neutra e seu tom de voz não demonstrava mais do que sinceridade. Encarando os olhos verde-água, pensou que talvez não fosse uma má ideia. Estar saindo com Sai há quase cinco meses, sendo ele tão parecido – pelo menos de rosto – com Sasuke, poderia estar fazendo com que se lembrasse do rapaz mais do que deveria e impedindo-o de tirá-lo da cabeça. E Gaara parecia um cara bem legal, apesar da aparência exótica. Era certo que havia beijado muitas bocas nesse tempo todo e até tentado ir além, mas não conseguiu, fosse com homens ou mulheres, e nenhum deles lhe passou a confiança que Gaara o estava fazendo sentir. Ficou tentado a arriscar, afinal, se não desse certo, seria apenas mais um com quem acabaria fazendo amizade depois. Recostou-se no sofá, tocando o braço do ruivo com o seu. — O que quer dizer com isso, Gaara?

— Exatamente o que você entendeu. — Respondeu o rapaz, com o olhar fixo e desconcertante. — Se quiser, pode contar comigo. Tanto para ajudá-lo a esquecer quanto para encontrar esse Sasuke. Sei que estou sendo muito objetivo, mas eu realmente gostei de você e entendo pelo que está passando. Já perdi alguém que achei que nunca fosse esquecer e sei como isso pode ser doloroso. Quero ajudá-lo a superar esse sentimento de ser fiel a uma simples lembrança.

— Mas...

Parecendo ler os pensamentos de Naruto, Gaara o interrompeu:

— Não se preocupe com os meus sentimentos. Eles estão... selados!

Era uma afirmação estranha, que fez Naruto enrugar a testa tentando entender o que se passava com o rapaz. Ele parecia muito em paz com suas memórias. Mais uma pergunta passou por sua mente e ele precisava da resposta para continuar, fosse como fosse:

— Você disse que já sofreu assim. O que aconteceu? Por que não lutou pelo cara?

— Não foi possível. Ele morreu...

Naruto se sentiu chocado. O que estava sofrendo não deveria ser nem remotamente parecido com o sentimento de perder alguém dessa forma. Sentiu-se egoísta e fraco por não conseguir superar, e a dor no seu peito aumentou ao ver o sorriso triste que Gaara mantinha. Num ímpeto, abraçou o ruivo com força e sentiu o corpo dele enrijecer, antes de relaxar e devolver o abraço, com um singelo beijo no pescoço.

— Estou me sentindo um idiota agora, sabia? — Disse, com a voz abafada no pescoço de Gaara, mas mesmo com a música alta, este pôde ouvi-lo, e meneou a cabeça, como se negasse.

— Está errado, Naruto. Acho que pode ser muito mais frustrante saber que pode fazer alguma coisa a respeito e não conseguir, do que ter que aceitar que não há mais nada a fazer. — Afastou o loiro de seus braços, segurando-o pelos ombros para olhar em seu rosto. — E agora? O que você decide?

Era a pergunta certa no momento, como tudo o que parecia envolver o aparecimento de Gaara em sua vida naquela noite. Naruto respirou fundo e segurou carinhosamente a face do rapaz entre as mãos antes de dar sua resposta.

.

.

.

Continua...


Ainda quero reviews! :3