Capítulo 3
Em Hong Kong, enquanto o barulho da festa de comemoração aos cinquenta anos de idade da infame Yelan Li, Sakura e Kerberus arrumavam as malas apressadamente. A menina de olhos verdes e pele bronzeada mantinha uma expressão sombria em seu lindo rosto. Seu coração estava tão apertado depois da ligação de Touya.
Sakura sentia-se tão culpada, ela sabia que algo estava errado, ela sentiu que algo ruim iria acontecer e não deu importância, agora Tomoyo estava sozinha e sofrendo sem sua melhor amiga para confortá-la. Com um suspiro aflito, a card captor fechou a grande mala cor de rosa e segurou o pingente em seu pescoço com força. Ela não esperaria longas horas para o vôo até o Japão, ela tinha que estar em Tomoeda agora.
-Estou pronto Sakura!
Anunciou Kero com um olhar concentrado, pousando em seu ombro, tão preocupado com a menina de cabelos escuros e olhos ametistas quanto a própria Sakura. Sua doce e gentil Tomoyo não merecia passar por esse momento sozinha.
-Temos que avisar ao Syaoran-kun!
Intervém a Kinomoto com determinação. Ela não queria interromper as festividades do clã, mas não deixaria Tomoyo sozinha por nada nesse mundo.
-Então vamos logo!
Apressava Kerberus impacientemente enquanto Sakura corria com a enorme mala em sua mão, à procura de seu namorado Syaoran.
Enquanto isso na Inglaterra, Kaho Mizuki encarava assustada a tela de seu notebook, depois de receber uma mensagem de um velho amigo de Tomoeda informando sobre o acidente aéreo que tirou a vida de Sonomi Daidouji, a ex-professora do primário buscou confirmar a notícia nos principais sites dos jornais japoneses e para seu espanto absoluto, era tudo real.
-Pobre Daidouji-san!
Murmurava Kaho ao imaginar a perda de Tomoyo, a menina gentil e tão dedicada à Sakura-chan que conhecera anos atrás. Mas, porque ela se preocupava tanto com essa menina? Não havia magia sobre ela, nada além de uma aura em tons suaves revelando a pureza de uma menininha de onze anos de idade fascinada por sua melhor amiga.
Algo incomodava Kaho Mizuki, ela não poderia discernir exatamente o que. Mas, a morte prematura de Sonomi Daidouji a deixou mais impactada do que desejaria admitir. Por que seria? Talvez, porque se tratasse de uma amiga querida pra Eriol? Eles trocavam cartas desde que partiram de Tomoeda... no entanto, Kaho não parecia convencida.
Mais uma vez, ela encarou as notícias diante de seus olhos, dessa vez, informando que Masaki Amamiya estaria cuidando dos negócios e da filha única de Sonomi Daidouji.
-Touya jamais confiou nele...
Lembrava Kaho apertando os lábios rubros com o pensamento. O que aguardava o futuro dessa garota a partir de agora?
-Mizuki-saaaaan! Eriol-sama está esperando na sala de jantar!
A voz estridente de Nakuru Akizuki despertou a atenção da ex-sacerdotisa que sentiu suas mãos congelarem como se expostas a uma nevasca, um arrepio percorreu sua nuca e um choque doloroso atravessou seu coração. Era um pressentimento, uma sensação sufocante que preenchia seu peito. Algo mudaria drasticamente! Ela sabia que algo grandioso aconteceria, mas o que poderia ser?
-Nakuru-san! Não descerei para jantar, diga à Eriol que estarei indo para o Japão imediatamente!
Anunciou a bela mulher de cabelos ruivos levantando-se e seguindo até o guarda-roupa com determinação. Já estava na hora de voltar! Ela precisava desvendar esse pressentimento o quanto antes.
De volta à pacata cidade de Tomoeda, Fijutaka terminava os preparativos do osoushiki (funeral tradicional japonês) quando foi surpreendido pela chegada turbulenta de sua filha mais nova Sakura, acompanhada pelo pequeno guardião mágico Kerberus e seu namorado Syaoran Li.
As criadas saíam correndo da sala acreditando que uma nuvem fantasmagórica tinha tomado o local, quando na realidade Sakura com a ajuda de seu namorado e mais alguns membros do clã Li, conseguira teletransportar-se de Hong Kong diretamente na mansão Daidouji sem pensar nas consequências. Por sorte, o patriarca Kinomoto não pareceu remotamente assustado e foi receber seus "convidados surpresa" com toda a atenção.
-Hoeee Otou-san onde está Tomoyo-chan?
Questionava a menina, mal soltando as bagagens que trouxera. Kero-chan voava atrás de Sakura enquanto Syaoran, mais timidamente, se aproximava, a preocupação e a exaustão mágica estampadas em seu rosto.
-Ela está no quarto! Logo descerá para começarmos o funeral!
Explica pesarosamente Fujitaka. Os olhos verdes de sua filha caçula encheram-se de lágrimas e ao seu lado Kero franzia a testa com preocupação genuína.
-Como ela está, senhor Kinomoto?
Pergunta formalmente Li, recebendo um aceno de reconhecimento do seu "sogro". Era óbvio que Sakura chegara em segurança graças à presença de Syaoran, que voluntariamente deixou as festividades de seu clã para acompanhar Sakura e oferecer seu apoio à herdeira Daidouji.
-Tomoyo é uma menina forte, mas ela precisa de seus amigos por perto!
Confessa Fujitaka indicando as escadas para que o trio encontrasse Tomoyo o quanto antes, quem sabe com Sakura por perto, a filha de Sonomi encontrasse um pouco de consolo.
-Vocês fazem muito barulho!
A voz inconfundível de Yue quase causou um ataque cardíaco coletivo ao trio assim que chegaram à porta de Tomoyo. Ele saiu das sombras e se colocou entre uma Sakura impressionada e a porta do quarto da herdeira Daidouji.
-Y-yue?
Questionava Sakura incrédula.
-Usar magia antiga para se transportar de longas distâncias é completamente imprudente! Percebem os riscos que correram? Ainda mais transportando as cartas com vocês?
Repreendia o guardião severamente, lançando um olhar desafiador sobre o trio.
-Blaahh Yue, saia do nosso caminho temos que falar com Tomoyo!
Protestava furiosamente Kerberus rosnando para o guardião da lua que estreitava os fascinantes olhos azuis em direção ao seu "rival".
-Touya me pediu para vigiar Daidouji-sama e não pretendo deixar que você a perturbe!
Anuncia irredutível Yue para choque do pequeno guardião.
-Ele não está aqui agora, nos deixe passar!
Exigia Syaoran impaciente.
-Não!
Respondeu inabalável Yue, cruzando os braços e encarando o trio sem hesitação.
-Não me obrigue a tomar minha verdadeira forma, saia da minha frente Yue!
Exigia Kero perdendo a paciência até que Sakura simplesmente empurra Kero do caminho e enfrenta Yue.
-Não há ameaças mágicas por aqui! Tomoyo esta segura agora!
Protestava Syaoran desconfiado da atitude do guardião da lua.
-Não se depender de você Xiao Lang!
Respondia secamente Yue deixando o jovem Li vermelho de raiva.
-Saia da frente!
Exigia Syaoran ao lado de Kerberus.
-Vamos logo Yue, precisamos ver a nossa amiga!
Esbravejava Kero voando alto o suficiente para encarar Yue nos olhos e pela primeira vez desde que chegara na mansão, o pequeno guardião do sol silenciou completamente. Era algo extraordinariamente assustador, ponderava Kerberus, ele poderia, mesmo que por um breve instante, perceber o que Yue estava sentindo agora. Algo grandioso estava por vir e por essa razão, o guardião lunar estava lá. Cuidando da jovem Daidouji até a chegada de Sakura.
-Onegai, não briguem agora! Onii-chan me pediu para vir, Tomoyo-chan precisa de mim agora Yue, confie em nós e nos deixe passar!
Pedia energicamente a card captor determinada a alcançar a melhor amiga para surpresa do guardião lunar que inclinou o rosto ligeiramente em obediência e abriu caminho para que a menina de olhos verdes passasse ao lado de Syaoran e de um muito enfezado Kerberus.
Assim que entrara no quarto, a primeira coisa que Sakura notara foi a escuridão e logo depois os soluços de sua melhor amiga que ainda encolhia-se sobre a cama, abraçando seu travesseiro fervorosamente.
-Tomoyo-chan!
Exclamava a card captor subindo na cama e abraçando sua prima protetoramente. Syaoran se aproximou timidamente, um tanto hesitante e sentou-se em um dos inúmeros puffs do quarto de Tomoyo, oferecendo a segurança de sua presença sempre alerta.
-Sakura-chan!
Murmurava a Daidouji sufocando suas lágrimas mais uma vez no abraço acolhedor da sua prima. Apesar de toda tristeza, a presença da flor de cerejeira trouxe um pouco de luz para o interior do quarto sombrio, observava Syaoran. Ele só esperava que depois de tudo, sua mãe o perdoasse por ter escapado das festividades do clã, Yelan era conhecida por seu temperamento explosivo e sanguinário e não existia um único Li capaz de enfrenta-la assim.
De sua posição de guarda, ainda na porta do quarto, Kero e Yue fitavam a cena silenciosamente.
-Eles ainda não perceberam nada!
Murmurava Kerberus cruzando os braços e estreitando os olhos em direção aos três adolescentes.
-Ainda é cedo!
Respondia secamente Yue sem desviar o olhar de Sakura e Tomoyo.
-É estranho isso, não faz sentido algum!
Observava Kero ansiosamente. Algo não natural estava acontecendo aqui, e talvez, Tomoyo não estivesse tão segura quanto imaginavam.
Não muito distante da mansão Daidouji, uma figura assistia a movimentação de repórteres e carros entrando e saindo da propriedade da família Amamiya-Daidouji. Com um suspiro cansado, a figura cruzou os braços e seguiu o caminho oposto à mansão. Era muito cedo para se aproximar da herdeira, principalmente agora que a casa se encontrava ocupada por mais criaturas mágicas do que se poderia esperar.
-Ainda é cedo Tomoyo-chan... muito cedo, mas as coisas estão seguindo um rumo novo a partir daqui!
Murmurava sombriamente a misteriosa pessoa antes de desaparecer no ar como um redemoinho de pétalas de sakura.
Mais tarde, as primeiras visitas começaram a chegar. Tomoyo com a ajuda de Sakura já se encontrava longe da escuridão de seu quarto, e usando um tradicional kimono preto, recebia seus amigos Chiraru, Yamazaki, Rika e Naoko, todos usando os uniformes colegiais enquanto os demais convidados usariam ternos e roupas pretas.
-Sentimos muito por sua perda Tomoyo-chan!
Anunciava corajosamente Rika-chan segurando as mãos da menina de olhos ametistas com ternura.
-Estamos todos do seu lado!
Garantia Naoko-chan colocando uma mão em seu ombro em um gesto de apoio.
-Hai, e pode contar comigo Tomoyo-chan! Trarei todas as lições para que não se prejudique na escola!
Prometia solenemente Yamazaki, pela primeira vez em muito tempo, não inventando suas admiráveis histórias sobre cada situação adversa.
-E não importa o momento, se precisar conversar pode me ligar que estarei aqui num piscar de olhos! Todos nós!
Completava Chiharu com determinação, ao lado de Tomoyo que com um suspiro trêmulo, segurou as lágrimas e agradeceu de todo coração o apoio de seus amigos de infância.
-Honto Arigatou minna! A presença de todos vocês significa muito para mim!
Respondia suavemente a filha de Sonomi, enquanto Syaoran e Sakura observavam seus amigos de longe. Não demorou muito e toda a equipe do coral da escola chegara para prestar condolências à herdeira Daidouji, trazendo flores e alguns presentes como incensos e velas místicas.
-Pobre Tomoyo-chan!
Murmurava a card captor sentindo o coração apertar dolorosamente dentro do peito. Sua melhor amiga, sua prima, sempre tão gentil e sorridente não merecia passar por algo tão terrível assim.
-Vai ficar tudo bem! Estamos aqui agora, ela não ficará sozinha!
Prometia Syaoran segurando a mão de Sakura na sua. Ele sabia muito bem que sua flor de cerejeira estava sofrendo pela perda de sua tia Sonomi, mas ainda assim se preocupava ainda mais com os sentimentos de sua prima Tomoyo.
-Eu sei, mesmo assim não consigo evitar, ainda tenho a sensação de que algo está muito errado!
Confessava a Kinomoto franzindo ligeiramente a testa enquanto seus olhos esmeraldas observavam sua melhor amiga com carinho e preocupação. Kero queria concordar com a mestra das cartas, no entanto, pela quantidade de pessoas dentro da mansão, ele somente poderia continuar fingindo ser um ursinho de pelúcia agarrado à bolsa de Sakura enquanto ouvia a discussão do casal.
-O Templo Tsukimine está preparado para receber a família! Eles farão um ritual simbólico de purificação em honra das vítimas!
Informava Yukito assustando Sakura e Syaoran. O Tsukishiro não deixara a mansão Daidouji desde o chamado de Touya, e continuara a auxiliar Fujitaka nos preparativos do velório.
-Hai, vou avisar à Tomoyo-chan!
Concordava apressadamente a Kinomoto, também vestindo um kimono formal preto.
-Touya-kun pode não reconhecer isso, mas eu agradeço por ter trazido Sakura-san para o Japão em segurança!
Yukito surpreendia Syaoran mais uma vez.
-É uma grande demonstração da pureza de seus sentimentos, deixar os festejos do seu clã para apoiar a família da sua namorada, Li-kun!
Elogiava o guardião da lua deixando o pobre garoto chinês completamente rubro com seus comentários.
-N-não foi nada!
Murmurava o Li escondendo o rosto vermelho a todo custo.
-Tomoyo-chan também é uma amiga importante para mim!
Completava olhando para longe de Yukito e surpreendentemente encontrando o olhar agradecido de Sakura à distância, mesmo ao lado de Tomoyo. É como se a card captor soubesse exatamente o que se passava na sua mente agora, e Syaoran sabia muito bem, que não importa qual o castigo Yelan lhe impusesse mais tarde, ele não se arrependeria de nada.
Todo o percurso da mansão Daidouji até o templo Tsukimine foi seguido no mais absoluto silêncio. Fujitaka, Touya, Yukito, Sakura e Syaoran seguiram na limusine Daidoiuji, enquanto Masaki Amamiya e Tomoyo seguiram na limusine do patriarca. A jovem de cabelos escuros e olhos ametistas segurava uma pequena caixa de veludo em suas mãos, a postura reta e o queixo erguido numa expressão corajosa, a herdeira recusava-se a demonstrar fraqueza diante de seu bisavô.
Porém, a cada esquina que se aproximavam do templo, mais a sensação de perda se tornava real para Tomoyo. Era a despedida definitiva, mesmo que não houvesse nenhum corpo presente.
-Chegou a hora Tomoyo!
Avisa Masaki, lançando um olhar severo sobre a menina com a caixa em suas mãos.
-Hai Ojii-sama!
Concorda obediente a Daidouji saindo da limusine e encontrando com seus olhos os familiares das guarda-costas de sua mãe que também foram vítimas nesse trágico acidente. Haviam suas criadas, funcionários da fábrica e alguns repórteres ao redor. Engolindo em seco, Tomoyo relaxou quando também avistou Sakura esperando por ela e seu bisavô ao lado dos monges do templo Tsukimine.
Touya, Yukito, Fujitaka e Syaoran estavam logo atrás da card captor segurando cada um, uma vareta de incenso. Havia um verdadeiro corredor de flores que seguia das escadarias até o "torii" (portão tradicional indicando a proximidade ao terreno sagrado) e um grande altar com monumentos de pedra com os respectivos nomes das vítimas. Os monges recitavam as orações de purificação quando Amamiya-sama e Tomoyo se ajoelhavam e acendiam a lanterna de pedra com várias inscrições ao lado.
Tomoyo depositou a caixa de veludo sobre o monumento e permaneceu quieta, acompanhando toda a cerimonia ao lado de seu bisavô, assistindo as lamentações dolorosas dos familiares das demais vítimas. Era algo extremamente doloroso... Mas, ela era uma Daidouji, iria manter-se forte até o fim.
-O que tinha naquela caixa Tomoyo-chan?
Perguntou curiosamente Sakura ao lado de sua melhor amiga.
-A foto preferida da Okaa-chan!
Respondeu a Daidouji com um suspiro cansado. Horas mais tarde, quando finalmente retornava para sua casa, silenciosa e vazia. Tomoyo tinha dispensado suas criadas, e subiu para seu quarto sem ânimo para jantar, porém quando fechou a porta e acendeu a luz, encontrara sobre sua cama uma caixa de veludo, tal qual a que deixara no templo Tsukimine horas atrás.
Os olhos ametistas ampliaram-se em choque. Era impossível!
Ela e seu bisavô foram os últimos a deixar o templo. Ninguém se atreveria a profanar o símbolo do luto da família Daidouji... Mas aquela caixa...
Sentindo um temor crescente dentro do peito, Tomoyo se aproximou lentamente da sua cama, seu pés descalços à passos hesitantes enquanto a respiração se encontrava presa no interior da garganta. Não poderia ser! Desejava mentalmente a herdeira Daidouji, quando seus dedos gélidos encontraram o fecho de bronze da caixa luxuosa.
-Kami-sama!
Murmurou assustada ao encontrar a imagem de duas adolescentes sorridentes, Nadesico e Sonomi, emoldurada com um rico porta-retratos dourado. A foto preferida de sua mãe, seu tesouro mais valioso.
Em um local desconhecido, sob o sol ardente da manhã, um grupo de crianças brincava na beira da praia, não havia muitas pessoas ao redor, e o mar parecia tranquilo com suas águas translucidas convidando as jovens crianças para um delicioso mergulho.
-Heey Dean! Venha para a água!
Chamava um dos meninos ao irmão mais novo.
-Vamos apostar quem consegue encontrar o maior peixe dessa vez!
Provocava seu companheiro de cabelos espetados e pele bronzeada.
-Deixem ele para lá! Aposto que está com medo!
Anuncia outro garoto dando de ombros e pulando contra a superfície tranquila da água. Porém, o mais jovem deles, permaneceu em silêncio, seus olhos escuros presos no horizonte e uma expressão severa demais para uma criança da sua idade surgiu sombriamente.
A brisa do oceano balançava os longos cabelos castanhos de Dean, que momentos depois, avistou uma figura distante, uma mancha vermelha boiando sobre a superfície da água metros de distancia da praia.
-Ela finalmente chegou aqui! Ela chegou como o senhor Andros me falou!
Murmurou o garotinho antes de chamar a atenção de seus amigos para resgatar a pessoa à deriva na praia.
