Cap.3 – Quando o Jogo Muda
Naquela noite não estive com Andreas e nem na seguinte. Desde que havia deixado a reunião e a pequena e contida alegria que tomava conta do hall de entrada não tinha notícias nem de sua sombra. Imagino que ele também estava se poupando o desgaste que seria passar mais uma noite comigo, tendo em vista sua partida iminente. Devia estar ocupado fazendo seus preparativos, recebendo os parabéns, sorrindo para os outros e aproveitando a alegria de começar seu próprio clã em seu próprio território a mando dos líderes. Deve estar sendo realmente um sonho realizado, pensei amargurada.
Eu não estava em meus melhores dias, na verdade, estava em meus piores e o que eu vinha sentindo se modificou durante as noites. O que era uma tristeza sem fim havia se tornado raiva a medida que o Sol ia nascendo no horizonte e agora em vez de ter o pesar por saber que ele iria embora novamente. Eu o odiava por partir. Odiava- o por ter voltado e me feito ter esperanças. Eu sabia que esse ódio era sem fundamento, afinal de contas, não era culpa dele. Ele não planejou ser escolhido, não pediu para que fosse designado, mas esse sentimento pesado era a única coisa que aplacava minha dor e que me fazia sentir um pouco menos impotente diante de tudo aquilo.
Bem, se é assim que ele quer lidar com isso, é assim que lidaremos, pensei comigo mesma enquanto me vestia e saía pela porta. Eu caminhava apressadamente pelos corredores do castelo, sentia os pés afundando firmemente contra o carpete macio ou batendo violentamente contra o piso de mármore, muito mais pesados e barulhentos do que era de costume em uma tentativa inútil de me livrar daquela raiva. Consegui até chamar atenção de Alec que saía de seu quarto e vinha em minha direção.
- O que você tem? – Eu não estava com paciência para nada vindo de ninguém, principalmente algum comentário estúpido vindo de Alec.
- Hoje não, Alec. – Eu disse, mas com um outro aviso muito mais gritante em meus olhos.
- Você precisa parar de andar com o Felix. Está ficando mal-humorada igual a ele quando fica com fome. – Eu cerrei os punhos encarando Alec. Ele não escaparia dessa vez. Mas antes que pudesse de fato fazer algo contra meu irmão, ele voltou para dentro do quarto e fechou a porta rapidamente. Coisa pela qual agradeci muito, pois tenho certeza que me arrependeria se tivesse lhe feito algum mal de fato.
Continuei caminhando sem ver para onde ia. Não fazia diferença só queria me livrar daquele peso que esmagava meu peito e fazia meus músculos tremerem. Eu não precisava dele para sobreviver. Era um membro do círculo íntimo dos Volturi, o próprio Aro havia assassinado uma vila inteira apenas para salvar minha vida e de meu irmão, meu dom era único e simplesmente o mais temido por todos os vampiros e humanos. Eu não precisava dele. Andreas Volturi poderia ir para onde bem entendesse, eu seria melhor sem ele. Diria adeus as ilusões que tive durante anos e aos momentos que passamos, seria mais forte e nada poderia me deter. Ensinaria a mim mesma a não sentir mais dor, usaria seu nome para me fortalecer e não para me amolecer. O amor não levava a nada. Veja o garoto Cullen, um vampiro com dons incríveis, forte e rápido, um exemplar de sua espécie e agora fraco, vulnerável, tendo que recorrer a nós para morrer e se livrar da dor. Veja Marcus, líder dos Volturi, temido por muitos, respeitado por todos e agora reduzido a um ancião mudo que passava seus dias lendo outros relacionamentos e se lembrando de seu próprio desde que perdera sua companheira. Eu nunca seria igual a eles, nunca me rebaixaria a tanto. Eu aprenderia com seus erros. Eu seria melhor.
Parei de caminhar quando cheguei ao topo de uma das torres, não tinha me dado conta de que havia ido tão longe assim, meus pés devia estar com mais raiva do que eu. O dia estava nublado como o anterior e por um momento eu parei meu sermão mental e encarei a beleza do cenário. Respirei fundo sentindo o vento forte bater contra o meu rosto e soltar algumas mechas de meus cabelos do elegante coque em que estavam sempre presos. Apoiei as mãos no pára-peito encarando os pontos minúsculos que eram as pessoas lá embaixo. As observei por alguns instantes e pela primeira vez eu as invejei. Certamente elas não deviam estar sentido o que eu estava naquele momento, nunca ter experimentado a amargura que eu agora experimentava e nunca deviam ter se sentido tão impotentes e fracas quanto eu me sentia agora.
Abaixei o rosto pousando a testa na palma de uma das mãos e balancei gentilmente a cabeça para mim mesma. Suspirei demoradamente sentindo a adrenalina deixar meu corpo, aos poucos eu ia me acalmando e conseguia ver claramente. A quem eu estava querendo enganar? Toda aquela pregação raivosa de antes não estava funcionando nem nunca funcionaria, eu sabia. Não sei porque ainda insistia. Ficar praguejando aos ventos e às paredes e tentar me convencer de que com certeza seria uma pessoa melhor sem ele não mudariam o fato de que ele iria me deixar logo. De que mais uma vez passaria os dias sonhando com os momentos que passamos juntos. Aquilo era ridículo. O que eu estava fazendo? Parecia uma adolescente durante uma crise existencial. Suspirei mais uma vez sentindo a velha tristeza e apatia tomar conta de mim mais uma vez. Ficar triste e sentir sua falta eram as duas únicas coisas que eu podia fazer naquele momento e nenhuma das duas o fariam ficar.
Me sentei sobre o pára-peito com cuidado para que meu corpo não ficasse inteiramente para fora e fosse visto pelas pessoas lá embaixo e fiz uma nota mental para me desculpar com Alec. Sim, ele era irritante as vezes, mas era meu irmão e não tinha culpa do meu ataque de nervos. Ninguém tinha, a não ser eu mesma, nem mesmo Andreas. Na verdade, ele era o último a quem eu deveria culpar.
Tomei a decisão de agir normalmente frente a ele, aos outros, aos líderes e as paredes e pinturas é claro, elas eram as mais importantes. Não deixaria transparecer o quanto aquilo havia me atingido, continuaria apática como sempre fui, afinal de contas, passei dois anos desse modo enquanto esperava por ele, conseguiria me manter assim por toda a eternidade. E deveria tomar cuidado para que Aro não me tocasse, pelo menos não por enquanto, não enquanto estava tudo muito fresco dentro de mim, se em algum momento há algumas décadas daqui ele viesse a descobrir meus pensamentos tudo bem, mas agora poderia ser mal compreendida, ainda mais sobre os pensamentos sobre Marcus. Meu estomago se retraiu com a imagem de Marcus descobrindo o que eu havia pensado sobre ele e sobre a perda de sua companheira. Eu seria morta em um piscar de olhos, tenho certeza, e nem Aro conseguiria impedir.
Estava decidido, assim como a partida de Andreas. Eu seria indiferente, pelo menos por fora, mas se possível evitaria sua companhia. Só precisava de mais algum tempo no alto da torre para treinar minhas respostas e minhas ações, para que ninguém desconfiasse nem mesmo por um instante do que estava sentido e o que ela notícia havia feito comigo de verdade. E quanto ao mau-humor matutino poderia sempre atribuir a fome à isso. Como Alec disse, o próprio Felix ficava simplesmente insuportável quando precisava se alimentar e todos nós estávamos com uma fome gigantesca. Heidi deveria chegar logo com o alimento ou começaríamos a comer uns aos outros se isso fosse possível.
Não sei quanto tempo se passou enquanto eu fiquei sentada no para-peito da janela observando distraidamente as pessoas seguindo sua vida lá embaixo. Tive de rir de meu desespero alguns segundos antes quando as invejei. Como poderia invejar seres tão inferiores? Seres que logo seriam nosso alimento. Eu devia estar realmente fora de mim, mas agora estava na hora de voltar. Eu precisava voltar a ser Jane Volturi, membro do círculo íntimo da Ordem. Me levantei, fechei os olhos e respirei fundo apenas pelo hábito de faze-lo e quando os abri novamente eu já podia sentir a máscara de indiferença bem encaixada sobre meu rosto. Eu estava pronta.
Fiz meu caminho de volta até a sala onde normalmente nos alimentávamos. Reconquistei meu ritmo monótono de andar e percebi que as paredes e as pinturas não notavam nada de diferente em mim. Era um bom sinal. Quem sabe os outros também não notassem.
Cheguei na sala e empurrei a porta facilmente com uma das mãos. A maioria já estava lá dentro esperando a chegada de Heidi. Meus olhos procuraram Alec instintivamente e assim que o encontrei lhe lancei um sorriso sem graça. Ele me retribuiu o sorriso e eu sabia que estávamos bem. Coisa de irmão.
Em seguida meus olhos mecanicamente pousaram em Aro. Eu sabia que Andreas estava lá, mas evitei fita-lo, ele me conhecia demasiadamente bem e saberia reconhecer na hora se havia algo errado comigo. Caminhei até os líderes e parei a uma boa distancia para que pudesse me preparar caso Aro resolvesse me tocar de alguma maneira.
- Meus senhores. – Eu fiz uma reverencia.
- Olá, Jane. – Aro sorriu como sempre fazia ao me ver. – Heidi deve estar chegando a qualquer momento. Está com fome?
- Faminta, meu senhor. – Eu confirmei me colocando ao lado de Demetri. Era uma boa posição. Aro estava em minha linha de visão, assim eu podia observar atentamente seus movimentos e Andreas estava totalmente fora dela, para que ele não pudesse observar os meus. Mas a cada minuto que passava mais difícil era evitar seu olhar e eu desejei com todas as minhas forças que Heidi chegasse logo com os humanos e aquilo acabasse de uma vez.
Como todas as coisas pelas quais eu pedi ou desejei em minha vida, não fui atendida com rapidez. Ficamos esperando ainda alguns bons trinta ou quarenta minutos que pareceram uma eternidade para mim, o que era um pouco ridículo se eu fosse considerar que era imortal. Mas a questão não era imortalidade ou não, esse problema era do garoto Cullen. A questão era continuar dentro daquela sala com Andreas ou não e eu já estava começando a sentir sua presença pesando sobre meus pulmões. Talvez eu devesse sumir por uns tempos, até que ele estivesse longe, se abrisse o jogo com Aro com certeza ele me daria permissão para deixar o castelo. Era uma idéia a se considerar.
Finalmente começamos a ouvir passos se aproximando e todos dentro da sala se agitaram. Eu estava decidida, o humano que eu escolhesse iria sofrer naquele dia. Toda a raiva que eu havia sentido pela manhã, toda a indignação e amargura, agora seriam descarregados sobre sua pele frágil e eu não seria rápida. As portas se abriram e um grupo de trinta ou quarenta pessoas entraram acanhadas e desconfiadas. Cordeiros caminhando diretamente para a toca dos leões. Meus olhos passearam de um rosto aflito para o outro e então eu encontrei minha vítima. Uma garota. Devia estar em seus dezesseis ou dezessete anos, cabelos loiros como os meus e olhos verdes. Ela caminhava segurando a mão de um pequeno garoto e tentava em vão fazer uma ligação do pequeno celular. Pobre garota. Estava no lugar errado e na hora errada e agora pagaria o preço com sua vida e com cada gota de sangue que corria por suas veias.
A porta se fechou com um estalo alto e eles eram nossos. Eu saltei por cima da confusão que começava a se armar na minha frente diretamente para a garota antes que alguém pudesse alcança-la e a empurrei contra uma das paredes. Ela puxava o menino para si tentando protege-lo enquanto seus olhos corriam horrorizados pela carnificina que estava ocorrendo atrás de mim. Eu conseguia ouvir os gritos, os rosnados, consegui até vislumbrar a figura de meu irmão atracada contra o pescoço de um homem com o dobro de seu tamanho, mas eu não tinha pressa. Hoje aquilo seria mais do que alimentação, hoje aquilo seria terapia. Caminhei tranqüilamente na direção da garota que balançava a cabeça freneticamente.
- Não! Não, por favor! Por Deus, não!
- Vai ficar com os dois, Jane? – Ouvi Demetri atrás de mim. Uma fina gota de sangue já escorria pelo seu queixo alvo.
- A garota é minha. – Eu adverti. Demetri pareceu satisfeito em ficar com o menino. Ele o segurou pelo pescoço e o ergueu vários centímetros do chão conseguindo separar os dois sem esforço algum. A garota ainda tentou recuperar posse do irmão, mas eu a empurrei de volta na parede e coloquei minhas próprias mãos em seu pescoço. Ela me olhou suplicante e aterrorizada.
- O que você vai fazer?! – Ela perguntou fechando os dedos em volta dos meus punhos. Sua pele era quente e as palmas das mãos estavam levemente umedecias. Medo. – O que são vocês?!
Um rosnado começou a se formar baixo em meu peito. Eu estava decidida a tornar aquele momento o mais aterrorizante possível para aquela garota, é claro que a carnificina atrás de mim cooperava muito, mas ainda não era suficiente para aplacar minha raiva sem alvo. Me diverti com a garota antes de realmente me saciar. Fiz com que tivesse algumas das visões mais torturantes de sua vida, mas não exagerei, não queria ela, no final, suplicasse pela morte. Essa era a melhor parte.
Sua carne e pele frágeis quase se desfizeram diante da violência de minha investida e seu sangue era doce e morno enquanto descia pela minha garganta. Não era o melhor que já havia experimentado, mas tinha um sabor especial. Talvez pela situação em que eu estava. Mas só seu sangue não era suficiente para mim. Deixei que ela soubesse como era ter o corpo sendo dominado pelo veneno aos poucos, deixei que sentisse uma parte da dor que eu sentia naquele momento. E então voltei a sugar-lhe o pescoço matando-a aos poucos, fincando minhas unhas em sua carne macia para que o torpor pela falta de sangue não lhe camuflasse a tortura que eu queria que aquele momento fosse.
Quando finalmente terminei meu trabalho com a garota, muitos dos outros já havia se saciado e se preparavam para partir. Eu me ergui um tanto ofegante enquanto algumas gotas do sangue quente escorriam pela minha pele. Toda a minha figura naquele momento deve estar um tanto assustadora. Os cantos dos lábios enrubescidos, as mechas dos cabelos soltas do elegante coque e os olhos, o mais importante, vermelhos como dois rubis. Levei o punho do manto até a boca enxugando as gotas de sangue e soltei os cabelos, talvez aquilo devolvesse a austeridade de minha aparência, certamente as mechas desgrenhadas não estavam ajudando em nada. Larguei o corpo inerte da garota no chão com um baque surdo, ela havia servido a seu propósito, e me preparei para partir junto com os outros quando encontrei os olhos de Andreas me observando curiosamente. É claro que não o fitei demoradamente, mas não podia evita-lo por completo, isso daria motivos para que ele viesse falar comigo. Apenas desviei meus olhos como se ele fosse parte da decoração macabra do lugar, o que de fato ele era, e segui meu caminho pelos corredores.
O dia ainda estava um tanto nublado então fiz meu caminho para o ar livre novamente para aproveitar o final de minha satisfatória refeição. Meu humor estava sem dúvidas melhor, isso eu poderia afirmar aos quatro ventos, acho que a sede realmente pode alterar nosso estado de espírito, talvez devesse até ser mais paciente com Felix. Talvez...
Eu estava próxima dos grandes arbustos que dariam acesso à floresta, alguns quilômetros a frente, quando avistei as duas figuras novamente. Os cabelos pretos e lisos que eu conhecia são bem e os olhos dourados que agora já me eram familiares. Edward e Aro. Eu sabia sobre o que era aquela conversa e por isso não me aproximei mais, apenas me espantei por Aro ter sido tão rápido em terminar sua refeição e correr para tentar persuadir esse garoto mais uma vez. Os líderes deviam ver um potencial monstruoso nele. Senti uma pontada de inveja, mas refiz meu caminho para longe dos arbustos e talvez para dentro do castelo novamente se aquela voz cruel e doce não tivesse me interrompido.
- Estava com fome? – Percebi Andreas parado ao meu lado com as mãos juntas nas costas, como sempre fazia quando caminhávamos. Eu fiquei um pouco aturdida por um momento. Da onde ele saíra? Nem ao menos havia sentido sua presença próxima.
- Um pouco. – Respondi simplesmente, tomando cuidado para que meu tom e minhas palavras não me traíssem.
- Um pouco? Eu nunca vi você atacar daquele jeito.
- Eu estava entretida.
- Você estava descontrolada. Parecia um bicho.
- Da próxima vez vou usar um garfo e uma faca para não te incomodar. – Sarcasmo era algo muito comum entre nós então era seguro utiliza-lo e apenas mais alguns passos eu estaria dentro do castelo livre para me trancar em meu quarto e esperar que ele fosse embora.
- Seria difícil. – Ele respondeu pensativo. – Mas um canudinho, quem sabe... – Eu senti o humor em suas palavras, mas não compartilhei dele. Afinal de contas, não era tudo o que Andreas dizia que fazia graça para mim, na verdade, essa porcentagem era bem pequena.
- Vou ver o que posso fazer, meu senhor. – Eu respondi mais uma vez sarcástica e me preparei para dar o ultimo passo e sumir nas profundezas do castelo, com alguma sorte ele não me seguiria e eu estaria segura. Mas para meu desespero Andreas não me deixaria ir. Ele estendeu a mão para a elegante maçaneta me impedindo de abri-la. Ergui meus olhos até os dele, estavam vermelhos como os meus e possuíam um pedido estampado em suas linhas. – Posso entrar ou devo fazer isso como uma dama também? – Ele riu.
- Podemos caminhar mais um pouco?
- Não. Não podemos.
- Tem compromisso?
- Sim. – Preciso fugir de você.
Ele abriu um sorriso enviesado e debochado. – Já fizemos isso quando voltei, Jane. Eu sei que você não tem nada para fazer.
- Então por que se deu ao trabalho de perguntar?
- Queria ver o que você ia responder.
- Bem, você já viu. Agora, me deixe passar.
Ele deu um passo a frente logo que eu tentei passar pela porta novamente. Ficamos próximos daquele jeito, mais próximos do que eu gostaria e até mais do que eu conseguiria suportar. – Por favor, Jane. Prometo que não vou tomar muito o seu tempo.
- Você já está tomando, Andreas. – Respondi impaciente. Meu coração não agüentaria muito mais daquilo. Eu já estava quase me desfazendo.
- Se você tivesse aceitado da primeira vez talvez a essa altura já estivesse livre de mim. Isso não seria um sonho?
- Você nem tem idéia. – Eu suspirei cansada. Ele riu mais uma vez, sempre achava graça das minhas tentativas de rebaixa-lo.
- São só alguns minutos, Jane. Eu prometo. – Eu não respondi. Ainda estava calculando o tamanho dos danos que aquilo causaria em mim. Todo e qualquer minuto com Andreas era absolutamente intoxicante para mim e eu havia decido naquela manha que iria remove-lo de meu sistema. Eu precisava ou então não sobreviveria a sua partida. – Eu não vou desistir. – Ele completou sabendo que o meu silencio não era um bom sinal. Eu suspirei mais uma vez e dei um passo para trás deixando que ele me apontasse o caminho para o qual seguiríamos.
Caminhamos em silencio por alguns minutos. Passamos pelos pinheiros e pelo piso de cascalho que rodeava o grande gramado aveludado. Eu não abri a boca e nem cobrei o motivo daquela caminhada. Ele havia me convidado, ele havia me forçado então ele que começasse e que fosse rápido porque eu estava odiando aquilo.
- Está sabendo algo sobre o garoto Cullen? – Ele começou. Eu pisquei algumas vezes. Estávamos caminhando para que ele soubesse as últimas fofocas? Ora, ele podia fazer isso com outra pessoa. Certamente Alec adoraria contar já que não conseguia manter a boca fechada.
- Além do que já foi dito?
- Sim, além disso.
Eu suspirei mais uma vez. – Não, não sei de nada. Ele quer que o matemos. Aro, Marcus e Caius vêem grande potencial nele e querem que ele se junte a nós. Ele não quer. É só isso que sei.
- Ele disse seus motivos?
- Não para nós. Mas o vi conversando com Aro agora, não sei dizer quão próximos eles estão.
- Fiquei curioso. Você não?
- Não faz diferença. Faremos o que mandarem.
- Claro. Claro que sim. – Ele disse em um tom monótono que normalmente pertencia a mim. Estranhei aquilo e me virei para olha-lo. Andreas agora caminhava com as mãos nos bolsos da calça social preta e encarava o cascalho sob nossos pés. Não parecia estar lá de fato, parecia perdido em seus próprios pensamentos, em suas próprias conjecturas. Eu o observei por mais um momento estudando as linhas de seu rosto. Rosto esse que eu logo nunca mais veria. Os cabelos alguns tons mais escuros que a palha e ligeiramente bagunçados, as linhas de sua boca, o modo como seu lábio inferior era ligeiramente mais grosso do que o superior, o efeito hipnótico que essa mistura tinha quando ele sorria, o nariz delicado e reto. Era um garoto. Me perguntei quantos anos Andreas tinha quando Marcus o transformou. Quando sorria eu podia jurar que não mais do que vinte, mas quando estava pensativo como agora poderia apostar em um pouco mais.
Direcionei à força meus olhos para o chão para me libertar da tortura que era estuda-lo daquela maneira. Seria certamente mais saudável para mim estudar o formato irregular do cascalho a nossa frente e enquanto me concentrava no caminho esbranquiçado a nossa frente senti que ele havia parado de caminhar e agora havia erguido os olhos para mim. Eu parei também e sustentei seu olhar avermelhado e profundo.
- Jane, eu vou partir. – Ele anunciou sem nenhuma pausa dramática. Como se eu já não soubesse daquilo. O que ele queria agora? Uma despedida fervorosa nos jardins a luz do dia? Estava maluco com certeza.
- Sim, eu sei. Eu estava lá. – Eu lembrei sem exibir nenhum tipo de emoção. – Meus parabéns a propósito, não tivemos a chance de conversar desde aquele dia. Seus esforços foram recompensados.
- Obrigado. – Ele abaixou os olhos enquanto um sorriso ensaiou em seus lábios, mas nunca chegou a alcança-los. Eu o estudei mais uma vez enquanto ele remexia o cascalho com um dos pés e eu naquele momento eu pude apostar que havia sido transformado com doze anos de tão infantil que me parecia. – É só isso que tem para me dizer? – E então ergueu os olhos inseguros até os meus.
Aquilo me pegou de surpresa, devo admitir. Mas eu não iria dizer nenhuma das coisas que pensei na noite passada, ou contar-lhe como fiquei arrasada por saber daquilo. Aquilo não deveria nunca sair da minha cabeça para minha boca. Era um segredo e eu não iria contar apenas porque ele queria discutir nosso relacionamento. Se é que tínhamos um...
- Boa sorte? – Tentei, ainda disposta a parecer indiferente a situação.
- Você sabe que não vamos mais nos ver, não é? – Eu lutei para manter meu equilíbrio e minha máscara de apatia.
- Sim. – Me limitei a respostas curtas por medo de que meu tom me entregasse.
Agora era a vez de Andreas me estudar. Ele me observou cautelosamente, os olhos se estreitando em minha direção tentando descobrir o que eu estava tentando esconder. Lutei contra aquilo, fiz o que pude para continuar tranqüila e no controle de meus sentimentos. Estava sendo extremamente difícil. Eu precisava desviar sua atenção e rápido senão ele iria me desmascarar bem ali. – Você não tem com o que se preocupar. É um bom soldado e se os líderes lhe deram essa missão foi porque acharam que você poderia cumpri-la. – Ele sorriu mais uma vez abaixando o rosto e sacudindo a cabeça lentamente. E antes mesmo que eu pudesse continuar meu discurso de fachada ele ergueu os olhos até os meus e disse de uma vez como se quisesse me passar sua certeza.
- Eu quero você comigo, Jane. – Eu congelei com as palavras a meio caminho de minha boca e um longo silencio se passou antes que Andreas encolhesse os ombros e recomeçasse a falar. – Não quero ir para França e ter que te deixar outra vez. Eu acho que não agüentaria. Durante dois anos eu sonhei com você e isso é muita coisa para uma criatura que não dorme nunca. Quando estamos juntos é o único momento que me sinto feliz de verdade e eu trocaria toda a eternidade por isso.
Eu mordisquei meu lábio inferior e suspirei longamente. – Andreas... – comecei enquanto sacudia a cabeça lentamente como ele havia feito segundos antes. - ...foi uma ordem direta. Você não pode nega-la, isso poderia te colocar me perigo, poderia fazer com quer perdessem a confiança em você. Nós não podemos... – E mais uma vez ele disse rapidamente, dessa vez sem deixar que eu terminasse minha frase.
- Quero que você venha comigo. – Eu o encarei visivelmente espantada com o que ele tinha dito. – Nós podemos começar o clã juntos. Dois é melhor do que um e eu tenho certeza que os líderes não se oporiam. Aro nos entende e Marcus vê o que temos. Caius não será problema. – Ele deu um passo em minha direção e senti seus dedos tocarem em minha mão e se entrelaçarem com os meus. – Eu amo você, Jane.
Eu fechei os olhos controlando a correria de emoções dentro de mim. – Eu sei... – Sussurrei.
- Então venha comigo. Não pode ser ruim. A França é um ótimo lugar e vamos estar servindo a Ordem. Apenas....fique comigo, Jane. Não me faça deixa-la para trás. – Meus olhos se abriram e eu encarei nossas mãos unidas, a minha tão minúscula e delicada perto da dele, seu toque frio sobre o meu. Estávamos tão próximos que quando sacudi a cabeça afirmativamente pude sentir o topo de sua testa roçando na minha. – Sim? – Ele perguntou querendo se certificar sobre minha resposta.
- Sim. - Eu poderia teria dito que aquilo era tudo o que eu mais queria em todo mundo, o quanto havia sofrido nos dias e noites que se seguiram após o anúncio de sua nova missão, o modo como seus olhos e suas palavras haviam me tirado o equilíbrio e o fôlego e o quanto eu também o amava, mas quando finalmente ergui os olhos até os dele, vi seu sorriso. Aquele sorriso que o deixava anos mais novo e que eu adorava e eu soube que não precisava dizer mais nada. Retribui seu sorriso com um próprio e um tanto acanhado e nada mais precisava ser dito.
