ABRIL

John olhou para o relógio e sorriu. A cirurgia da manhã havia terminado bem na hora do almoço e a próxima estava marcada para dali a duas horas. Dava tempo de uma boa pausa. Contactou Sherlock:

Duas horas para almoçar. Que tal? JW

O detetive, que estava se despedindo de Lestrade e andando para o Land Rover parou para puxar o telefone do bolso e sorriu ao ler a mensagem. Não demorou para responder.

Parece bom. Não estou com fome, mas poderemos conversar. SH

Logo, o carro parava na frente do hospital para pegar o doutor. Eles escolheram um local perto, onde o serviço era rápido. Após os pedidos, Sherlock comentou:

-Estava conversando com Lestrade, a ex-mulher dele anda rondando insistentemente, enviando mensagens ou ligando, convidando-o para sair.

-Seu irmão não deve gostar muito disso...

-Mycroft estabeleceu a relação deles em termos físicos apenas. Não sei porque ele deveria se incomodar.

John apenas levantou uma sobrancelha e sorriu:

-Porque os Holmes tem problemas de possessividade, talvez?

-Talvez. Mas Mycroft não é o tipo de pessoa que se envolve emocionalmente com ninguém. Quero dizer, tá, ele não gostaria de perder o Lestrade para justamente aquela ex-mulher dele, mas eu me sinto desconfortável em pensar no Gavin entre essas duas pessoas insensíveis...

-Greg. E você ficou incomodado?

-Fiquei. Não é da minha conta, mas eu fiquei.

John abriu mais o sorriso ainda:

-Pois fique tranquilo. Nina e eu também estamos incomodados, mas muito mais por essa repentina insistência da Sheryl em voltar pro Lestrade, assim, do nada. Estamos estabelecendo estratégias para eliminar a concorrência e de bônus, amarrar as pontas soltas entre seu irmão e nosso amigo.

-Wilhelmina está com muito tempo livre mesmo... E essa obsessão em ser casamenteira, de onde vem?

-É porque você não é ligado nas fofocas de família... Mas é a coisa mais normal do mundo... Algum caso novo, que você queira comentar?

-Não. Conspiração universal na certa. Quando estiver faltando poucos dias para o bebê nascer, casos, estou dizendo no plural, casos interessantíssimos pularão dos becos no meu colo. Agora que o tédio é meu companheiro constante, não aparece nada.

-Você é muito drama queen. Pois bem. Vamos colocar um pouco de ação na sua vida. Enquanto eu vou chamar o Lestrade para uma cerveja, você vai sair com o Mycroft para "fazer umas verificações".

-John! Eu nunca saio com meu irmão! Vai ficar muito óbvio...

-Ainda mais para a maldita raça dos Holmes... - Watson riu. - Mas eu confio no seu taco, você é meu namorado brilhante e vai arrumar a desculpa perfeita para passar umas horas agradáveis com seu mano. E ainda de quebra descobrir de verdade o que ele pensa sobre a Sheryl.

-Oh, está bem! Vai ser o meu maior desafio... Vou pensar em alguma coisa.

Em casa, Sherlock andava de um lado para o outro na sala, amaldiçoando John Watson, Wilhelmina, Mycroft, Lestrade e toda a humanidade em geral:

"Aqui estou eu, quebrando a cabeça com um problema que não deveria ser meu, me intrometendo na vida alheia, por causa dos sentimentos dos outros. Desde quando eu me importo com isso? Esses jogos amorosos não deviam fazer parte da minha rotina. Maldita hora em que eu resolvi me meter num relacionamento. Agora várias pequenas coisinhas vem atreladas nele"

O rapaz parou, fez beicinho e se jogou no sofá.

"Mas fui eu quem procurou a encrenca, não foi? Fui eu quem pediu John em namoro. Essa foi a vida que você quis, Sherlock Holmes, aceita que dói menos. Sair com o Mycroft pra deduzir, ou pelo menos, coletar dados sobre sua vida amorosa com Lestrade. Ugh!"

Virando os olhos, depois a cabeça, Sherlock se deparou com a chamada no jornal que a temporada de ópera ia começar no dia seguinte. Mas antes que estendesse a mão para puxar as folhas e abrir, o telefone tocou. Sherlock olhou para a tela incrédulo.

"Não, vigilância é uma coisa. Telepatia ele não é capaz!" - Mycroft?

-Como está se virando, estimado irmãozinho, agora que John não passa mais tanto tempo contigo? Muito tédio?

-Não mais que o normal. Por mais que você adore me infernizar, não acho que você gastaria um minuto e um telefonema para tanto...

-Até poderia, querido. Mas eu resolvi ser irmão mais velho exemplar e levar você comigo à Ópera.

"Definitivamente, ele está paranormal, hoje!" -Quanta generosidade. Quem não te conhecesse, até ia achar que o amor fraterno abunda aí...

-Pode não ser uma fonte inesgotável, mas eu não sou insensível a você. O que me diz? Carmen, amanhã, às 19 horas?

-No meu carro ou no seu?

-Não que eu tenha dúvidas quanto à sua perícia na direção, mas acho que chegar no meu carro, com motorista, é mais estiloso.

-Esnobe!

-Sim! Pelo menos, amanhã, na Ópera, eu quero ser um bastardo esnobe. Au revoir.

-À demain, frére. Bem, foi mais fácil do que eu pensei. Vamos deixar que meu namorado ache que eu fiz tudo sozinho. - e mandou uma mensagem para o Watson.

Ópera amanhã com irmão. SH

Demorou um pouco, mas a resposta veio:

Você é incrível! Nem doeu, certo? Vou chamar Greg para uma cerveja, então. JW

No dia seguinte, as coisas tomaram rumos inesperados, mas nem por isso menos divertidos para os participantes.

Mycroft foi à ópera vestido em um três-peças cinza chumbo com gravata púrpura, um alfinete de diamante faiscando nela. O seu relógio era em ouro branco e os sapatos estavam tão bem lustrados que faiscavam. Ao seu lado, seu irmão estava todo em negro com a gravata azul royal e suas poucas jóias eram douradas. Pescoços acompanhavam seu trajeto e muita gente fez questão de cumprimentá-los. Mycroft não estava no clima para ser cem por cento polido e diplomático, então deixou que a brusquidão natural de Sherlock os guiasse.

Enquanto isso, no pub de sempre, John e Gregory se sentavam, um carregando os pints de cerveja e o outro os petiscos.

-Imaginei que você ia passar o seu dia de folga com Sherlock.

-Oh, eu passei. Tirei o dia hoje para fazer tudo que ele queria. Mas como Mycroft o convidou para a abertura da temporada de ópera, aproveitei para dar atenção a um amigo. Faz tempo já que não temos oportunidade de sair e jogar um pouco de conversa normal fora.

-Aqueles Holmes pomposos e inteligentes...

-Eu amo o meu, mas tem horas que ele me cansa...

Os dois riram e bateram os copos.

-O meu, se é que eu posso chamar de meu, anda pisando em ovos. Minha ex-mulher anda me perseguindo, vê se pode. Não acredito que ela queira uma reconciliação, tanto tempo depois de assinar o divórcio.

-Não fez um ano ainda. Se ela fosse uma pessoa legal, eu até diria "pessoas erram, merecem uma segunda chance, tente outra vez". Mas a Sheryl não é desse tipo de pessoa. Se você quiser se arriscar, vai sofrer.

-Fique tranquilo quanto a isso. Mesmo que eu não estivesse apostando minhas fichas no Mycroft, eu nem cogitaria voltar para minha ex.

Enquanto isso, na Royal Opera House:

Após a apresentação, Sherlock e Mycroft estão sentados ao balcão do bar, se encarando por sobre as taças de vinho branco. Quem não os conhece poderia até estranhar o silêncio, mas estão conversando, os olhares, meio sorrisos e levantar de sobrancelhas significando mais que palavras poderiam. Até que Sherlock suspirou:

-Mas como eu disse ao John: só entre na disputa pelo Lestrade se você vai mesmo se envolver. De insensível, já basta aquela ex-mulher dele.

-Sentimento, querido irmão?

-Só um pouco, Mycroft, o suficente para valorizar uma pessoa. - Sherlock esvaziou a taça.

-Existem Carmens por todo o mundo, testando seus poderes de sedução, não se importando com os sentimentos dos outros... - filosofou Mycroft, olhando para o fundo da taça.

-O que existe demais, e é irritante percebê-las, são Micaelas apáticas, que não sabem reconhecer o perigo que ronda seus pares nem como cortar o mal pela raiz logo no começo.

-Você acha? Quero dizer, estou sendo uma Micaela apática?

-Acho, prezado irmão, que você está tanto tempo no meio da política, usando diplomacia pra resolver as coisas, que se esqueceu que em alguns assuntos, o melhor é ser enérgico e direto!

-Mas fui eu quem propôs ao Greg uma relação baseada em sexo.

-Mycroft, não seja obtuso, porque não é do seu feitio. Quantos homens feito o Lestrade você acha que existem solteiros e disponíveis? Até aquela ex-mulher dele já se apercebeu do fato e está tentando retomar o prêmio! Sei que a Nanny vive dizendo que você parece nosso bisavô, ele podia ser prático mas nem por isso era uma pedra de gelo sem emoções. À maneira dele, Rainier amou a mulher, a filha e os netos.

-De uma forma feroz, mas sim.

-Lestrade não vai esperar que você seja um parceiro submisso e amoroso. Mas não superestime sua capacidade de deduzir que você está interessado. Os Rutherfords são atraídos por mentes simples. Nós puxamos mais a nossa mãe que nosso pai. Seja franco. Facilite.

E no pub, uma desagradável surpresa. Enquanto eles conversavam, uma voz conhecida surgiu por detrás.

-Olá, docinho. Que coincidência encontrar você aqui.

-Sheryl?

-Você não retorna minhas ligações, Greggy. Imaginei que você estivesse sem tempo para sair e tomar uma cerveja.

-Talvez eu não tivesse interesse em sair e tomar essa cerveja com você, já pensou nisso?

-Eu sou melhor companhia que esse tipo de pessoa com quem você se associa no trabalho, querido. Se eu fosse você não andaria muito com os veados. Não sabe que podem achar que você é um deles? Seu precioso namorado sabe que você está aqui, nanico?

Gregory só levantou uma sobrancelha e abriu a boca surpreso, mas John foi mais rápido no gatilho:

-A gente julga as pessoas pelo nosso próprio filtro, não é mesmo, Sheryl? Você é uma vadia sem caráter, acha que todo mundo não vale o ar que respira feito você. Sim, meu namorado sabe onde eu estou e o que eu estou fazendo. O tempo todo. E como você não foi convidada para a nossa mesa, seria educado da sua parte se retirar agora.

A mulher nem se abalou e sentou-se.

-Se eu não sair, você vai fazer o quê?

-Por Deus, ela está achando que eu sou igual a ela, vulgar e barraqueiro. Até sou, mas só quando a briga vale a pena. E você, "docinho" não vale uma ruga na minha testa. - John matou o último gole da cerveja, se levantou e apanhou o casaco.

Lestrade aproveitou a deixa e fez o mesmo:

-Quer dividir o táxi, Johnny?

-Eh, era uma boa, mas daqui pra casa é mais fácil ir de metrô. Não quer andar, preguiçoso? Tá ficando mal acostumado.

E rindo, foram para a porta do pub, deixando uma boquiaberta Sheryl para trás. Quando Watson chegou em casa, Sherlock já estava lá, deitado no sofá, com as mãos embaixo do queixo. John retirou o casaco, pendurou no gancho, tirou os sapatos e beijou de leve a testa do namorado. Quando Sherlock retornou do palácio mental, John já vinha da cozinha com duas xícaras de chá prontas.

-Como foi com seu irmão?

-Ele não se mostrou avesso a assumir um relacionamento mais consistente com Lestrade. Aliás, escolher Carmen para assistirmos demonstrou que o assunto já estava sendo debatido internamente.

-Ótimo. Sheryl resolveu ser mais persistente e deve ter stalkeado o ex-marido, porque apareceu no pub onde estávamos. Aliás, ela não era loira?

-Nas poucas vezes que eu a vi, um tipo alourado, por que?

-O cabelo dela estava meio estranho, nem loiro nem ruivo...

-Deve ter tingido com tinta barata, daquelas que saem após algumas lavadas. Ugh, que horror, sair e encontrar com a lacraia.

-Pois é, mas a lacraia teve que provar um pouco do próprio veneno. - riu John, por detrás da sua xícara.

-John Watson, você fez um "bateu/levou" com a ex do Geoffrey?

-Ex do Gregory. Fiz. Com o maior prazer do mundo.

-Você pode ser lento em algumas horas, mas eu amo quando seu raciocínio se acelera pra pessoa não ir embora sem o troco!

-Só isso que você ama em mim? - John piscou para o namorado.

-Oh, não... - Sherlock colocou a xícara de chá em cima da mesa e se sentou nas pernas do seu Watson, fazendo com que a xícara dele acompanhasse a outra e as mãos estivessem livres – você é cheio de outras boas habilidades também. Dessas mãos aqui são incontáveis e eu adoro todos os efeitos delas em meu corpo. Adoraria uma demonstração agora mesmo...

-Desde que eu te vi vestido para sair, eu não via a hora de terminar a noite para despir você dessa paramentação toda e tocar sua pele novamente. Você ficou um tesão de azul e preto.

-Sou todo seu, meu capitão. - Holmes sussurrou no ouvido do outro, lambendo o lóbulo.

-Gosto de saber disso... - Watson respondeu com a voz enrouquecida pelo desejo, enquanto as mãos desabotoavam a camisa e ele mordiscava o pescoço ao seu dispor.

Num movimento rápido, ele agarrou Sherlock pela bunda e se levantou, o outro não menos ágil já cruzou as longas pernas em volta do quadril do amante e se deixou levar para a cama.

N/A: Naaah, me xinguem. Mas não vai ter sexo explícito aqui agora. Esperem uma fic própria. Próximo capítulo, a grávida, ne? 30/05/2015.