O Anjo e o Príncipe
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Universo: U.A.
Autora: Laurell O'Donnell
Adaptação: Tiva07
Gênero: Romance/Angst/Histórico
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Capítulo 02
Ao leste do Yprès, França, 1415
O ruído de metal contra metal soou na ampla clareira do bosque quando as duas espadas se encontraram, estendendo o eco melódico de seu choque através do bosque que rodeava o lugar.
— Atento as suas fintas! — gritou uma voz que se uniu à reverberação nas árvores próximas. Gaara Haruno estava deitado ao seu lado, sobre grama da clareira, esquadrinhando com seus olhos verdes aos combatentes que brandiam pesadas espadas. Assentiu com satisfação quando a jovem, minúscula em comparação com o peso e os largos ombros do Sasori, deteve com facilidade uma investida de seu irmão. Gaara riu entre dentes, piscando de felicidade. Sua irmã era excelente espadachim. Conhecia muito bem as limitações de sua espada e de suas próprias forças; sabia observar e ser paciente, o que fazia dela, apesar de seu tamanho, um perigoso inimigo, sempre digno de se ter em conta.
Ao executar uma estratégia, Sakura sentiu no braço o impacto das armas, que voltavam a se chocar nesse instante. Ofegante, recuou. Um filete de suor, que lhe escorria da testa, brilhava como um diamante à luz do sol nas bochechas. Com seu braço livre, retirou da fronte uma mecha de cabelo.
Um grande sorriso iluminou a cara de menino do Sasori.
— Vamos, vamos. Não me diga que está cansada por ter trocado apenas alguns golpes!
Uma careta fria se desenhou nos lábios finos dela.
— Não lhe disse nada até agora, irmão, mas aconselho que você cuide suas áreas desprotegidas — respondeu Sakura antes de lhe atacar
Sasori deteve o golpe com bastante esforço, colocando a espada, a modo de proteção, sobre sua própria cabeça. Logo contra-atacou.
Sakura esquivou o movimento, a espada do Sasori se cravou no chão, e quando a tirou notou que a ponta estava cheia de terra.
— Já sabe que ela é muito rápida para ti, Sasori — lhe gritou Gaara.
Sakura afastou-se da terra que sujava o extremo da espada de seu irmão.
— Não se enfureça com o chão, Sasori. Seu oponente está diante de ti, não debaixo de ti.
Sasori arremessou-se contra Sakura com duas velozes manobras com as espadas, mas ela se esquivou com grande agilidade, colocou-se de um lado e ficou olhando-o com olhos desafiantes.
— Está crescendo, irmãzinha — comentou Sasori.
— Não a provoque, Sasori — lhe aconselhou Gaara, mas já era muito tarde.
Sakura avançou contra seu irmão de repente e com o ombro lhe golpeou o estômago. O impacto o fez cair de costas. Sem fôlego, Sasori ficou aniquilado durante um momento, e antes que pudesse recuperar-se, Sakura se plantou diante dele e colocou a ponta da espada na garganta do irmão.
— Ou se rende ou morre — disse ela.
— Rendo-me diante o Anjo da Morte — respondeu Sasori de boa vontade.
Sakura retirou a espada e lhe deu um golpe no ombro com o punho livre.
— Odeio que me chamem de irmãzinha — resmungou.
— Não voltarei a cometer esse engano — respondeu Sasori.
Sakura se moveu para trás estendendo a mão ao Sasori, para dar por encerrado o combate.
— Foi um bom movimento — comentou Sasori, — embora um tanto imprudente.
— Mas o venci — respondeu Sakura, agachando-se para recolher uma folha do exuberante campo.
— Se tivesse movido minha espada, teria se deslocado cegamente para ela.
— Mas não o fez — disse sua irmã, limpando brandamente a sua espada com a folha. — Não critique meu movimento só por que terminou com as nádegas no chão. Você se rendeu. Eu ganhei. Aqui não há "se" que valha.
— Tem razão — comentou Gaara enquanto se aproximava. — O derrotou, e receio que isso o faça rilhar seu dentes.
— Tolices! — exclamou Sasori, sacudindo a grama que se prendera na sua túnica amarela. — Eu simplesmente…
— Anjo! — ouviu-se uma voz aguda, procedente do bosque, que interrompeu Sasori.
Sakura virou à cabeça e viu que seu pajem, Lee, vinha correndo para ela. Sua capa de algodão verde berrante se enredou com o ramo de uma árvore, mas com uma rapidez incrível se livrou e conseguiu chegar até o lugar onde se encontrava o "Anjo".
— Tome fôlego, Lee — disse Sakura, colocando sua mão em cima do ombro dele, — e me conte o que passou.
— Pegamos… — começou ele a balbuciar, esgotado.
— Respira fundo — insistiu Sakura.
— Pegamos… — seguiu dizendo Lee, depois de tomar ar e recuperar o fôlego, e a olhar com os olhos brilhantes — capturamos a um inglês, minha senhora!
Sakura levantou o olhar para o Gaara antes de decidir-se correr por onde tinha vindo Lee. Ouviu as fortes pisadas de seus irmãos, que a seguiam. O aroma da carne de veado que trazia uma brisa ligeira procedente do oeste afetou a seu estômago vazio, apesar da ansiedade que a dominava. Manobrou como uma perita entre as barracas desordenadamente levantadas em diferentes lugares, esquivando-se dos cães que ladravam a sua passagem e atropelando dois homens absortos em uma partida de xadrez.
Diminuiu o passo ao ver que Sai, seu desbravador, se aproximava.
— Você o encontrou? — perguntou.
— Sim, minha senhora — respondeu Sai.
Sempre incomodava a Sakura falar com Sai, porque, apesar de ser o melhor explorador que tinha, olhá-lo nos olhos era como encarar um abismo, ou melhor, a um ser desprovido de emoções. Tinha os olhos escuros, tanto que ela não podia distinguir a pupila da íris. Sai nunca tinha feito nada que a levasse a suspeitar dele; pelo contrário, era um lutador leal, tão perito no manejo da espada como hábil para desaparecer nas sombras, mas havia algo frio em seu caráter que acendia os alarmes de Sakura. Evitava o sol, de modo que sua pele permanecia sempre branca, quase tão branca como de uma boneca de porcelana que uma vez seu pai tinha dado a sua irmã. Sua destreza para infiltrar-se entre os ingleses ganhara o respeito de Sakura, e seu domínio da língua inglesa era inclusive superior ao seu próprio.
— Onde? — perguntou.
— Ao noroeste daqui — contou Sai. — Disse que se separou de seu exército. Que tinha se perdido.
Sakura continuou a marcha, ansiosa por ver seu inimigo, e quando se aproximou das barracas dos prisioneiros notou que, suspeitosamente, vários de seus homens estavam sentados perto da entrada de uma delas. Todos dissimulavam agora, com a cabeça agachada, como se lhes absorvesse algum trabalho: alguns afiavam suas armas e outros limpavam seus escudos até deixá-los brilhantes como gemas. Sakura sabia que todos esperavam cautelosos pelo resultado do interrogatório. Já fazia mais de duas semanas que não participavam de nenhuma batalha, e estavam desejosos de enfrentar aos ingleses o mais cedo possível.
— O que posso fazer Anjo? — perguntou Lee.
Sakura se deteve e o moço se colocou diante dela. Ofegava vigorosamente, e Sakura sabia que tinha tido que correr para lhe seguir o passo. Sorriu-lhe, acariciou-lhe a lisa cabeleira e lhe entregou sua espada.
— Leva-a para minha tenda — ordenou, — e diga ao Mel que cuide dela.
— Assim o farei senhora — murmurou Lee com tom reverente, olhando a espada com os olhos muito abertos. Logo a levou, devagar e com cuidado, à tenda do Anjo.
Sakura trocou um olhar assombrado com Sasori antes de continuar.
Dois guardas guardavam a entrada da barraca. Mais do que homens, pareciam gárgulas de pedra colocadas sobre os pilares de uma igreja. Vestidos com cotas de malha, suas túnicas brancas se sobressaíam em cima das malhas metálicas que protegiam seus corpos.
Sakura puxou a cobertura que servia de porta da barraca e entrou.
O prisioneiro se encontrava preso a uma grande estaca plantada no chão, amarrado pelas mãos e os pés. De constituição pequena e vestida com um colete de couro, o inglês pareceu para Sakura mais um escudeiro que um soldado de infantaria. Sua mandíbula denotava determinação e seus olhos escuros eram cautelosos e desconfiados. Avaliou ao Sasori e ao Gaara com um rápido olhar e seus lábios se contraíram imediatamente em uma careta de desprezo. Quando voltou a cabeça para o Sakura, seus olhos se abriram, surpreendidos. Não esperava encontrar a uma mulher.
Não estava sujo. Suas bochechas não estavam magras por falta de alimento, nem seus lábios estavam ressecados por falta de água.
— Não acredito que se perdeu — disse ela, sem pensar que o prisioneiro pudesse entender o significado das palavras francesas que tinha pronunciado.
— Estou de acordo — declarou Gaara. Sakura se aproximando do prisioneiro.
Sasori a seguiu, e ficou ao seu lado, protegendo-a.
— A que senhor está servindo? — perguntou Sakura ao homem em um inglês perfeito.
A fronte do prisioneiro se enrugou, em claro sinal de confusão, e seu olhar viajou pelo corpo feminino dela, analisando-o devagar e com um agrado difícil de dissimular.
Sakura cravou seus olhos nos do prisioneiro e lhe sustentou o olhar, ligeiramente insolente.
Sasori lhe deu uma bofetada. A cabeça do homem se inclinou para um lado.
Uma corrente de prata ao redor do pescoço do prisioneiro brilhava a luz das velas. Sakura se aproximou dele, o homem a olhou com olhos desafiantes quando ela afastou o tecido do colete que lhe cobria o peito, e ali, pendurada da corrente, apareceu uma medalha de prata com a figura de um lobo encerrado em um círculo. Sakura contemplou a medalha durante longo momento. Apertou os dentes com certa dureza e sua mão tremeu de ira ao agarrar a medalha com os dedos. O metal frio lhe mordeu a palma como se fosse um ser vivo.
— Está mais perto do que pensávamos — disse Sasori com tom zombador.
— Muito mais perto — assentiu Sakura, voltando a pôr o medalhão sobre o peito do homem.
Seus olhos verdes se elevaram muito devagar até encontrar o olhar do inimigo.
— Traga os pós da verdade, Sasori — disse Sakura, vendo como a cara do prisioneiro se enchia de temor e de incredulidade.
— O Anjo da Morte — murmurou com a voz entrecortada.
— Já nos dirá onde acampa o exército inglês. Amanhã, antes do amanhecer, terei em meu poder o Príncipe das Trevas.
