Capítulo 4

Belle foi dormir bastante triste naquela noite. Estava confusa e magoada, pois não conseguia compreender o que estava acontecendo. Colocou seu pijama – dessa vez, seu próprio pijama, pois Rumplestiltskin já havia lhe comprado uma enorme quantidade de vestes – e deitou-se nos lençóis macios que, embora muito confortáveis e aconchegantes, não tiveram a capacidade de embala-la em um sono leve e gostoso. A princesa realmente não sabia o que causara tamanha frieza em seu amado, e foi com um arrepio na espinha que ela lembrou-se de seu olhar duro e suas escassas palavras distantes, que apenas lhe comunicaram ter tido um dia difícil e que já iria se deitar. O creme de batatas e as velas coloridas sentiram-se tão desamparados quanto Belle com aquele tratamento, tão atípico dele. Olhando para a janela que se banhava com a luz da lua, Belle pensou que, por sorte, na manhã seguinte as coisas já estariam melhores. Era fato que Mr. Gold era uma figura altamente requisitada em Storybrooke, tanto quanto Rumplestiltskin fora em Fairy Tale Land, e ela nem queria pensar nas coisas terríveis que o incumbiam de fazer durante esses tempos conturbados pós quebra de maldição. Suspirou fundo e procurou esvaziar a mente, porém demorou a dormir e, quando finalmente fechou os olhos, foi assolada por sonhos inquietos e obscuros, resultado da preocupação que carregara para a cama na hora de deitar.

Na manhã seguinte, entretanto, Belle percebeu que seu otimismo não tivera efeito sobre o humor de Rumple, e, quando desceu as escadas, encontrou-o já quase de saída.

_ Bom dia. – disse ela, sorrindo-lhe. Logo, porém, percebeu os rápidos movimentos dele para pegar o paletó e a bengala e ir até a porta – Aonde você está indo ?

Mr. Gold parou por um segundo, virou-se para ela e deu-lhe um sorriso discreto, mas que era, estranhamente, cheio de tristeza ao invés de alegria.

_ Bom dia, Belle. – novamente, chamava-a pelo nome. – Me espere aqui, hoje tenho assuntos urgentes a resolver. Não poderei tomar o café com você, então se sinta a vontade para pegar o que quiser. Se precisar de alguma coisa, me ligue e eu virei assim que puder.

A garota ficou quase sem reação diante daquele tratamento, sentia-se como uma estranha hospedada na casa de um desconhecido, e não compreendia o porquê de Rumple trata-la de forma tão distante. Foi somente quando ele já se encontrava com metade do corpo para fora da casa salmão que ela andou até ele e perguntou-lhe:

_ Rumple... está tudo bem ? – e pegou em sua mão, mantendo o contato visual, procurando enxergar a expressão de seus olhos. Belle podia ler através deles quando estava ou não estava tudo bem, e havia um tormento intenso que lhe dominava a íris escura.

Belle recebeu, novamente, o sorriso repleto de amargura, e, em seguida, uma breve resposta, antes dele se soltar dela e descer rapidamente as escadas:

_ Sim, está tudo bem. Não se preocupe.

Observou-o se afastar enquanto cruzava os braços e recostava-se no batente da porta, perguntando-se desesperadamente o que poderia ter acontecido na noite anterior que o havia afetado tanto... Ela claramente reconhecia que algo perturbava o espírito dele, mas não conseguia, sinceramente, saber se ele estava aborrecido com ela ou se era algo exterior que o atormentava.

Voltou para dentro de casa e trancou a porta, lembrando-se de repente que, assim como na noite anterior, não tivera a chance de contar a Rumplestiltskin sobre o novo amigo que fizera. Além disso, ela achava que seria apropriado informar ao dono da casa salmão que houvera ali uma visita, pois ele merecia satisfações sobre o que acontecia em sua própria residência durante a sua ausência. Decidiu que contaria ao feiticeiro assim que ele retornasse, e, assim, procurou não ocupar mais a mente com tais pensamentos, pois tinha esperanças de que seu amado estava sofrendo algum terrível estresse que, muito provavelmente, era proveniente dos inúmeros serviços que andava fazendo para a família Charming desde a quebra da maldição, e que talvez ele estivesse mais receptivo ao final do dia. Ela não sabia, porém, que, dessa vez, a família real nada tinha de influência sobre o humor alterado de Mr. Gold, que muito velozmente se dirigia à estrada que dava para o limiar da cidade.

Mr. Gold controlava firme o volante, resoluto em seu caminho. O semblante sério e muito carrancudo refletia os pensamentos que o perturbavam, mas não deixaria que eles o dominassem. Ah, não... ele nunca fora homem de se deixar levar por imaginações e, por tal razão, sempre fazia questão de esclarecer as coisas em sua mente. Para isso, precisava, portanto, ir de encontro àquele que lhe despertara tamanha desconfiança na noite anterior, pois, embora um dia tivessem sido amigos – de certa forma –, haviam acontecido coisas no passado que poderiam ter despertado no outro algum tipo de sentimento amargo e pútrido em seu coração. Só saberia ao certo se fosse vê-lo e colocasse todas as cartas na mesa.

Estacionou o carro em frente a uma enorme mansão, provavelmente maior até mesmo que a sua, e desceu do automóvel, dirigindo-se à porta da frente. Quando esticou o braço para apertar a campainha, porém, as portas de madeira se abriram e do outro lado do batente Mr. Gold encontrou o rosto sorridente – e um tanto quanto cínico, ele pôde perceber – do Mad Hatter, que lhe fez uma breve reverência falsamente cortês e o convidou a entrar dizendo:

_Mr. Gold ! Eu esperava por sua visita essa manhã !

Tais palavras apenas despertaram ainda mais a desconfiança que o feiticeiro sentia, e, pressentindo estar caminhando para dentro da toca do lobo, passou pelo umbral e deixou a porta fechar atrás de si.

Logo estavam sentados na sala de visitas. Jefferson ofereceu um drink, um chá, uma água, porém Mr. Gold recusou-os todos, rígido no sofá e sem tirar os olhos do anfitrião, que agora bebericava alguma bebida em um copo de cristal. O silêncio pairava no ar entre os dois, trazendo tanta tensão ao ambiente que quase poderia ser tocável. Os minutos pareciam não passar na casa do chapeleiro, quase como se o tempo corresse como em Wonderland, Mr. Gold recordava-se bem. E foi pensando naquela naçãozinha desprezível e irritante que lhe veio uma teoria em mente, e, levando o corpo para frente no sofá, apoiou-se na bengala enquanto perguntava:

_ O que quer de mim, Jefferson ?

O Mad Hatter ergueu as sobrancelhas, fingindo surpresa tão bem quanto uma criança de 6 anos na peça infantil da escola.

_ O que o faz pensar que quero algo de você, Rumplestiltskin ? Quero dizer, você É o Dark One, poderia me dar muitas coisas que desejo, mas o que o faz pensar que quero algo nesse momento ?

_ Não se faça de idiota, sabe que não gosto desses jogos de palavras que tão rapidamente aprendeu em Wonderland. Aqui não precisamos falar em códigos para sermos compreendidos ou para evitarmos que sejamos decapitados. Sei muito bem que quer algo de mim. Do contrário, não teria ido até minha casa ontem de noite.

_ Fui apenas visitar sua garota, Rumple ! Não precisa ficar com ciúmes. Aliás, aquela casa salmão é adorável por dentro.

_ Eu já disse para não se fazer de idiota, Jefferson. Eu não estou com paciência para suas brincadeiras. Você sabia exatamente que eu não estaria em casa naquele momento, fui atender a um chamado da xerife e você estava ao lado dela quando cheguei na delegacia. Visitar minha casa sem a minha presença, sabendo que Belle teria a inocência de deixa-lo entrar, foi certamente premeditado. Eu te conheço o bastante para saber que gosta de tramar.

Jefferson sorriu-lhe novamente, parecendo, na verdade, muito satisfeito com o incômodo que causava ao Dark One. Colocou sua bebida na mesa de centro que os separava e levantou-se, caminhando pela sala.

_ Bom... não posso dizer que não tenha, de fato, tramado nada. Sabe, Rumplestiltskin, acredito que seja de seu conhecimento que eu tenha sido o responsável pela libertação de sua querida Belle daquele manicômio horrível em que se encontrava. Aliás, é muito engraçado de se pensar que eu, conhecido como Mad Hatter, tenha sido colocado em uma linda mansão pela Rainha, enquanto sua pobre e inofensiva Belle tenha sido jogada em uma casa de loucos. – Jefferson falava em ritmo lento, quase como se medisse as palavras. Queria avaliar as mudanças sutis de expressão que aconteciam na face de Rumplestiltskin, que se mostrava verdadeiramente incomodado com o último comentário – De qualquer forma, eu, como sendo o salvador da garota, acreditei poder ter despertado nela um sentimento natural de segurança e afeto, pois fui o único a lhe dar apoio após 28 anos em cativeiro. Resolvi verificar essa teoria indo visita-la na noite anterior, e, para minha felicidade, eu estava certo. Belle gosta muito de mim e demonstra um claro conforto em minha presença. Poderia eu dizer, dessa forma, que estou relativamente em bastante segurança, porque me arrisco a supor que você dificilmente mataria alguém de quem ela goste.

Mr. Gold franziu ainda mais o cenho, pois, apesar de muito superficial, o argumento de Jefferson fazia sentido. Ele, de fato, dificilmente faria realmente mal a alguém por quem Belle nutrisse algum tipo de afeto; tanto isso era verdade que ele sequer havia matado Regina, apenas devido aos pedidos insistentes da princesa de que poupasse a Rainha, o que demonstrava que, se Belle não era capaz de desejar o mal até mesmo por alguém tão cruel quanto sua antiga aprendiza, seria óbvia a suposição de que ela não desejaria também o mal a alguém que a tenha salvado, como o chapeleiro. Diante do silêncio do Dark One, o Mad Hatter sentiu-se no dever de continuar em sua explanação.

_ É bastante óbvio, é claro, que eu não estive lá apenas para fazer florescer essa amizade manipulativa e cheia de segundas intenções. A verdade é que eu fui para sua casa apenas para te importunar. – e fez uma pausa, que se seguiu de um largo sorriso de deboche – Eu realmente estaria mentindo se dissesse que não estava interessado em conhecer aquela elegante casa salmão por dentro, porque eu estava, e, à propósito, a mobília é encantadora. Entretanto, não podemos esquecer, é claro, que eu sei que o Dark One jamais deixaria sua linda casa salmão desprotegida durante tempos tão difíceis como os de hoje, principalmente se ele puder usar a magia para protege-la e, como é de se esperar, principalmente se ali dentro houver abrigada uma princesa tão doce quanto Belle.

Um calor de ódio subiu no rosto de Mr. Gold, embora ele tenha conseguido escondê-lo de forma eficiente – ao menos fisicamente falando, pois, ainda que não houvesse sinais de irritação no visitante, o Mad Hatter sabia bem que o estava provocando. O feiticeiro respirou fundo, impaciente. Estava irritado com Jefferson, não restavam dúvidas, mas parecia que sentia algo além dessa irritação. Satisfeito com o resultado de sua chateação, o chapeleiro retomou.

_ Eu tinha plena consciência, portanto, que, no momento em que eu pisasse no primeiro degrau da varanda de entrada, você saberia que eu estava ali, e essa foi a maneira que encontrei de, ao mesmo tempo, conquistar a amizade de Belle sem a sua presença interferindo em meu sucesso, e também lhe mandar um recado, de que viesse me visitar essa manhã. Aliás, agradeço por ter vindo, sua companhia é radiante !

Mr. Gold não pôde mais se conter, já não suportando as troças que Jefferson fazia tão cinicamente, e, de um salto – e com energia que o chapeleiro não previra que ele pudesse ter devido à sua fraqueza na perna – levantou-se e jogou o anfitrião contra a parede, pressionando com a bengala seu pescoço marcado pela cicatriz da decapitação. O feiticeiro aproximou-se raivoso do rosto perplexo do outro, e sussurrou-lhe com bastante calma, o que contrastava com todo o resto da situação:

_ Jefferson, eu pensei já ter lhe dito que não gosto desses jogos de palavras que herdou de Wonderland. Se não quiser que eu o espanque até desmaiar nesse mesmo momento, sugiro que vá direto ao assunto. Ao contrário do que pensa, você não está tão seguro assim agora que ficou amiguinho de Belle. Eu me preocupo em não matar as pessoas de quem ela gosta, mas isso nunca me impediu de causar-lhes alguma dor.

E afastou-se tão rápido quanto se aproximara. Houve uma troca de olhares intensa entre eles, e o silêncio novamente pairou no ar, rígido, quase como uma parede sólida. Jefferson fechou o semblante, e num segundo já não parecia mais com o louco chapeleiro que se tornara no país da Rainha de Copas. Sentaram-se, aguardaram um momento e continuaram.

_ Quero que me diga agora, exatamente, o porquê de estarmos tendo essa conversa.

Houve um momento antes da resposta, pois o Mad Hatter passava a mão pelo pescoço dolorido enquanto pensava nas palavras mais diretas que poderia usar.

_ Você me deve um favor, e eu quero cobrá-lo.

Mr. Gold riu ao ouvir isso. Abriu um sorriso quase totalmente sincero, achando real graça na declaração do outro.

_ Sim, você me deve ! Não ria como se eu estivesse mentindo.

_ Sinto muito, Jefferson, mas não há um favor que eu não tenha ciência de estar devendo, e eu não lhe devo nenhum.

_ Talvez pense isso por não ter analisado a situação sob o mesmo ângulo que eu. Me responda: você está feliz com o retorno de Belle ?

Mr. Gold estranhou a pergunta, que, de tão obtusa, rapidamente lhe tirou o sorriso do rosto.

_ Sim, é claro. – respondeu secamente, pois não gostava que Jefferson falasse de Belle.

_ Você agradece todos os dias por ter descoberto o que aconteceu a ela e por ter tido a chance de tentar uma nova vida com seu verdadeiro amor ? – não houve respostas, e Jefferson encarou muito sério o semblante preocupado de Mr. Gold, que parecia estar começando a entender onde o chapeleiro queria chegar – Pois então, diante desses fatos, tenho plena certeza em afirmar que te fiz um favor, Dark One, por ter sido eu o responsável por trazer toda essa sua felicidade. E, se eu te fiz um favor, sinto lembrar-lhe que você está em dívida comigo.

_ Uma troca de favores sem o consentimento do outro e sem o selo de um acordo não é válida.

_ Sei tão bem quanto você que está dizendo isso apenas da boca para fora. Eu estou certo, e você não pode deixar de me retribuir esse favor. Ao libertar sua garota do asilo eu já intencionava criar uma dívida entre nós.

Silêncio. Olhos se entrecortando, respirações fundas, pensamentos cheios de faíscas.

_ E o que, exatamente, você poderia exigir de mim, chapeleiro ?

Jefferson, de repente, voltou a estampar o sorriso descarado no rosto, os olhos brilhando lunáticos ao ver-se vencedor no argumento. Levou o torso pra frente, juntando as mãos em frente ao corpo.

_ Eu quero sua ajuda para me vingar da pessoa que matou minha adorada Alice, tirou a mãe de Paige e ainda me trancou naquele país de loucos que é Wonderland.

Mr. Gold não pôde, naquele momento, impedir que desabrochasse em seus lábios um sorriso discreto e sutil, porém mais verdadeiro que qualquer outro que tivesse dado naquela manhã. E com um sussurrar de palavras, que mais pareciam dirigidas a si mesmo que para Jefferson, ele enunciou o nome:

_ Regina...